segunda-feira, abril 25, 2011

coisas

Vejam isso:



E, na Caixa Cultural, começa amanhã uma mostra com filmes de Rogério Sganzerla. Mas, cuidado: alguns filmes serão exibidos em DVD. Abaixo, segue a programação:

26 de abril, terça-feira, às 18h30, salas 1 e 2

O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm - 92 min – PB, Classificação 16 anos)
Após a exibição do filme, haverá coquetel de abertura

27 de abril, quarta-feira

Sala 1, 17h30

ABISMU (1977). (de Rogério Sganzerla, Ficção e documentário – 80 min – COR . 35mm, Classificação 14 anos)

Sala 1, 19h

TUDO É BRASIL (1998). (de Rogério Sganzerla, Documentário – 35mm – 82 min – COR/ PB, Classificação Livre)

28 de abril, quinta-feira

Sala 1, 17h30

NEM TUDO É VERDADE (1985). (De Rogério Sganzerla, Ficção – 35 mm – 95 min – COR/ PB, Classificação 12 anos)

Sala 2, 19h

SEM ESSA, ARANHA (1970). (de Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16mm) - 96 min – COR. Classificação 16 anos)

29 de abril, sexta-feira

Sala 2, 17h30

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (COMICS) (1969). (de Rogério Sganzerla & Álvaro de Moya – em DVD (versão original em 35mm) - 7 min- COR/PB, Classificação Livre)

HORROR PALACE HOTEL (1978). (de Jairo Ferreira - Codireção e montagem: Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD(versão original em Super 8) – 50 min – COR, Classificação Livre)

Sala 1, 19h

BELAIR. (de Noa Bressane e Bruno Safadi, Documentário – 35mm – 80min – COR, Classificação Livre)

30 de abril, sábado

Sala 2, 17h30

DOCUMENTÁRIO (1966). (de Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16 mm) – 11 min – PB, Classificação Livre)

ELOGIO DA LUZ (de Joel Pizzini e Paloma Rocha, Vídeo COR/PB 54 min. 2003, Classificação Livre)

Sala 1, 19h

PERIGO NEGRO (1992). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm – 27 min – COR, Classificação Livre)

ISTO É NOEL ROSA (1990). (Documentário – 35mm – 43 min – COR. Classificação Livre).

1 de maio, domingo

Sala 1, 17h30

A MULHER DE TODOS (1969). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm - 87 min – PB, Classificação 12 anos)

Sala 1, 19h - Debate

3 de maio, terça-feira

Sala 2, 17h30

A MISS E O DINOSSAURO - Bastidores da Belair 2005. (de Helena Ignez, Documentário – em DVD (versão original em Super 8) – 17 minutos – cor, Classificação 16 anos)

A REINVENÇÃO DA RUA (de Helena Ignez, Documentário, digital, 27 minutos, Montagem Rogério Sganzerla. Classificação Livre)

B2 (de Rogério Sganzerla e Sylvio Renoldi, Ficção – em DVD (versão original em 35 mm) – 11 minutos – PB, Classificação Livre)

BRASIL (1981). (De Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 35mm) – 12 min – COR, Classificação Livre)

Sala 1, 19h

ABISMU (1977). (De Rogério Sganzerla, Ficção e documentário – 80 min – COR, 35mm, Classificação 14 anos)

4 de maio, quarta-feira

Sala 1, 17:30

O SIGNO DO CAOS (2003). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm – 80 min – PB/COR, Classificação 12 anos)

Sala 1, 19h00

O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (1968). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm - 92 min – PB, Classificação 16 anos)

5 de maio, quinta-feira

Sala 1, 17h30

COPACABANA MON AMOUR (1970). (De Rogério Sganzerla, Ficção – Exibição em 35mm – 85 min – COR, Classificação 16 anos)

Sala 1, 19h00

NEM TUDO É VERDADE (1985). (De Rogério Sganzerla, Ficção – 35 mm – 95 min – COR/ PB, Classificação Livre)

6 de maio, sexta-feira

Sala 1, 17h30

ABISMU (1977). (de Rogério Sganzerla, Ficção e documentário – 80 min – COR, 35mm, Classificação 14 anos)

Sala 2, 19h00

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (COMICS) (1969). (de Rogério Sganzerla & Álvaro de Moya – em DVD (versão original em 35mm) – 7 min- COR/PB, Classificação Livre)

HORROR PALACE HOTEL (1978). (De Jairo Ferreira. Codireção e montagem: Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em Super 8) – 50 min – COR, Classificação Livre)

DOCUMENTÁRIO (1966). (De Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16 mm) – 11 min – PB, Classificação Livre)

7 de maio, sábado

Sala 2, 17h30

LINGUAGEM DE ORSON WELLES (1990). (de Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 35mm) – 22 min – COR/PB, Classificação Livre)

O PETRÓLEO NASCEU NA BAHIA (1981). (de Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 16mm) – 9min - PB, Classificação Livre)

VIAGEM E DESCRIÇÃO DO RIO GUANABARA POR OCASIÃO DA FRANÇA ANTÁRTICA (VILLEGAIGNON) (1976). (de Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 16mm) – 17 min – COR, Classificação Livre)

ANÔNIMO E INCOMUM – (Vídeo, 1990, Ficção – 13 min – COR – vídeo, Classificação Livre)

INFORMAÇÃO: H. J. KOELLREUTER (2003, Documentário – 18 min – COR, Classificação Livre)

Sala 2, 19h

SEM ESSA, ARANHA (1970). (de Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16mm) – 96 min – COR, Classificação 16 anos)

8 de maio, domingo

Sala 1, 17h30

TUDO É BRASIL (1998). (de Rogério Sganzerla, Documentário – 35mm – 82 min – COR/ PB, Classificação Livre)

Sala 1, 19h

O SIGNO DO CAOS (2003). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm – 80 min – PB/COR, Classificação 12 anos)

sábado, abril 23, 2011

dicas

- Um texto bem legal lá no blog do Cezar Migliorin, para se pensar o capitalismo contemporâneo.

- Uma entrevista bem bacana com o Inácio Araújo publicada no "O povo" e no blog de Camila Vieira.

- Esta terça começa no CCBB a mostra "Cinema brasileiro, anos 2000, 10 questões", com a curadoria do Eduardo Valente, Cléber Eduardo e João Luiz Vieira. Neste link, dá pra ver a programação e os textos do catálogo.

segunda-feira, abril 18, 2011

cultura excitada


Estou cursando uma disciplina na UFF ministrada pela Mariana Baltar. Lemos por lá os dois primeiros capítulos deste livro, “Cultura excitada”, de Christoph Turcke. Eu não o conhecia e confesso não ter gostado muito. Fiquei bastante incomodado com algumas passagens. O Turcke, ao contrário, por exemplo, de Adorno, admite que a indústria cultural é simplesmente inevitável. Mas ele admite isso não sem algum ressentimento. Ele vem de uma herança teórica que costuma atribuir à industria cultural e aos mídia o poder de auto-reificação do homem, tornando-o um simples objeto a serviço da máquina capitalista.

Acho complicado discordar que vivemos em uma sociedade excitada, mergulhada num excitamento contínuo – embora eu não saiba se o efeito desse excitamento possa ser realmente comparado ao das drogas, como parece fazer o Turck. Agora, me incomoda a maneira como ele chega a esse diagnóstico. Porque tantas citações e analogias bíblicas?! Ele estaria comparando esse apego ao excitamento ao fervor religioso? Ou seria uma maneira de dar mais peso ao que ele diz? Para Mariana, esse diálogo teológico diz respeito à própria formação do autor e à tentativa de “atualizar - frente a mudança de paradigma da sensação diagnosticada por ele (essa parte que me interessa mais) - a linha de reflexão de Berkeley (lembre-se, ele um bispo anglicano)”.

O primeiro capítulo traça um panorama de determinados fenômenos de sensação, identificando suas raízes, sua extensão, sua influência. Acho a parte sobre o jornalismo um tanto infeliz. Imprensa quer dizer muitas coisas, comporta uma variedade enorme de discursos e modelos. Não dá para colocar no mesmo saco as coberturas da Segunda Grande Guerra, da Guerra do Vietnam, e das Guerras do Golfo. Por mais que Turck tenha coisas pertinentes a dizer (“Não é mais suficiente que os acontecimentos sejam por si só explosivos, confeccionados de forma chamativa, ou que tenham as manchetes gritadas como nas edições extras de outrora; o meio audiovisual necessita mobilizar todas as forças específicas de sue gênero e ministrar a notícia com toa a violência de uma injeção multissensorial”), ele o faz não sem algumas simplificações.

O segundo capítulo faz uma espécie de histórico dos significados do conceito de sensação da Renascença até a Revolução Francesa. Esse histórico, para o Turck, seria uma maneira de constatar a gradativa constituição de uma sociedade da excitação. O que é estranho é que Turck começa em Aristóteles, passa por Locke e termina em Berkeley. É como se não tivéssemos nenhuma alternativa não dualista, que não hierarquizasse em níveis de importância o intelecto e os sentidos. Turcke pergunta algo que, segundo ele, “ainda não foi respondido a contento: o que ocorreria se os homens fossem tão essencialmente seres sentitivos, de maneira que todas as suas idéias e conceitos a respeito do verdadeiro, do bem, do belo e do divino não fossem senão sensações, ou seja, correspondessem a meras excitações nervosas?” Eu acho que essa pergunta não faz nenhum sentido.

Nas entrelinhas, Turck parece insistir na necessidade de se confrontar essa “cultura excitada”. Eu não entendo bem porque. O cinema contemporâneo (Claire Denis, Pedro Costa, Apichatpong, Abel Ferarra entre outros) que mais gosto, por exemplo, abdica das narrativas totalizantes e aposta no menor. Mas não se trata de fazer oposição a um estado de coisas midiático. O desejo não é pelo contraplano, pelo antagonismo. È um cinema que assumem sua marginalidade, aceita o exílio no interior das práticas cinematográficas majoritárias. Um cinema menor diria Deleuze.

sábado, abril 16, 2011

caché...


Vi “Caché” diversas vezes. Não sei se gosto do filme. Alguns filmes me deixam assim, como se essa não fosse uma questão. O cinema de Michael Haneke pode ser visto como um discurso sobre uma classe-média à beira da dissolução, como um diagnóstico das feridas a arranharem uma idéia humanista de Europa. Sempre disposto a caminhar entre uma premissa um tanto moralizante e uma prática cinematográfica marcada por um certo sadismo para com seus personagens e espectadores, Haneke, como bem disse Cléber Eduardo, é uma espécie de “Dr. Mabuse do cinema contemporâneo”. E, em “Caché”, o seu projeto cinematográfico atinge o ápice de manipulação. Acho, inclusive, que a origem dos vídeos anônimos – que aparentemente funcionam como o gancho narrativo da trama do longa e se misturam sem nenhuma diferença de textura em relação aos outros tipos de imagem que compõem a história – deve ser levada a sério. De qualquer maneira, o que me chamou atenção dessa vez foi a convivência de europeus e argelinos em “Caché”.

É curioso: mesmo nos sendo apresentado como um sujeito dissimulado, mesmo sendo suspeito de ser o autor das fitas anônimas, há todo um processo de vitimização do personagem argelino, enquanto Georges, o francês, o protagonista, é acusado de todos os males do filme. Neste sentido, parece curiosamente haver uma certa nostalgia pelo retorno a uma política bem definida de oposições, em que, teoricamente, se podia distinguir com maior clareza os “mocinhos” dos “bandidos”. E por fim, fica curiosamente a suspeita de um narcisismo europeu às avessas - “Caché”, então, se aproximaria estranhamente de uma cada vez mais vasta produção hollywoodiana empenhada em “compreender” o problema da África (“Diamante de sangue”, “O senhor das armas”, “Jardineiro fiel”, entre outros). Haneke parece situar a Europa como fonte de todos os males sociais do mundo. Uma perspectiva que não deixa de ser eurocêntrica.

quinta-feira, abril 14, 2011

coisas

- Uma nova e bem bacana revista online de cinema: Alt Screen.

- Vejam que legal este Web Doc:

Honkytonk Films – Online screening: Journey To The End Of Coal

- Hoje tem cineclube da Cinética lá no IMS: Ás 18h, Diabo a Quatro (1933), de Leo McCarey, e, às 19h30, "Um Convidado bem Trapalhão" (1968), de Blake Edwards.

- Começou na Caixa Cultural uma retrospectiva com os filmes do cubano Tomás Gutiérrez Alea. Abaixo, segue a programação:

14 de Abril – quinta-feira
17h00 – “Los sobrevivientes” (130min) - Cinema 02
19h30 – “La última cena” (120 min) - Cinema 02

15 de Abril – sexta-feira
17h00 – “Una pelea cubana contra los demonios” (130min) - Cinema 02
19h30 – “Cumbite” (82min)- Cinema 02

16 de Abril – sábado
17h00 – “La muerte de un burócrata” (85min) - Cinema 01
19h30 – “Guantanamera” (105min) - Cinema 02

17 de Abril – domingo
17h00 – “Historias de la Revolución” (81min)- Cinema 02
19h30 – “Fresa y chocolate” (101min)- Cinema 01

19 de Abril – terça-feira
17h00 – “Las doce sillas” (97min) - Cinema 01
19h30 - “Cumbite” (82min) - Cinema 02

20 de Abril – quarta-feira
17h00 – “Hasta cierto punto” (88min) - Cinema 01
19h30 – “La ultima cena” (120min) - Cinema 02

21 de Abril – quinta-feira
17h00 – “Fresa y chocolate” (101min)- Cinema 01
19h30 – “La muerte de un burócrata” (85min) - Cinema 01

22 de Abril – sexta-feira
17hh00 – “Cartas del parque” (88min) - Cinema 02
19h30 – “Historias de la Revolución” (81min)- Cinema 02

23 de Abril – sábado
17h00 – “Hasta cierto punto” (88min)- Cinema 01
19h30 – “Las doce sillas” (97min) - Cinema 01

24 de Abril – domingo
17h00 – “Cine-Revista” (10min) e “Memorias del subdesarrollo” (97min) - Cinema 02
19h30 – “Guantanamera” (105min) - Cinema 02

terça-feira, abril 12, 2011

e-compos

Um texto meu publicado na E-Compos. Basta clicar aqui. Abaixo o resumo:

Este ensaio nasce de uma constatação: o cinema contemporâneo está marcado por uma espécie de nova transnacional. Um cinema que se acha intimamente ligado a uma mudança de olhar lançado ao corpo. O corpo como reflexo, como metáfora, como lugar experimental de representação. A nossa hipótese é a de que a fenomenologia de Merleau-Ponty nos fornece valiosos instrumentos para ampliarmos a reflexão sobre um cinema que explora uma relação corporal com o mundo. O nosso objetivo é discutir essas questões em breves análises de três cineastas contemporâneos: Tsai Ming-Liang, A. Weerasethakul e Karim Ainouz.

quinta-feira, abril 07, 2011

duchamps e pollock

Esta dupla amplia a questão levantada no post abaixo. Duchamp e Pollock partem de princípios e caminhos diferentes para chegarem ao mesmo lugar. Vejam as imagens abaixo. A primeira é um urinol masculino. A segunda mais parece o desenho despretensioso de uma criança. São obras que escapam ao “saber fazer”. A partir de “A Fonte”, não faz mais sentido pensar “o que é a arte?” ou “como fazer arte?”. Ao afirmar aquilo como arte, Duchamp implodiu esses dilemas por dentro. Pollock segue nesse legado de superação da arte, tentando escapar do controle, sem cair no total descontrole, e alcançando um paroxismo no domínio da técnica pouquíssimas vezes igualado.

a fonte

number 8





terça-feira, abril 05, 2011

músicas

Eu tenho ouvido bastante Arvo Part e Ramones. Estranha combinação, não é? Pois estive pensado sobre o compositor estoniano e a banda americana e cheguei a curiosa conclusão de que ambos tem efeitos semelhantes sobre mim, embora por caminhos completamente diferentes. Ouçam as duas músicas abaixo. Ambas me contaminam com uma sensação de liberdade... São tão aparentemente simples... “Fur Alina” é piano e silêncios. “Blitzkrieg Bop” é punk de cartilha, fácil, rápido e contagiante. Qualquer um poderia fazer essas músicas. Qualquer um. E isso é tão bonito, ou, pelo menos, carrega consigo tantas inauditas possibilidades. O curioso é que esse efeito do “qualquer um” é alcançado por Ramones e Part através de caminhos opostos. O primeiro se afirma numa suposta precariedade de seus recursos, na simplicidade crua de sua melodia. O segundo chega àquele “minimalismo” por meio de um domínio obsessivo da técnica; cada silêncio, o tom das notas, tudo foi milimétricamente calculado.

Ramones:



Arvo Part:

domingo, abril 03, 2011

franceses no mam

A Cinemateca do MAM abriga a mostra "Amor à francesa", com filmes de Rohmer, Godard, Truffaut, Bresson, Renoir, Chabrol, Jacques Demy, Max Ophuls, Olivier Assayas... Eu não perderia estes três em especial: "Minha noite com ela" (1969), de Eric Rohmer, "Lola Montès" (1955), de Max Ophuls, e "Um dia no campo" (1936), de Jean Renoir. Vejam a programação aqui.

sexta-feira, abril 01, 2011

passe livre ***


Eu gostei de “Passe livre”. Há tempos não ria tanto no cinema. O filme segue os passos de “Antes Só do que Mal Casado”, que já apontava uma espécie de retorno, das comédias agridoces mais recentes (como “Amor em jogo”) para uma comédia mais chula e grosseira (porém carinhosa) como a de “Quem Vai Ficar com Mary?”. “Passe livre” é claro, direto e agressivo. É bobo? Claro que é bobo. E qual é o problema? Não entendo as críticas (a do “Globo”, por exemplo) que usam esta “baboseira” como critério de análise. Um filme não pode ser ruim por ser bobo. Esta “baboseira” diz respeito ao que os personagens falam e às situações narradas, e isso é apenas uma informação, um dado, um ponto de partida para alguma coisa, uma análise, uma interpretação, etc. Escrever que um filme é bobo e ridículo não basta, não diz muito. E os Farrelly não filmam com um distanciamento cínico. Se seus personagens são infantis e bobos, para pô-los em movimento na telona, é preciso mergulhar nesse universo da baboseira.

O que eu acho ainda mais estranho são as acusações de moralismo (como faz a crítica da “Folha de São Paulo”). Ricky fica com a esposa por livre, genuína e espontânea vontade (e ainda revela para ela que nunca transou com outra mulher) – fiquei pensado que existe hoje não só uma patrulha do “politicamente correto”, como também uma galera que não consegue aceitar um casamento duradouro e feliz ou a crença inabalável em Deus... Logo depois, Fred revela tudo o que fez enquanto esteve livre para não ter que ir a um show com a esposa. E como se não bastasse, para deixar bem claro que o filme não defende ou ataca a monogamia, não possui mensagem e tampouco uma espécie de aprendizado para a classe masculina, ao ver a felicidade dos casais protagonistas, a esposa do personagem de Stephen Merchan pergunta ao marido se ela deveria dar a ele um passe livre. Ele então se imagina transando com uma mulher oriental. O marido dela chega. Ele mata o marido e a mulher. Mata também o vizinho que o viu enterrando os corpos. A polícia chega. Ele é preso e acaba sendo estuprado na prisão. Stephen Merchan se dá então por si e diz: “Sim. Podemos tentar”. Na mente doentia do personagem, os assassinatos e o estupro na prisão valiam a pena. Ele não aprendeu nada com a história dos amigos. E os Farrelly continuam profundamente conscientes de seus objetivos.

terça-feira, março 29, 2011

coisas

- Lumen, uma nova revista online sobre cinema. Bem legal.

- Jacques Rancière e Pedro Costa estiveram juntos em uma mesa redonda sobre arte. Jacob Wren estava presente, fez anotações e as postou em seu blog, "A radical cut in the texture of reality".

- Nesta sexta, às 10h, no auditório do PPGCOM da UFF, Marion Schmid dará uma palestra sobre Chantal Akerman. O sugestivo título da apresentação é: “The Archaeology of Suffering: Chantal Akerman's Documentary Trilogy”.

segunda-feira, março 28, 2011

cópia fiel ****


“Cópia fiel” nos conta a história do encontro entre um homem e uma mulher numa pequena aldeia no Sul da Itália. O inglês James (William Shimell) é um conhecido filósofo da arte que vai até Lucignano, na Toscana, para apresentar o seu mais recente livro sobre o valor artístico da cópia/réplica. A francesa Elle (Juliette Binoche) é uma simpática galerista que vive na Itália com o seu filho pré-adolescente. O filme começa com uma longa palestra de James. Em resumo, o que ele defende em seu livro é o seguinte: há verdade na relação que se estabelece entre o espectador e a cópia – algo como um lema para o próprio filme, embora Kiarostami recheie a cena com outras pequenas ações para nos roubar a atenção (o filho dela que entra e sai, o celular, etc.). Pouco depois, os personagens resolvem passear pela pequena vila da Toscana. Eles falam sobre arte, filhos, vida, trabalho. Os diálogos, no entanto, vêem aparentemente cheios de segundas intenções, como se James e Elle estivessem em uma estranha espécie de jogo.

A encenação, as cores, os atores, a narrativa, tudo soa diferente em relação ao que Kiarostami vinha fazendo. Será mesmo? Logo de cara, é possível identificar algumas de suas preferências, como as conversas dentro do carro, a paisagem de pequenas estradas, a maneira como elementos ou objetos à margem dos protagonistas são capazes de alterar a cena. E eis que, em determinado momento, James e Elle se sentam em um pequeno café. Algo se passa ali. Kiarostami muda as regras do jogo. Os personagens não são mais tão claros. A encenação muda de tom. Kiarostami procurava a autenticidade da cena, frontalmente, na aparência. Era já palpável um certo espírito de encenação, a auto-consciência dos personagens/atores e o rigor do cineasta. As cenas eram transparentes como cenas. Agora, no entanto, Kiarostami acrescenta mais uma camada e vem nos dizer que, embora tenhamos apenas as aparências, elas enganam. James e Elle são casados? Talvez o filme comece como um flashback – sem recorrer às mudanças de roupas e espaços. Talvez sejam mesmo histórias sobre casais que se assemelham bastante. “Cópia fiel” é a história de dois casais em um. A história de múltiplos casais.

O que impressiona é como essa torção narrativa se mostra plausível, como uma evolução natural do homem e da mulher que vimos no início do filme. Isso se deve em grande parte ao fato de que, para Kiarostami, a realidade não é unicamente aquilo que se passa diante de nossos olhos, mas o que poderia se passar. Dessa maneira, a partir do momento em que alguém vê os dois personagens como um casal, assim que essa realidade se torna possível, James e Elle podem muito bem ser um casal. Pois é. Kiarostami é Kiarostami. Um cineasta empenhado em bagunçar a maneira que nós vemos o mundo. Um cineasta do artifício sem perder a ternura. Para ele, a imagem não visa o engano, não se trata de uma farsa do real, apenas algo recheado de opacidade.

quinta-feira, março 24, 2011

cineclube cinética

Hoje tem Cineclube da Cinética lá no IMS. Às 17h será exibido "Um Assunto de Mulheres" (1988), de Claude Chabrol, e às 19h é a vez de "Desejo Humano" (1954), de Fritz Lang.

segunda-feira, março 21, 2011

bruna e johnny

“Bruna Surfistinha” quer agradar todo mundo. Este talvez seja o seu maior problema. É um filme cheio de receios, com uma cega disposição para o consenso. Ora, estamos falando de um longa sobre uma menina tímida de classe média que sai da casa dos pais, vira garota de programa, alcança uma certa fama, chega à overdose com cocaína, para, pouco depois, largar o mundo da prostituição. Uma sinopse recheada de temas polêmicos, controversos, etc. Anos atrás seria complicado fazer um blockbuster como este. Não é a toa que a maioria das pessoas que conheço parece surpresa com a nudez de Débora Secco. Esperava-se um filme, digamos, mais tímido, comedido, careta, conservador. Mas “Bruna Surfistinha” é tudo isso aí, atualizado para os nossos tempos. É um filme que não quer colocar o dedo na ferida, não deseja criar conflito ou abrir-se a discordâncias. Os elementos supostamente mais “corajosos”, como, por exemplo, a nudez da protagonista, são tão sublinhados como tais que passam a não sê-lo. A nudez da protagonista é tão funcional, tão maquiavélicamente marquetada... E não é nenhum pouco sexy.

“Vengeance” (2009) é um filme incrível. Johnny To é quase arrogante de tão bom. O cara prepara aos poucos a seqüência, nos alerta que algo grandioso se aproxima, sempre em altíssimos tons. Em alguns momentos, eu confesso que quase desdenhei da inabalável auto-confiança deste filme. Mas Johnny To sempre cumpre suas promessas. E hoje ninguém filma tiroteios como ele. Ninguém. Vejam aí o trailer abaixo.



quarta-feira, março 16, 2011

l'enfance nue *****


Este filme de 68, estréia de Maurice Pialat, é incrível. Acho-o tão bom quanto “Aos nossos amores” (1983) e “Van Gogh” (1991). Eu jamais passo incólume por um filme de Pialat, sempre tão apaixonado e corajoso, sempre tão violento em sua opacidade. Não conheço nenhum outro longa sobre a infância como este, nada de psicologismos, estudos sociológicos ou sonhos nostálgicos de uma liberdade perdida. A infância de François, como nos alerta o título do filme, nos chega nua, sem nenhuma idéia mestra que a direcione a cada movimento para um determinado adjetivo, julgamento ou moral da história. Pialat é um cineasta da ação, única e exclusivamente. “L’enfance nue” é um filme substantivo.

O que constitui uma cena? Onde ela começa? Onde ela termina? De que maneira ela se conjuga com o que passou e com o que está por vir? “L’enfance nue” é ficção e é documentário. É cenário e é paisagem. É personagem e é ator. E tudo isso é de uma absoluta clareza, o que me traga para dentro do filme como uma longa seqüência de momentos preciosos. Pialat possui um enorme respeito, esbanja uma enorme solidariedade por aquilo que ele filma. E assim, um barman vendendo um pacote de cigarros se transforma em um espetáculo. A impressão é a de que Piatat pedia aos atores/personagens que repetissem o que normalmente fazem e inseria elementos ficcionais (os cantos no casamento, o simpático casal de velinhos contando sua história para os meninos, etc), mas com os olhos sempre abertos para as faíscas que essa comunhão pudesse gerar (como a inesperada troca de beijos entre François e Pépère). Seria, no entanto, perda de tempo apontar estratégias, identificar procedimentos. Por isso o cinema de Pialat é tão contemporâneo. É inútil procurar ali uma maneira de se fazer cinema, uma receita, um modelo. Não é como fazer, mas como ser cinema.

Leiam esta resposta de Pialat:

Quanto de seus filmes é planejado antes da filmagem? Quanto é improviso?

Este é um tema delicado. Veja o exemplo de Godard: seus filmes parecem todos milimetricamente pensados e calculados. O que estou querendo dizer é (e isto acontece comigo também), ele filma enquanto diz: “Ok... muito bem, a esquina, isso, muito bom. Não há porque ir além disso...” – é real, mas ainda assim se trata de uma escolha. Eu estou falando de direção, mas é mesma coisa quando escrevemos. “Improvisação” – isso não significa nada pra mim. O que você tem na sua cabeça, ainda não formulado, é muito mais preciso do que você pode imaginar.

domingo, março 13, 2011

coisas

- começou sexta uma mostra bem bacana com os diários de David Perlov lá no IMS. É muito bom. Vejam aqui.

- descobri este jogo, Objetos Famosos de Filmes Clássicos, no blog do Calil. A coisa é realmente viciante. O jogo te mostra a silhueta de um objeto e você tem que adivinhar em que filme ele aparece.

- revi dias atrás "Crônica de Anna Magdalena Bach" (1968), de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Uma obra-prima, definitivamente, destas que, de maneira apaixonada, acreditam no cinema como algo ainda a ser construído, abarrotado de infindáveis possibilidades. Vejam o filme e leiam este belíssimo texto de Tag Gallagher. Leiam este parágrafo:

"Even in Europe, many (but not all!) of the Straubs’ champions talk about isms in their movies more than individuals, non-figurative design more than portraiture, theory more than storybook lyricism, “Bresson-like” impersonableness more than commedia dell’arte, anti-conventionality more than renewed roots in Western tradition, radical posturing more than troubled existentialism, Marxism more than Jesuit sensibility of each moment as sacramental, minimalism romanticism, calculation more than volcanic emotion".

quarta-feira, março 09, 2011

fuller

“O quimono escarlarte” (1959) é um filme surpreendente, do tamanho do mundo. Como pode um filme nos dar tanto? Um filme policial. Um filme de amor. Um filme sobre aparências, sobre máscaras. Um filme sobre preconceito. Um filme sobre o vazio de certos códigos. Um filme movido por paixões, as mais variadas paixões. É Samuel Fuller!

