sexta-feira, outubro 25, 2013

garrel no mam

Sessão dupla de Philippe Garrel no MAM no sábado:

16h – Não ouço mais a guitarra (Je entends plus la guitarre, 1991) 

18h – O nascimento do amor (Le naissance de l’amour, 1993) 

quinta-feira, outubro 17, 2013

segunda-feira, setembro 30, 2013

cinemaison

Em pleno festival, uma sessão dupla imperdível no Cinemaison desta segunda:

Às 18h, Os Excluídos do Bom Deus, de Jean-Claude Brisseau
Às 20h, Coisas Secretas, de Jean-Claude Brisseau

segunda-feira, setembro 23, 2013

festival do rio

O Festival do Rio se aproxima. Embora sinta falta de algumas coisas (os últimos de
João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes, Jia Zhangke, Tsai Ming-Liang, etc.), a seleção é uma das melhores dos últimos anos. Fiz uma lista enorme abaixo.  Em itálico os que já têm data de estréia por aqui. Estes três abaixo eu já vi e recomendo muitíssimo:

Todos os outros, de Maren Ade
A garota de lugar nenhum, de Jean-Claude Brisseau
Vic + Flo viram um urso, de Dnis Côtés

Os que mais quero ver:

Um estranho no lago, de Alain Guiraudie
Gravidade, de Alfonso Cuaron
Heli, de Amat Escalante
La paz, de Santiago Loza
Os três filmes (Downhill, O ringue, O inquilino) de Alfred Hitchcock
Dr. Mabuse 1 e 2, de Fritz Lang
Os donos, de Augustin Toscano e Ezequiel Radusky
A princesa das ostras, de Ernst Lubitsch
Viver na RFA, de Harun Farocki
Salvo, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza
Milius, de Joey Figueroa e Zak Knutson
Seduzido e abandonado – Os bastidores de Cannes, de James Toback
Shampoo, de Hal Ashby
Wrong Cops, de Quentin Dupieux
A dança da realidade, de Alejandro Jodorowsky
A filha de ninguém, de Hong Sang-Soo
Abuso de Vulnerável, de Catherine Breillat
Apenas Deus perdoa, de Nicolas Winding Refn
Até que a loucura nos separe, de Wang Bing
Backwater, de Shinji Aoyama
Bastardos, de Claire Denis
Blind Detective, de Johnnie To
Computer Chess, de Andrew Bujalski
Clear History, de Gregg Mottola
Joe, de David Gordon Green
Quando a noite cai em Bucareste ou Metabolismo, de Corneliu Porumboiu
Manuscritos não queimam, de Mohammad Rasoulof
Outrage Beyond, de Takeshi Kitano
Real, de Kyoshi Kurosawa
Sacro Gra, de Gianfrancesco Rosi
Sozinha, de Wang Bing
Spring Breakers, de Harmony Korine
Night moves, de Kelly Reichardt
Nós somos melhores, de Lukas Moodysson
O imigrante, de James Gray
Our Sunhi, de Hong Sang-Soo
Only lovers left alive, de Jim Jarmusch
Terra prometida, de Gus Van Sant
The canyons, de Paul Schrader
Ilusões satânicas, de Paul Schrader
Mishima, de Paul Schrader
Vivendo na corda bamba, de Paul Schrader
Tip top, de Serge Bozon
O rei da fuga, de de Alain Guiraudie
A imagem que falta, de Rithy Panh
A estação de rádio, de Nicolas Philibert
Em Berkeley, de Frederick Wiseman
O conhecido desconhecido: a era Donald Rumsfeld, de Errol Morris
O último dos injustos, de Claude Lanzmann
Metallica: Through the Never 3-D, de Nimród Antal
Crystal Fairy e o cactus mágico, de Sebastián Silva

Os que quero ver:

A grande beleza, de Paolo Sorrentino
Behind the candelabra, de Steven Soderbergh
Fading Gigolo, de John Turturro
Jovem e bela, de François Ozon
Michael Kohlhaas, de Arnauld des Pallieres
Nebraska, de Alexander Payne
Um time show de bola, de Juan José Campanella
Yella, de Christian Petzold
O verão da minha vida, de Nat Faxon e Jim Rash
Fruitvale Station, de Ryan Coogler
Invadindo Bergman, de Jane Magnusson e Hynek Pallas
A morte lhe cai bem, de Robert Zemeckis
The National: Mistaken for Strangers, de Tom Berninger
Feio, de Anurag Kashyap
Eu e você, de Bernardo Bertolucci
Suspensão da realidade, de Mike Figgs
The zero theorem, de Terry Gillian
Um castelo na Itália, de Valeria Bruni Tedeschi
Os corredores da morte, de Werner Herzog
Marcel Ophuls, um viajante, de Marcel Ophuls
Os fortes não descansam, de Alain Guiraudie

Os que tenho curiosidade:

Blue Jasmine, de Woody Allen
Como não perder essa mulher, de Joseph Gordon-Levitt
O mordomo da casa branca, de Lee Daniels
Obsessão, de Lee Daniels
A cidade abaixo, de Christoph Hochhauser
Dreileben: Algo melhor do que a morte, de Christian Petzold
A segurança interna, de Christian Petzold
As delicias da tarde, de Jill Soloway
O gigante egoísta, de Clio Barnard
Minha doce Pepper Land, de Hiner Saleem
Sophie Calle, sem título, de Victoria Clay Mendoza
Sarah prefere correr, de Chloé Robichaud
Contadores de Imagens, de Noelle Deschamps
Michael Haneke – Profissão: Diretor, de Yves Montmayeur
Os impostores do Hip Hop, de Jeanie Finlay
Sapi, de Brilhante Mendoza
Vosso ventre, de Brilhante Mendoza
Walesa, de Andrzej Wajda
O espírito de 45, de Ken Loach
Moebius, de Kim Ki-Duk




sexta-feira, setembro 20, 2013

cinemaison

Próxima segunda, uma noite imperdível no Cinemaison:

Às 18h, "O desprezo" (1963), de Jean-Luc Godard
Às 20, "A bela da tarde" (1967), de Luis Buñuel

terça-feira, setembro 17, 2013

the bling ring ***

É curiosa, porém compreensível, a decepção algo generalizada que marcou a recepção deste filme, tanto nos EUA quanto no Brasil. Esperava-se uma espécie de raio-x da sociedade contemporânea, seu consumismo, suas celebridades, seu cinismo, etc. Tudo isto está lá. Sofia Coppola, contudo, seria uma cineasta imparcial, sem um ponto de vista mais específico sobre a história. É bem verdade que Coppola se atém aos fatos cinematográficos, às cenas. Ela não simpatiza inteiramente com os personagens, mas tampouco se dispõe a julgá-los de maneira mais incisiva. O filme pode até mesmo parecer um pouco blasé, sobretudo, em seu final.

Quer dizer: muitas destas críticas não são absurdas, embora elas muitas vezes passem por cima da sensibilidade e do ritmo que Coppola imprime a este material. Coppola, como sempre, mostra-se muito mais interessada em delinear um certo estado. O estilo de “The Bling Ring” procura incorporá-lo. Um estilo que ágil, recheado de informações, marcado por colagens, que se contrapõe diretamente ao seu longa anterior. Acho que Kent Jones chegou ao nervo central não somente de “The Bling Ring”, mas do cinema mesmo de Sofia Coppola: seus filmes têm mais uma ambiência, em um sentido musical, do que uma trama. O filme me ganhou aos poucos. De repente, sinto-me seduzido e ao mesmo tempo absolutamente horrorizado. As luzes se ascendem e os sentimentos, ainda a serem conjugados, permanecem. Coppola sabe o que faz.  

sábado, setembro 14, 2013

daney

O filme "Serge Daney - Itinéraire d'un ciné-fils" (1992) com legendas em inglês:







quarta-feira, setembro 11, 2013

sem dor, sem ganho **

Eu não tenho lá muita paciência com o Michael Bay. Tratava-se, contudo, de uma comédia com Mark Wahlberg, e, sobretudo, Dwayne “The Rock Johnson”. Animei-me e fui ver “Sem dor, sem ganho”. Disse não ter muita paciência, mas tenho achado por demais preguiçoso insistir que os constantes deslocamentos temporais e espaciais que marcam os blockbusters americanos seja fruto de uma espécie de amnésia histórica ou de uma indefensável incompetência. Essa é a forma mais tradicional de criticar Bay: ele não saberia decupar, não teria noções de escala ou ritmo, e seus filmes se moveriam sem direção, graça ou sentido.

