terça-feira, setembro 16, 2008

alguns brasileiros


pequenas histórias °

Este filme é uma coisa incrivelmente anacrônica. Já não gostava do “Batismo de sangue”, mas percebe-se em “Pequenas histórias” uma espécie de retrocesso em matéria de organização do plano e do encadeamento deles. É tudo muito evidente. Ratton filma num estilo tipo “telecurso 2000”. Todos os elementos estão ali sem nenhuma funcionalidade mais específica, sem nenhum efeito estético, sem nenhuma necessidade. E o que dizer daquela narração artificial... Fiquei lembrando dos documentaristas do cinema direto que diziam que se usava a narração sempre que se errava na filmagem.

Mas o mais importante: o filme do Ratton se encaixaria supostamente num projeto de cinema popular. No entanto, sinceramente, nesse elogio do cinema como um elemento mágico, associado a um mundo simples e interioriano mergulhado em crenças e lendas, me parece que “Pequenas histórias” não está falando com ninguém. Menos ainda com o publico ao qual ele estaria direcionado, o infanto-juvenil. E isso não é um juízo de valor estético.

era uma vez **

Breno Silveira narra de maneira doce. Em especial na primeira metade do filme, quando as situações parecem costuradas por alguns detalhes (um livro aqui, as roupas no varal acolá). “Era uma vez...” é um trabalho que prima, sobretudo, pela simplicidade. Mais uma vez, o que chama mais atenção é o desejo e a habilidade do cineasta em estabelecer um canal de comunicação com o público, sua coragem no sentido de não ter medo de cair no sentimentalismo. Mas o filme desanda quando a violência chega ao primeiro plano. Os conflitos sociais se fazem mais transparentes, migram para o diálogo e para a confrontação dramática, e toda aquela naturalidade da primeira metade do longa parece se esvaziar sob o peso da tragédia iminente. E assim nos aproximamos do final do filme, em uma série de seqüências constrangedoras que nunca justificam seus excessos.

“Era uma vez...” é um filme que nos alerta para necessidade de um olhar mais solidário para com os diferentes que nos cercam. Silveira tenta, mas talvez seu filme não consiga dar este primeiro passo. Dé e Nina se esforçam para resistir à violência a que suas vidas parecem predestinadas, mas o enredo não lhes reserva um final, digamos, generoso. “Era uma vez...” nos conduz a um desfecho fatal, à moda brasileira para todos os conflitos entre classes. O longa nos joga na cara as conseqüências violentas da desigualdade social brasileira. “Um soco no estômago”. Mas um desfecho “feliz”, que apostasse delicadamente nos sentimentos como uma possibilidade de se sustentar o que restou desta sociedade, talvez fosse igualmente chocante.

* Não dá pra deixar essa passar: o que é aquele merchandising? Ostensivo, para dizer o mínimo. Mais muito mais do que isso, sem nenhuma necessidade ou função dentro da narrativa. Logo depois de pegar o empréstimo com a financeira, o personagem também recebe dinheiro do irmão. Vai entender...

nome próprio ***

Tive uma relação curiosa com esse filme. Na primeira vez que o vi, Camila me pareceu extremamente egocêntrica, perdida pelos caminhos da vida adulta. Como bem disse Paulo Santos Lima, ela é um personagem que varia entre o escapismo da ficção e o embate com a realidade. Camila parecia repelir as pessoas. Me irritava o fato de que todos os seus problemas eram criados por ela. E, uma vez fabricados, viravam matéria-prima para seu blog. Uma protagonista histérica e pouca verdadeira.

A segunda vez foi diferente. Camila ainda me parecia um pouco ridícula em sua relação um tanto autoritária com as coisas. Mas, dessa vez, o que vi foi a beleza ao mesmo tempo lúcida e ingênua que emana dessa relação entre a personagem e o mundo. O filme de Murilo Salles se acha intimamente ligado a uma mudança de olhar lançado ao corpo. E essa pulsão maior de “Nome próprio”, o encantamento físico do corpo, me deixou mais interessado. O corpo como cogito. Toda aquela fidelidade com a qual Murilo Salles acompanha Camila até a última gota de suor, até última arrogância, até a última pílula, que tanto prejudicou minha adesão ao filme na primeira investida, me comoveu.

Só minhas impressões sobre o final do filme permaneceram intactas. A metaliguagem. Duas Camilas. Terceira e primeira pessoas se confundem. Desnecessário.

encarnação do demônio ****

Antes de mais nada: Zé do Caixão é um dos maiores personagens do cinema brasileiro. Antropofagia na veia. Terror genuinamente brasileiro. E este “Encarnação do Demônio” é uma provocação cheia de vida e atitude, mais um acerto de contas do que uma carta de intenção.

O personagem continua atrás da mulher perfeita. Sua saga nos é narrada por uma série de seqüências circulares, desconexas e um tanto caricaturais. Mojica continua grande e autodidata. Suas imagens respiram cinema, somente cinema. Singular em suas belas bizarrices, em suas doces cruezas. Um cinema onde tudo é incerto, onde tudo parece preste a ser outra coisa, a ponto de bala. Mojica doma os espaços, sempre em busca do drama, do ápice. Cineasta de cenas extremas, seus quadros nunca primam pela pura crueldade, mas pelo ritmo, pela beleza plástica, pela visão de mundo que revelam.

Logo de cara, a impressão que fica é a de uma inadequação datada. Ela não diz respeito somente à estética, mas também ao próprio Zé do Caixão. O mundo que ele encontra ao sair da prisão é perverso. Não é mais apenas o homem ordinário que permanece servil como sempre. O próprio Zé do Caixão quase morre atropelado, cruza com meninos se drogando, é agredido verbalmente e atacado num bar. Agora, ele não é apenas um criminoso, tem até os seus jovens seguidores. Como bem identificou o Francis Vogner lá na Cinética,“Encarnação do demônio” faz dessa inadequação uma força motriz. Mojica não esconde sua velhice estética, a velhice de seu personagem. E, mais do que isso: ele chama toda essa mitologia/pop que se criou em torno dele ao longo de todos esses anos pra porrada!

sábado, setembro 13, 2008

novos links

Repasso aqui a indicação deste simpósio sobre crítica de cinema na Internet realziado pela “Cineaste”. Alguns blogs legais que não conhecia:

Girish Shambu
Supposed Aura
Cinebeats
My Gleanings
Arbogast on Film
DVD Savant
Filmjourney.org
D-kaz
Chained to the cinematheque
Cinematalk

E não é que Robert Koehler, da "Variety", indica a Cinética. Pois é...
E por falar nela, segue o link para o texto sobre "Devoção", documentário de Sérgio Sanz.

sábado, setembro 06, 2008

grande stroheim

ouro e maldição *****

“Ouro e Maldição” é mesmo um filme estupendo. É também um dos maiores mitos da sétima arte: o melhor e mais famoso filme perdido de todos os tempos. A história é notória. Stroheim começou a trabalhar na adaptação do romance naturalista McTeague (1899), de Frank Norris em 1923 sob a batuta da Metro-Goldwyn-Mayer. Foram rodados ao todo 446 rolos de filme. A primeira versão editada pelo diretor, segundo diz a lenda, variava entre 42 e 47 rolos, entre 8 e 10 horas. Aos poucos, a MGM tirou o filme das mãos de Stroheim e lançou uma versão de 130 minutos, a que conhecemos hoje. O resto do material filmado acabou sendo queimado pelo estúdio anos depois para vender as quantidades ínfimas de prata extraíveis a partir do nitrato com que se fazia os negativos. E Stroheim nunca viu a versão exibida comercialmente.

Ainda, apesar de todas as mutilações e violências que sofreu e que são visíveis no filme (falta de transição entre a tímida e recém casada Trina e sua subseqüente deterioração como uma avarenta desmiolada, por exemplo), “Ouro e maldição” é estupendo. O filme já começa brilhante. Os personagens nos são apresentados e episódios se sucedem sem que você perceba uma exata correlação entre eles. De repente, num piscar de olhos, tudo se encaixa. O cineasta também é mais perceptivo em relação aos detalhes. A mise-em-scene dedica um olhar à trama em nível “microscópico”. Os três personagens principais são recheados de nuances de comportamento muito amplas, algo talvez inédito no cinema mudo.

Assim como em seus outros filmes, Stroheim explora cada episódio ao máximo de suas possibilidades dramáticas. Falando sobre o “Esposas Ingênuas” lá na “Paisá”, o Filipe Furtado disse que Stroheim filma como se estivesse comandando uma escavação. É verdade. Se pararmos, por exemplo, para comparar a mise-en-scène de Stroheim com a de outros diretores americanos da época (Griffith, Chaplin, Lubitsch, King Vidor, De Mille) o que parece extremamente moderno em “Ouro e maldição” é a multiplicidade de ângulos de câmera e dos pontos de observação em determinadas cenas. Um excelente exemplo disso é a cena noturna no consultório de Mac, quando este e a família chegam e são informados por diversos vizinhos de que Trina ganhou na loteria. Stroheim nos oferta uma espécie de mosaico de pontos de vista e interesses.

