"Nesse ponto de sua leitura e de suas reflexões, o Gato levanta a cabeça do livro e fica imóvel, com os olhos pregados na cortina de lona azul que separa a cozinha da varanda: aos poucos, as imagens de sua leitura vão se dissolvendo, e a consciência de estar desperto, sozinho na cozinha iluminada, sentado diante do livro, junto ao copo de vinho branco na noite de verão, ganha-o, gradualmente, até estar consciente de tudo, tão consciente que se diria que é um pouco mais do que pode suportar, porque se num primeiro momento experimenta, por uns segundos, a sensação de estar entre as coisas, de reconhecê-las uma a uma e de poder apalpá-las, sem mediações, em sua consistência real, alcançar a sua verdadeira matéria, essa sensação desaparece quase de imediato e é substituída pela impressão penosa de estar abandonado num fragmento qualquer de um espaço e de um tempo infinitos, sem ter a menor idéia do trajeto que teve de cumprir para chegar ali nem de que maneira deverá se comportar para sair" (Ninguém nada nunca, pág. 174).
sábado, março 29, 2014
quinta-feira, março 27, 2014
um dia na vida
Vi ontem este filme-coisa do Eduardo Coutinho. É um troço complicado e exigente. Não foi fácil assisti-lo. Quer dizer: sentia-me a todo o momento inspirado por ele, movido a pensar diversas e interessantes questões, mas sempre muito propenso a emitir julgamentos sobre o que eu via. Eu ria muito. Isso me incomodou um pouco. O meu riso era ele mesmo uma espécie de julgamento. Não é? Subjaz ao riso alguns abismos (sociais, culturais, econômicos), talvez uma certa arrogância. Não sei. Questões como a lógica da programação da TV aberta brasileira e o que ela teria a dizer sobre o país em que vivemos pipocam por todo o filme. Sem falar no gesto artístico de Coutinho de deslocamento das obras televisivas do espaço e do público para o qual elas foram pensadas, a enorme potência e os efeitos desta re-partilha do sensível a qual o filme se propõe. “Um dia na vida” é uma experiência cinematográfica e antropológica. Em determinado momento, lembrei-me daquele programa (cujo nome, contudo, me foge) do Multishow que exibia os vídeos que as pessoas enviavam para a seleção do Big Brother Brasil. Talvez seja algo como o contraplano de “Um dia na vida”.
domingo, março 23, 2014
links
- Steven Shaviro em uma discussão sobre o Oscar de Melhor Fotografia dado a "Gravidade"
- Kent Jones inspirado: da política dos autores à teoria dos autores
- Ótima entrevista com Raya Martin
- Inácio Araújo sobre o "Alemão"
- Nova edição da Desistfilm
- Links para trabalhos sobre Wong Kar Wai
- A primeira e a segunda parte de Bordwell sobre Manny Farber
- Adrian Martin sobre Nicholas Ray e "Tabu"
- Jonathan Rosenbaum selecionou alguns links de escritos seus sobre Alain Resnais
- A "Cahiers du Cinema" de fevereiro vem com alguns textos bem legais sobre Andre Bazin hoje. A obra completa do Bazin deverá ser lançada este ano.
- Kent Jones inspirado: da política dos autores à teoria dos autores
- Ótima entrevista com Raya Martin
- Inácio Araújo sobre o "Alemão"
- Nova edição da Desistfilm
- Links para trabalhos sobre Wong Kar Wai
- A primeira e a segunda parte de Bordwell sobre Manny Farber
- Adrian Martin sobre Nicholas Ray e "Tabu"
- Jonathan Rosenbaum selecionou alguns links de escritos seus sobre Alain Resnais
- A "Cahiers du Cinema" de fevereiro vem com alguns textos bem legais sobre Andre Bazin hoje. A obra completa do Bazin deverá ser lançada este ano.
E um grande filme:
quarta-feira, março 19, 2014
eles voltam ***
É muito bonito este filme de Marcelo Lordello. Algo como um drama de formação sobre uma menina e sua gradativa consciência de si mesma, de sua autonomia, de seu mundo e dos espaços ao redor dele. Drama, aliás, é uma palavra empregada sem nenhuma inocência. Quer dizer, Lordello é de uma rara precisão dramática: personagens, câmera, texto e sentidos. O início do filme talvez seja seu melhor. Não sei. Uma espécie de prólogo nos introduz de maneira brusca (sentimo-nos jogados ali), porém marcada por sutilezas (como se aquele mundo se constituísse gradativamente por meio de algumas informações e muitos detalhes). “Eles voltam” chega por inteiro, mas de sapatinho. Dois irmãos estão na beira da estrada. Foram deixamos ali pelos pais, é o que parece. Eles brigam por causa de um celular. O menino vai embora atrás de ajuda, e não volta. A menina passa um bom tempo sozinha até resolver cair na estrada, ao som de “Tudo o que você podia ser”, de Milton Nascimento.
O prólogo, suas durações alongadas, seu tom entre o abandono, o medo e a necessidade de movimento, seu convite à potência do mundo, a liberdade que essa chamada abre... tudo isso reverbera por “Eles voltam”. O filme não apela melodramaticamente para a situação de abandono de sua personagem, tampouco explora abusivamente uma identificação entre ela e os espectadores. O que se busca é muito mais um vinculo marcado por esse desafio arriscado que o mundo nos oferece. Cris nos atrai e nos repele, sem nenhum controle sobre seu destino, sempre ao sabor do filme. A menina carrega com ela um certo mistério, uma força que não se deixa agarrar.
Essa força, essa energia, dá as caras em outros momentos memoráveis: o assentamento, a casa da doméstica e suas filhas, as conversas entre as meninas, a viagem ao centro. Algo nestes momentos escapa ao drama do filme, não parece estar prescrito pelo roteiro ou diretamente ligado à evolução da narrativa. Este algo que escapa tem efeitos não somente realistas ou de verossimilhança, mas também afetivos. O que escapa é algo que surpreende, que nos chama atenção para o tamanho do mundo. E isso, claro, fez um bem danado ao longa.
É visível a falta de recursos – algo que a péssima projeção da sala 2 do Estação só faz sublinhar. Uma certa precariedade percorre o filme e talvez o comprometa em alguns momentos, fazendo nossa imersão tropeçar. Alguns saltos dramáticos, algumas elipses (provocadas ou não pelas dificuldades de produção) também saltam aos olhos, talvez marquem descontinuidades desnecessárias. Acho, contudo, que são coisas pequenas, insignificantes. A perfeição, pra mim, é uma tremenda de uma sacanagem, uma mentira.
quarta-feira, março 12, 2014
hayao miyazaki !
Vi tem poucos dias o último filme do mestre japonês, “Vidas ao vento”. É certamente um belíssimo filme, embora não tenha mexido comigo como fizeram “A viagem de Chihiro” (2001), “A princesa Mononoke” (1997), “Meu amigo Totoro” (1988). Gosto muito também de “Castelo Animado” (2004). Baseado no romance de fantasia homônimo da escritora britânica Diana Wynne Jones, a história se passa numa cidade fictícia em meio uma espécie de guerra civil, onde mágicos, bruxas e seus aprendizes co-existem com cidadãos normais. Sophie é uma menina de 18 anos, que ao ser transformada numa anciã pela Bruxa Má do Lixo terá que enfrentar uma série de obstáculos, refugiando-se no Castelo (o do título) alado do jovem e errante feiticeiro Howl. A fonte ocidental (a primeira da filmografia de Miyasaki) e as inúmeras citações do filme à tradição literária infantil sugerem que este talvez seja seu trabalho mais distante da iconografia japonesa que tornou famosos seus trabalhos precedentes. É impressionante como o diretor coloca, à sua maneira, no mesmo caldeirão os irmãos Grimm, “Cinderela”, “Alice no país das maravilhas”, “A bela e a fera”, e até “Fausto”. Mas Miyasaki despe tais contos de quaisquer dicotomias entre o bem e o mal. Tais entidades não existem em separado no mundo do mestre japonês. E todos os movimentos dramáticos são frutos de acasos. A Bruxa Má do Lixo (que vende sua alma para o diabo para não envelhecer e perder seus poderes) entra por acaso na loja em que trabalha Sophie, que também não planejava se abrigar no Castelo de Howl (o equivalente do Haku de “A viagem de Chihiro”), que também não esperava se apaixonar pela menina. O que existem são ações, interesses e escolhas.
Os personagens são brilhantemente construídos. Diferentemente de suas irmãs, Sophie trabalha arduamente na chapelaria de sua madrasta. E nela é fácil perceber o famoso exemplo sartriano do garçom. A menina segue todo um ritual de conduta, comporta-se como deve se comportar uma boa vendedora de chapéus. Não é preciso observá-la muito tempo para perceber que ela está sempre, tristemente, representando. Quando, logo no início do filme, Sophie encontra Howl, estas alusões existencialistas tornam-se evidentes. A menina nega as escolhas que, de uma maneira ou de outra, sabemos estar presentes, prefere o conformismo e a respeitabilidade da ordem estabelecida e da tradição. Não é à toa que a Bruxa Má do Lixo entra na chapelaria e dispara: “Você é a coisa mais vulgar dessa loja”. Sinistro...
domingo, março 09, 2014
resnais no cinemaison
Sessão dupla Alain Resnais no Cinemaison desta segunda:
Às 18h: O ano passado em Marienbad (1961)
e
Às 20h: Muriel (1963)
Às 18h: O ano passado em Marienbad (1961)
e
Às 20h: Muriel (1963)
quarta-feira, março 05, 2014
domingo, março 02, 2014
resnais
Alain Resnais se foi, e eu, trancando em casa, impedido de sair dela, recorri a algumas das imagens de “Hiroshima, meu amor” (1959) – talvez seja meu preferido ao lado de "Beijo na boca, não" (2003). Na verdade, refiro-me a uma cena bem específica, aos olhares de um grupo de japoneses, logo no início do filme. Eles nos fitam ou desviam seus olhares, como se estivessem à nossa espera no leito de um hospital. Estão doentes, contaminados pelas radiações da bomba atômica que havia explodido por ali quatorze anos antes.
Vemos logo em seguida imagens feitas pelo fotógrafo Iwasaki nas horas e nos dias que sucederam à explosão da bomba. Estas imagens foram logo sequestradas pelas autoridades americanas que ocuparam o arquipélago. Introduzidas pelos olhares dos japoneses, elas não haviam sido vistas por ninguém até o momento em que Resnais as colocou em seu filme. “Você não viu nada em Hiroshima”, diz insistentemente o texto de Marguerite Duras. “Sim, eu vi”, retruca a personagem de Emmanuelle Riva. Ela viu, graças aos olhares dos japoneses martirizados que nos interpelam frontalmente.
Certamente, esta não era a primeira vez que um olhar era dirigido à câmera. O cinema mudo está repleto de momentos como este, quando o olhar cômico nos convida a rir dele ou com ele. Mesmo o cinema clássico hollywoodiano, que via nessa “olhar-câmera” um desvio, uma quebra, um erro, também já havia nos fitado, seja para, como em uma espécie de piscadela, ganhar nossa simpatia, seja para nos seduzir. O olhar dos japoneses de Hiroshima, contudo, é de uma intensidade diferente. Ele nos desafia, nos apequena. Esses “olhares-câmera” atestam que o cinema, os atores, os cineastas, os personagens, deviam mudar. Era preciso um novo cinema.
Resnais, aliás, não estava sozinho. Ingmar Bergman e Roberto Rossellini haviam feito sequencias similares em “Monika” (1952) e “Europa 51” (1952), respectivamente. Esses olhares estão na base da irrupção da Nouvelle Vague – aliás, é curioso notar que os primeiros filmes de François Truffaut (“Os incompreendidos”, 1959) e Jean-Luc Godard (“Acossado”, 1960), que dão o pontapé inicial da onda francesa, terminam com seus protagonistas nos fitando frontalmente.
terça-feira, fevereiro 25, 2014
harold ramis e algo mais
Harold Ramis se foi. A mídia noticia. Noticia, mas desinforma. "Ator de 'Ghostbusters'", dizem. Ramis foi muito mais do que isso. Até mesmo em "Ghostbusters" ele foi muito mais do que um ator. Ramis é uma espécie de catalizador de uma certa comédia americana. Sem ele... Não sei. Por Ramis passaram Dan Aykroyd, Chevy Chase, Bill Murray... Comédia com sentimento. Um cara como Judd Apatow sempre lhe faz as devidas referências. A participação especial de Ramis em "Ligeiramente grávidos" é uma espécie de atestado de filiação. Enfim... Ouçam este incrível podcast.
Alguns links:
- Entrevistas com Kurt Russel, Dennis Lavant e Abel Ferrara!
- Entrevista com Nicole Brenez e texto dela na Cinética!
- Ótimo texto de Steven Shaviro sobre o "Ela" de Spike Jonze.
- David Bordwell e James Agee.
E, pra fechar, um curta de Gus Van Sant:
Alguns links:
- Entrevistas com Kurt Russel, Dennis Lavant e Abel Ferrara!
- Entrevista com Nicole Brenez e texto dela na Cinética!
- Ótimo texto de Steven Shaviro sobre o "Ela" de Spike Jonze.
- David Bordwell e James Agee.
E, pra fechar, um curta de Gus Van Sant:
quarta-feira, fevereiro 19, 2014
a imagem que falta ****
Esta aí um belíssimo, doído filme. Leiam a crítica de Fábio de Andrade na “Cinética”. Ele tem toda razão. Os melhores filmes de Rithy Panh são movidos por perguntas como: Por que encenar? O que significa filmar? E encenar e filmar para Panh é uma necessidade. Estamos falando do Camboja. Estamos falando de um cineasta que viu todos (absolutamente todos) seus parentes e amigos desaparecem ou perecerem em meio ao regime de Pol Pot. Panh não tem imagens deste passado. As imagens que faltam, contudo, insistem. O contrário da existência não é a inexistência, mas a insistência. O que não existe continua a insistir, como se lutasse para passar a existir. O cinema, portanto, é uma oportunidade ética crucial que Panh não pode deixar passar. Seu cinema nos lembra que a verdadeira escolha com relação a um trauma histórico não está entre lembrar-se ou esquecer-se dele. Afinal, os traumas que não queremos ou não somos capazes de relembrar assombram-nos com mais força. Ou seja: para superar um acontecimento traumático, é preciso antes criar forças para lembrá-lo.
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
nicolas klotz na caixa cultural
TERÇA-FEIRA – 18 de FEVEREIRO
CINEMA 1
15h - PARIA (2000) – 125min – 35mm
18h - A QUESTÃO HUMANA (2007) – 143min – 35mm
CINEMA 2
16h - DIÁLOGOS CLANDESTINOS 2013 : CEREMONY BRAZZA (52min) + POUR SE FRAYER UN CHEMIN DANS LA JUNGLE, IL EST BON DE FRAPPER AVEC UN BATON POUR ÉCARTER LES DANGERS INVISIBLES(25min)
19h - BRAD MEHLDAU (56min) + JAMES CARTER (56min)
QUARTA-FEIRA – 19 de FEVEREIRO
CINEMA 1
15h – LES AMANTS CINEMA (65min) + JEUNESSE D'HAMLET (9min – 35mm) + LA CONSOLATION (9min – 35mm)
18h - LOW LIFE (2011) – 134min – 35mm
CINEMA 2
16h -MADEMOISELLE JULIE (2011) – 101min
18h30 - LE VENT SOUFFLE DANS LA COUR D'HONNEUR (2013) – 101min
QUINTA-FEIRA – 20 de FEVEREIRO
CINEMA 1
15h – A FERIDA (2004) – 163min – 35mm
18h - DEBATE – NICOLAS KLOTZ e ELISABETH PERCEVAL (roteirista dos filmes) + MEDIAÇÃO LEONARDO LUIZ FERREIRA (curador da mostra)
CINEMA 2
16h - BRAD MEHLDAU (56min) + JAMES CARTER (56min)
SEXTA-FEIRA – 21 de FEVEREIRO
CINEMA 1
15h - LOW LIFE (2011) – 134min – 35mm
18h30 - PARIA (2000) – 125min – 35mm
CINEMA 2
16h - LE VENT SOUFFLE DANS LA COUR D'HONNEUR (2013) – 101min
19h - MADEMOISELLE JULIE (101min)
SABADO – 22 de FEVEREIRO
CINEMA 1
13h15 - LES AMANTS CINEMA (65min) + JEUNESSE D'HAMLET (9min – 35mm) + LA CONSOLATION (9min – 35mm)
15h - A QUESTÃO HUMANA (2007) – 143min – 35mm
18h – A FERIDA (2004) – 163min – 35mm
CINEMA 2
11h – MASTER CLASS – NICOLAS KLOTZ + MEDIAÇÃO RUY GARDNIER (CRÍTICO DE CINEMA)
16h –DIÁLOGOS CLANDESTINOS 2013 : CEREMONY BRAZZA (52min) + POUR SE FRAYER UN CHEMIN DANS LA JUNGLE, IL EST BON DE FRAPPER AVEC UN BATON POUR ÉCARTER LES DANGERS INVISIBLES (25min)
CINEMA 1
15h - PARIA (2000) – 125min – 35mm
18h - A QUESTÃO HUMANA (2007) – 143min – 35mm
CINEMA 2
16h - DIÁLOGOS CLANDESTINOS 2013 : CEREMONY BRAZZA (52min) + POUR SE FRAYER UN CHEMIN DANS LA JUNGLE, IL EST BON DE FRAPPER AVEC UN BATON POUR ÉCARTER LES DANGERS INVISIBLES(25min)
19h - BRAD MEHLDAU (56min) + JAMES CARTER (56min)
QUARTA-FEIRA – 19 de FEVEREIRO
CINEMA 1
15h – LES AMANTS CINEMA (65min) + JEUNESSE D'HAMLET (9min – 35mm) + LA CONSOLATION (9min – 35mm)
18h - LOW LIFE (2011) – 134min – 35mm
CINEMA 2
16h -MADEMOISELLE JULIE (2011) – 101min
18h30 - LE VENT SOUFFLE DANS LA COUR D'HONNEUR (2013) – 101min
QUINTA-FEIRA – 20 de FEVEREIRO
CINEMA 1
15h – A FERIDA (2004) – 163min – 35mm
18h - DEBATE – NICOLAS KLOTZ e ELISABETH PERCEVAL (roteirista dos filmes) + MEDIAÇÃO LEONARDO LUIZ FERREIRA (curador da mostra)
CINEMA 2
16h - BRAD MEHLDAU (56min) + JAMES CARTER (56min)
SEXTA-FEIRA – 21 de FEVEREIRO
CINEMA 1
15h - LOW LIFE (2011) – 134min – 35mm
18h30 - PARIA (2000) – 125min – 35mm
CINEMA 2
16h - LE VENT SOUFFLE DANS LA COUR D'HONNEUR (2013) – 101min
19h - MADEMOISELLE JULIE (101min)
SABADO – 22 de FEVEREIRO
CINEMA 1
13h15 - LES AMANTS CINEMA (65min) + JEUNESSE D'HAMLET (9min – 35mm) + LA CONSOLATION (9min – 35mm)
15h - A QUESTÃO HUMANA (2007) – 143min – 35mm
18h – A FERIDA (2004) – 163min – 35mm
CINEMA 2
11h – MASTER CLASS – NICOLAS KLOTZ + MEDIAÇÃO RUY GARDNIER (CRÍTICO DE CINEMA)
16h –DIÁLOGOS CLANDESTINOS 2013 : CEREMONY BRAZZA (52min) + POUR SE FRAYER UN CHEMIN DANS LA JUNGLE, IL EST BON DE FRAPPER AVEC UN BATON POUR ÉCARTER LES DANGERS INVISIBLES (25min)
terça-feira, fevereiro 11, 2014
quinta-feira, fevereiro 06, 2014
eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida
Não cheguei ao fim. Sequer sinto-me apto a dar-lhe estrelinhas. Fiquei realmente nervoso, irritado mesmo, com este filme. “Apenas o fim” (2008) já havia causado uma reação parecida. Eu, contudo, otimista, resolvi ver este “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”. Saí da sessão depois de uns quarenta minutos, e, já na rua, em Copacabana, fiquei pensando sobre o que me incomoda tanto nestes filmes. E devo dizer, logo de cara, que não se trata da encenação limitada, um pouco preguiçosa e bem comportada de Matheus Souza. É mais do que isso.
Souza investe em um humor descolado, supostamente inteligente, porém totalmente desconectado com os sentimentos dos personagens. Coisas como: “Você tem cada de quem mora em casa” ou “Acredito que existe um lugar para onde vão todas as tampas de canetas”. E então, quando os sentimentos veem para o primeiro plano, fica muito difícil levá-los a sério. Os personagens estão todos em uma espécie de competição de performances (até mesmo os personagens reais que aparecem no projeto documental da protagonista). Estamos diante de um filme muito mais preocupado em exteriorizar um certo número de referências, de gracejos e tiradas verbais, do que na observação e nos sentimentos. Quer dizer: são subjetividades exteriorizadas onde vigoram a projeção e a antecipação. Uma subjetividade que se constitui na própria exterioridade, no processo mesmo de se projetar e de se fazer visível a outrem. É difícil solidarizar com estes personagens. Eles se filiam a qualquer gosto. São muito mais um estilo do que qualquer outra coisa.
O filme se afirma como uma história de autoconhecimento. Ok. Mas estes personagens são tão conscientes de si mesmos, de seus sonhos, de seus fracassos, da natureza das relações que mantém com seus familiares e (ex)amantes. E “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida” fala sem parar, mas nunca ouve, ninguém. É tudo tão... falso. Por isso, sinto-me muito incomodado quando ouço dizerem que se trata de um retrato geracional, de uma juventude da era da internet e do consumismo. Acho esta visão absolutamente míope e distorcida. Estes jovens são tão formatados, enquadrados, limitados (por roteiro, referências mil e uma certa visão de mundo), como os de “Malhação”.
