quarta-feira, setembro 26, 2007

três orientais


A maldição da flor dourada °

Ao contrário de muitos por aí, gosto bastante de “Herói”. Neste caso, a “americanização” (não sei se essa é a expressão mais correta) apontou/realçou o talento de Zhang Yimou para outros caminhos. As lutas coreografadas à perfeição, a obsessão pelo trabalho das cores e a idéias de heroísmo estavam aqui a serviço, sublinhadas por míticas histórias de amor. O cineasta chinês nunca havia atingido um grau tão sofisticado. “Heróis” é um espetáculo visual!

Desde então, Yimou parece deslumbrado com tudo isso. Seus filmes seguintes parecem interessados em bater a todo custo a sofisticação deste filme. O "Clã das Adagas Voadoras" ainda guardava algumas qualidades por debaixo daquela insanidade cromática e motora. Mas “A Maldição da Flor Dourada” não. Aqui há overdose e muita preguiça. Yimou inverteu as prioridades: mais vale a retumbância visual (que, convenhamos, já é lá evidente) do que a construção dramática e dos planos. O cineasta filma de maneira irritantemente burocrática, sem atmosferas e ritmo, sem se relacionar com nada. E mesmo nas seqüências de luta (impressionantemente “fakes”), Yimou parece mesmo engolido por um “complexo” de grandeza. “A Maldição da Flor Dourada” é apenas um novelão mexicano com pitadas shakespearianas (com direito a caso entre a Imperatriz e seu enteado e filhos disputando o trono), muito dinheiro e efeitos.

Luxury Car *

Na dá para conceber “Luxury car” como vencedor do Un Certain Regard 2006. É péssimo este filme de Wang Chao – assistente de direção de Chen Kaige por muitos anos. O longa começa como uma viagem de busca ao seio familiar, regada de conflitos geracionais, e termina como um melodrama raso com pitadas de policial urbano. A idéia era falar dessas duas Chinas (a rural e a urbana) convivendo num mesmo tempo, mas o filme se desenvolve por meio de viradas mirabolantes a ponto do ridículo. O cineasta é extremamente didático em termos narrativos, precário nas interpretações e até mesmo primário tecnicamente - com uma fotografia um tanto artificial trabalhando contra o longa (vide a foto aí ao lado). Em algumas seqüências, me senti mesmo bem constrangido.

Humilhação *

Assistir “Humilhação” do japonês Masahiro Kobayashi foi para mim uma experiência antropológica impressionante. É difícil compreender o que se passa com a jovem Yuko (Fusako Urabe), personagem central do filme. Após ser seqüestrada e fazer o governo negociar seu resgate, ela retorna ao Japão e passa a ser humilhada por estranhos e conhecidos – e olha que Kobayashi se baseou em fatos reais. De bom, há a imagem/barulho do mar quase sempre na (extra)tela e a maneira como o Iraque se faz presente como uma evocação de todo um leque bem específico de sentimentos. Fora isso, “Humilhação” é um filme bruto (num mal sentido mesmo) em seus enquadramentos (que parecem completamente desconectados da narrativa), nas interpretações dos atores, em sua faixa sonora. Às vezes parece preguiça; noutras dá a entender uma busca por um “não estilo”. A câmera parece se esforçar na trepidação, investindo em movimentos estranhíssimos. E em nenhum momento (excetuando, talvez, as cenas em que a protagonista engole sua comida) o sofrimento daqueles personagens é exatamente palpável ou por nós compartilhado... E aí, como se já não bastasse a distância cultura entre eu e o filme, “Humilhação” vai aos poucos esvaziando sua dramaticidade.

quinta-feira, setembro 20, 2007

festival do rio

Mais um Festival do Rio! O segundo do Kinos!

A seleção até que está boa, melhor do que a do ano passado, pelo menos. Com sempre, muitos ficaram de fora (Hou Hsiao-hsien, Wong Kar-wai, Brian De Palma, Cronenberg, o trio Tsui Hark, Ringo Lam & Johnnie To, os irmãos Coen, Bela Tarr, o novo Sokurov...) e impressiona a quantidade de filmes de 2005. A Première Brasil também continua num bom nível, em especial (mais uma vez) os documentários. As mostras paralelas é que continuam caindo em qualidade – e os filmes de John Wayne serão exibidos em DVD.