A seqüência final é uma das melhores do cinema. Em um belíssimo plano-geral, vemos a silhueta miserável do protagonista do filme algemado a um homem morto no conjunto do cenário-deserto, que pode ser observado nitidamente e que predomina na imagem. Mais do que expressar solidão ou impotência, a cena transborda uma luminosidade, uma profundidade, uma exasperação... Cinema moderno avant la lettre.

terça-feira, setembro 02, 2008

aprendendo a atuar com james franco

See more James Franco videos at Funny or Die

blogs, première brasil, manny farber

Alguns blogs mudaram:

O Chip Hazard foi para aqui.
O Anjo Exterminador virou Cinema com Cana.

Novos blogs:

O dos irmãos Pretti
E o Critic After Dark

Olhem aí a lista da Première Brasil:

LONGAS DE FICÇÃO- Competitiva

1.A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele
2. Apenas o fim, de Matheus Souza
3. Feliz Natal, de Selton Mello
4. Juventude, de Domingos Oliveira
5. Rinha, de Marcelo Galvão
6. Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte
7. Verônica, de Maurício Farias
8. Vingança, de Paulo Pons

LONGAS DOCUMENTÁRIOS - Competitiva

1. Cantoras do Rádio, de Gil Baroni e Marcos Avellar
2. Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado, de Joel Zito Araújo
3. Contratempo, de Malu Mader e Mini Kerti
4. Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano
5. Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal, de M. Abujamra e João Pimentel
6. Loki - Arnaldo Baptista, de Paulo Fontenelle
7. Morrinho - Deus sabe tudo mas não é X9, de F. Gavião e M.Oliveira
8. Palavra (En)Cantada, de Helena Solberg
9. Sentidos à flor da pele, de Evaldo Mocarzel
10. Titãs - A vida até parece uma festa, de B. Mello e O. R. Alves

LONGAS DE FICÇÃO HORS CONCOURS

1. A Erva do Rato, de Julio Bressane
2. Um Romance de Geração, de David França Mendes
3. Romance, de Guel Arraes
4. A Guerra dos Rocha, de Jorge Fernando
5. Todo mundo tem problemas sexuais, de Domingos Oliveira
LONGAS DOCUMENTÁRIOS HORS CONCOURS

1.O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira
2. Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader
3. Garapa, de José Padilha
4. Simonal, de C. Manoel, M. Langer e C. Leal

LONGAS DOCUMENTÁRIOS RETRATOS

1. A paixão segundo Callado, de José Joffily
2. Juruna, o Espírito da Floresta, de Armando Lacerda
3. Vida, de Paula Gaitán
4. Paulo Gracindo - o bem amado, de Gracindo Junior
5. Só dez por cento é mentira, de Pedro Cézar

MOSTRA CENAS DO RIO

1. Corpo do Rio, de Izabel Jaguaribe e Olivia Guimarães
2. Favela on Blast, de Leandro HBL
3. Abaixando a máquina, de Guillermo Planel e Renato de Paula
4. Eu sou povo, de B. Bacellar, Luis Fernando Couto e Regina Rocha
5. Praça Saens Peña, de Vinicius Reis
6. Novela na Santa Casa, de Cathie Lévy

Por último: lembrança tardia da morte do grande Manny Farber, no último dia 18. Farber é um dos melhores críticos do cinema. Leiam "Negative space".

O Filipe Furtado postou algumas passagens de Farber e Jonathan Rosenbaum prestou uma longa homenagem.

quinta-feira, agosto 21, 2008

fórum

O Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ organizou uma mostra legal com filmes contemporâneos e importantes.
Pra mim, estes são os destaques:
26/8 - Sans Soleil (França, 1983, 100 min), de Chris Marker, em inglês com legendas em português.
1/9 - A Vida sobre a Terra (Mali/França, 1998, 66 min), de Abderrahmane Sissako, falado em várias línguas, com legendas em inglês.
3/9 - O Mundo (China, 2004, 105 min), de Jia Zhang-Ke, falado em várias línguas, com legendas em inglês.
4/9 - O Intruso (França, 2004, 130 min), de Claire Denis, falado em várias línguas, com legendas em inglês.

Os longas serão exibidos no Salão Moniz de Aragão, de 25 de agosto a 5 de setembro, de segunda à sexta-feira, sempre às 19hrs. A entrada é gratuita. A programação está aqui.

quarta-feira, agosto 20, 2008

resnais

A mostra completíssima do Alain Resnais já começou! Pelo amor de Deus, não percam. Segue até o dia 7 de setembro no CCBB do Rio. A programação pode ser acessada aqui.

Lá na cinética, uma nota sobre minha primeira experiência com o 3D. Para ler, clique
aqui.

domingo, agosto 10, 2008

hulk e agente 86

Estes dois filmes me deixaram um pouco entediado. Juntos, são uma experiência reveladora do que se tornou Hollywood hoje.
O “Agente 86” é exatamente aquilo que se espera de uma adaptação hollywoodiana de uma série de TV de sucesso. O longa tenta combinar uma porção cômica e o desejo pela ação. Para ser mais exato, os personagens e as relações que se dão entre eles são sempre trabalhados com humor, enquanto a ação vem travestida dos mais variados efeitos especiais. Steve Carrell é um excelente comediante, mas “O agente 86” é previsível e muito pouco ambicioso em sua competência. Nos faz rir quando é preciso, cria suspense quando necessário... cartilha seguida de perto.

Irmão da série que fez sucesso na década de 70, “O incrível Hulk” é também exatamente o que se espera de uma produção do tipo franchise: ações confusas e recheadas de efeitos e muitos buracos na narrativa. Louis Leterrier é uma grata surpresa em algumas seqüências (como a em que Rickson Gracie bate na cara de Banner, por exemplo), mas o seu “Hulk” faz um uso nada inventivo do CGI, não encontra exatamente um equilíbrio entre as gags/efeitos e uma consistência dramática, e deixa muitos buracos (proposital?) pelo caminho – além de sublinhar o caráter descartável dos filmes hollywoodianos, já que o “Hulk” (2003) de Ang Lee é tratado como se não existisse. De uma força meio amoral e destrutiva, o monstro verde se transforma em uma espécie de quase militante. O Hulk de Leterrier se encontra domesticado, em um “filme para toda a família”.

Não é que os filmes sejam ruins. Muito pelo contrário, eles até divertem. Mas são pura e simplesmente produtos de uma indústria, higiênicos, incolores, insossos... sem vida. Filmes de compromissos e mais compromissos. Muitos pouco ambiciosos. Feitos para serem consumidos em seus termos superficiais e efêmeros.

segunda-feira, agosto 04, 2008

oc versão snl

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do outro lado e melhores 2008.1

Meu texto sobre o “Do outro lado” lá na “Cinética”.

A liga dos blogues elegeu as melhores (e as piores) estréias deste primeiro semestre. Minha lista foi essa aí:

A questão humana, de Nicolas Klotz
Falsa loura, de Carlos Reichenbach
Luz silenciosa, de Carlos Reygadas
WALL-E, de Andrew Stanton
Serras da desordem, de Andrea Tonacci
Não estou lá, de Todd Haynes
Paranoid Park, Gus Van Sant
Onde os fracos não têm vez, de Ethan Coen e Joel Coen
Sangue negro, de Paul Thomas Anderson
Fim dos tempos, de M. Night Shyamalan

quarta-feira, julho 30, 2008

tempo de violência

Amanhã, no MAM, às 18h30, a sessão do Cineclube Tela Brasilis exibirá o raríssimo “Tempo de violência” (1969), um clássico nacional do gênero policial dirigido por Hugo Kusnet, argentino radicado no Brasil. Trata-se de uma atualização do noir no contexto da Ditadura Militar, com influências de Joseph Losey e seu “O criado” (1963).

a banda, a amante e o sol


a banda ***

Este “A banda” é uma deliciosa surpresa. É uma comédia discreta de narrativa simples, conduzida por cortes doces e muitos silêncios. A música não será o elemento universal a unir os personagens. Não há nem mesmo trilha incidental. Tampouco se verbaliza discursos sobre conflitos e tratados de paz. Eran Kolirin é um cara inteligente e consegue escapar elegantemente de alguns potenciais problemas. Mas o que mais me agrada em “A banda” é o esforço do cineasta e de seus personagens para resistirem à “violência” ou à “solidão” a que suas vidas e o convívio forçado que o filme relata parecem predestinados. Nós aguardamos os conflitos, mas Kolirin aposta, muito delicadamente, em algo mais elementar, em uma espécie de ética da amizade ou do convívio social que ainda sustentem o que restou desta civilização.

a última amante ***

Não conhecia nada do cinema de Catherine Breillat, mas gostei bastante deste “A última amante”. É um filme sobre o poder da carne, sobre a afirmação de uma identidade sexual em meio a um ambiente repressivo. O Pedro Butcher disse muito bem: “os personagens de Breillat não são figurinos recheados de corpos, mas corpos (desajeitadamente) vestidos com roupas de época”. A mise-en-scène é crua e direta. O cinema de Breillat se desmembra em corpos, olhares, e, principalmente, closes – trata-se também de um filme sobre a narrativa, já que grande parte do longa se dá quando Ryno conta a avó de sua futura esposa sobre suas aventuras amorosas.

