sábado, setembro 15, 2007

Plínio Marcos e Adam Sandler


Querô ***

Baseado no romance “Querô – Uma reportagem maldita”, escrito pelo dramaturgo Plínio Marcos na década de 70, o filme marca a estréia de Carlos Cortez na direção de longas-metragens ficcionais. Diretor e roteirista de trabalhos como “Seu Nenê da Vila Matilde” (2001) e “Geraldo Filme” (1998), Cortez construiu uma filmografia documental preocupada com personagens e curvas dramáticas, e estréia na ficção, como ele mesmo diz, “correndo atrás dos fatos”.

Em seu prólogo, “Querô” parece buscar sempre o close. É nessa proximidade que Cortez estabelece os códigos que regem a relação do filme com o seu protagonista. Filmado com duas câmeras 16mm sempre no mesmo eixo (uma mais ágil e próxima da cena em si, e a outra mais preocupada com a narração), a fotografia de Hélcio Alemão Nagamine e a montagem de Paulo Sacramento são feitas de planos-sequências e cortes que prezam pela agilidade e alternam narração e emoção (há também um belo jogo de telas pretas pontuando o filme). “Querô” está em plena sintonia com o cinema brasileiro recente. O filme tem aquela mesma movimentação de câmera, as variações de luz, a montagem ágil... e parece por vezes um tanto over em sua dramaticidade e estilo, como nos flashes de imagens mentais de seu protagonista que surgem como uma espécie de clipes alucinatórios.

“Querô” talvez se aproxime de Plínio Marcos pela sua capacidade de transitar do cru ao delicado com muita sensibilidade. Cortez reserva espaço para delicadezas na trajetória de Querô: ele se apaixona pela sobrinha do pastor (numa das melhores seqüências do longa) e alimenta uma relação fraternal com a dona da pensão em que vive. Essa dualidade que marcava o dramaturgo está ali no olhar ofendido e doce de Maxwell Nacimento – nesta que talvez seja a interpretação masculina mais marcante do cinema brasileiro desde o “Madame Satã” de Lázaro Ramos. E “Quero” ainda fecha sua história com um sorriso enigmático. Bonito mesmo.

Eu os declaro marido e... Larry ***


Oriundo da TV, quando ressuscitou o Saturday Night Live com um humor carinhosamente ofensivo em papeis como o Opera Man e o Canteen Boy, Adam Sandler é também grande sucesso no cinema. E foi Dennis Dugan, o cineasta por trás de “Um maluco no golfe” (1996) e “O paizão” (1999), que parece ter descoberto a fórmula do sucesso: Sandler é uma criança crescida, desrespeitoso em relação aos códigos de comportamento que regem a sociedade. A dupla está de volta e aprimorada em um novo sucesso, “Eu os declaro marido e... Larry”.


O roteiro nasceu de uma combinação curiosa entre Barry Fanaro, escritor e produtor da série “The Golden Girls”, e Alexander Payne e Jim Taylor (“Eleição”, “About Schmidt” e “Sideways. O filme cresce quando os personagens de Sandler e Kevin James (do seriado “King of Queens”) começam a ser investigados e têm de parecer gays. As pessoas têm de reconhecê-los como tal. Ao contrário de desserviços a humanidade como “O cruzeiro das loucas” (2003), “Eu os declaro marido e... Larry” parece reforçar clichês e estereótipos para fotogramas depois rir de quão ridículos e simplistas eles são. Questionado sobre sua homossexualidade, Chuck explica que adorava brincar de luta livre na escola, o cúmulo da homossexualidade para o personagem. E as pessoas que o cercam parecem aceitar isso como uma espécie de evidência.

É claro, “Eu os declaro marido e ... Larry” por vezes exagera, é vulgar e juvenil tanto quanto qualquer outro filme de Sandler, e parece um tanto perdido em seu último quarto. Mas definitivamente o filme não funcionaria sem os estereótipos. Para Sandler, que vem realmente aprimorando seu trabalho, o filme é mais uma chance para se reinventar na comédia e no drama - ele, assim como James, está ótimo no longa. E “Eu os declaro marido e... Larry” ainda conta com seqüências hilárias, além de um time impressionante de coadjuvantes (Dan Aykroyd, Ving Rhames, Steve Buscemi, Rachel Dratch, Nick Swardson, Rob Schneider, e David Spade). Como disse Nathan Lee no “Village Voice”, “Eu os declaro marido e... Larry” grosso e vulgar onde “Brokeback Mountain” é elegante e respeitoso.

Nenhum comentário: