sábado, março 20, 2010
quarta-feira, março 17, 2010
curtas na cinética
Tem também uma entrevista feita pelo Felipe Bragança com o cineasta português João Pedro Rodrigues ("Morrer como um homem").
domingo, março 14, 2010
eles vivem!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Apocalypse Now
(Eles Vivem de John Carpenter)
por Nicolas Saada
O filme se abre num clima de errância que caracteriza o cinema de Carpenter e sua filiação ao western e aos seus heróis solitários. O herói é John Nada (interpretado por Rodney Piper, ex-lutador) que chega, bolsa nas costas, a Los Angeles para encontrar um emprego. Nada, sem abrigo nem trabalho, é recebido por uma pequena comunidade de desempregados e vagabundos, localizada próxima a uma igreja, onde entrará em contato com resistentes que lutam impetuosamente contra invasores misteriosos que controlam a população. John Nada é, evidentemente, o próprio John Carpenter que, desde seu grande fracasso comercial, “Aventureiros do Bairro Proibido”, voltou à produção B após seu purgatório em diferentes majors hollywoodianas. É assim, com nada, que Carpenter recomeça. Se é possível arriscar esta analogia, é porque Carpenter seguiu um trajeto (produção B-televisão-majors-produção B) comparável ao de seu personagem em “Eles Vivem”.
Em 1982, Carpenter declarou a Cahiers du Cinéma (nº 339), a propósito de seus primeiros passos com as majors: “Uma parte do charme de Assalto a 13ª DP ou de Halloween devia-se ao fato de que não havia dinheiro suficiente para mostrar as coisas. Ao contrário, hoje me dão dinheiro para mostrá-las, então é necessário fazê-lo”.
Mostrar: o próprio tema de “Eles Vivem” (e a função de seu herói); certamente um tema cinematográfico, mas também, para Carpenter, uma preocupação moral que o aproxima de Fritz Lang. “Eles Vivem” ilustra, na verdade, o velho adágio languiano segundo o qual a aparência não é a realidade, o visível não é a verdade. Provocação de Carpenter ao espectador que não consegue mais fazer a triagem das imagens que lhe são enviadas cotidianamente. Nada é ao início bastante ingênuo, crédulo (como poderia ter sido Carpenter no início dos anos 80 antes de seu fracasso nas majors): “Eu acredito na América, eu estou dentro do sistema”, declara ao início do filme. Depois, graças aos óculos escuros fabricados pela resistência (a produção B), espécies de “decodificadores portáteis”, Nada terá a prova de que não se pode confiar no sistema: este que rege a América de hoje é nada mais que o fruto de um vasto complô fomentado por extraterrestres (auxiliados por humanos sem escrúpulos) que embrutecem a população lhes transmitindo mensagens subliminares primárias (“não pensem”, “não reflitam”, “submetam-se”, “consumam”, “reproduzam-se”, “o dinheiro é seu Deus”). Este horror da realidade é mostrado bastante curiosamente através de imagens em preto e branco, que revelam esta visão decodificada do mundo. Carpenter poderia ter recorrido a outros estratagemas visuais: na verdade, este preto e branco pertence a um cinema de ontem (Hawks, citado por Carpenter como um pai em sua cinefilia) que joga nova luz sobre a face absolutamente inumana da América deste fim de anos 80. A fonte de emissão destas mensagens é naturalmente a televisão e seus programas (outro câncer do cinema americano) que a resistência tenta sabotar, em vão, através de transmissões clandestinas: John Nada e seu colega negro Frank vão destruir, fuzis às mãos, a estação televisiva. Assim, “Eles Vivem” é também a história de uma mini-insurreição que se pode interpretar ao mesmo tempo como política e, em outra medida, como de cinefilia.
Esta gravidade da proposta de Carpenter nunca é, felizmente, explicitada verbalmente no filme. Em total adequação com seu tema, Carpenter prefere mostrar, através de longas seqüências quase mudas, a extensão do mal ao criar um sentimento de inquietude e agonia constante, arte na qual ele se tornou mestre (assim como na utilização da trilha, tão opressora quanto possível). O resultado de “Eles Vivem” é deslumbrante, notadamente em seu controle do scope, formato ingrato que Carpenter emprega para isolar os personagens alienando-os no quadro, acentuando este efeito ao fimá-los em espaços fechados, com perspectivas de profundidade limitada (ruelas, corredores, becos).