Mas Festival é Festival. Abaixo, algumas indicações. Os que já vi seguem com uma cotação – o que não quer dizer que não vá escrever sobre eles. Muitos já foram comprados para exibição no Brasil. Mas nunca se sabe, eles podem levar dois anos e no fim saírem apenas em DVD – vide “Last days”, do Gus Van Sant.

Os que não posso deixar de ver:

Síndromes e um Século, de Apichatpong Weerasethakul *****
O Estado do Mundo, de Wang Bing, Pedro Costa, Apichatpong Weerasethakul, Chantal Akerman, Vicente Ferraz e Ayisha Abraham
Cristóvão Colombo - O Enigma, de Manoel de Oliveira
Sempre Bela, de Manoel de Oliveira *****
Floresta dos Lamentos, de Naomi Kawase
Império dos Sonhos, de David Lynch
Paranoid Park, de Gus Van Sant
A Prova de Morte, de Quentin Tarantino
Não Toque no Machado, de Jacques Rivette
Go Go Tales, de Abel Ferrara
I'm Not There, de Todd Haynes
Mulher na Praia, de Hong Sang-Soo
O Sol, de Aleksandr Sokurov ***
Armênia, de Robert Guédiguian
O Expresso Darjeering, de Wes Anderson
Eu Não Quero Dormir Sozinho, de Tsai Ming-liang **
Shortbus, de John Cameron Mitchell ***
Hana, de Hirokazu Kore-Eda
Lust, Caution, de Ang Lee
Silenciosa Luz, de Carlos Reygadas

Os que tenho curiosidade de ver:

Nascido e Criado, de Pablo Trapero
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu
Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto, de Sidney Lumet
Uma Moça Dividida em Dois, de Claude Chabrol
Une vieille maîtresse, de Catherine Breillat
As Testemunhas, de André Techiné
Papel Não Embrulha Brasas, de Rithy Panh **
Jia Zhang vai para casa, de Damien Ounouri
Mister Lonely, de Harmony Korine
For your consideration, de Christopher Guest ***
Luxury car, de Wang Chao
A maldição da flor dourada, de Zhang Yimou
Controle, de Anton Corbjin
Zoofilia, de Robinson Devor
Desejo e reparação, de Joe Wright
Entrevista, de Steve Buscemi
Em Paris, de Chritophe Honoré
Fados, de Carlos Saura
Planeta Terror, de Robert Rodriguez
Sombras de Goya, de Milos Forman
A Cada um seu Cinema, de Theo Angelopoulos, Olivier Assayas, Billie August, Jane Campion, Youssef Chahine, Chen Kaige, Michael Cimino, Joel e Ethan Coen, David Cronenber, Luc e Jean-Pierre Dardenne, Manoel de Oliveira, Raymond Depardon, Atom Egoyan, Amos Gitai, Alejandro González Iñarrítu, Hou Hsiao-hsien, Aki Kaurismaki, Abbas Kiarostami, Takeshi Kitano, Andrei Konchalovski, Claude Lelouch, Ken Loach, Nanni Moretti, Roman Polanski, Raul Ruiz, Elia Suleiman, Walter Salles, Tsai Ming-liang, Gus Van Sant, Lars von Trier, Wim Wenders, Wong Kar-wai e Zhang Yimou
Smiley Face, de Gregg Araki
Antiga Alegria, de Kelly Reichard
De Volta à Normandia, de Nicolas Philibert

documentários

“Person” e “Santiago” são documentários em primeira pessoa, seguem a auto-representação como um caminho para o reconhecimento e fortalecimento individual. Ambos dão ainda mais ênfase às características subjetivas da experiência e da memória, e se afastam do relato objetivo. E aí, a própria característica referenciais do documentário, que atesta sua função de janela aberta para o mundo, dá lugar a uma característica expressiva que afirma “a perspectiva extremamente situada, concreta e nitidamente pessoal de sujeitos específicos, incluindo o cineasta”, como diria Bill Nichols. Tanto “Person quanto “Santiago” parecem exigir nosso engajamento afetivo, nossa cumplicidade para com a visão de mundo apresentada. O documentário em primeira pessoa torna o espectador seu primeiro referente.

