sábado, março 31, 2012

marli de feira de santana

Talvez vocês já tenham visto estes vídeos abaixo. O primeiro tem uns dez anos. O outro é mais recente. Não sei muito bem a história da Marli. Acho que o menino que morava na casa onde ela trabalhava a viu cantar e a ajudou a fazer este primeiro vídeo. Com o passar do tempo, o menino virou produtor. O vídeo ficou mais "profissional" e tal... Mas, sinceramente, prefiro muito mais o primeiro. Acho ele bem mais legal. Dá pra sentir a enorme vontade das pessoas envolvidas em fazer aquilo. Entende? O segundo não, é mais limpo, certinho, "profissional".




quarta-feira, março 28, 2012

o porto***

Este novo filme de Aki Kaurismäki é de uma integridade invejável. A palavra me veio à cabeça durante a sessão. Depois fui ao dicionário ver se a coisa era mesmo adequada. Vejam só: "s. f. Estado de uma coisa que tem todas as suas partes: a integridade de uma soma. Qualidade do que é inteiro, completo. Fig. Qualidade de uma pessoa íntegra, honesta, incorruptível". Acho que tem mesmo tudo a ver. Porque a sensação é a de que o que vemos na tela só poderia se dar daquela maneira. O " que" e o "como" são aqui uma única e mesma coisa.

segunda-feira, março 26, 2012

raul seixas **

Eu escrevi aqui brevemente sobre o “A música segundo Tom Jobim”, do Nelson Pereira dos Santos, e não consegui parar de pensar neste filme enquanto via “Raul Seixas”, do Walter Carvalho. Algo neste último filme me incomodava bastante, e, na comparação com o longa do Nelson, pude compreender um pouco melhor o que era aquilo. O fato é que “Raul Seixas” é uma obra “artística”, que busca fervorosamente o termo “artístico”. Quando a mão do cineasta se faz presente de maneira mais forte, é quase sempre para alcançar esse objetivo: as diversas sobreposições, a edição do momento em que Paulo Coelho mata uma mosca ou quando um amigo de Raul imita Elvis... Na verdade, comecei a pensar nos outros filmes dirigidos pelo Walter Carvalho (“Budapeste”, “Cazuza”, “Janela da alma”), e ele sempre foi um cineasta do excesso e marcado por uma necessidade de se afirmar como autor. E mais: tenho achado esse modelo “cabeças falantes” algo meio anacrônico. Ainda não sei bem explicar isso. Acho que não se consegue dar conta da coisa dessa maneira. Não sei.

terça-feira, março 20, 2012

john carter **

E não é que esse "John Carter" é divertido?! Seria um exagero dizer que trata-se de um bom filme, mas está longe da bomba que eu pelo menos esperava. O Ricardo Calil escreveu uma crítica bem legal lá na "Folha". Leiam abaixo:

RICARDO CALIL

CRÍTICO DA FOLHA

Depois de "Missão: Impossível - Protocolo Fantasma", de Brad Bird ("Ratatouille"), "John Carter: Entre Dois Mundos" é a segunda produção, em um ano, a recorrer a um diretor de animação da Pixar para dar consistência a um filme de aventura.

Nessa adaptação do livro "A Princess of Mars", de Edgar Rice Burroughs, o escolhido foi Andrew Stanton, diretor dos excelentes "Procurando Nemo" e "Wall-E".

Se Stanton não consegue um resultado com o frescor do mais recente "Missão: Impossível", ele parece ao menos salvar seu material do que poderia ser um desastre sem a sua presença.

O diretor imprime ao filme um espírito dos antigos seriados exibidos em matinês, como "Flash Gordon", em que a única complicação parecia vir dos nomes exóticos de personagens e de planetas.

"John Carter" quer uma fruição simples: protagonista que salta centenas de metros, monstros marcianos que se comportam como cachorros, alienígenas que remetem a tribos africanas, ritmo de aventura incessante e diálogos que indicam que o filme, sabiamente, não se leva a sério.

A esses prazeres talvez antiquados, Stanton adiciona outros mais modernos: efeitos especiais de ponta, cenários digitais grandiosos e uso eficiente do 3D.

Nesses aspectos, "John Carter" se aproxima da série "Star Wars" e de "Avatar" -que, não por acaso, também usaram a tecnologia para resgatar o clima dos antigos seriados de aventura.