Quanto ao aspecto “guéguerre” que alguns censuram no filme (a luta a mão armada entre os resistentes e os invasores), ele não faz com que Carpenter caia nas armadilhas do filme de gênero (filme de ação). Todas estas batalhas são dominadas por uma distância plástica que as transforma em verdadeiros ballets, ritmados por uma montagem, em certos instantes, digna do melhor cinema soviético: um insert, magnífico, dos canos das metralhadoras marca a maioria destas seqüências. A cena pivô do filme, uma briga de mais de dez minutos entre John Nada e seu colega Frank (que ele obriga a usar os famosos óculos) ilustra dois princípios hitchcock-hawksianos. O primeiro, hitchcockiano, é que tudo deve ser utilizado para as necessidades de uma cena (como o avião de “Intriga Internacional” que fumiga Cary Grant). O intérprete de Nada, Rodney Piper, é um ex-lutador: e nesta lógica ele deve, a um momento ou outro, brigar. O segundo, herdado das brigas iniciáticas dos filmes de Hawks ou Ford, é menos uma homenagem que uma necessidade: trata-se, para Frank, o negro, de sofrer a dor a fim de melhor ver. Diante da papa em que se tornou o cinema comercial americano, este mal é necessário: já o era para o herói de “Comando Assassino” de Romero, e também o é para aqueles de Carpenter. “Eles Vivem” soube reencontrar esta beleza e este discurso da produção B americana, que se podia dar por desaparecidos: isto é excepcional.
NICOLAS SAADA
(Cahiers du Cinéma nº418, abril de 1989)
Texto contido nas páginas 204-207 do volume 56 da coleção Petite anthologie des Cahiers du cinéma: "Le goût de l'Amérique". Tradução feita por José Roberto Rocha.
quinta-feira, março 11, 2010
terça-feira, março 09, 2010
segunda-feira, março 08, 2010
indicações
Uma enormidade de links e recomendações de leitura:
blogs
site
Editado por Daniel Dalpizzolo e Luis Henrique Boaventura, o Multiplot promete um especial sobre Anthony Mann.
adrian martin
Sobre “Aquele querido mês de agosto”, de Miguel Gomes.
Sobre o namoro recente dos blockbusters americanos e a Idade Média.
bordwell
O teórico americano num post polêmico sobre Kurosawa.
lilian ross
Uma curiosidade. Ícone do novo jornalismo americano, Lilian Ross escreve sobre J. D. Salinger e revela um pouco do gosto cinematográfico do recluso autor.
kiarostami
Jonathan Rosenbaum e Mehrnaz Saeed-Vafa conversam sobre “Shrin”, o mais novo filme do mestre iraniano (que eu, infelizmente, ainda não vi).
rohmer
benning
Para baixar os filmes de James Benning
francis ford
Mais um belo texto de Tag Gallagher, sobre a relação entre John Ford e seu irmão Francis.
sergei parajanov
Um texto bacana sobre esse cineasta da Armênia.
mulheres no ccbb
09.03
17h – Diário de uma Garota Perdida (116 min.)
19h - O Anjo Azul (94 min.)
10.03
17h – Dama do Outro Mundo (73 min.)
19h - A Mulher Satânica (79 min.)
11.03
17h – Gilda (111 min.)
19h - A Malvada (138 min.)
12.03
15h30 - Carmen Jones (104 min.)
17h30– Lola Montés (106 min.)
19h30 - De Repente No Último Verão (112 min.)
13.03
15h30 - Madre Joana Dos Anjos (105 min.)
17h30– Os Inocentes (99 min.)
19h30 - Bonequinha de Luxo (114 min.)
14.03
15h – Cleópatra (248 min.)
19h30 - Deserto Vermelho (113 min.)
16.03
17h – Marnie – Confissões De Uma Ladra (130 min.)
19h - Persona – Quando duas Mulheres Pecam (84 Min.)
17.03
17h – Barbarella (98 min.)
19h - Lua De Mel de Assassinos (108 min.)
18.03
17h – O Amor (88 min.).
19h - Trabalhos Ocasionais de Uma Escrava (87 min.)
19.03
15h30 - Betty Blue (185 min.)
17h30– Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (89 min.)
19h30 - A Ultima Dança de Salomé (89 min.)
20.03
15h30 - Um Assunto de Mulheres (108 min.)
17h30– Rosalie Vai as Compras (90 min.)
19h30 - A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos (72 min.)
21.03
16h30 – Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer (135 min.)
18h30 - Corra Lola Corra (81 min.)
23.03
17h – Lady Vingança (114 min.)
19h - Maldito Coração (97 min.)