Eu não conhecia até bem pouco tempo atrás ninguém que gostasse realmente ou abertamente dos filmes de Souza. Os meus amigos sequer veem seus filmes. Os meus primos mais jovens tampouco se dizem fãs de “Apenas o fim” ou “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”. Como então Souza conseguiu fazer tanto (coluna em jornal, dois longas, peças de teatro, etc)? Não conseguia entender isso. Outro dia, contudo, ao ver o pôster de um de seus filmes na rua, minha afilhada de onze anos ficou animada. Ela gostou de “Apenas o fim” e queria muito ver “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”. Nada contra ter fãs de onze anos. Mas isso não é no mínimo estranho? Souza tem seus vinte e tantos anos. Faz filmes sobre personagens com a mesma idade que ele. Contudo, quem se identifica com eles, quem gosta dos longas, têm uma década a menos.
Souza investe em um humor descolado, supostamente inteligente, porém totalmente desconectado com os sentimentos dos personagens. Coisas como: “Você tem cada de quem mora em casa” ou “Acredito que existe um lugar para onde vão todas as tampas de canetas”. E então, quando os sentimentos veem para o primeiro plano, fica muito difícil levá-los a sério. Os personagens estão todos em uma espécie de competição de performances (até mesmo os personagens reais que aparecem no projeto documental da protagonista). Estamos diante de um filme muito mais preocupado em exteriorizar um certo número de referências, de gracejos e tiradas verbais, do que na observação e nos sentimentos. Quer dizer: são subjetividades exteriorizadas onde vigoram a projeção e a antecipação. Uma subjetividade que se constitui na própria exterioridade, no processo mesmo de se projetar e de se fazer visível a outrem. É difícil solidarizar com estes personagens. Eles se filiam a qualquer gosto. São muito mais um estilo do que qualquer outra coisa.
O filme se afirma como uma história de autoconhecimento. Ok. Mas estes personagens são tão conscientes de si mesmos, de seus sonhos, de seus fracassos, da natureza das relações que mantém com seus familiares e (ex)amantes. E “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida” fala sem parar, mas nunca ouve, ninguém. É tudo tão... falso. Por isso, sinto-me muito incomodado quando ouço dizerem que se trata de um retrato geracional, de uma juventude da era da internet e do consumismo. Acho esta visão absolutamente míope e distorcida. Estes jovens são tão formatados, enquadrados, limitados (por roteiro, referências mil e uma certa visão de mundo), como os de “Malhação”.
Eu não conhecia até bem pouco tempo atrás ninguém que gostasse realmente ou abertamente dos filmes de Souza. Os meus amigos sequer veem seus filmes. Os meus primos mais jovens tampouco se dizem fãs de “Apenas o fim” ou “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”. Como então Souza conseguiu fazer tanto (coluna em jornal, dois longas, peças de teatro, etc)? Não conseguia entender isso. Outro dia, contudo, ao ver o pôster de um de seus filmes na rua, minha afilhada de onze anos ficou animada. Ela gostou de “Apenas o fim” e queria muito ver “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”. Nada contra ter fãs de onze anos. Mas isso não é no mínimo estranho? Souza tem seus vinte e tantos anos. Faz filmes sobre personagens com a mesma idade que ele. Contudo, quem se identifica com eles, quem gosta dos longas, têm uma década a menos.
terça-feira, fevereiro 04, 2014
caché ***
Acho mesmo que um cineasta deve ser responsabilizado pelo mundo e pelas criaturas que ele põe em movimento. Neste sentido, Michael Haneke é uma espécie de Dr. Mabuse do cinema contemporâneo. É uma espécie de gênio do mal. Reconheço seu enorme talento, mas tenho um profundo desprezo pelo mundo que ele constitui em filme. Revi “Caché” (2005) outro dia. E aqui o projeto cinematográfico de Haneke atinge seu ápice de manipulação. Entre as muitas questões que o filme levanta, eu me vi nessa revisão pensando no processo de identificação com o imaginário representado na tela e mais propriamente na maneira pela qual europeus e argelinos convivem na mise-en-scène de Haneke. Destacaria ainda para uma análise mais sistemática do longa a pergunta pela autoria das imagens de vigilância (uma pergunta, na minha opinião, mais do válida), e o tipo de identificação que o filme alimenta entre o aparato cinematográfico e o espectador.
Acho cada vez mais que “Caché” desfila um multiculturalismo um tanto míope. Se o discurso nacionalista dos anos 60 traçava linhas demarcatórias bastante nítidas entre o Primeiro e o Terceiro Mundos, entre opressor e oprimido, o discurso pós-colonial e multiculturalista substitui esses dualismos binaristas por um espectro mais nuançado de sutis diferenciações. Mas em “Caché” não há ambiguidades. Há toda uma vitimização do personagem argelino, enquanto Georges é acusado de todos os males do filme. Apesar de não podermos falar numa pureza na representação destas identidades, os paradigmas permanecem rígidos, não se contaminam.
Neste sentido, parece-me haver por vezes uma certa nostalgia pelo retorno a uma política bem definida de oposições binárias, em que, teoricamente, se podia distinguir com maior clareza os bonzinhos dos malvados. Eu fico por fim com a suspeita de um narcisismo europeu às avessas - “Caché”, então, se aproximaria estranhamente de uma cada vez mais vasta produção hollywoodiana empenhada em “compreender” o problema da África (“Diamante de sangue”, “O senhor das armas”, “Jardineiro fiel”, entre outros). Haneke parece situar a Europa como fonte de todos os males sociais do mundo. Uma perspectiva que não deixa de ser eurocêntrica, reduzindo a vida fora da Europa a uma resposta passiva/patológica à “invasão” ocidental.