E em cada close de Asia Argento o filme cresce. “A última amante” é todo Asia Argento. Sucumbir a sua performance é sucumbir ao filme. Argento é mais do que uma presença: é uma aparição. É assim que ela surge, deitada em um divã, nada preocupada em se levantar para o espectador, nos desafiando a acompanhá-la. A atriz sintetiza a representação da sexualidade feminina como um elemento transgressor, promovendo uma espécie de curto-circuito com este gênero “filme de época”. E a cineasta faz um uso incrível da persona ambígua de sua protagonista, ora feia, ora bela; ora primitiva, ora profunda; ora baixa, ora refinada...

o sol ****

Gosto muito dos cantos melancólicos de Aleksandr Sokurov. Gosto muito também deste seu “O sol”. Diferente dos outros longas da tetralogia sobre homens de poder (começada com Hitler em “Moloch” e Lênin em “Taurus”), em “O sol”, como bem diagnosticou o Eduardo Valente, Sokurov parece interessado não pelo mito, mas pelo homem. Em outras palavras, o imperador Hirohito, encarnado brilhantemente por Issei Ogata. Sokurov dilata o tempo e narra com muita paciência e detalhes o encontro do imperador com a sua humanidade. Em belas seqüências, como a em que o protagonista tem de abrir uma porta sozinho pela primeira vez, o filme alcança altos e trágicos decibéis.

As imagens (captadas em HD) emanam um quase sépia esfumaçado (o que passa uma impressão de serem velhas e modernas ao mesmo tempo), desafiam uma certa idéia de harmonia geométrica e se desmembram em rigorosas composições e lentos, porém constantes movimentos de câmera. O cineasta acompanha de perto o cotidiano ritualístico de seu personagem. Mais uma vez, abundam os planos-detalhe: pratos de cerâmica, abotoadeiras, luvas, embalagens de chocolate, etc. No cinema de Sokúrov, há vida em todo lugar. E todos estes elementos se mostram em perfeita sintonia com a trama. Existe uma pertinência estética, afinada com um conceito anterior à forma: um mundo que perdeu suas bases, vagando em uma nebulosa existencial, e um personagem a ponto de cometer um suicídio metafísico.

segunda-feira, julho 21, 2008

dulce veiga, escafandro e cinturão

Onde andará Dulce Veiga ? ***

“Onde andará Dulce Veiga” começa com uma indicação espaço-temporal: “São Paulo, 198...”. O cinema de Guilherme Almeida Prado é plenamente consciente de sua identidade e este seu mais novo longa não foge à regra. Trata-se, por exemplo, mais uma vez, de um prato cheio de citações e homenagens, de Jean-Luc Godard e Jacques Demy à própria obra do cineasta. Ao mesmo tempo em que traz as obsessões e elementos mais identificáveis de seu cinema, “Dulce Veiga?” parece também empreender uma espécie de adaptação para os novos tempos. É a junção do universo “pós-moderno” dos anos 80 com a linguagem da Internet e da computação gráfica. Se por um lado “Dulce Veiga” é uma espécie de prestação de contas de Almeida Prado, uma tentativa de problematização de seu cinema; do outro, também se revela como uma carta de princípios ou uma afirmação daquilo que mais lhe fascina.

Os personagens de “Onde andará Dulce Veiga?” são figuras errantes, conectados pelo passado. Almeida Prado alimenta um clima de decadência, com curiosos rasgos de lirismo que podem por vezes beirar o absurdo. O curioso em relação ao protagonista e sua trajetória é o fato do foco e a evolução dramática do filme estarem sempre reservados às mulheres. A personagem Dulce Veiga, por sua vez, é como um ícone mágico. Ela é real, mas também parece existir apenas na mente de Caio. Almeida Prado sempre foi um cineasta que, acima de tudo, acredita no artifício, e imprime verdade em toda artificialidade. Em “Dulce Veiga”, o cineasta brinca com um artificialismo apoteótico – e, dessa vez, esta “brincadeira” parece intimamente relacionada com o movimento do filme, que trata de personagens repletos de máscaras.

O escafandro e a borboleta **


A adaptação de Julian Schnabel para o bestseller homônimo de Jean-Dominique Bauby já apontava para um exercício de recriação pela câmera de experiências subjetivas. Em seus primeiros 40 minutos, “O escafandro e a borboleta” se sai muito bem, encarando certos questionamentos a cerca da realização cinematográfica. Optar por um protagonista mudo, paralisado dos pés à cabeça, e cujo único contato visual com o mundo se dá através de apenas um único olho, possibilita a Schnabel e ao fotógrafo Janusz Kaminski uma exploração sobre variadas possibilidades de enquadramento e planos ponto de vista, sobre a profundidade de campo, sobre a narração em off e diversas modalidades de jogo com o extra-campo. O cineasta busca a identificação do espectador e aposta pesado em planos subjetivos, incluindo uma seqüência em que um médico sutura as pálpebras de um dos olhos de Bauby, filmado do ponto de vista do paciente.

Os grandes problemas do filme nascem quando Bauby, ao retomar a possibilidade de conectar-se com o mundo, cria toda uma realidade a partir de suas memórias e imaginação. Schnabel privilegia lembranças banais, uma viajem, um beijo na praia, um ensaio de fotografia. A idéia parece ser a de imprimir uma certa leveza à narrativa, um contraponto à dureza da situação de Bauby. No entanto, apesar de algumas belas seqüências, em especial as em que aparece Max Von Sydow como o pai do protagonista, as imagens de Schnabel nunca encontram a poeticidade que nos prometem. Em algumas passagens, “O escafandro e a borboleta” transpira uma artificialidade, um amadorismo hiper-calculado supostamente poético, com imagens de um “bom gosto” pra lá de duvidoso, cortes e zooms estranhos, variados lugares comuns visuais, e muitos escorregões no sentimentalismo.

O cinturão vermelho **

“O Cinturão Vermelho” é um filme estranho mesmo. Estamos mais uma vez em território mametiano, em uma história de corrupção epidêmica do espírito humano. Pode-se dizer que, com o tempo, Mamet vem se tornando um melhor diretor. Em “Spartan”, por exemplo, sobressaía-se mais sua direção do que seu roteiro. Em “O Cinturão” ficamos talvez no empate, ou, quem sabe, mais uma vez com a direção – apesar do filme começar meio mal, com aquele tiro acidental. Mamet, o diretor de fotografia Robert Elswit ("Magnólia", "Boa Noite e Boa Sorte" e "Syrianna") e o consultor Renato Magno constroem tudo apaixonadamente, com muita tranqüilidade e alguma eficiente secura. Para completar, Chiwetel Ejiofor é um ator realmente incrível e reveste seu personagem com uma densidade impressionante.

Depois que a intriga se estabelece, temos o esboço de uma teoria conspiratória que não se justifica exatamente. Como bem disse o Filipe Furtado, “Cinturão” mescla elementos e arquétipos que não parecem pertencer ao mesmo lugar. Mamet tenta dar conta da complexidade de um enorme número de personagens e suas “razões”, e quanto mais se acredita que o cineasta conseguirá reunir todos este elementos, mais nos deparamos com buracos pela narrativa e, de repente, somos jogados em um clímax previsível apesar de improvável e coerente. Estranho. Muito estranho. Para alguns, ao trabalhar com lacunas, Mamet produz uma sutil subversão. Para outros, “Cinturão” seria um equívoco. Eu não sei... O fato é que Mamet se identifica com a situação de um lutador solidário e carismático preso em um sistema corrupto. Quem ataca o showbusiness, embora se renda ou faça uso dele? “O cinturão vermelho” ou seu personagem? Este curioso e aparente paradoxo está nas entranhas do filme ou é ele uma constatação extra-narrativa?

sábado, julho 12, 2008

nárnia e joy division


As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian *

É impressionante como o filão de “filmes de fantasia” cresceu depois do enorme sucesso da trilogia do “Senhor dos Anéis”. O triste é que o gênero não mais joga com o infinito da imaginação, não se aventura pela construção de climas e sentimentos. Com a exceção de um ou outro (em especial “Stardust” e "As Crônicas de Spiderwick"), a fantasia se resume basicamente a uma grandiosidade barroca-realista, com efeitos por minuto se sobrepondo à dramaturgia.

Neste universo de suposta magia, ”As Crônicas de Nárnia” é certamente a série que mais me incomoda. O que temos é uma irritante maçaroca de simbolismos. Ao belicismo acrescenta-se todo um arsenal de figuras fabulares/irreais e um discurso reacionário e arrogante de nobreza e bondade. Um conto de fada infantil, um filme de guerra medieval, e uma alegoria do triunfo do cristianismo. Longos, os dois filmes da série jamais conseguem, nem por um instante, nos instalar em um universo supostamente mágico. Tampouco nos permite pensar por nós mesmos, investindo uma compreensão controlada e cheia de maniqueísmos.