Person ***

“Person” é mesmo uma espécie de acerto de contas em família (o próprio nome do filme engloba tanto o objeto do documentário quanto a diretora, sua irmão e sua mãe), não simplesmente homenagem ao pai, mas uma rememoração, uma busca por ele. E assim, Marina Person tenta equilibrar um registro afetivo e histórico. De Luiz Sérgio Person vemos um misto de memória, fotos e filmes em super-8, aparições na TV, relatos de amigos e familiares e, sobretudo, seus filmes. E neste mosaico, é curioso como nos aproximamos do cineasta tanto quanto a ele nos distanciamos.

Person foi diretor de poucos filmes. Todos eles estão presentes no documentário, em especial “São Paulo S/A” e “O Caso dos Irmãos Naves”, seus dois trabalhos mais celebrados. E Marina parece aqui nos convidar para um passeio por algumas cenas destas obras-primas, tentando compartilhar conosco essa procura pelo porquê de tanta admiração. Talvez haja um formalismo um tanto excessivo nas entrevistas, além de algumas redundâncias e um “cuidado” com as conversas familiares e as palavras utilizadas que pode parecer “pose”.

Mas “Person” é extremamente sensorial. Marina não camufla seus sentimentos, é onipresente e corajosa - admite não lembrar da mãe enquanto o pai estava vivo, homenageia a irmã Domingas... O documentário é quase como que sobre um encontro. Um filme aberto, cauteloso no que diz respeito a conclusões. Não abrem mão de conhecer, mas não tem ambições de conhecer tudo. E o longa ainda termina com um belíssimo plano, com as irmãs (Marina e Domingas) saindo de um túnel, caminhando de costas para a câmera, em cima dos trilhos de um trem, indo ao encontro da luz.

Santiago *****

“Santiago” é um marco na história do documentário brasileiro. Antes de tudo, o filme não é uma coisa só, mas muitas. O documentário não é apenas uma conseqüência do tema, mas uma forma de se relacionar com o tema. João Moreira Salles busca uma maneira de narrar que revele a natureza dessa relação entre ele e seu “objeto”, deixa a fórmula “eu falo sobre ele para nós” de lado e investe na “eu e ele falamos de nós para vocês”. E daqui se estabelece uma relação virtuosa entre episteme e ética.

“Santiago” é um filme sobre o argentino Santiago Badariotti Merlo e as associações que essa figura do mordomo é capaz de articular nas memórias de JMS. Li por aí que Santiago seria um personagem quase fictício. Mas muito pelo contrário, ele é humano, demasiado humano. A verdade da experiência humana para o cineasta é infinitamente aberta. Santiago apenas adotou possibilidades talvez incomuns de se significar o mundo, adornando sua vida com um sentido transcendente. E assim, a “casa da Gávea” vira o Palazzo Pitti de Florença e todas as dinastias do mundo lhe são contemporâneas. JMS se mostra fascinado pelas recriações de Santiago e generoso em sua receptividade às recriações do mordomo e em seu respeito pelo mistério que a figura dele traz em si.

“Santiago” também fala de um filme que não deu certo. O documentário se transforma numa espécie de mea-culpa. No retorno às velhas cenas, JMS é impiedoso consigo mesmo, explicita suas interferências arrogantes, as repetições, a brutalidade das claquetes, as encenações constrangedoras. Ele nota, por exemplo, que não havia feito nenhum close de Santiago. Alguns partem para uma leitura de classes (que, aliás, certamente existe), mas, na verdade, trata-se de uma situação em que diretor e patrão se confundem irremediavelmente.
Essas “descobertas” acabam também por esclarecer as transformações pelas quais seu olhar de cineasta passou desde 1992. JMS não acredita mais nas imagens estetizantes, nas manipulações, no processo de aproximação com o entrevistado. Alguns argumentam que há vaidade na constatação do documentarista sobre sua evolução como cineasta, mas, se existir, ela é plenamente justificada pelo próprio filme.

“Santiago” é ainda um filme sobre seu próprio processo de criação, um filme sobre si mesmo. JMS assume os próprios erros e insiste que num documentário existe tanto de mentira quanto de verdade, desconstruindo o tempo todo a validade de sua narrativa. O subtítulo de “Santiago” chama-se “uma reflexão sobre o material bruto”. E neste sentido, o cineasta nos sugere que é preciso desconfiar da autenticidade das imagens. Ele reexamina o conteúdo de certos planos realizados em 1992 e enxerga no material bruto (reduto de objetividade para alguns documentaristas) os rastros de uma vontade sem limites de enquadrar a “realidade” na imagem que ele então queria para o filme.

terça-feira, setembro 18, 2007

Os melhores dos anos 50 (segundo o Kinos)

A Liga dos Blogues Cinematográficos postou hoje um ranking dos 20 melhores filmes da década de 50 segundo seus integrantes. Abaixo, segue a lista que enviei à liga (os filmes não estão em ordem de preferência). Devo dizer que não sei bem se ainda concordo com ela... Mas enfim... Para fazer a seleção, acabei montando uma lista enorme de possíveis filmes... Filmes fundamentais.

Viagem à Itália - Roberto Rossellini (1955)
A Marca da Maldade - Orson Welles (1958)
Rastros do ódio - John Ford (1956)
A Palavra - Carl Dreyer (1955)
Lola Montès - Max Ophüls (1955)
Delírio de Loucura - Nicholas Ray (1956)
Um Corpo Que Cai - Alfred Hitchcock (1958)
Era uma vez em Tóquio - Yasujiro Ozu (1953)
As Ferias do Sr. Hulot - Jacques Tati (1954)
Umberto D - De Sica (1952)
A Morte num Beijo - Robert Aldrich (1955)
Eu, um Negro - Jean Rouch (1959)
Imitação da vida - Douglas Sirk (1959)
Pickpocket - Robert Bresson (1959)
Onde Começa o Inferno - Howard Hawks (1959)
Rashomon - Akira Kurosawa (1951)
Contos da Lua Vaga - Kenji Mizoguchi (1953)
Crepúsculo dos Deuses - Billy Wilder (1950)
Noite e Névoa - Alain Resnais (1955)
O sétimo selo – Ingmar Bergman (1958)

1950
O Rio Sagrado (Jean Renoir)
Diário de um Pároco de Aldeia (Robert Bresson)
Milagre em Milão (Vittorio De Sica)
Os Esquecidos (Luis Buñuel)
A Malvada (Joseph L. Mankiewicz)
Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
Vivamos Hoje (Jacques Becker)
Les Miracles n'ont lieu qu'une fois (Yves Allégret)
O Preço de uma Vida (Edward Dmytryk)
O Pai da Noiva (Vincent Minnelli)
O Matador (Henry King)
No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
Orfeu (Jean Cocteau)
A Caravana Perdida (John Ford)
Aviso aos Navegantes (Watson Macedo)

1951
A Montanha dos Sete Abutres (Billy Wilder)
Bellissima (Luchino Visconti)
O Dia em que a Terra Parou (Robert Wise)
Hotel des Invalides (Franju)
Cantando na Chuva (Stanley Donen / Gene Kelly)
The Steel Helmet (Samuel Fuller)
Uma Rua Chamada Pecado (Kazan)
Rashomon (Akira Kurosawa)
1952
Assim Estava Escrito (Vincent Minnelli)
O rio da Aventura (Howard Hawks)
Desengano (Lang)
Europa 51 (Rossellini)
Viver (Akira Kurosawa)
Oharu (Kenji Mizoguchi)
Luzes da Ribalta (Chaplin)
Madame de... (Max Ophuls)
Umberto D (De Sica)
Carnaval Atlântida (José Carlos Burle)
Simão, o Caolho (Alberto Cavalcanti)

1953
A Roda da Fortuna (Vincent Minnelli)
Os Homens Preferem as Loiras (Howard Hawks)
A Carruagem de Ouro (Jean Renoir)
O preço de um homem (Anthony Mann)
O Anjo do Mal (Samuel Fuller)
Era uma vez em Tóquio(Yasujiro Ozu)
Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi)