Acho cada vez mais que “Caché” desfila um multiculturalismo um tanto míope. Se o discurso nacionalista dos anos 60 traçava linhas demarcatórias bastante nítidas entre o Primeiro e o Terceiro Mundos, entre opressor e oprimido, o discurso pós-colonial e multiculturalista substitui esses dualismos binaristas por um espectro mais nuançado de sutis diferenciações. Mas em “Caché” não há ambiguidades. Há toda uma vitimização do personagem argelino, enquanto Georges é acusado de todos os males do filme. Apesar de não podermos falar numa pureza na representação destas identidades, os paradigmas permanecem rígidos, não se contaminam.
Neste sentido, parece-me haver por vezes uma certa nostalgia pelo retorno a uma política bem definida de oposições binárias, em que, teoricamente, se podia distinguir com maior clareza os bonzinhos dos malvados. Eu fico por fim com a suspeita de um narcisismo europeu às avessas - “Caché”, então, se aproximaria estranhamente de uma cada vez mais vasta produção hollywoodiana empenhada em “compreender” o problema da África (“Diamante de sangue”, “O senhor das armas”, “Jardineiro fiel”, entre outros). Haneke parece situar a Europa como fonte de todos os males sociais do mundo. Uma perspectiva que não deixa de ser eurocêntrica, reduzindo a vida fora da Europa a uma resposta passiva/patológica à “invasão” ocidental.
domingo, fevereiro 02, 2014
maurice pialat
Quem passa de vez em quando por aqui já sabe. Maurice Pialat!
Agora, no CCBB:
Dia 01 de fevereiro | sábado
17h – Nós não envelheceremos juntos | 115min | 35mm | 18 anos
19h – Polícia | 113min | 35mm | 14 anos
Dia 02 de fevereiro | domingo
17h – Loulou | 110min | 35mm | 14 anos
19h - Infância nua | 83min | 35mm | 12 anos
Dia 03 de fevereiro | segunda-feira
14h30 – Van Gogh | 158min | 35mm | 14 anos
17h30 - Nós não envelheceremos juntos | 115min | 35mm | 18 anos
19h30 – Antes passe no vestibular | 86min | DVD | 14 anos
Dia 05 de fevereiro | quarta-feira
15h30 – Sob o sol de satã | 93 min | 35mm | 16 anos
17h30 - Polícia | 113min | 35mm | 14 anos
19h30 – Sessão Curtas-metragens Turcos | O Mestre Galip, Bizâncio, Pehlivan- os lutadores turcos, Istambul, O Chifre de Ouro, O Estreito de Bósforo | 74min | 35mm | 12 anos
Dia 06 de fevereiro | quinta-feira
15h30 – Infância nua | 83min | 35mm | 12 anos
17h30 - O garoto | 102 min | 35mm | 12 anos
19h30 – A ferida aberta | 82min | DVD | 16 anos
Dia 07 de fevereiro | sexta-feira
15h30 - Antes passe no vestibular | 86min | DVD | 14 anos
17h30 - Loulou | 110min | 35mm | 14 anos
19h30 - Nós não envelheceremos juntos | 115min | 35mm | 18 anos
Dia 08 de fevereiro | sábado
17h - Sob o sol de satã | 93 min | 35mm | 16 anos
19h – Aos nossos amores | 95min | 35mm | 14 anos
Dia 09 de fevereiro | domingo
17h - Sessão Curtas-metragens Turcos | O Mestre Galip, Bizâncio, Pehlivan- os lutadores turcos, Istambul, O Chifre de Ouro, O Estreito de Bósforo | 74min | 35mm | 12 anos
18h30 - Van Gogh | 158min | 35mm | 14 anos
Dia 10 de fevereiro | segunda-feira
15h30 - Polícia | 113min | 35mm | 14 anos
17h30 - Aos nossos amores | 95min | 35mm | 14 anos
19h30 - O garoto | 102 min | 35mm | 12 anos
Agora, no CCBB:
Dia 01 de fevereiro | sábado
17h – Nós não envelheceremos juntos | 115min | 35mm | 18 anos
19h – Polícia | 113min | 35mm | 14 anos
Dia 02 de fevereiro | domingo
17h – Loulou | 110min | 35mm | 14 anos
19h - Infância nua | 83min | 35mm | 12 anos
Dia 03 de fevereiro | segunda-feira
14h30 – Van Gogh | 158min | 35mm | 14 anos
17h30 - Nós não envelheceremos juntos | 115min | 35mm | 18 anos
19h30 – Antes passe no vestibular | 86min | DVD | 14 anos
Dia 05 de fevereiro | quarta-feira
15h30 – Sob o sol de satã | 93 min | 35mm | 16 anos
17h30 - Polícia | 113min | 35mm | 14 anos
19h30 – Sessão Curtas-metragens Turcos | O Mestre Galip, Bizâncio, Pehlivan- os lutadores turcos, Istambul, O Chifre de Ouro, O Estreito de Bósforo | 74min | 35mm | 12 anos
Dia 06 de fevereiro | quinta-feira
15h30 – Infância nua | 83min | 35mm | 12 anos
17h30 - O garoto | 102 min | 35mm | 12 anos
19h30 – A ferida aberta | 82min | DVD | 16 anos
Dia 07 de fevereiro | sexta-feira
15h30 - Antes passe no vestibular | 86min | DVD | 14 anos
17h30 - Loulou | 110min | 35mm | 14 anos
19h30 - Nós não envelheceremos juntos | 115min | 35mm | 18 anos
Dia 08 de fevereiro | sábado
17h - Sob o sol de satã | 93 min | 35mm | 16 anos
19h – Aos nossos amores | 95min | 35mm | 14 anos
Dia 09 de fevereiro | domingo
17h - Sessão Curtas-metragens Turcos | O Mestre Galip, Bizâncio, Pehlivan- os lutadores turcos, Istambul, O Chifre de Ouro, O Estreito de Bósforo | 74min | 35mm | 12 anos
18h30 - Van Gogh | 158min | 35mm | 14 anos
Dia 10 de fevereiro | segunda-feira
15h30 - Polícia | 113min | 35mm | 14 anos
17h30 - Aos nossos amores | 95min | 35mm | 14 anos
19h30 - O garoto | 102 min | 35mm | 12 anos
terça-feira, janeiro 28, 2014
dois links
- Um ensaio visual de Cristina Álvarez López e Adrian Martin sobre dança, corpos e Philippe Garrel.