24.03
17h – Nome Próprio (120 min.)
19h - Anticristo (109 min.)sexta-feira, março 05, 2010
japoneses
E na Caixa Cultural, quatro longas do também japonês Nobuhiro Suwa serão exibidos até domingo. Olhem aí:
5 de Março - sexta-feira
14h30 - H/Story
17h - Um Couple Parfait
19h - Debate
6 de Março - sábado
16h - 2/DUO
19h - M/Other
7 de Março - domingo
16h - Um Casal Perfeito
19h - H Story
quarta-feira, março 03, 2010
cartografias do desejo, de felix guattari e suely rolnik
esse tipo de afirmação costuma-se usar o famoso argumento ‘se a política está por toda parte, ela não está em parte alguma’. A isso eu responderia que, efetivamente, a política e a micropolítica não estão por toda parte, e que a questão é, justamente, pôr a micropolítica por toda parte: em nossas relações estereotipadas de vida pessoal, de vida conjugal, de vida amorosa e de vida profissional, nas quais tudo é guiado por códigos. Trata-se de fazer entrar em todos esses campos um novo tipo de pragmática: um novo tipo de análise que corresponda, de fato, a um novo tipo de política”.
terça-feira, março 02, 2010
preciosa **
Vejam só: produção de Oprah Winfrey, atuações de Mariah Carey e Lenny Kravitz, várias indicações para o Oscar, uma trama (obesidade, incesto, aids) susceptível ao mais rasteiro dos dramas... “Preciosa”, um programa de alto risco. Pois não é que o filme surpreende?! Lee Daniels evita qualquer glamourização. Sua personagem não está congelada, seja como vítima ou heroína. Seu filme não tem mensagem. “Preciosa” aposta até por vezes em momentos um tanto crus, como as seqüências na escola especial ou as cenas pós-parto no hospital. Eu diria até que o filme se desenrola morno, no mesmo tom, sem altos e baixos. Ainda assim, Daniels me perde toda vez que se afirma virtuoso. A personagem é agredia, segue a imagem de um frigideira e muita gordura. Ela é estuprada ao som de uma trilha inusitada, em agulações, desfocos e firulas. Pequenas traições de Daniels.
terça-feira, fevereiro 16, 2010
deixe ela entrar
“Deixe ela entrar”, uma adaptação do romance homônimo do sueco John Ajvide Lindqvist, nos fala de uma estranha relação entre um tímido garoto de 12 anos e uma pequena vampira que aparenta ter a mesma idade. Oskar é maltratado pelos colegas de escola. Fica a maior parte do tempo sozinho, vendo o inverno passar da janela de seu quarto. Eli (Lina Leandersson) é a vizinha nova do apartamento ao lado. Ela não sente frio e só sai de casa após escurecer. Eli mal consegue administrar suas necessidades vitais. Ela não quer expandir sua raça e sempre mata suas vítimas. Obrigada a viver para sempre, a personagem se afirma em um desejo/dilema aparentemente insolúvel: encontrar alguém para amar e, ao mesmo tempo, condená-lo a uma vida subserviente e criminosa. Oskar vive em uma sociedade que não o respeita. E ele parece assumir total responsabilidade por isso. Um movimento interessante. Oskar não quer saner de seus professores, de seus pais, e não cultiva nenhuma amizade.
O encontro desperta nos personagens sentimentos sem nome. Algo sempre nos escapa. Oskar e Eli recusam qualquer forma de subordinação ou de funcionalidade. O que os une é um desejo sem nome. Não é amor, paixão, compaixão, ou amizade. A relação aqui é de outra ordem, ainda a ser classificada. A direção de Tomas Alfredson é delicada, porém radical em sua entrega sem cautelas à compreensão dos corpos e desejos de seus personagens. Eli decepa os garotos que maltratavam Oskar. O cineasta filma tudo com uma certa alegria, e nos convida a partilha-la com ele. Alfredson recupera um certo apelo à coragem de pensar de uma forma ainda não-pensada ou de sentir de maneira diferente. Essa é a política de “Deixa ela entrar”. Uma política da imaginação que aponta para a criação de novas imagens e metáforas para o pensamento, a política e os sentimentos e que renuncie a prescrever uma imagem dominante.