Eu gosto cada vez mais do termo cunhado por Steven Shaviro, “post-continuidade”, para designar um cinema em que a preocupação com certos efeitos imediatos triunfa sobre qualquer questão a respeito de uma continuidade mais ampla, seja no nível do plano-a-plano, seja no âmbito narrativo. Bay, por exemplo, não é nenhum pouco ingênuo. Para ele, a continuidade não parece mais ser preponderante para delinear a geografia de uma ação, ancorando-a claramente no tempo e no espaço. A sequência torna-se uma colagem de fragmentos irregulares de ângulos, explosões, lutas, perseguições, e movimentos violentamente acelerados. Não há nenhum sentido de continuidade espaço-temporal. O que importa é entregar uma série contínua de choques para o público.

Talvez a abordagem maximalista e impiedosa de Bay tenha menos a ver com a destruição ou a ignorância em relação a uma certa noção de cinema e mais com a ambição de esboçar um outro cinema. Bay está muito claramente interessado no calor do momento, imprime um tom “impressionista” que alimenta uma relação diversa com as noções de personagem, espaço e trama, e não está lá muito interessado nos valores clássicos da continuidade – embora, é preciso dizer, a continuidade ainda persiste em alguns momentos, sendo respeitada ocasionalmente e de forma oportunista.

“Sem dor, sem ganho” não curou minha impaciência, devo dizer. Mas é um filme de questões extremamente importantes. Lugo é um personagem que acredita ser antipatriótico “not go for it”. Que dizer: com esforço e perseverança suficientes devemos nos tornar “super-homens” e viver no luxo. O filme, por sua vez, bate várias vezes na tecla de que o que estamos vendo de fato aconteceu. Bay não julga exatamente seus personagens. “Sem dor, sem ganho” conspira a favor de seus protagonistas. O que não quer dizer que suas ações sejam legitimadas. Algo diferente se passa. O desconforto que algumas situações geram no espectador é logo em seguida diluído em nome de uma certa noção de prazer. Talvez haja cinismo nisso tudo, embora eu tenha minhas dúvidas. Certeza mesmo é a de que Bay é um dos cineastas mais representativos do tempo em que vivemos e do cinema de nossa época.

domingo, setembro 08, 2013

denis e assayas

Eu ainda não conhecia esses vídeos. Pelo que entendi, o Walker Art Cente, em Minneapolis, organiza algumas retrospectivas e convida críticos/teóricos para gravar entrevistas com cineastas. Ainda não pude ver todos, mas gostei bastante destes dois:

Olivier Assayas e Kent Jones:



Claire Denis e Eric Hynes:



sexta-feira, setembro 06, 2013

prova de amor ****

Gosto bastante deste filme. Já o vi algumas vezes. Gosto dos atores, sobretudo, Paul Schneider. Gosto dos diálogos: “Você já viu a natureza cometendo um erro”? Esta me parece uma das linhas mais sensacionais do cinema. Gosto da simbologia heraclitiana que o longa evoca. Gosto da fluência que o filme busca o tempo todo. O longa é também esta tentativa por uma representação sensualista, que muito apontou-se como sendo influência de Terrence Malick. Gosto da maneira como a relação entre eu, espectador, e o filme parece intermediada por afetos e sensações. Gosto como a separação do casal se dá sem culpas. Neste sentido, é uma aposta que o filme nos convida a fazer. Uma coisa bonita, parece-me.