- David Bordwell vai fazer uma série de posts sobre críticos de cinema americanos: James Agee, Manny Farber e Parker Tyler.
- David Bordwell vai fazer uma série de posts sobre críticos de cinema americanos: James Agee, Manny Farber e Parker Tyler.
domingo, janeiro 26, 2014
silvia prieto ****
Não conheço muito da obra de Martin Rejtman. Este “Silvia Prieto” (1999), contudo, é um grande filme. Gosto muito dele. É um filme povoado por personagens que chegaram aos 30 e percebem que algo está mudando. Nenhum deles parece estar onde realmente queria, ou melhor, onde havia planejado estar quando chegasse a essa idade. O cineasta opera nesse microcosmo de personagens, que interagem a partir de um pequeno número de situações que se repetem a todo o momento. Eles não são frutos de ações. São o que dizem. Mas o que dizem não corresponde ao que fazem. É uma coisa um tanto confusa. Os atores são como marionetes, jamais cedem à tentação de “representar” o texto, como se estivessem escutando suas próprias palavras ditas por um outro. O tom é limpo e monocórdio, as falas parecem desapropriadas de significação, e a narrativa carece de qualquer sentido de profundidade trágica. Uma aventura dialogada sobre o nada?
Em “Silvia Prieto”, cada personagem pode ser definido por um grau de potência singular e, por conseguinte, por um certo poder de afetar e de ser afetado. Silvia Prieto é como um carrapato. Deleuze gostava dessa metáfora. O carrapato é aquele que busca o lugar mais alto da árvore, depois se deixa cair quando passa algum mamífero, e, por fim, se enfia debaixo da pele do animal, chupando o seu sangue. O que o afeta? A luz, o cheiro e o sangue. Eis um ser que se define por seus afetos. Ele poderia ficar um tempo longuíssimo na espera em meio à floresta imensa e silenciosa, para, de repente, ter o seu breve festim de sangue e possivelmente a morte. Silvia Prieto, por sua vez, troca de nome e identidade. Não liga muito para essas coisas. Não liga muito para nada. É sempre tudo uma questão de experimentação. Seu grau de potência, o seu poder de afetar e de ser afetada, não pode ser medido e jamais se esgota. Ela inventa constantemente a cena na qual se mostrará visível e a língua que a permitirá se expressar. Ela se nomeia e nomeia o mundo do qual quer fazer parte. E nesse jogo - eminentemente político, diga-se de passagem – o cinema recupera uma certa potência e evoca um outro agir na relação com o outro.
Em “Silvia Prieto”, cada personagem pode ser definido por um grau de potência singular e, por conseguinte, por um certo poder de afetar e de ser afetado. Silvia Prieto é como um carrapato. Deleuze gostava dessa metáfora. O carrapato é aquele que busca o lugar mais alto da árvore, depois se deixa cair quando passa algum mamífero, e, por fim, se enfia debaixo da pele do animal, chupando o seu sangue. O que o afeta? A luz, o cheiro e o sangue. Eis um ser que se define por seus afetos. Ele poderia ficar um tempo longuíssimo na espera em meio à floresta imensa e silenciosa, para, de repente, ter o seu breve festim de sangue e possivelmente a morte. Silvia Prieto, por sua vez, troca de nome e identidade. Não liga muito para essas coisas. Não liga muito para nada. É sempre tudo uma questão de experimentação. Seu grau de potência, o seu poder de afetar e de ser afetada, não pode ser medido e jamais se esgota. Ela inventa constantemente a cena na qual se mostrará visível e a língua que a permitirá se expressar. Ela se nomeia e nomeia o mundo do qual quer fazer parte. E nesse jogo - eminentemente político, diga-se de passagem – o cinema recupera uma certa potência e evoca um outro agir na relação com o outro.
terça-feira, janeiro 21, 2014
sábado, janeiro 18, 2014
leviatã *****
O filme começa com uma citação ao livro de Jó:
31 Ele faz as profundezas se agitarem como caldeirão fervente e revolve o mar como pote de unguento.
32 Deixa atrás de si um rastro cintilante, como se fossem os cabelos brancos do abismo.
33 Nada na terra se equipara a ele: criatura destemida!
Os versículos fazem referência ao monstro mitológico que dá nome ao filme. Leviatã (Leviathan ou Leviatha) é descrito na demonologia como um dos quatro príncipes coroados do inferno. É o monstro marinho bíblico, de enormes proporções. É o rei de todas as criaturas do mar. Seu nome vem do hebraico, e significa “Serpente Tortuosa” - uma referência tanto a sua natureza animalesca como ao seu aspecto oculto. Seu arquétipo se refere à brutalidade, à ferocidade e aos impulsos mais selvagens e incontidos da humanidade.
“Leviatã” é um filme sobre homens no mar, entre barcos, peixes e aves. Um longa rodado na costa da mítica cidade de Moby Dick. “Leviatã” parece totalmente desinteressado nos aspectos naturalistas ou antropológicos. Tampouco estamos diante de um documentário de natureza ou paisagem. Muito menos uma visão sobre o trabalho e as relações sociais que mantém a pesca. Não se trata de uma perspectiva puramente observacional ou contemplativa. Não há uma ênfase expositiva ou denúncias. Não há entrevistas, narração, ou enredo. Nem mesmo “cenas”. Sabe-se que os cineastas Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel têm lá seus problemas com a noção de “direção”, e não é difícil entender o porquê.
“Leviatã” é uma espécie de forma de experimentação coletiva que dá rédea solta às perspectivas de ambos os diretores, os pescadores e as suas capturas, registrando as diversas maneiras em que homens, animais e máquinas, beleza e horror, vida e morte, se relacionam incessantemente neste que é um dos empreendimentos humanos mais antigos. É de um outro tempo que fala “Leviatã”. Um tempo não exatamente histórico, muito menos cronológico ou acronológico. Um tempo sensual que alinhava as ações e imagens em um fluxo contínuo: peixes são capturados e mortos; suas partes indesejáveis são jogadas ao mar; sangue transborda por todos os lados; gaivotas invadem os céus e mergulham atraídas pelas carcaças; as ondas balançam o barco; homens tomam banho; o trabalho recomeça.
Onze pequenas câmeras digitais estavam a bordo. Ora nas mãos dos cineastas Castaing-Taylor e Paravel. Ora presas aos corpos dos pescadores. São ainda muitas vezes colocadas em lugares absolutamente inusitados, como, por exemplo, coladas a peixes mortos que balançam com o barco. Elas mergulham, balançam, chocam-se com os corpos ao redor. Elas são, elas mesmas, corpos sencientes. E, conjugadas com a engenhosidade da montagem e do som, constroem uma materialidade líquida, contagiosa, bem como algo que somente a expressão absolutamente feliz de Castaing-Taylor poderia expressar: “uma etnografia sensorial”.
Quer dizer: “Leviatã” é como um ensaio sobre o nascimento de um visível que ainda se furta aos nossos olhos. É um filme que deseja falar do espaço, dos corpos, da luz, que estão aí - e dificilmente você terá visto o mar, peixes e a pesca como aqui. Castaing-Taylor e Paravel acreditam na capacidade do cinema de elevar nossa faculdade de sentir a um certo limiar de intensidade que a liberta dos esquemas que a engendram, fazendo-nos vislumbrar novas formas de se relacionar com o mundo. Eles valorizam uma certa impotência no âmago do pensamento que o cinema é capaz de revelar. E apostam na conexão homem-mundo, algo que se estabelece não por meio de uma fé em uma alguma transcendência, mas através de uma fé imanente nesse mundo.
Vejam aí o trailer:
* Uma pena não tê-lo visto no cinema. Ele, com certeza, só teria a crescer – sobretudo no que diz respeito ao engenhoso desenho de som.
quarta-feira, janeiro 15, 2014
links
- Algumas Listas Legais de Fim de Ano: La Furia Umana, Mubi, Senses of Cinema, BFI, Film Comment e Filipe Furtado.
- Steven Shaviro deu uma aula sobre "Spring Breakers" (2012), de Harmony Korine. Dá pra baixar o pod cast neste link.
- Texto de Luiz Soares Júnior sobre Júlio Bressane.
- Sensacional a pauta James Benning na Cinética.
- Muito bom também o novo número da Film Philosophy.
- Jonathan Rosenbaum sobre "O Discreto Charme da Burguesia" (1972), de Luis Buñuel.
- MediaScape é a revista do departamento de cinema e mídia da UCLA.
- Ritwik Ghatak em dois textos de Adrian Martin, aqui e aqui.
- Adrian Martin e os 10 confrontos do ano.
- Outro belo texto de Adrian Martin.
- Os 12 Favoritos de gente como: Jonathan Rosenbaum, Adrian Martin, Nicole Brenez, Fergus Daly, Brad Stevens, Monte Hellman, Raymond Bellour, Peter Tscherkassky, etc.
- J. Hoberman sobre David Cronenberg.
- Bela entrevista com Philippe Garrel
- Steven Shaviro deu uma aula sobre "Spring Breakers" (2012), de Harmony Korine. Dá pra baixar o pod cast neste link.
- Texto de Luiz Soares Júnior sobre Júlio Bressane.
- Sensacional a pauta James Benning na Cinética.
- Muito bom também o novo número da Film Philosophy.
- Jonathan Rosenbaum sobre "O Discreto Charme da Burguesia" (1972), de Luis Buñuel.
- MediaScape é a revista do departamento de cinema e mídia da UCLA.
- Ritwik Ghatak em dois textos de Adrian Martin, aqui e aqui.
- Adrian Martin e os 10 confrontos do ano.
- Outro belo texto de Adrian Martin.
- Os 12 Favoritos de gente como: Jonathan Rosenbaum, Adrian Martin, Nicole Brenez, Fergus Daly, Brad Stevens, Monte Hellman, Raymond Bellour, Peter Tscherkassky, etc.
- J. Hoberman sobre David Cronenberg.
- Bela entrevista com Philippe Garrel
Assinar:
Postagens (Atom)