O segundo filme da série, ”As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian”, se afasta um pouco daquela espiritualidade barata que marcava o primeiro filme e se concentra agora em uma shakespeariana sucessão de trono. Investe-se também na ação e em uma violência higiênica – para não atrapalhar a pipoca ou complicar a censura. Aposta-se mais uma vez na grandiosidade do espetáculo. Um espetáculo limitado ao exotismo proporcionado pelos efeitos - os verdadeiros responsáveis pela construção do realismo, já que os atores, a decupagem e o ritmo parecem secundários. “Príncipe Caspian” é de fato mais grandioso que seu antecessor. Mas não ajuda ter tantas seqüências chupadas do “Senhor dos Anéis” (a revolta das árvores, o rio e seus dedos, a fortaleza de pedra, a perseguição a cavalo), onde a expressão da pujança tecnológica-visual-sonora de Hollywood é muito mais hipnotizante.

Joy Division **

Produzido e dirigido por um fã confesso da banda, o documentário “Joy Division” se apresenta como uma espécie de discurso oficial sobre a trajetória deste que é um dos grupos mais importantes do new wave. Grant Gee (diretor de clipes do U2 ao Blur, e realizador do documentário “Meeting People Is Easy”, com base na turnê de “OK Computer”, do Radiohead) não se mostra interessado em revelações bombásticas, em levantar debates, cutucar polêmicas ou mesmo propor novas interpretações ao ideário da banda. A partir de entrevistas e depoimentos de remanescentes da grupo – Bernard Sumner (guitarrista), Peter Hook (baixista) e Stephen Morris (baterista) – e profissionais e amigos como Tony Wilson (produtor e co-fundador da Factory Records, gravadora que prensou os dois únicos álbuns deles), Annik Honoré (amante de Ian Curtis), Pete Shelley (do grupo Buzzcocks), e Anton Corbijn (autor da antológica foto em Manchester Apollo (1979) e diretor do filme “Control”), o que temos é um inventário saudosista, emotivo e “chapa branca”. Apesar de limitar possíveis vôos e experimentações, esta fidelidade ao discurso oficial do Joy Division tem obviamente o seu interesse.

No mais, como bem disse o Cléber Eduardo lá na Cinética, “Joy Division” é um filme frágil em suas escolhas e forte em seus efeitos. Em sua curta, porém fundamental existência, o Joy Division se tornou um dos combos mais inspirados da história do rock. Onde os punks eram luta e destruição, o Joy Division era contemplação e desespero - Tony Wilson descreve brilhantemente essa mudança como uma passagem do “fuck!” para o “I’m fucked!” O resgate de imagens raras de apresentações da banda na Granada TV (1978) e na BBC (1979) valem o ingresso e confirmam o curto circuito poderoso e cativante que o Joy Division trouxe ao rock. Guitarras em timbres estranhos, um baixo alto e distorcido, uma bateria rápida de som “achatado”, intervenções gélidas do teclado, e a voz grave de Curtis cantando pequenos e assustadores contos psicóticos. Poucas bandas encararam com tanta honestidade e sensibilidade sentimentos tão difíceis de serem assimilados e transmitidos.

cinearte e scena muda

Repasso aqui outra dica: A biblioteca do Museu Lasar Segall disponibilizou edições digitalizadas das revistas “Cinearte” e “Scena Muda”, marcos do cinema brasileiro. É fácil e de graça. Dêem uma olhada no link.

quarta-feira, julho 09, 2008

young jb

Este prólogo do filme do Tenacious D (banda/dupla de Jack Black e Kyle Gass) é genial.

sexta-feira, julho 04, 2008

lumet, allen e bressane


Antes que o Diabo saiba que você está morto ****

Para Sidney Lumet, “Antes que o Diabo saiba que você está morto”, mais do que um retorno à forma, é quase uma espécie de ressurreição: um melodrama violento e trágico, inventivo nos movimentos, preciso nos planos, e elegante nos enquadramentos. Trata-se de um filme incrivelmente simples, a começar pelo contundente roteiro do estreante Kelly Masterson. “Antes que o diabo” é um melodrama aparentemente clássico em sua estrutura. O drama nasce não exatamente dos personagens, mas da maneira pela qual eles se ajustam às situações apresentadas e justificam suas ações. A narrativa é agressiva e crua. Os eventos se desenrolam sem alarde. Não há tempo para trabalhar o background dos personagens ou para que eles possam acertar as pontas com seus passados. E, definitivamente, não há heróis.

Depois de um começo em tom idílico, entramos direto na trama e o filme já se esboça como a história de um desastre. Aos poucos, este “desastre” parece se expandir de diversas maneiras: da burocracia de uma locadora de veículos a uma fotografia gradativamente mais dura. A narrativa começa a ir e vir no tempo. Lumet parece narrar em camadas. Em cada uma delas, temos pequenas aulas de concisão dramática. Aos poucos estes pedaços vão se somando. O espectador poderá assistir a determinadas cenas em diferentes ângulos e pontos de vista. O drama se multiplica. O mau se instala.

Curiosamente, o cineasta se disse em algumas ocasiões fascinado pelo digital. Filmado em HD, “Antes que o diabo” transpira esse fascínio. Além da elegância formal, o longa demonstra uma enorme vitalidade no trabalho da câmera. Lumet e o fotógrafo Ron Fortunato fazem uso instigante das câmeras digitais em close-ups distorcidos e estourados que mais parecem oriundos de um “Inland Empire”. Ethan Hawke nunca esteve tão bem, sempre com um sorriso nervoso e descontrolado no canto da boca. E Philip Seymour Hoffman constrói um personagem aparentemente desconectado dos horrores à sua volta, perdido como um zumbi. Um filme deliciosamente desagradável.

O sonho de Cassandra **

É recorrente a afirmação de que Woddy Allen não é exatamente um amigo íntimo da mise-en-scène. Ele seria, sobretudo, um roteirista. Ele faria filmes de palavras e de atores, sem muitas preocupações com a imagem. Pois em “O Sonho Cassandra” sinto o contrário. De um lado, o roteiro me parece recheado de muita redundância em suas viradas e dilemas morais. As questões presentes no longa são valorizadas de forma quase telecurso segundo grau por Allen. O tempo todo alguém declama sentenças do tipo "It's funny how life boils down to this", "Life is nothing if not totally ironic", "The whole of human life is about violence", ou "Funny how life has a life of its own".

Por outra lado, Allen parece mais seco, cruel, e interessado em atmosferas. Logo nas primeiras cenas, o cineasta vai direto ao ponto: os irmãos Terry e Ian compram um barco ao som de Philip Glass, em uma cena que dá o tom do filme e sugere (também visualmente) o destino de seus personagens. A impressão é a de que o cineasta prezou mesmo uma eficiência dramatúrgica, com uma mise-en-scène cheia de sugestões e caprichos. E o talento na direção de atores, uma das marcas registradas de Allen, é palpável nas atuações de todo o elenco, em especial a de Colin Farrel.

Apesar de gostar mais deste do que dos outros “Match Point” e “Scoop”, “Cassandra” cai um pouco no fim, quando Allen pisa no acelerador e as coisas começam a se precipitar. E é bem verdade que vez ou outra é evidente uma certa falta de rigor nos cortes e nos enquadramentos de algumas cenas. Os últimos filmes de Woody Allen me passam esta impressão aparentemente paradoxal. São filmes esquemáticos e previsíveis, mas ao mesmo tempo um tanto frouxos.

Cleópatra ***

Em “Cleópatra”, Julio Bressane investiga esta personagem mitológica cheia de faces e facetas e a põe na roda, a coloca em cheque, constatando a total impossibilidade do cinema de produzir quaisquer revelações a respeito de sua persona “real”. E nada disso forma um enredo. Os personagens não se constroem, a intriga não se arma nunca. O mito prevalece. Engrandece. O cinema do Bressane pressupõe a busca de um universo próprio. O cineasta parece por vezes brincar com uma certa autonomia dos planos. Sua narrativa parece se sustentar em sua capacidade de criar vida através da soma de um sem-número de pequenos detalhes. É preciso, então, estar aberto a este acúmulo de referências, imagens, sons e músicas.

“Cleópatra” me parece por vezes buscar talvez um certo equilíbrio entre uma idéia de formalismo e outra de expressividade. Cada plano tem uma idéia. Não parece fazer questão de ser percebida como raciocínio, mas acho que se impõe como tal. Bressane não nos permite reduzir sua protagonista a significados. O filme quer despir estes significados, busca a valorização da plasticidade e o efeito sensorial. O que me incomoda é que estes procedimentos me parecem às vezes chamar muita para si mesmos. Não sei. Em miúdos: seja na experiência sensorial ou mesmo nesta minha reflexão mais distanciada, o filme realmente não colou em mim.

quinta-feira, julho 03, 2008

cinemateca do mam

No sábado, a Cinemateca do MAM exibe duas obras-primas seguidas:

16h - "Aurora" (1927), de F. W. Murnau.
18h - "A Regra do Jogo" (1939), de Jean Renoir.