A última sequência:


sexta-feira, março 04, 2011

clint escreve para billy wilder



Clint Eastwood, então aos 24 anos, diz:

"Quando chegar o momento de escolher o elenco, eu ficaria muito grato se pudesse conversar com você. Eu melhorei bastante em todos os sentidos desde quando fiz aquele teste. E acho que as qualidades que você procura serão mais facilmente encontradas em uma entrevista pessoal".

Detalhe: CLint não ficou com o papel. Quem estrelou "The Spirit of St. Louis" (1957) foi James Stewart.

Dá pra encontrar outras cartas sensacionais com esta neste site.

terça-feira, março 01, 2011

yi yi *****


Revi “Yi Yi” (2000) pela segunda vez ontem. E não tenho receios em dizer que se trata de uma obra-prima. É um belo filme. Edward Yang é um cineasta enorme, ainda desconhecido. Desta vez, o que me deixou mais impressionado é a estratégia de sobreposições (uma característica marcante do cinema de Yang) que costura o filme. O choro da mãe vem colado a imagens noturnas de Taipei. O pai relembra o passado amoroso enquanto sua filha explora o abismo do primeiro amor. A primeira vez em que o menino se sente atraído sexualmente por uma menina vem entrecortada por imagens de um documentário sobre a origem da vida. A sobreposição se dá por vezes num mesmo plano. Yang é um cineasta do plano, da mise-en-scène. É tudo de uma precisão impressionante. O primeiro plano e o fundo, as ações, primárias e secundárias, a iluminação, os raros movimentos de câmera. A precisão de Yang é talvez acima de tudo narrativa.

No mais, lembro sempre de uma observação feita por Kent Jones: “‘Yi Yi’ é como aquelas tomadas vazias de Ozu, mas com pessoas”. Os conflitos emocionais são raramente discutidos ao longo do filme. Os personagens estão muito confusos, cansados ou irritados para arriscarem um diálogo. Eles estão todos aparentemente confinados aos seus planos, aos tempos e espaços, a Taipei. Mas acredito que seria uma preguiça danada voltar à questão da incomunicabilidade. Não se trata disto. A família de “Yi Yi” é uma família unida, apesar dos pesares. É possível identificar certas características desta família perpassando todos os seus integrantes. Os tão debatidos “problemas” da pós-modernidade estão todos por lá: a impessoalidade dos espaços, a fragmentação do tempo, a carência de laços sociais mais bem delimitados, e a incomunicabilidade. Mas o que Yang nos oferece é um retrato sem diagnósticos, mais pragmático, de como os personagens respondem a esta nova realidade.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

cineclune cinética

Amanhã tem Cineclube Cinética lá no IMS com uma dupla da pesada. Às 17h15 passa "O dinheiro" (1983), de Robert Bresson; e às 19h é a vez de "Gente da Sicília" (1999), de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. É só clicar nos títulos para ler mais sobre os filmes.




sábado, fevereiro 19, 2011

cisne negro °

"Cisne negro" é hiperativo. "Cisne negro" é obsessivo. "Cisne negro" é desesperado. "Cisne negro" é uma receita. "Cisne negro" é apelativo. "Cisne negro" é uma chantagem. "Cisne negro" é kitsch. "Cisne negro" é petulante. "Cisne negro" é o óbvio ululante. "Cisne negro" é cego. "Cisne negro" é um tubo de ensaio. "Cisne negro" é uma mentira. "Cisne negro" não termina. "Cisne negro" é chato pra caralho! Porra!

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

tio boomee ***


Apichatpong Weerasethakul me agrada bastante. Ver um filme dele é tornar-se parte de um mundo movediço. É fazer parte de um movimento de recuperação de uma dimensão pré-lógica ou pré-predicativa da experiência e de sua ambigüidade e indeterminação (embora isso jamais se torne propriamente uma questão para os filmes). O mundo descrito em "Tio Boomee", como em todos os longas de Weerasethakul (com a estranha exceção de "The adventures of Iron Pussy"), é, antes de mais nada, um mundo físico, em seus interstícios, em seu movimento microscópico e permanente, que se confunde, se identifica com o aspecto sensorial dos personagens, corpos que interagem com a paisagem, com os corpos da natureza, animados ou inanimados. É um cinema de abstrações, sem perder a emoção. O cineasta joga os corpos para dentro da natureza, empreende um movimento centrípeto e puxa tudo para dentro da paisagem e da geografia movediça. O sensorial acaba transformando a narrativa e a natureza numa coisa só.

Embora essa seja uma marca de seu cinema, o desenho de som jamais foi tão importante, carregado de vida e sentidos quanto em "Tio Boomee". Esta é uma história sobre reencarnações e transmigrações. E é o som que nos torna conscientes das vidas que cercam os personagens, o farfalhar das folhas, os mosquitos, os pássaros, etc. Weerasethakul vem nos dizer mais uma vez que o problema ontológico é aquele ao qual se subordinam todos os outros e por isso mesmo a ontologia não pode ser um teísmo, um naturalismo ou um humanismo.

Ainda assim, "Tio Boomee" talvez seja mesmo o filme de Weerasethakul que eu gosto menos. A beleza de seu cinema é tão particular que, para aqueles que já o conhecem, a primeira longa seqüência de "Tio Boomee" não será exatamente uma revelação, mas talvez um movimento de assinatura. O exotismo é logo ali, é verdade, mas não é o que vejo no filme. Gosto muito também da seqüência da caverna. Por várias razões. É como se os personagens estivessem voltando no tempo sem sair do presente. Os desenhos rupestres são como assinaturas (reconhecidas em cartório) de um mundo no tempo. Pouco depois, a pequena "piscina" onde vivem peixinhos na escuridão completa nos abre os olhos para espaços em que jamais imaginávamos ter vida. E em meio a tudo isso, Boomee está morrendo.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

us go home


Esta cena aí é incrível! Claire Denis é incrível! “US GO home” é incrível! Gregoire Colin é incrível! O Kinks é incrível! É uma seqüência tão absurdamente simples, porém algo tão alienígena. Penso bastante na questão do plano seqüência. Porque essa opção pelo plano longo se faz em termos diferentes daqueles usados no cinema moderno. Embora passe por isso, a idéia não é exatamente a de que a duração do plano deva coincidir com a duração do evento. Não se trata somente de respeitar a “ambigüidade ontológica da realidade”, como dizia Bazin. Há algo diferente aqui.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

fronteiras

Um texto meu publicado na Revista Fronteiras. Basta clicar aqui. Abaixo o resumo:

O objetivo deste artigo é observar como o cinema enquadra o Holocausto, problematizando uma discussão cada vez mais freqüente da banalização do Holocausto no cinema: a banalidade do mal multiplicada pelo mal da banalidade. Analisamos três filmes recentes (O Leitor, Operação Valquíria, e A queda!) e a obra Shoah (1985), para pensar sobre a memória e a responsabilidade que ela encerra: lembrar para que não se repita, sem permitir que essa lembrança se torne um produto. Nesse sentido, nos aproximamos de Walter Benjamin e de seus conceitos de rememoração e história. Por fim, tratamos do longa A questão humana, um filme diferente sobre o nazismo.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

malu de bicicleta **


A sinopse de “Malu de Bicicleta” nos passa a idéia de uma comédia romântica como muitas, é verdade. Mas Tambellini é um realizador diferente. Não há aqui aquele desejo desesperado por uma certa originalidade. Tambellini não quer o grande filme. Muito pelo contrário. Seu cinema segue com uma atenção incomum às locações. Tambellini é um cronista urbano atento. Em “Malu”, ele passeia por São Paulo e pelo Rio, e as cidades definem de certa maneira os personagens (a despojada e solar Malu e o moderno e algo soturno Luiz).

“Malu” não tem um compromisso com a unidade narrativa. É um filme aberto, que se faz na soma, na sucessão de seqüências. Tambellini faz um cinema um tanto alheio às convenções narrativas rigorosas. Assim como em “O passageiro”, há um desejo explícito de falar com uma geração mais nova, algo curiosamente demarcado pela presença de Tambellini em ambos os filmes (numa como o pai de uma das meninas e agora como um advogado que já morreu). Trata-se mesmo de um cineasta bem particular e corajoso, sem receio de buscar angulações inusitadas, durações estranhas, uma trilha diferente (mais uma vez assinado por Dado Villa-Lobos, o mesmo de “O passageiro”). Suas (muitas) imperfeições são suas e de mais ninguém. Em seus melhores momentos, “Malu” nos seduz com uma atenção mais detida nos detalhes, nos olhares, que fazem a história seguir adiante com um sabor diferente do usual. Tambellini dirige um retrato de dentro, mantendo distância dos julgamentos sobre os personagens, mas sem inocentá-los pelos erros que cometem.

Sem dúvida nenhuma, “Malu” é um filme sobre neurose, mas sempre mantém uma pegada suave. Talvez seja essa a crítica mais pertinente a ser feita a respeito deste longa. Tambellini conduz uma trama de ciúmes à lá “Capitu” (Machado de Assis), porém de maneira limpa e aparentemente imutável. O cineasta possui talvez um comedimento, um receio em usar cores mais fortes. “Malu” fica entre a comédia, o romance e o drama. Quando Luiz começa a desconfiar de Malu, o filme não parece acompanhá-lo e assume então um tom mais, digamos, “frio”. Em seus piores momentos “Malu” parece não acreditar nos problemas vividos por seus personagens.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

duane allman é o cara

O jovem Duane Allman, como guitarrista contratado, viajando, nota por nota, em uma música de Boz Scaggs:



E ao vivo a cores com The Allman Brothers Band:

terça-feira, fevereiro 01, 2011

luc moullet no ccbb

O CCBB abriga a partir de hoje uma mostra com filmes de Louc Moullet, um cineasta bem particular, ainda na ativa, e um dos maiores críticos que passaram pela "Cahiers du Cinéma". Vejam a programação abaixo:

1/02 terça-feira

18H30
OBRA-PRIMA? (13´) – Luc Moullet /
JEAN-LUC SEGUNDO LUC (7´) – Luc Moullet
O HOMEM DA RAVINA (55´) – Gerard Courant
Classificação indicativa: 14 anos

20H
BRIGITTE E BRIGITTE (75´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

2/02 quarta-feira

16H30
FOIX (13´) – Luc Moullet
AS POLTRONAS DO CINE ALCAZAR (52´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

18H30
SEM TÍTULO (4´) – Luc Moullet
OS MINUTOS DE UM FAZEDOR DE FILMES (13´) – Luc Moullet
MINHA PRIMEIRA BRAÇADA (43´) – Luc Moullet
TENTATIVA DE ABERTURA (15´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
UMA AVENTURA DE BILLY THE KID (77´) – Luc Moullet
Classificação indicativa:14 anos

3/02 quinta-feira

18H30
OS NÁUFRAGOS DA D17 (81´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

4/02 sexta-feira

16H30
OS NÁUFRAGOS DA D17 (81´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

18H30
UMA AVENTURA DE BILLY THE KID (77´) – Luc Moullet
Classificação indicativa:14 anos

20H
SEM TÍTULO (4´) – Luc Moullet
OS MINUTOS DE UM FAZEDOR DE FILMES (13´) – Luc Moullet
MINHA PRIMEIRA BRAÇADA (43´) – Luc Moullet
TENTATIVA DE ABERTURA (15´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos


5/02 sábado

17H
A ODISSÉIA DO 16/9 (11´) – Luc Moullet
LA SEPT SEGUNDO JEAN E LUC (13´) – Luc Moullet
O FANTASMA DE LONGSTAFF (20´) – Luc Moullet
A VALSA DA MÍDIA (27´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
GÊNESE DE UM REFEIÇÃO (117´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

6/02 domingo

17H
UMA AVENTURA DE BILLY THE KID (77´) – Luc Moullet
Classificação indicativa:14 anos

20H
BRIGITTE E BRIGITTE (75´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

8/02 terça-feira

18H30
TERRAS NEGRAS (19´) – Luc Moullet
O LITRO DE LEITE (13´) – Luc Moullet
ALGUMAS GOTAS A MAIS (6´) – Luc Moullet
UM BIFE PASSADO DO PONTO (19´) – Luc Moullet
CAPITO? (8´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
GÊNESE DE UM REFEIÇÃO (117´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

9/02 quarta-feira

18H30
BRIGITTE E BRIGITTE (75´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
OBRA-PRIMA? (13´) – Luc Moullet
JEAN-LUC SEGUNDO LUC (7´) – Luc Moullet
O HOMEM DA RAVINA (55´) – Gerard Courant
Classificação indicativa: 14 anos

10/02 quinta-feira

18H30
A TERRA DA LOUCURA (85´) –Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H00
TERRAS NEGRAS (19´) – Luc Moullet
O LITRO DE LEITE (13´) – Luc Moullet
ALGUMAS GOTAS A MAIS (6´) – Luc Moullet
UM BIFE PASSADO DO PONTO (19´) – Luc Moullet
CAPITO? (8´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

11/02 sexta-feira

16H30
AERROPORRRTO DE ORRRRLY (6´) – Luc Moullet
EQUILÍBRIO E CEGUEIRA (5´) – Luc Moullet
TODOS NÓS SOMOS BARATAS (10´) – Luc Moullet
CADA VEZ MENOS (13´) – Luc Moullet
CADA VEZ MAIS (24´) – Luc Moullet
O IMPÉRIO DO TOTÓ (13´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

18H30
OBRA-PRIMA? (13´) – Luc Moullet
JEAN-LUC SEGUNDO LUC (7´) – Luc Moullet
O HOMEM DA RAVINA (55´) – Gerard Courant
Classificação indicativa: 14 anos

20H
A ODISSÉIA DO 16/9 (11´) – Luc Moullet
LA SEPT SEGUNDO JEAN E LUC (13´) – Luc Moullet
O FANTASMA DE LONGSTAFF (20´) – Luc Moullet
A VALSA DA MÍDIA (27´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

12/02 sábado

20H
ENCONTRO DE LUC MOULLET COM O PÚBLICO, seguido de exibição de:
VONTADE INDÔMITA (114´) – King Vidor
Classificação indicativa: 14 anos

13/02 domingo

19H30
A TERRA DA LOUCURA (85´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

15/02 terça-feira

18H30
ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
INTRODUÇÃO (8´) – Luc Moullet
O COMPLÔ DOS OURIÇOS (17´) – Luc Moullet
CATRACAS (14´) – Luc Moullet
IMPHY, CAPITAL DA FRANÇA (24´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

16/02 quarta-feira

18H30
INTRODUÇÃO (8´) – Luc Moullet
O COMPLÔ DOS OURIÇOS (17´) – Luc Moullet
CATRACAS (14´) – Luc Moullet
IMPHY, CAPITAL DA FRANÇA (24´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
AERROPORRRTO DE ORRRRLY (6´) – Luc Moullet
EQUILÍBRIO E CEGUEIRA (5´) – Luc Moullet
TODOS NÓS SOMOS BARATAS (10´) – Luc Moullet
CADA VEZ MENOS (13´) – Luc Moullet
CADA VEZ MAIS (24´) – Luc Moullet
O IMPÉRIO DO TOTÓ (13´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

17/02 quinta-feira

16H30
ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

18H30
AS CONTRABANDISTAS (80´) – Luc Moullet
Classificação indicative: 14 anos

20H
PRESTÍGIO DA MORTE (75´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

18/02 sexta-feira

16h30
PRESTÍGIO DA MORTE (75´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

18H30
A COMÉDIA DO TRABALHO (88´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
PARPAILLON (84´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

19/02 sábado

16h30
PARPAILLON (84´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

18H30
ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
OS HAVRES (12´) – Luc Moullet
O VENTRE DA AMÉRICA (25´) – Luc Moullet
O SISTEMA ZSYGMONDY (18´) – Luc Moullet
NO CAMPO DA HONRA (15´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20/02 domingo

16H30
A COMÉDIA DO TRABALHO (88´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

20H
AS CONTRABANDISTAS (80´) – Luc Moullet
Classificação indicativa: 14 anos

quinta-feira, janeiro 27, 2011

hugh grant

Estava indo e voltando pelos canais da Net e deparei-me uma vez mais com “Letra e música” (2007), de Marc Lawrence. O filme é fraco, rasteiro, previsível, mas é difícil não ser por ele seduzido. É Hugh Grant, sempre ele. É irresistível vê-lo na pele de um ex-astro dos anos 80: o carisma, o timing, os gestos corporais, os olhares. Grant atingiu a maestria, vivendo sempre o mesmo papel. A impressão é a de que todo este talento precisava ser “adotado” por um cineasta, algo que quase todos os grandes comediantes tiveram. Vejam vocês, abaixo.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

kk

Vi alguns dos filmes de Kiyoshi Kurosawa no CCBB e andei revendo um ou outro aqui em casa. Kurosawa é um baita cineasta. Um cineasta do espaço, do cálculo, de composições milimétricas, de quebras de eixo. Seus longos planos (estáticos ou então com elegantes movimentos laterais) parecem na maioria das vezes entrecortados por planos menores, mais curtos, porém aparentemente funcionais, com informações importantes para a trama seguir adiante. E o emprego do plano longo não significa uma entrega ao acaso, mas, ao contrário, uma aposta na mise-en-scène. Uma mise-en-scène que respira o rigor geométrico dos espaços. Isso tudo é muito curioso. O olhar de Kurosawa é intermitente. O que se produz é uma certa distância, uma idéia de intervalo, um olhar sempre na incerteza, uma percepção fragmentada. Os filmes de Kurosawa se fazem numa espécie de batimento, numa sucessão irregular de planos, de ausências e fixações, de criação de ambientes e desorientação espacial. É um cinema da opacidade, que, oferecido como um mistério ao espectador, nos deixa por vezes com a sensação fugidia de um brilho do real.

Kurosawa é sempre associado ao gênero do terror, o que não deixa de ser correto, embora todos os seus filmes tenham uma vibração, digamos, mais realista e estejam mais para reflexões sobre os anseios e as náuseas do Japão contemporâneo. Os protagonistas de Kurosawa são gente como a gente. Algo, no entanto, acontece, seja por acaso ou por razões não identificadas. Os personagens são paulatinamente mergulhados num universo asfixiante e estranho, porém realista. Em “Cure” (1997), personagens comuns matam sem causa. Em “Doppelganger” (2003), o protagonista esbarra com o seu duplo. Em “Pulse” (2001), as pessoas começam a desaparecer. Tudo filmado com uma enorme sobriedade. E o que é mais interessante é fato dessas estranhezas, do terror, do inusitado, dos fantasmas, serem, na verdade, uma forma de se atribuir responsabilidade aos personagens. É, por exemplo, o que se passa em “Vítimas de uma alucinação” (2006), em que os protagonistas são cobrados pelo modo como reagem ao que vêem.

No mais, a água viva, nome de um dos melhores filmes de Kurosawa, serve como uma espécie de símbolo deste cinema, fascinante, porém mortal, como um canto de sereia que nos leva encantados para o fundo do mar.

Uma entrevista:



Uma cena de "Pulse":



Uma cena de "Seance" (2001):

sexta-feira, janeiro 21, 2011

além da vida ****

Gostei muito de “Além da vida”. Como é bom sair do cinema depois de um filme como este. Clint Eastwood. Dá pra contar com o cara. Sempre. É tudo de uma simplicidade, de uma objetividade... Eastwood vai sempre direto ao ponto. A aparência de “Além da vida” é tão unificada e limpa, seu impulso e discurso são tão certeiros, que o filme é exatamente o que ele é. Entendem? Não há espaço para segundas intenções, interpretações estapafúrdias. Não há mensagem ou um projeto.

Em seus filmes mais recentes, a trama sempre vem de um trauma específico (ao contrário dos longas dos anos 90, quando os protagonistas vinham direto das trevas para colocar os pingos nos is). Em “Além da vida”, no entanto, é até um pouco escorregadio falar em trama. Qual é a trama deste filme? Eastwood a reduziu a um jogo entre uma certa idéia de destino (trágico, para os personagem em questão)e uma variedade incontável de sentimentos inomináveis e possibilidades de ação. É esse jogo que move o filme, que o leva adiante. Uma trama feita de barreiras emocionais e personagens (sob muita responsabilidade por suas vidas) relutantes em enfrentá-las.

Tudo isso é devidamente materializado. Tudo isso é para Eastwood uma questão de cinema. Os planos são então vazios, contaminados sempre por uma sensação desoladora. O que vemos do “outro mundo” o qual o personagem de Matt Damon tem acesso são apenas vultos. O que dá sentido a eles é somente aquilo que o personagem diz, numa espécie estranha de terceira pessoa indireta. E mesmo para ele, tudo é muito nebuloso. Eastwood é claro sem ser clarividente. As perguntas permanecem sem respostas. O que muda, talvez, seja a opção que os três protagonistas assumem para si mesmos: tomar as rédeas de suas vidas, amadurecer e seguir em frente. “Além da vida” é um filme sobre os vivos.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

van morrison

Lembrei de um momento similar ao descrito posts abaixo, quando, em Foz do Iguaçu, esbarrei num irmão Thin Lizziano. Desta vez, estava com minha esposa no Japão. Mais precisamente, em uma estranha rodoviária da gelada cidade de Fukuoka/Hakata, última parada ao sul do poderoso Shinkansen, o trem bala nipônico. A rodoviária tinha alguns andares, pequenos, como se o Botafogo Praia Shopping fosse um terminal rodoviário. Cada andar apontava para uma direção - algo que ainda hoje não entendo bem como funciona. Estávamos a caminho de Nagazaki, ou seja, terceiro andar, nos disse em mímicas estranhas a bela moça da bilheteria. Fazia frio, eu estava me recuperando de um resfriado, com muita fome, pressa, pouco dinheiro... MacDonald’s, não teve jeito. Enquanto eu aguardava minha esposa na mesa da lanchonete, fui tomado pelo tempo presente. E quem me colou a esse estado corporal de coisas e fatos foi ninguém menos que Van Morisson. Pois é. Dos altos falantes do MacDonald’s, comecei a ouvir “Sweet Thing”, uma de minhas músicas preferidas. De repente, como se levasse um tapa, tudo me chamava atenção: os japoneses tímidos e histriônicos ao mesmo tempo; um senhor sozinho ao meu lado, vestido com um terno e um boné vários números acima do “normal” que mais parecia boiar em sua cabeça; um menino deitado na cadeira saboreava as batatas fritas de olhos fechados, uma por uma; uma adolescente alguns bancos ao fundo comia sozinha, calada, fechada, mas com uma altivez no olhar, como se algo a dissesse secretamente que ela era melhor que todos os outros que estavam por ali; os barulinhos bizarros que meu corpo ainda enfermo ejetava pra fora; a voz rascante de Van Morrison, emocionada e emocionante, surpreendente a cada nova audição, cantando versos como “And I will never grow so old again” e “And I'll be satisfied/Not to read in between the lines”. E no exato momento em que o irlândes dizia “And I shall drive my chariot/Down your streets and cry/'Hey, it's me, I'm dynamite”, virei meu rosto e vi Ana caminhando com uma bandeja na mão, linda, sorridente, como se já estivesse olhando pra mim faz tempo, certa de que eu estava “demais” naquele espaço-tempo ou talvez em outro lugar. Que momento! Que equação: Japão + MacDonald’s + Van Morrison + Ana = Julio mais um tantinho feliz!


quinta-feira, janeiro 13, 2011

quarta-feira, janeiro 12, 2011

powell e pressburger

Desde ontem, o CCBB abriga uma mostra bem legal com os filmes de Michael Powel e Emeric Pressburger. "A tortura do medo" (Peeping Tom, 1960) é um dos meus filmes favoritos. Veja a programação aqui.

terça-feira, janeiro 11, 2011

cineclube

Dia 13, quinta, tem cineclube da Cinética lá no IMS. Às 16h30 será exibido o "A vida sobre a terra" (1998), de Abderrahmane Sissako. Às 17h45 será a vez de "Plataforma" (2000), de Jia Zhang Ke. Apareçam por lá.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

thin lizzy

Outro dia, vivi um daqueles momentos mágicos. Estava em Foz do Iguaçu. Eu, minha mulher e um amigo, andávamos à noite por uma rua deserta, a caminho do hotel. A alguns metros, três jovens conversavam e bebiam cerveja. Um deles, o mais alto, com alguns quilos a mais, me viu, arregalou os olhos e disse estendendo a mão na minha direção: “espera aí!”. Enquanto pensava se parava ou não, ele correu para um carro, ligou o rádio e botou “Dedication”, do Thin Lizzy, para tocar. Alto, bem alto. Eu vestia uma camisa dessa banda irlandesa. Gosto muito dessa banda e dessa camisa. Fui muito feliz naqueles segundos. O sujeito saiu do carro olhando pra mim, balançando a cabeça e sorrindo um sorriso sem fim.

“Você é da onde”, perguntou.

“Sou do Rio”, respondi.

“Aqui ninguém conhece essa banda”, continuou, ainda sorrindo e balançando a cabeça.

Eu ameacei a tirar camisa. Queria dá-la de presente. Devia isso a ele. Mas não o fiz, a camisa jamais caberia nele – hoje me arrependo disso; não importava se aquela camisa cabia ou não nele.

Andando para o hotel, com “Dedication” ao fundo, um sorriso no rosto, e já com a lembrança daquela felicidade, fiquei pensando: bater na tecla da indústria cultural, da produção de cultura como mercadoria, não faz mais muito sentido hoje. Quer dizer, não é que isso não faça mais sentido, mas as coisas mudaram e insistir numa crítica baseada na idéia de uma perpetuação da lógica do mercado no consumo das mídias não dá conta do quadro em que vivemos hoje. Aquela minha felicidade só foi possível por causa dessa sociedade de mercado. Entende?

Pensei nos sociólogos Benedict Anderson e Arjun Appadurai. São caras que acordaram para o fato de que o consumo da mídia vem colecionando efeitos bem mais amplos que os da imprensa. Afinal, para além de seu sentido experiencial, prático e ao alcance de todos, a mídia atravessa os limites do estado-nação, estabelecendo laços invisíveis. Foi essa convicção que levou Anderson a criar o termo “comunidade política imaginada” para designar a idéia de “nação”. Uma nação que inventa espaços de solidariedade e constrói paulatinamente uma espécie de adesão silenciosa. A nação como um lugar de investimento e produção de desejo, um espaço de experimentação de algo que escapa a um estado de coisas demarcado pela terra física e geográfica. Uma “comunidade de sentimento”, como prefere Appadurai.



terça-feira, janeiro 04, 2011

city of sadness *****


Este filme de Hou Hsiao-hsien é incrível. Os longos planos-sequência são aqui combinados com uma montagem mais atmosférica e não linear (que daria o tom de seus filmes subseqüentes). A impressão é de que os planos jamais terminam, mas se metamorfoseiam, sempre invadindo o seguinte. O curioso é que, ao mesmo tempo em que privilegia-se uma noção de fluxo, a montagem produz a todo momento interrupções e descontinuidades temporais, espaciais, e de instâncias narrativas. A câmera quase sempre fixa e de frente para a cena parece descolada da ação que ela registra, mas os personagens sentem-se livres o suficiente para desrespeitar os limites do quadro. É como se câmera e personagens fossem auto-suficientes. E essa sensação está afinadíssima com o que se passa na tela, a história de uma nação sempre à beira da evaporação.

E mais: os enquadramentos pictóricos (quase sempre muito pensados, conscientes de si mesmos), uma certa intenção minimalista (quanto menos melhor), atuações na maioria das vezes num tom dramático acima do esperado (como se por vezes as interpretações estivessem fora de sync com as imagens), a compressão elipítica das relações interpessoais que povoam o filme, e as disjunções provocadas pela surpreendente técnica narrativa do cineasta (sempre indo e vindo, convocando todos os personagens a darem seus testemunhos). Hsiao-hsien envolve o espectador emocionalmente, embora deixando-o intelectualmente responsável pela reconstrução das diversas camadas narrativas que desfilam pelo filme.

* fui rever este filme lá no CCBB e fiquei bem chateado quando vi que ele seria exibido em DVD...

domingo, janeiro 02, 2011

dois

Eu gostei de “O homem que grita”. Gostei do tom do filme. Não é “soco no estômago”, mas também não é evasivo. Um filme sólido, sóbrio, contido, e bem filmado. Mas não consegui entrar em “Léo e Bia”. Não sei se é bom ou ruim. Não sei se gostei ou não gostei. Não sei se entendi ou não entendi. O filme é de uma sinceridade desconcertante e é às vezes até mesmo arrogante em sua enorme ingenuidade. É um filme honesto como poucos, enbora sempre muito previsível e um tanto maniqueísta. Enfim: não consegui entrar no jogo de “Léo e Bia”.