A série de Burroughs se presta bem a esse tipo de operação. Nela, o capitão John Carter (Taylor Kitsch) é teletransportado misteriosamente dos Estados Unidos do século 19 para Marte (chamado pelos locais de Barsoom).

Ali ele se torna figura central de uma guerra civil que envolve os humanoides de Helium, com sua princesa Dejah Thoris (Lynn Collins), os de Zodanga, dominados pelo feiticeiro Matai Shang (Mark Strong), e ainda os alienígenas Tharks, liderados por Tars Tarkas (Willem Dafoe).

Por vezes, as relações entre os três grupos marcianos se tornam um tanto confusas -demonstrando que Stanton não conseguiu cumprir plenamente o projeto de uma diversão descomplicada.

Mas o principal problema de seu filme está na dupla de protagonistas, Kitsch e Collins, cuja beleza está num patamar bastante superior ao de seu talento dramático.

Ora eles parecem saídos de uma novela americana, ora parecem seres criados por computação gráfica, menos humanos (e carismáticos) do que os alienígenas do filme.

sábado, março 17, 2012

hugo cabret ***

“Hugo Cabret” é puro entretenimento. Um filme feito para crianças. Scorsese mostra-se, em primeiro lugar, interessado em contar uma boa história. Isto por vezes, especialmente em sua primeira hora, faz de “Hugo” uma sucessão meio aborrecida de convenções. Mas para alguém que gosta mesmo de cinema, parece-me difícil não se sentir atraído por esta história. Até porque “Hugo Cabret” é também uma forma de manifesto. Um filme feito para cinéfilos, de irmão para irmãos. Scorsese nos chama de mágicos, feiticeiros, sonhadores... e ainda busca, com as imagens em 3D e os muitos efeitos especiais, não somente um olhar para frente, sem medo, como também novas possibilidades de “maravilhamento”. “Hugo” é material contagioso. Este é o maior elogio que se pode fazer sobre este filme.

quarta-feira, março 14, 2012

fellini no ims

O IMS exibe desde sexta um bom número de filmes do italiano Federico Fellini - além de uma ampla exposição sobre sua vida e obra. Hoje tem "Amacord" e amanhã "Oito e meio". Vejam a programação aqui.

quinta-feira, março 08, 2012

a essa altura do campeonato...


Eu fiquei cheio de dúvida de postar isto aqui - até pra não dá trela para este tipo de coisa. Mas esta carta (publicada no O Globo), a essa altura do campeonato, é realmente de lascar.


domingo, março 04, 2012

a música segundo tom jobim ***

Gostei bastante deste filme do Nelson Pereira dos Santos. Talvez goste mais até do esforço de se fazer uma biografia diferente do que do filme propriamente dito. Na verdade, é estranho separar as coisas dessa maneira... Mas o fato é que estamos hoje vivendo em uma realidade em que a “ousadia” é um valor a priori (não só no cinema; o capitalismo contemporâneo incorporou os discursos das liberdades individuais dos anos 60 e 70). Hollywood mesmo é uma espécie de vale-tudo de “originalidades” vazias. Então, quando um cineasta faz uma biografia como “A música segundo Tom Jobim” sinto-me aliviado, inspirado e na obrigação de agradecê-lo.

quinta-feira, março 01, 2012

séries

- “Walking Dead”. Uma decepção esta segunda temporada. Eu gostei muito da primeira. Até cheguei a postar algo por aqui. Mas esta segunda (atualmente em seu décimo episódio) mais parece uma novela (no pior sentido da palavra): as situações se estendem ao máximo; os personagens, suas características, nos são reiteradas a todo o momento; e, o que é pior, agora temos mocinhos e bandidos entre os personagens. Isso sem contar com alguns problemas que não ocorriam na primeira temporada, como personagens que aparecem sem mais nem menos (como os dois jovens que vivem na fazenda).

- Eu achava impossível. Mas, depois dos dois primeiros episódios de sua terceira temporada, me parece que “Eastbound & down” está ainda mais engraçado. Pra mim, a melhor série do momento. Escrevi sobre ela no blog.

- Acabo de ver a terceira temporada de “Bored to death”. As duas primeiras foram incríveis. Jason Schwartzman, Zach Galifianakis e, especialmente, Ted Danson estão sensacionais na pele de três maconheiros inveterados e super amigos. Muito engraçado. Esta terceira temporada, contudo, me decepciono um pouco. A coisa ficou meio rocombolesca. Os personagens deram uma enlouquecida. A série andava mal de audiência e corria o risco de ser cancelada (o que ocorreu). Talvez tenha sido esse o problema.

- Eu acabei de ver o primeiro episódio de “Luck”, dirigido por ninguém menos que Michael Mann. Ainda não sei o que dizer. Muitos personagens. Uma realidade, um espaço, que eu não entendo muito bem. Uma câmera com parkinson. Belíssimos planos dos cavalos. Grandes atuações. É preciso esperar por alguns outros episódios.

- Aguardo, ansioso, pela estréia da terceira temporada de “Louie”, série cômica de um dos maiores comediantes de stand up da atualidade, Louie C..K (ele escreve, produz, dirige e monta). Gostei muito da segunda temporada, quando a série deixou de ser fundamentalmente cômica, e se colou à experiência de seu protagonista, um sujeito carismático de meia idade, comediante e pai de duas filhas. Um cara que parece estar sempre tomando as decisões erradas.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

sábado, fevereiro 25, 2012

a separação ***

Eu ando lendo por aqui alguns textos de filosofia política e, ao ver este “A separação”, não consegui parar de pensar em Rousseau. O pensador francês não busca organizar conceitos abstratos como a maior parte dos filósofos, mas conhecer e compreender o homem. Pra ele, o homem é bom por natureza, a sociedade é que o corrompe. Mais do que isso. O homem é perfectível, um animal em devir. A partir de uma inocência originária (que se mantém em nós sufocada), nos tornaríamos bons ou maus. Lembro de uma passagem de “Confissões”, a autobiografia de Rousseau, em que o autor descreve um incidente ocorrido entre ele e uma criada chamada Marrion. Ao serem chamados pelos donos da casa, ele a acusou de ter roubado uma fita (na verdade, o culpado era ele). Marrion foi expulsa e Rousseau sublinha ter sido este o maior erro de sua vida. Contudo, quando o confessa em seus escritos, declara jamais ter sido tão bom. Nem é preciso dizer quanta confusão isso criou na época. Até hoje, Rousseau parece-me classificado com um pensador, no mínimo, ingênuo.

Mas é importante entender que para ele existe uma inocência primitiva que está fora do bem e do mal, da virtude e do vício. Em sua infância, o homem é anterior à fase em que se tornará moral ou imoral: ele é inocente. A “bondade”, na infância e na vida adulta, não é nem boa nem má, mas uma espécie de valor psicológico e não ético. Está mais para uma espécie de predisposição espontânea para a piedade e a benevolência. Ser bom, para Rousseau, é colocar-se no lugar do outro. Ele sentiu o que Marrion sentia, condenava-se como ela o condenava. Mas, por timidez e por temor, não ousou dizer a verdade e cometeu o pior dos erros. Contudo, não foi bondade o que lhe faltou, e sim virtude.

E o que isso tem a ver com “A separação”? Acho que a descrição que Rousseau faz da natureza humana está em sintonia com o que vemos neste filme. Nenhum dos personagens é sacana ou mau. Na verdade, são todos boas pessoas. Querem fazer o bem, mas estão a todo o momento cometendo falhas. O que lhes falta, no entanto, mais uma vez, não é bondade, mas virtude. O curioso é que estas falhas, como bolas de neve, crescem, se expandem, contaminam tudo. A última sequencia do filme é paradigmática neste sentido. A inocência da filha do casal, atacada por todo o longa, é, no fim, corrompida por completo quando obrigam a menina a escolher um dos pais.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

terça-feira, fevereiro 21, 2012

j. edgar ***

Acho estranho quando um filme é desqualificado (como ocorreu, por exemplo, na crítica do “O Globo”) por problemas de maquiagem. Ok, a maquiagem de Di Caprio é mesmo ruim. E isso prejudica a nossa entrada no longa até certo ponto. Agora, “J. Edgar” é mais um ótimo filme de Clint Eastwood. É incrível como Eastwood consegue (nesta que é uma de suas assinaturas) construir relações humanas tão carregadas de sentimentos. Este é um filme de cenas antológicas: o beijo e a briga apaixonados e apaixonantes entre os dois protagonistas; a sequência em que Edgar coloca o vestido da mãe recém falecida e se vê no espelho; o último e terno beijo na testa de Tolson já no fim do filme.

Eastwood não quer chegar ao homem por trás do mito. Tampouco toma o personagem como exemplar - gosto muito como, no fim, Hoover não reconhece o mundo em que vive, embora tenha consciência de que ele foi um dos agentes privilegiados deste estado de coisas. O que interessa ao cineasta americano é um gesto de aproximação. Eastwood está sempre privilegiando o elemento humano. E tudo acontece de maneira natural, discreta, sem alardes. O cineasta seleciona e narra fatos. Através deles, identificamos obsessões, desejos e fantasmas. Um personagem próximo, porém distante e por vezes até mesmo incompreensível. Este, na verdade, tem sido um dos grandes mistérios do veterano realizador: ser claro e objetivo e ao mesmo tempo preservar fissuras e obscuridades latentes. Essas lacunas ajudam a entender a força das cenas citadas no primeiro parágrafo.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

o artista **

Eu não entendo como alguém queira fazer hoje um filme mudo. Não acho que não se deva fazê-lo. Não acho que um filme mudo contemporâneo seria inevitavelmente ruim. Eu só não entendo o que leva um cineasta a fazer um filme mudo hoje. E me incomoda bastante a maneira como “O artista” vem sendo promovido na mídia de maneira geral. É como se o “mudo” fosse uma espécie de valor a priori, como se sua mudez fosse algo por si só digno de elogios. Acho isso tão estranho. E, na verdade, me parece que essa questão está lá no filme. Embora “O artista” seja divertido e tenha lá suas grandes cenas (como quando a atriz coloca um de seus braços no paletó de seu ídolo ou quando o protagonista é engolido pela areia movediça), o cinema mudo para ele é algo como um verbete de dicionário, uma coisa meio morta, reduzida a códigos, regras e efeitos. Isto, aliás, é bem curioso. Por que, neste sentido, este filme de Michel Hazanavicius não poderia ser mais contemporâneo nessa sua valorização pelo estilo (como arte da cópia) e pela obediência a um certo número de regras. Fiquei pensando no “Machete”. São filmes opostos. “O artista” é sério, orgulhoso de seu ar de alta cultura, apesar de ter sido produzido para o consumo rápido das classes média do mundo inteiro. O filme de Rodrigues caracteriza-se por uma negação da seriedade, por um certo desprezo por instâncias oficiais de legitimação do gosto na arte e na cultura.

* outra coisa: não gosto da atuação e das caretas dos atores deste filme, com a exceção de John Goodman.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

os homens que não amavam as mulheres ***

Gostei de “Os homens que não amavam as mulheres”. Mas não muito. David Fincher é um cineasta competente, sem dúvida nenhuma. Contudo, há uma espécie de grife fincher... Não sei se me entendem. É como se Finhcer, agora um cineasta de qualidade consagrada, estivesse confortável, preguiçoso, pouco corajoso. Bom, talvez coragem, digamos, estética nunca tenha sido um forte de Fincher. Mas este “Os homens que amavam as mulheres”, embora sempre divertido, esteja, como apontou o J. Hoberman lá no “Village Voice”, mais para “evening stroll through a well-lit topiary garden” do que “a walk on the wild side”. Algo que me incomoda bastante neste filme é o elemento sueco mal resolvido. Os atores falam inglês com sotaque britânico e dizem vez ou outra palavras como “tak” ou “hej hej”. É meio ridículo isto, não? Talvez tenha sido uma imposição do estúdio. Talvez os produtores acreditassem que isto fosse bom para a aceitação do filme internacionalmente. A mim, no entanto, me parece faltar “culhão” ao longa. A cena de estupro de Lisbeth também me incomoda bastante. Não acho que não se deva filmar cenas de estupro. Não é isso. Mas vejam parte da sequencia abaixo. A montagem, a trilha, as interpretações dos atores... É uma cena por demais espetaculosa, na minha opinião. Ela não é narrada colada à experiência da mulher que está sendo estuprada (e vive aquilo de uma maneira nem um pouco espetaculosa), nem a do estuprador. A maneira como a sequencia é filmada diz muito mais respeito à grife fincher e a nos espectadores. Não sei. Vi o filme ontem. Ainda estou a pensar sobre estas coisas.

A trilha sonora de Trent Reznor é incrível. Vejam aí a versão de “Immigrant Song” do Led Zeppeling.