E na sexta, dia 11, às 18h30, teremos o imperdível "Ouro e maldição" (1924), do grande Joseph von Stroheim.

quarta-feira, julho 02, 2008

terça-feira, julho 01, 2008

blogs, site e caixa cultural

Ricardo calil retomou seu blog
E enquanto o Cinemascopio não volta, Kléber Mendonça Filho vem postando seus textos neste blog
Outros links:

- blog de Daniel Caetano
- blog de Renata Gomes
- blog de Jean-Claude Bernardet
- blog de Fábio Andrade
- blog Éloge de l’amour
- blog Outrocine

Confiram também o Moving Image Source, site novo editado pelo Dennis Lim. Tem gente muita boa escrevendo.

Por fim, depois de celebrar os 100 anos da morte de Machado de Assis com a mostra "Memórias Cinematográficas de Machado de Assis", a Caixa Cultural vem abrigando uma nova mostra para comemorar os 100 anos do nascimento de Guimarães Rosa.

A mostra exibe “A hora e a vez de Augusto Matraga” (1965) e “Deus e o Diabo na terra do sol” (1964), dois dos meus filmes preferidos, além de um par de filmes (“Noites do sertão” e “Cabaré mineiro”) de um cineasta que dizem interessante, mas que confesso por hora desconhecer, Carlos Alberto Prates Corrêa. A programação.

segunda-feira, junho 30, 2008

para quem não conhece

Soube não faz muito tempo da morte do destemido George Carlin, um dos grandes mestres do stand up. Vejam.

sexta-feira, junho 27, 2008

indiana, bodas, apenas uma vez


Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal **

É preciso dizer: tenho uma relação afetiva com a trilogia do Indiana Jones. Acho que fui ao cinema sozinho pela primeira vez aos oito anos para ver “A última cruzada” em um daqueles cinemas da Saens Peña. Lembro de estufar o peito e andar na ponta dos pés para enganar a bilhetera e burlar a censura de 12 anos.

Neste sentido, “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” funciona razoavelmente bem. Confesso que me senti em casa logo no início, com a introdução de Indy por uma sombra no carro e notas do tema clássico de John Williams. Passaram-se 20 anos, mas o que vemos é aquela mesma composição no quadro, a mesma luz, o mesmo ritmo nos cortes, as tiradas, o clima, o espírito das velhas matinês de aventura da Hollywood clássica. Spielberg nos mostra como sabe trabalhar e valorizar os ícones e marcas construídos ao longo de sua carreira, desarmando e seduzindo o espectador nessa aventura nostálgica.

O problema é que não tenho mais oito anos. Não basta, por mais genuíno que seja, aquele entusiasmo lúdico que as improváveis (como nunca) aventuras de Indy me inspiram. O roteiro é de uma complexidade meio boba, e o conflito, quando estabelecido, se desenvolve de maneira esquemática, pontuado por diversas reviravoltas um tanto forçadas. Alguns personagens também me pareceram talvez um pouco mal construídos... em especial o do Ray Winstone. Depois da sedução inicial, até a enciclopédia de citações à trilogia da série funciona muito mais como pequenas piadas. Talvez falte vida a este filme. Ou então sou que estou ficando velho.

Bodas de papel *

Em “Bodas de Papel”, estamos certamente em território romântico, com forte tendência às lágrimas. O filme opera a partir de algumas variações em torno dos códigos preestabelecidos (em sua maioria, muito previsíveis) deste gênero. Os personagens não são exatamente práticos nessa história de amores, e costumam encontrar no destino uma força um tanto irônica ou perversa. Sturm até ensaia uma investigação sobre este destino e o que fazer com ele, sobre a insensatez em boa parte dos que amam, mas não segue estas promessas adiante.

O filme transpira melancolia. O bolero na trilha - que, aliás, em alguns momentos, lembra um fado – e as cenas de memórias (flashbacks ou não) passam uma idéia de que tudo poderia ter sido diferente (quem sabe, melhor). O título original das histórias de "Serendipity" (que o avô conta para Nina) vem de uma palavra sem tradução para o português que significa algo como "talento para a sorte", uma capacidade de viver belas coincidências por acaso. Mas em “Bodas de Papel”, os personagens não têm sorte, são sempre obrigados a recomeçar tudo de novo. Estranho.

“Bodas de Papel” segue em um ritmo talvez descuidado, e, apesar de recorrer algumas vezes a um sentimentalismo um tanto rasteiro, gera e inspira poucos sentimentos. O grande problema é que o cineasta e o fotógrafo Fábio Cabral muitas vezes dificultam o envolvimento do espectador. O filme rejeita o plano/contraplano em nome de uma câmera que não sabe muito bem para onde ir, que passeia desgovernada de um lado para outro e chama demais atenção para si mesma. E a montagem de Cristina Amaral parece por vezes dispensar muito pouco tempo a seqüências cruciais para o desenvolvimento da relação dos protagonistas.


Apenas uma vez ****

“Apenas uma vez” foi uma grata surpresa pra mim. É um filme simples, barato, pequeno, recheado de gestos e olhares minúsculos e cheios de sentimento. O diretor John Carney narra o encontro e a criação de cumplicidade entre um músico amador (Glen Hansard) e uma imigrante tcheca (Markéta Irglová). Este encontro se transforma em uma espécie de celebração dos mais variados sentimentos através da música.

Ambos os atores (em especial, é verdade, Glen Hansard) são de um magnetismo fascinante e difícil de ser explicado. Não há como passar imune à força de suas presenças no quadro. Carney demonstra um olhar sensível na construção dos espaços e das relações entre pai e filho, mãe e filha, além da curiosa comunidade de imigrantes. “Apenas uma vez” também se mostra um filme aberto, cheio entradas para o pensamento. Os personagens não têm nome. Informações como o país de origem dela surgem sem alarde, no seu tempo. Em determinado momento, ele pergunta para ela se ainda ama seu marido. Ela responde em tcheco e o filme não traduz.

Carney não é intimo da mise-en-scène, não parece muito preocupado com a imagem, com o posicionamento da câmera, com a composição da cena. O cineasta faz uma aposta perigosa, mas que dá certo. Em “Apenas uma vez”, estilos, técnicas ou efeitos não podem se sobrepor à musica. É uma aposta na qualidade das canções, na força encantatória das interpretações dos músicos, e na capacidade delas para sedimentar um canal afetivo e inquebrantável com o expectador. Funcionou maravilhosamente comigo.

sexta-feira, junho 20, 2008

roda viva

Repasso aqui uma dica bem legal: neste site encontram-se transcritas todas as entrevistas da história do “Roda Vida”. Vale a pena dar uma olhada. Tem muita coisa boa.

quinta-feira, junho 19, 2008

mais stewie

Ando meio longe. Desculpem.

Para comemorar as 10 mil visitas do Kinos, segue aqui mais um Stewie. Dessa vez, ele ataca Matthew McConaughey. Não tem o vídeo, apenas o áudio. Mas é o suficiente. Escutem.

terça-feira, junho 10, 2008

anos 2000

Segue minha lista dos 20 melhores filmes dos anos 2000, enviada para o ranking da Liga dos Blogues Cinematográficos.

Mal dos Trópicos (2004), Apichatpong Weerasethakul
Elefante (2003), Gus Van Sant
Dez (2002), Abbas Kiarostami
Plataforma (2000), Jia Zhang-ke
Vou Para Casa (2001), Manoel de Oliveira
Fale com Ela (2002), Pedro Almodóvar
Vai e vem (2003), João César Monteiro
O intruso (2004), Claire Denis
Os Amantes Constantes (2005), Philippe Garrel
Eureka (2000), Shinji Aoyama
Juventude em marcha (2006), Pedro Costa
O Invasor (2001), Beto Brant
Millennium Mambo (2001), Hou Hsiao-hsien
Cidade dos sonhos (2001), David Lynch
Kill Bill Vol. 2 (2004), Quentin Tarantino
Reis e Rainha (2004), Arnaud Desplechin
A Morte do Sr. Lazarescu (2005), Cristi Puiu
Amor a flor da Pele (2000), Wong Kar Wai
George Washington (2000), David Gordon Green
Medos Privados em Lugares Públicos (2006), Alain Resnais

Abaixo, uma lista enorme dos filmes mais importantes da década. Ano por Ano. Alguns eu infelizmente ainda não vi. Estão na lista por serem fortes recomendações de amigos ou por estarem em rankings de uma ou outra revista/crítico que gosto.


2000
Chunhyang - Amor Proibido(Im Kwon-taek)
George Washington (David Gordon Green)
Os catadores e eu (Varda)
O coração do mundo (Guy Maddin)
Amor a flor da Pele (Wong Kar Wai)
Mysterious Object at Noon (Apichatpong Weerasethakul)
Plataforma (Jia Zhang-ke)
Esther Kahn (Arnaud Desplechin)
A Prisioneira (Chantal Akerman)
O Mundo de Andy (Milos Forman)
Missão: Marte (Brian De Palma)
As Coisas Simples da Vida (Edward Yang)
Conte comigo (Kenneth Lonergan)
Palavra e utopia (Manoel de Oliveira)
Dançando no Escuro (Lars Von Trier)
Werkmeister Harmonies (Bela Tarr)
The House of Mirth (Terence Davies)
O tigre e o dragão (Ang Lee)
O círculo (Jafar Panahi)
Eureka (Shinji Aoyama)
O Tempo e a Maré (Tsui Hark)
Brother (Takeshi Kitano)
A Cidade Está Tranquila (Robert Guédiguian)
Teia do Chocolate (Claude Chabrol)
O Dia do Perdão (Amos Gitai)
A Virgem Desnudada por Seus Celibatários (Hong Sang-Soo)
No quarto e Vanda (Pedro Costa)
O fantasma (João Pedro Rodrigues)


2001
A.I. (Steven pielberg)
Vou Para Casa (Manoel de Oliveira)
The Mad Songs of Fernanda Hussein (John Gianvito)
Operarios, camponeses (Straub / Huillet)
Jean Marie Straub, Danielle Hulliet, Cineastas ¿ Onde Jaz Seu Sorriso? (Pedro Costa)
Pistol Opera (Seijun Suzuki)
Waking Life (Linklater)
Que Horas São Ai? (Tsai Ming Liang)
A Inglesa e o Duque (Eric Rohmer)
Millennium Mambo (Hou Hsiao-hsien)
Sauvage innocence (Philippe Garrel)
Sobibor, 14 octobre 1943, 16 heures (Claude Lanzmann)
O Quarto do Filho (Nanni Moretti)
A Viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki)
E sua mãe também (Alfonso Cuarón)
Shrek (Andrew Adamson)
Cidade dos sonhos (David Lynch)
Os Excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson)
O Miado do Gato (Peter Bogdanovich)
O Invasor (Beto Brant)
Lúcia e o Sexo (Julio Medem)
A Agenda (Laurent Cantet)
Elogio ao Amor (Jean-Luc Godard)
Fantasmas de Marte (John Carpenter)
Quem Sabe? (Jacques Rivette)
O Pântano (Lucrecia Martel)
Desejo e Obsessão, de Claire Denis
Sobre Meus Lábios (Jacques Audiard)
Onde jaz o seu sorriso? (Pedro Costa)
Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho)
Toutes les nuits (Eugène Green)
En construcción (Jose Luis Guerin)
Pulse (Kiyoshi Kurosawa)
Ichi - O Assassino (Takashi Miike)

2002
Femme Fatale (Brian de Palma)
Arca Russa (Alexander Sokurov)
Spider (David Cronenberg)
Springtime in a Small Town (Tian Zhuangzhuang)
A Ultima Noite (Spike Lee)
Coisas Secretas (Jean-Claude Brisseau)
Dez (Abbas Kiarostami)
Eternamente Sua (Apichatpong Weerasethakul)
De l'autre côté (Chantal Akerman)
O Princípio da Incerteza (Manoel de Oliveira)
A Hora da Religião (Marco Bellocchio)
Fale com Ela (Pedro Almodóvar)
Gerry (Gus Van Sant)
O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (Peter Jackson)
Longe do Paraíso (Todd Haynes)
As horas (Stephen Daldry)
Embriagado de amor (Paul Thomas Anderson)
Gangues de Nova York (Martin Scorsese)
Cidade de Deus (Kátia Lund e Fernando Meirelles)
Edifício Master (Eduardo Coutinho)
Madame Satã (Karim Aïnouz)
Rocha Que Voa (Eryk Rocha)
Marie-Jo e seus Dois Amores (Robert Guédiguian)
O Homem Sem Passado (Aki Kaurismäki)
Dolls (Takeshi Kitano)
O Homem Que Copiava (Jorge Furtado)
O Pianista (Roman Polanski)
O Filho (Luc e Jean-Pierre Dardenne)
Adaptação (Spike Jonze)
Outro Lado da Lei (Pablo Trapero)
Intervenção Divina (Elia Suleiman)
Sexta-feira à noite (Claire Denis)
Conflitos Internos (Andrew Lau e Alan Mak)
Japão (Carlos Reygadas)
Irreversível (Gaspar Noé)
A Flor do Mal (Claude Chabrol)


2003
Ouro Carmim (Jafar Panahi)
Abaixo ao Amor (Peyton Reed)
Elefante (Gus Van Sant)
Go Further (Ron Mann)
Adeus, Dragon Inn (Tsai Ming Liang)
The Same River Twice (Rob Moss)
Sob a névoa da Guerra (Errol Morris)
Encontros e desencontros (Sofia Coppola)
Kill Bill Vol. 1 (Quentin Tarantino)
Sobre Meninos e Lobos (Clint Eastwood)
O Exterminador do Futuro 3 – A Revolta das Máquinas (Jonathan Mostow)
Zatoichi (Takeshi Kitano)
Looney Tunes: De Volta à Ação (Joe Dante)
A História de Marie e Julien (Jacques Rivette)
Hulk (Ang Lee)
Nelson Freire (João Moreira Salles)
Era uma Vez no México (Robert Rodriguez)
West of the Tracks (Wang Bing)
S-21 - A Máquina de Morte do Khmer Vermelho (Rithy Panh)
The Brown Bunny (Vincent Gallo)
Shara (Naomi Kawase)
Café Lumière (Hou Hsiao-hsien)
O Prisioneiro da Grade de Ferro (Paulo Sacramento)
Ligado em Você (Peter e Bobby Farrelly)
Filme de Amor (Julio Bressane)
Um Filme Falado (Manoel de Oliveira)
Bom Dia, Noite (Marco Bellochio)
Oldboy (Park Chan-wook)
A melhor juventude (Marco Tullio Giordana)
Vai e vem (João César Monteiro)
Procurando Nemo (Andrew Stanton)
X-Men 2 (Bryan Singer)
Prova de Amor (David Gordon Green)
Dogville (Lars Von Trier)
Gozu (Takashi Miike)
Distante (Nuri Bilge Ceylan)
Amarelo Manga (Cláudio Assis)
Le Monde Vivant (Eugène Green)


2004
Mal dos Trópicos (Apichatpong Weerasethakul)
A Vila (M. Night Shyamalan)
Reis e Rainha (Arnaud Desplechin)
Kill Bill Vol. 2 (Quentin Tarantino)
Sarabanda (Ingmar Bergman)
Antes do Pôr-do-sol (Richard Linklater)
Família Rodante (Pablo Trapero)
O Âncora (Adam McKay)
Os Incríveis (Brad Bird)
Colateral (Michael Mann)
A Mulher É o Futuro do Homem (Hong Sang-Soo)
O Mundo (Jia Zhang-ke)
1/3 des yeux (Olivier Zabat)
O diamante branco (Werner Herzog)
Menina de Ouro (Clint Eastwood)
Menina Santa (Lucrecia Martel)
Nossa Música (Jean-Luc Godard)
Clean (Olivier Assayas)
A Vida Marinha com Steve Zissou (Wes Anderson)
Ninguém Pode Saber (Hirokazu Kore-Eda)
O Aviador (Martin Scorsese)
O intruso (Claire Denis)
2046 (Wong Kar Wai)
Questão de Imagem (Agnès Jaoui)
Five (Abbas Kiarostami)
Los Muertos (Lisandro Alonso)
Doze Homens e Outro Segredo (Steven Soderbergh)
Homem-Aranha 2 (Sam Raimi)
A dama de honra (Claude Chabrol)
Pont des Arts, Le (Eugène Green)
The Power of Nightmares: The Rise of the Politics of Fear (Adam Curtis)
O gosto do chá (Katsuhito Ishii)
All Ships at the Sea (Dan Salitt)
A ferida (Nicolas Klotz)
O quinto império (Manoel de Oliveira)


2005
Last Days (Gus Van Sant)
Os Amantes Constantes (Philippe Garrel)
Marcas da Violência (David Cronenberg)
O Pequeno Tenente (Xavier Beauvois)
Three Times (Hou Hsiao-hsien)
A Tale of Cinema (Hong Sang-soo)
O Homem Urso (Werner Herzog)
Sin City - A Cidade do Pecado (R. Rodriguez e F. Miller)
O Signo do Caos (Rogério Sganzerla)
Penetras Bons de Bico (David Dobkin)
Terra dos Mortos (George A. Romero)
O Virgem de 40 Anos (Judd Apatow)
Cidade Baixa (Sergio Machado)
Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes)
No Direction Home (Martin Scorsese)
Kung Fusão (Stephen Chow)
Amor em Jogo (Peter & Bobby Farrelly)
Caché/Hidden (Michael Haneke)
Brokeback Mountain (Ang Lee)
Munich (Steven Spielberg)
Paradise Now (Abu-Assad)
O novo mundo (Terrence Malick)
De Tanto Bater, Meu Coração Parou (Jacques Audiard)
Batman Begins (Christopher Nolan)
Orgulho e preconceito (Joe Wright)
A Morte do Sr. Lazarescu (Cristi Puiu)
Crime delicado (Beto Brant)
A Criança (Jean-Pierre & Luc Dardenne)
Mutual Appreciation (Andrew Bujalski)
49 Up (Michael Apted)
The Island at the End of the World (Raya Martin)
Eleição (Johnnie To)
Maria (Abel Ferrara)
O sabor da melancia (Tsai Ming-Liang)
Meu Deus, Meus Deus, por que me abandonaste? (Shinji Aoyama)


2006
O céu de Suely, de Karim Aïnouz
Miami Vice (Michael Mann)
Dália negra (Brian De Palma)
O Plano Perfeito (Spike Lee)
A Dama na Água (M. Night Shyamalan)
Volver (Pedro Almodóvar)
The Queen (Stephen Frears)
Borat (Larry Charles e Sacha Baron Coen)
Half Nelson (Ryan Fleck)
Império dos Sonhos (David Lynch)
A Scanner Darkly (Richard Linklater)
Old Joy (Kelly Reichardt)
O labirinto do Fauno (Guillermo del Toro)
A Conquista da Honra (Clint Eastwood)
Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood)
A última noite (Robert Altman)
Filhos da esperança (Alfonso Cuarón)
Casino Royale (Martin Campbell)
When the Levees Broke (Spike Lee)
Shortbus (John Cameron Mitchell)
Maria Antonieta (Sofia Coppola)
Síndromes e um século (Apichatpong Weerasethakul)
O hospedeiro (Bong Joon-ho)
Juventude em marcha (Pedro Costa)
Black Book (Paul Verhoeven)
Em busca da vida (Jia Zhangke)
Mulher na praia (Hong Sang-soo)
Medos Privados em Lugares Públicos (Alain Resnais)
Belle Toujours (Manoel de Oliveira)
Fora do jogo (Jafar Panahi)
Brand Upon the Brain! (Guy Maddin)
Bamako (Abderrahmane Sissako)
Exiled (Johnnie To)
Eleição 2 (Johnnie To)
These Encounters of Theirs (Straub-Huillet)
A Short Film About the Indio Nacional (Raya Martin)
This Is England (Shane Meadows)
A comédia do poder (Claude Chabrol)
Possuídos (William Friedkin)
Anjos Exterminadores (Jean-Claude Brisseau)
Lady Chatterley (Pascale Ferran)
Ricky Bobby (Adam McKay)
Opera Jawa (Garin Nogroho)
After This Our Exile (Patrick Tam)
Serras da Desordem (Andrea Tonacci)


2007
Go Go tales (Abel Ferrara)
Tropa de Elite (José Padilha)
Os Donos da Noite (James Gray)
Cão Sem Dono (Beto Brant e Renato Ciasca)
Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (Sidney Lumet)
Jogo de Cena (Eduardo Coutinho)
Sangue Negro (Paul Thomas Anderson)
Não Estou Lá (Todd Haynes)
Zodíaco (David Fincher)
Ligeiramente Grávidos (Judd Apatow)
Onde Os Fracos Não Têm Vez (Joel e Ethan Coen)
Senhores do crime (David Cronenberg)
Luz Silenciosa (Carlos Reygadas)
Paranoid Park (Gus Van Sant)
My Winnipeg (Guy Maddin)
Le voyage du ballon rouge (Hou Hsiao-Hsien)
En la Ciudad de Sylvia (Jose Luis Guerin)
Uma velha amante (Catherine Breillat)
O Amor de Astrée e de Céladon (Eric Rohmer)
Não toque no machado (Jacques Rivette)
Alexandra (Alexander Sokurov)
Diary of the Dead (George A. Romero)
Encounters at the End of the World (Werner Herzog)
Profit Motive and the Whispering wind (John Gianvito)
A questão humana (Nicolas Klotz)
The Trap: What Happened to Our Dream of Freedom (Adam Curtis)
Floresta dos Lamentos (Naomi Kawase)
Fengming – Memórias De Uma Chinesa (Wang Bing)
Sad Vacation (Shinji Aoyama)
La France (Serge Bozon)
Ratatouille (Brad Bird)
O ultimato Bourne (Paul Greengrass)
Antes que eu me esqueça (Jacques Nolot)
Secret Sanshine (Lee Chang-dong)
Boarding Gate (Olivier Assayas)
Baixio das bestas (Cláudio Assis)
Uma Moça Dividida Em Dois (Claude Chabrol)

quinta-feira, junho 05, 2008

atom egoyan

Durante toda a próxima semana, das 19h às 22h, o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ (Praia Vermelha) exibirá filmes do canadense Atom Egoyan. Programação:

DIA 9 (segunda) - Next of Kim (Canadá, 1984, 72 min.).

DIA 10 (terça) - Family Viewing (Canadá, 1987, 86 min.)

DIA 11
(quarta) - Speaking Parts (Canadá, 1989, 92 min.)

DIA 12 (quinta) - Calendar (Canadá, 1993, 75 min).

DIA 13 (sexta) - The Adjuster (Canadá, 1992, 102 min.)

Os filmes são exibidos em DVD, falados em inglês e armeno, com legendas em inglês.

Segue o link de meu texto sobre o filme "Condor" publicado lá na Cinética.

sexta-feira, maio 30, 2008

kar-wai e escorel


Beijos roubados **

Fiquei decepcionado com esse “Beijos roubados”. Trata-se, sem dúvida, de um Kar-Wai genuíno: mais uma história embalada por um uso expressivo da música e recheada de enquadramentos sofisticados, de imagens granuladas, de movimentos sedutores e sugestivos, de variações de foco e ritmo que nos fala sobre a fugacidade do tempo, sobre a impossibilidade de permanência do que quer que seja, sobre pessoas se apaixonado e desapaixonando. Não é um simples remake de seu cinema na China, como o próprio cineasta disse, mas uma espécie de adaptação para os EUA. Esse movimento, no entanto, não me agrada. Tudo parece passar rápido demais, todos falam demais (o personagem de Jude Law mais parece uma daquelas crianças sabe-tudo de novela das seis), os sentimentos são todos verbalizados, e tem até happy end.

O que mais me incomoda em “Beijos roubados” é que pela primeira vez tive a impressão de que todo esse domínio e virtuosismo do cinema de Kar-Wai parecem empregados para serem apenas “bonitos” - ao contrário de seus filmes anteriores, em que estes elementos audiovisuais tinham como primeira função significar um universo de um romantismo exacerbado, de solidão e alguma alienação, por onde vagavam seus personagens. Tive a impressão de que agora faz sim um certo sentido falar em um esteticismo vazio. Falta sentimento em “Beijos roubados”. Bons momentos estão lá, mas parecem apenas demonstrar o talento do cineasta e cumprir a expectativa de uma assinatura autoral vencedora.


O tempo e o lugar ***

Logo em suas primeiras seqüências, “O tempo e o lugar” nos abre o jogo. A voz off do documentarista Eduardo Escorel fala de Genivaldo da Silva e os encontros que se estabeleceram entre ele e o cineasta ao longo dos últimos 10 anos. Escorel descobriu Genivaldo ao fazer a série para TV “Gente que Faz”, em 1996, gravou uma extensa entrevista com ele em 2005, e voltou dois anos mais tarde à pequena cidade de Inhapi para reencontrá-lo.

São personagens como Genivaldo (em uma trajetória que vai da Pastoral da Terra ao Sindicato de Trabalhadores Rurais e ao MST, passando pelo apoio e futura rejeição ao governo Lula) que motivam o cinema documentário de Escorel e sua persistência na tentativa de, como ele mesmo diz, “decifrar um enigma chamado Brasil”.

“O tempo e o lugar” faz uso dos materiais rodados em 96, em 2005 e em 2007, e procura incorporar em sua narrativa o seu próprio processo de feitura, em uma estrutura que se pretende circular e não cronológica. “O tempo e o lugar” nos propõe uma contraposição entre a linguagem publicitária do "Gente que Faz" e a linguagem documental, a partir da qual acredita-se que surja um outro personagem. A seguir, a idéia é registrar e confrontar estes diferentes “Genivaldos”. Fica claro, desde o início, o prazer com qual Genivaldo se entrega à releitura de sua vida, e a clareza e o controle que Escorel têm de seus materiais e intenções.

O problema é que talvez este destrinchar nunca se dê exatamente. Na verdade, não há exatamente um aprofundamento da personalidade de Genivaldo – é curioso, por exemplo, como o personagem de 2005 e o de 2007 concordam em tudo. Escorel tenta também comer pelas beiradas: as qualidades e defeitos de Genivaldo expressam-se em sua família. Mas os encontros de Escorel com os filhos de Genivaldo parecem mais reforçar uma certa idéia do que vem a ser este personagem do que pô-lo em crise. Ainda pelas beiradas, Escorel parece por vezes interessado em registrar como a política se dá nestes pequenos municípios brasileiros, noutras a câmera se entrega a beleza simples dos moradores da região de Inhapi. São momentos bonitos, sem dúvida, mas que talvez acrescentem muito pouco ao desvelamento do personagem.

quinta-feira, maio 15, 2008

cinética e cinema-scope

- A canadense Cinema-Scope é pra mim a melhor revista de cinema hoje. Recomendo a assinatura. Ainda mais agora, que cada nova edição trará um DVD. Para se ter uma idéia, a próxima Cinema-Scope virá acompanhada do DVD de "Juventude em Marcha", do Pedro Costa. A revista é bimensal e a assinatura anual para estrangeiros custa 40 dólares. Vale a pena.
- Um texto meu sobre o último BAFICI foi publicado lá na Cinética. Quem quiser ler, é só clicar aqui.

quinta-feira, maio 08, 2008

dois brasileiros


Chega de Saudade **1/2

Gostei de “Chega de Saudade”. Concordo que em alguns momentos há racionalismo demais na busca por uma fluidez, por uma autenticidade. O roteiro acaba se fazendo presente em diversas seqüências. Na verdade, o roteiro é mesmo um pouco esquemático na maneira pela qual traça as ilustrações musicais, pelo fato de quase todos os personagens e seus conflitos terem de ser verbalizados (com a exceção do Marquinhos, em boa atuação do Paulo Vilhena). Pode-se se dizer também que os demais casais acabam não sendo tão vibrantes como o de Villhena/Flor e Nercessiam/Kiss. Nos momentos em que Alberto, o personagem de Leonardo Vilar, evoca seu passado, o filme assume um outro registro, interrompendo um pouco a fluência da narrativa. O amigo Marcelo Ikeda ainda levanta uma questão pertinente: talvez aquela câmera fluida do Walter Carvalho esteja em um certo desacordo com o “público-alvo” do filme.

No entanto, gostei de “Chega de saudade”. Fui mesmo envolvido pelo filme. Laiz Bodanzky opera sempre no risco dramático, e, assim como em “Bicho de sete cabeças”, “Chega de saudade” flui sedutor pelo espaço, trabalha com cortes adocicados e cheios de sugestões, em uma narrativa ágil. A montagem de Paulo Sacramento costura tudo no ritmo da música, ora um samba, ora bolero. Acompanhamos de perto o drama que envolve os personagens de Maria Flor, Vilhena, Cássia Kiss e Nercessian (em grande atuação). O ciúme do jovem Marquinhos diante do pé de valsa e bom de lábia Eudes, e a insegurança solitária de Marici perante a beleza ingênua de Bel são conduzidos com muita sensualidade e ambigüidade. A personagem de Maria Flor me parece bem delineada, cumprindo uma função toda particular dentro da estrutura do filme, funcionando como uma espécie de guia do espectador por aquele universo. Acho legal também como Bodanzky e sua equipe fazem transbordar libido nesse baile. Os personagens parecem por vezes adolescentes, mas sem aquelas ansiedades ou ingenuidades.

Falsa Loura ****

Carlos Reichenbach alimenta uma descrença no centro, em um Brasil oficial e na representação que dele é feita. Como disse certa vez o crítico Inácio Araújo, o seu cinema sempre entra pela porta dos fundos, pela entrada de serviço, onde flagramos aquilo que nosso país ou cidade parecem empenhados em esconder. Carlão faz um cinema eminentemente ético, sem um glamour especial, sem um appeal programado, mas libertário, emocionado e emocionante. Carlão tem fé no cinema. A cada filme, um novo universo de personagens e suas excentricidades, e a mesma generosidade de sempre. Este “Falsa Loura” está certamente entre seus melhores filmes.

Aos poucos, Reichenbach nos apresenta e nos aproxima dos personagens, mostra suas contradições e explora sempre o inusitado de um universo recheado de clichês. E estes clichês preenchem o universo destas mulheres. Mais uma vez, destaca-se a total adesão do realizador aos caminhos da protagonista. Reichenbach acredita em sua personagem, concede a ela o direito de errar sozinha.

Percebe-se também que, em relação a “Garotas de ABC” e “Bens Confiscados”, “Falsa Loura” declara de maneira mais explícita os seus artifícios - talvez esta opção esteja intimamente relacionada com o movimento do filme, que trata de personagens repletos de máscaras. A fotografia de Jacob Solitrenick e a montagem de Cristina Amaral contribuem também para a construção de um sentido que abraça o acidental e a imperfeição. É o caso, por exemplo, da belíssima primeira cena do filme.

“Falsa Loura” pertence à família dos longas femininos de Carlão, como "Lilian M" (1974) e "Anjos do Arrabalde" (1986) - lembra também o “A moça com a valise” (1961) de Valerio Zurlini, um cineasta por quem Reichenbach é confessadamente influenciado. São filmes que transbordam um fascínio por mulheres proletárias e seus confrontos cotidianos com a vida. Silmara pertence a esta estirpe de heroínas, sempre à beira do abismo. Vítimas das circunstâncias que insistem em não se entregar a elas. Talvez a diferença seja a incrível simbiose entre a generosidade estética e uma visão dura e crítica em relação aos devaneios da protagonista. “Falsa Loura” é um conto moral, sem nunca ser moralista. O filme é cruel, mas nunca deixa de ser generoso e solidário em relação às opções de Silmara.

dicas

Vale a pena dar uma conferida na programação da cinemateca do MAM. Na segunda metade do mês de maio, haverá uma mostra curiosa intitulada “1968 Autoritarismo/Convulsão/Revolução”. Entre os destaques estão: “A chinesa” (1967) de Godard, “Cara a Cara” (1968) de Julio Bressane, “Sangre de condor” (1969) de Jorge Sanjinés, “Zabriskie point” (1969) de Michelangelo Antonioni, “Amantes constantes” (2004) de Philippe Garrel, “Teorema” (1968) de Pier Paolo Pasolini, e “Loin du Vietnam” de Joris Ivens, William Klein, Claude Lelouch, Agnès Varda, Jean-Luc Godard, Chris Marker e Alain Resnais.

O Cine-Puc continua com ótima programação. O mês de maio será dedicado a incrível cineasta japonesa, Naomi Kawase. Para ver os horários, clique
aqui.

Durante toda a próxima, o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ (Praia Vermelha) exibirá filmes de dois importantes cineastas japoneses: Hirokazu Kore-eda e Shinji Aoyama.

DIA 12 de Maio (segunda-feira), 19 hrs – Maborosi: A Luz da ILusão, de Hirokazu Kore-eda (Japão, 1995, 110 min) – legenda em Português

DIA 13 de Maio (terça-feira), 19 hrs – Depois da Vida, de Hirokazu Kore-eda (Japão, 1998, 118 min) – legenda em Português

DIA 14 de Maio (quarta-feira), 19 hrs - Ninguém Pode Saber, de Hirokazu Kore-eda (Japão, 2004, 141 min) – legenda em Português

DIA 15 de Maio (quinta-feira), 19 hrs. – Eureka, de Shinji Aoyama (Japão, 2000, 217 min) – legenda em Inglês

DIA 20 de Maio (terça-feira) 15 hrs. – Palestra da Profa. Linda Erlich: "`Nobody Knows' and and the Resonant Gesture on Screen"
O blog pós-aposentadoria de Jonathan Rosenbaum.
Uma frase que escrevi em um texto sobre “Conversas do Maranhão” (1977-83) gerou uma discussão legal lá na Cinética. As trocas de e-mails estão publicadas aqui.

quinta-feira, maio 01, 2008

uma família da pesada - amamentação

Quem não conhece: passa, de segunda a sexta, no FX. Sempre às 18h, se não me engano.

jacques demy


Andei revendo alguns filmes do Jacques Demy. Gosto muito do que conheço dele, em especial “Lola” (1961) e “Duas garotas românticas” (1967). Fico sempre extasiado com a expressão corporal dos atores, com as cores, com os belíssimos movimentos de câmera (que traduzem a liberdade almejada pelos personagens e botam as locações para dançarem), a música de Michel Legrand e a conseqüente mise-en-musique do cineasta. O cinema do Demy é como um revigorante, uma aposta na sétima arte como um instrumento de projeção de nossos sonhos, um poderoso antídoto a filmes como “Crash” (2004) e “Babel” (2005).

Discordo que seja um cinema escapista ou ingênuo. Os problemas estão todos lá. Mães perdem o contato com seus filhos, esposas são abandonadas por seus maridos, personagens convivem aos trancos e barrancos com vícios, jovens não sabem o que querem da vida, os desencontros, as desilusões, uma sociedade que gira, gira e não sai do lugar. A grande diferença é que se pede e se aceita desculpas no cinema de Demy. É curiosa a freqüência com que os personagens se pedem desculpas e se perdoam uns aos outros. Não há rancor no cinema de Demy. O cinema do francês, como ele mesmo dizia, é Max Ophüls e Robert Bresson, leveza e gravidade. Em outras palavras, o que mais me agrada é a visão de mundo de Demy. Apesar de todos os pesares, os personagens do cineasta decidiram ser felizes. E, como diz o Roland Cassard (Marc Michel) em “Lola”, “Desejar a felicidade já é ser um pouco feliz”.