Da última vez que vi “Prova de amor” (2002), esta semana, dei uma olhada nos extras do DVD. David Gordon Green, em entrevista, diz que tinha que fazer aquele filme o mais rápido possível, que era preciso fazê-lo como uma equipe jovem, que era imprescindível colocar-se à altura daquele mundo constituído em filme. É interessante ver ele falando desta urgência, algo que “Prova amor” dissemina desde o primeiro plano. Aliás, um plano em especial, o do cachorro aleijado, me fez lembrar do final de “Stroszek” (1976), de Herzog, quando uma galinha dança por alguns minutos. Tentamos agregar algum sentido ao que vemos. Mas é inútil esforçar-se para ser convincente. O mundo não é tão racional, nem irracional. É irracionável, nada mais do que isso. A razão constata os seus limites e nega a si mesma. Isso diz muito sobre os dois longas. Curioso. De repente, peguei-me pensando a letra de uma música de Jeff Buckley, “Lover, You Should've Come Over”:

I feel too young to hold on
I'm much too old to break free and run

Maybe I'm too young
To keep good love from going wrong

Tudo ver a ver. Escutem a música:

terça-feira, setembro 03, 2013

frances ha ***

Eu gostei deste filme. Talvez tenha gostado mais da crítica do Calil (abaixo) do que do filme propriamente dito... Não sei... “Frances Ha” é fofo como sua protagonista, e isto é ótimo. Eu, contudo, assistindo o filme como um brasileiro, carioca, às voltas com aluguéis altíssimos, com uma enorme desigualdade social, altos índices de criminalidade, com parcas oportunidades de trabalho, péssimos serviços e salários, não consigo deixar de ver um pouco de falsidade nas aventuras e desventuras de Frances. Talvez falsidade não seja a palavra certa. O que sinto é uma distância tão grande daquela realidade que, por vezes, me impede de empatizar com a personagem.


RICARDO CALIL
CRÍTICO DA FOLHA

É preciso estar de mal com a vida, ter o coração de pedra, ser ruim da cabeça ou doente do pé para resistir à cena de "Frances Ha" em que a protagonista sai correndo e dançando pelas ruas de Nova York ao som de "Modern Love", de David Bowie.

Não deixa de ser um golpe baixo (garota encantadora e desengonçada + clássico absoluto de Bowie).

Mas é um golpe baixo ansiosamente aguardado: aquele que vai libertar o cinema independente americano de anos de pretensão e cinismo para oferecer um momento de prazer fugaz, frugal.

"Frances Ha" é filho bastardo da primeira nouvelle vague (do Godard que disse que tudo de que se precisa para fazer um filme é uma arma e uma garota) com o mumblecore (o subgênero de baixo custo, diálogos naturalistas e personagens balbuciantes).

Não por acaso, "Frances Ha" tem na trilha músicas de Georges Delerue (o compositor "oficial" da nouvelle vague) e é escrito e protagonizado por Greta Gerwig, musa do mumblecore. Frances, sua personagem, se aproxima dos 30 anos assolada pela falta de perspectivas.

Ela é assistente em uma companhia de dança, mas não é boa o suficiente para virar bailarina.

Como uma moderna Cabíria (a esperançosa personagem de Giulietta Masina em "Noites de Cabíria", de Fellini), Frances enfrenta cada revés com otimismo incorrigível "" o mesmo que, diante de uma pequena vitória, a leva a dançar pelas ruas.

Com "Frances Ha", o diretor Noah Baumbach confirma o talento demonstrado em "A Lula e a Baleia" (2005) e se livra de certos maneirismos do passado.

De quebra, oferece um retrato preciso sobre aquela fase da vida em que não sabemos exatamente que rumo tomar, o que fazer da vida "" uma fase que, em alguns casos, teima em durar para sempre.

sexta-feira, agosto 30, 2013

pára tudo

"Filme demência" (1986), um dos grandes longas de Carlão Reichenbach, inteiro no Youtube:

quarta-feira, agosto 28, 2013

chamada a cobrar ***

Estava revendo com um enorme prazer algumas cenas de “Onde andará Dulce Veiga” (2008), de Guilherme de Almeida Prado. Lembro que já havia gostado bastante deste filme quando o vi pela primeira vez. Lembro inclusive de uma discussão que tive na época com amigo. Ele rebatia o meu apreço pelo longa discorrendo sobre um certo exagero, um tom desmedido, uma espécie de artificialismo apoteótico... Nada disso deixava de ser verdade. Eu concordava com meu amigo. O que me sentia incapacitado a fazer era enxergar estes pontos como fraquezas ou deficiências. Era pra mim impossível separar a extravagância por vezes descabida do resto. Quer dizer: aquilo diz intimamente respeito ao filme. É o que o torna diferente.