“Deixe ela Entrar” é uma estranha espécie de afirmação das diferenças e dos diferentes. Oskar será o novo provedor de sangue para a menina? Ele será um vampiro e com ela viverão felizes? É um final cheio de esperança, estranhamente otimista. Ta aí um filme disposto a devolver ao mundo uma certa complexidade.
zona livre
- Nowhere, de Gregg Araki
- Sangre, de Amat Escalante
- Trash Humpers, de Harmony Korine (video)
- Gozu, de Takeshi Miike
- Hunger, de Steve McQueen (em 35mm)
- Moonlighting, de Jerzy Skolimowski
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
young
“Neil Young - Heart of Gold” não é apenas um show filmado. É como um testamento. As músicas se conjugam sempre na primeira pessoa do singular. Odes panteístas à família, à amizade. "I want to live/I want to give", confessa Young em seus primeiros versos. Gravado em um momento de luto - Young estava com um aneurisma e seu pai havia morrido poucos meses antes do diagnóstico - o show alterna canções mais recentes e o material mais antigo em uma espécie de panorâmica da vida do cantor e campositor. "Quando comecei a tocar”, diz ele, “eu criava galinhas. Eu devia ter uns sete, oito anos. Talvez um pouco mais. E ganhei um ukelele de plástico de meu pai. E eu não sabia o que fazer com ele. Meu pai disse: ‘Talvez você precise disso’. E cantou uma canção para mim que eu nunca tinha ouvido antes. Ele ficou me olhando, com um sorriso engraçado no rosto. Fiquei olhando para ele. E então tive que ir cuidar das galinhas". Uma celebração. Uma celebração doída, é verdade. Jonathan Demme intui um tom. Poucos movimentos. Poucas angulações. A câmera acompanha com delicadeza. O filme se faz em um íntimo imbricamento com a música e nos convida a um outro tipo de fruição. Young no palco é como uma força da natureza. Solta no espaço. Tudo que ele toca se torna seu, seu e de mais ninguém. Isso tem nome. Verdade!
segunda-feira, fevereiro 08, 2010
os celulares de ferrara
Outro dia revi “Mary”, de Abel Ferrara. Quantos celulares! Eu não os tinha visto antes. Voltei ao filme novamente. É curioso. Os personagens não trocam e-mails. Não postam cartas. Só celulares. É através deles que os personagens se cruzam, que os continentes se aproximam, que os dramas se desencadeiam. A opção me parece deliberada (embora isso pouco importe). E dessa vez, eu vi o celular. O celular e a experiência contemporânea. A minha experiência. Ferrara! Cinema!
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
guerra ao terror e ao francis
- Por falar em “Guerra ao terror”, suas nove indicações ao Oscar são mais uma evidência do faro deslocado dos nossos distribuidores. Segundo eles, o filme não valia um centavo. Foi direto para o DVD. Agora, por causa do Oscar, “Guerra ao terror” faz o caminho inverso e chega enfim aos cinemas. Os cadernos de cultura falam da cineasta Kathryn Bigelow como uma grande surpresa, não esquecem do fato dela ser ex-mulher de James Cameron (“Avatar”, que concorre também em nove categorias), mas, com a exceção de uma breve cutucada do Inácio Araújo na “Folha”, nada foi dito sobre o que fizeram com o filme dela por aqui.
- Vi “Caro Francis”, de Nelson Hoineff. Não gostei. Não esperava muito, é verdade. Acho “Alô, Alô Terezinha” uma ofensa. Aliás, ambos os filmes são forjados em estratégias similares. Hoineff se esforça para que suas opções produzam efeitos à imagem e à semelhança de seus personagens. “Alô, Alô Terezinha” cobrava um preço por todo esse empenho. Era preciso, no mínimo, uma auto-sabotagem. Sem ela, o filme se torna um espaço de humilhação pública. “Caro Francis” é ainda mais frágil. A idéia de contradição, associada ao personagem, “justifica” algumas estratégias vazias, como a montagem de Caio Túlio e Diogo Mainardi. Preguiça. Esse o termo que vem à mente. Preguiça editorial, preguiça cinematográfica. No mais, como bem disse o Sérgio Alpendre, o filme leva uma surra do You Tube.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
recomeçar...
Estou de volta. Aos poucos.
Primeiro: os links. Dei um jeito neles. Alguns já estavam inativos há algum tempo. Outros mudaram de endereço.
Entre eles, o Los Olvidados, o Fabito’s Way, o Ricardo Calil, Francis Vogner e o Víscera.
Acrescentei outros links. O Olhos Livre Bônus, o Cine Monstro, de Carlos Primati, o Paragrafilme, do Eduardo Valente, e o blog de Steven Shapiro. Falarei mais desse teórico americano mais pra frente.
Por enquanto, é só. Mas já já vem mais por aí.