A lembrança desta conversa me ajudou na experiência de ver “Chamada a cobrar”, o novo filme de Anna Muylaert. Algo me incomodava neste filme. A simplicidade do registro muitas vezes me parecia preguiça. Um certo artificialismo, especialmente no som, também entrava mal no ouvido. As atuações um tanto canastras. Eu individualizava estes elementos e sentia-me incomodado. Aos poucos, contudo, o filme foi me ganhando. Havia uma espécie de ascese rolando, um voto de simplicidade. De repente, “Chamada a cobrar” me falava de tantos assuntos. Muylaerte é uma cineasta diferente.  Seria um erro, uma imprecisão, insistir em uma análise interessada em singularizar algumas opções ou procedimentos? Não sei. O fato é que por vezes aquilo que inicialmente nos parece fraqueza é na verdade de onde o filme tira sua força, sua singularidade.

Sobre “Chamada a cobrar”, segue a crítica de Inácio Araújo:

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Um filme pode ser definido, em boa medida, como acúmulo de detalhes. Em "Chamada a Cobrar", eles estão presentes, às vezes de maneira quase ostensiva.

Enquanto três irmãs se engalfinham, surge a imagem do cão da família, indiferente àquela cena banal. A indiferença é uma ideia constante no filme de Anna Muylaert.

Enquanto Clarinha, senhora de meia-idade, executa atos desesperados, como comprar todos os bichos de pelúcia de uma loja de estrada, as pessoas observam-na como um ser exótico ou de quem se pode tirar vantagem.

Na verdade, Clarinha recebeu uma chamada telefônica a cobrar, dessas que há algum tempo anunciavam um sequestro. Um falso sequestro.

O que Muylaert observa a partir desse fato mínimo --e de um orçamento mínimo: quase todo o filme se faz de uma atriz, Beth Dorgan, que interpreta Clarinha, e uma voz ao telefone, a do falso sequestrador-- é admirável.

Existe, por um lado, a alienação da mulher burguesa, instalada em sua residência confortável, assistida por uma empregada doméstica com alma de escrava. Seu mundo restringe-se à família.

Disso nos dá prova outro detalhe precioso. Quando alguém lhe pergunta onde está, ela responde, hesitante: "Realengo...", com a voz incerta de quem nunca sequer imaginou que tal lugar existisse.

Visto por Muylaert, portanto, o episódio não é apenas um fato policial ou mesmo social (envolvendo o ressentimento do falso sequestrador).

A solidão da mulher é outro aspecto decisivo do drama: a solidão não é só em face do homem que lhe passa ordens pelo celular. É a solidão que a coloca em posição submissa. É o que a impede de perceber incoerências e inverossimilhanças nas falas do bandido.

Esse estranho fenômeno que foram os falsos sequestros ressurge aqui a partir de elementos mínimos, onde a observação do registro social não amesquinha o humano.

Clarinha não é só uma rica ociosa nem o bandido é só um malfeitor: estamos diante de uma construção minuciosa.

É disso que se faz o filme, de construção, assim como o falso sequestrador, que constrói sua cena, servindo-se de elementos sonoros para dominar sua vítima e criar uma sugestiva inversão na ordem de classes sociais (quem dá ordens, quem obedece).

Os diálogos entre Clarinha e o bandido são claros quanto à maneira pela qual o sequestrador passa a controlar mente e coração de sua vítima. São também uma preciosa peça a nos falar sobre o miserável abismo não apenas de classe social, mas antes de tudo cultural que o Brasil soube tão bem produzir para, ali, melhor plantar duradouras desgraças.

quinta-feira, agosto 22, 2013

filmes

Dois clássicos brasileiros hoje:

- às 18h30, no MAM, "A idade da terra" (1980), de Glauber Rocha, será exibido com a presença do montador do filme, Ricardo Miranda.

- às 20h, no IMA, passa "Vidas secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos.

E, na segunda, é noite de Bruno Dumont no Cinemaison: às 18h, será exibido "A vida de Jesus" (1997), e, às 20h, é a vez de "Flandres" (2006).

terça-feira, agosto 20, 2013

na neblina ***

Eu não tinha gostado muito de “Minha felicidade” (2010), o primeiro filme de Sergei Loznitsa. Eram muitas as razões: um certo fatalismo, o personagem envolto num destino incontornável, alguns cacoetes de estilo, um esforço visível de emulações de outros filmes/cineastas, etc. O que não quer dizer que “Minha felicidade” não tivesse seus momentos. Loznitsa é um documentarista de origem, e sua estreia na ficção carrega uma atenção incomum às locações e cenários. Universos e imaginários são constituídos. É curioso como tanto “Minha felicidade” quanto este mais novo “Na neblina” trazem consigo um desejo norteador, uma certa âncora e ou bússola, que diz respeito a um imaginário russo que remonta à Segunda Guerra Mundial. “Na neblina” é um vislumbre da ocupação nazista na Bielorússia, uma espécie de lenta meditação sobre moralidade e mortalidade. O forte de Loznitsa permanece: seu trabalho faz espaços, elementos de cena, os corpos, falarem. Falarem algo anterior ao filme. É que vejo na primeira sequência do filme. Lembro de Bergson, que dizia, em Matéria e memória, que a fotografia, se há fotografia, já havia sido tirada, no próprio interior das coisas. Além disso, embora no fim a neblina tome conta da imagem, Loznitsa demonstra desta vez muita compaixão por seus personagens.

sábado, agosto 17, 2013

inquietos ***

“Inquietos” anda passando na HBO. Acabei revendo algumas partes. A princípio, o filme estaria mais para “Gênio Indomável” do que para “Elefante” (2003). Mas é preciso cuidado. O jovem como mito nunca esteve muito longe do cinema de Van Sant. Em “Inquietos”, ele se aproxima mais uma vez deste universo com muito carinho e uma certa dose de fetichismo. Como ocorre em muitos de seus filmes, o figurino patenteia os personagens (Annabel é uma curiosa citação-homenagem a Jean Seberg e à Nouvelle vague), sempre em relação dissonante com as regras que a sociedade nos impõe. “Inquietos” é uma espécie de balada cinematográfica. Van Sant caminha entre o romance teen e o filme de doença terminal, gêneros com os quais já possui uma certa afinidade, aposta em um ambiente encantador e cria pequenos momentos de excentricidade mágica.

Se em “Encontrando Forrester” e “Gênio indomável” havia um enredo de auto-superação sob a orientação de um adulto, e em “Elefante”, entrava em cena uma espécie de rito de passagem, mas uma passagem de energias, corpos e nuvens, “Inquietos” fica no meio do caminho. O que une os trabalhos mais radicais de Van Sant (de “Gerry” a “Paranoid Park”) é uma mise-en-scène imersiva que se abre para um fluxo sensório temporal e que se sobrepõem à narrativa. São filmes que caminham entre o absolutamente abstrato e um fiapo de história. “Inquietos”, ao contrário, parece muitas vezes se ressentir da necessidade de contar uma história. Os personagens ganham psicologia e suas motivações nos são reveladas, camada por camada, em cenas por demais funcionais (como quando descobrimos o que aconteceu com os pais de Enoch).


Ainda assim, Van Sant parece por vezes querer expressar seus personagens por meio da estilização e do desenho de som, nos oferece momentos dilatados e absolutamente abertos e engajados, procurando passar um sentimento de angústia, descoberta e desespero, através de uma linguagem que beira o poético, sem muito preciosismo. Talvez a grande chave deste filme, como bem sublinhou Eduardo Valente lá na Cinética, seja mesmo Hiroshi, o fantasma camarada de Enoch. Van Sant dá a este personagem um tempo e uma importância que por vezes beira o ridículo, enquanto noutras confere uma força, um desejo comovente de se aproximar e compreender o universo retratado.  

quinta-feira, agosto 15, 2013