1954
Os sete samurais (Akira Kurosawa)
A Condessa Descalça (Joseph L. Mankiewicz)
Johnny Guitar (Nicholas Ray)
As Ferias do Sr. Hulot (Tati)
Janela Indiscreta (Hitchcock)
O Rio das Almas Perdidas (Preminger)
O Intendente Sansho (Kenji Mizoguchi)
Sedução da Carne (Visconti)
Homens indomáveis (Alan Dwan)
Nasce uma Estrela (Cukor)
O Salario do Medo (Clouzot)
1955
Viagem à Itália (Roberto Rossellini)
A Palavra (Carl Dreyer)
A Grande Chantagem (Robert Aldrich)
Lola Montès (Max Ophüls)
Les Mauvaises rencontres (Alexandre Astruc)
A Estrada da Vida (Federico Fellini)
A Condessa Descalça (Joseph L. Mankiewicz)
A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
Rififi (Jules Dassin)
Abismo de um Sonho (Federico Fellini)
Artistas e Modelos (Frank Tashlin)
Noite e Névoa (Alain Resnais)
Vidas Amargas (Elia Kazan)
O Homem do Braço de Ouro (Preminger)
Mr. Arkadin (Welles)
O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton)
Juventude Transviada (Nicholas Ray)
Rio, 40 Graus (Nelson Pereira dos Santos)

1956
Um Condenado à Morte Escapou (Robert Bresson)
Grilhões do Passado (Orson Welles)
Sedução da Carne (Luchino Visconti)
Sorrisos de uma Noite de Amor (Ingmar Bergman)
No Silêncio de uma Cidade (Fritz Lang)
Dançando nas Nuvens (Stanley Donen & Gene Kelly)
Nunca Fui Santa (Joshua Logan)
O Homem Que Sabia Demais (Alfred Hitchcock)
A Travessia de Paris (Claude Autant-Lara)
Sete homens sem destino (Budd Boetticher)
Aparajito (Satyajit Ray)
Delírio de loucura (Nicholas Ray)
Vampiro de Almas (Don Siegel)
O Grande Golpe (Stanley Kubrick)
Um Condenado a Morte Escapou (Bresson)
Rastros do ódio (John Ford)
No Silêncio da Cidade (Fritz Lang)

1957
Um Rei em Nova York (Charles Chaplin)
Em Busca de um Homem (Frank Tashlin)
Noites de Cabíria (Federico Fellini)
O Homem Errado (Alfred Hitchcock)
Ensaio de um Crime (Luis Buñuel)
Noites de Circo (Ingmar Bergman)
Suplício de uma Alma (Fritz Lang)
Doze Homens e uma Sentença (Sidney Lumet)
Amargo Triunfo (Nicholas Ray)
La Casa del ángel (Leopoldo Torre Nilsson)
A Ponte do Rio Kwai (David Lean)
Aconteceu em Veneza (Roger Vadim)
Palavras ao Vento (Douglas Sirk)
Ou Vai ou Racha (Frank Tashlin)
Rio, Zona Norte (Nelson Pereira dos Santos)
Trono manchado de sangue (Akira Kurosawa)
Tarde Demais para Esquecer (McCarey)
Forty Guns (Samuel Fuller)
Um Rei em Nova York (Chaplin)
Kiss (Yasuzo Masumura)
Gloria Feita de Sangue (Kubrick)
A Embriaguez do Sucesso (Alexander Mackendrick)
1958
A Marca da Maldade (Orson Welles)
O Sétimo Selo (Ingmar Bergman)
Um Rosto na Noite (Luchino Visconti)
O Grito (Michelangelo Antonioni)
Bom Dia, Tristeza (Otto Preminger)
Une vie (Alexandre Astruc)
Meu Tio (Jacques Tati)
Um Americano Tranqüilo (Joseph L. Mankiewicz)
Os Amantes (Louis Malle)
Kanal (Andrzej Wajda)
Os Amantes de Montparnasse (Jacques Becker)
Cinzas e Diamantes (Andrej Wajda)
Gigi (Vincent Minnelli)
O Homem do Oeste (Anthony Mann)
Almas Maculadas (Sirk)
Tempo para Amar, Tempo para Morrer (Sirk)
Um Corpo que Cai (Hitchcock)

1959
Hiroshima mon amour (Alain Resnais)
Ivan, o Terrível - Parte II (Sergei Eisenstein)
Pickpocket (Robert Bresson)
Os Incompreendidos (François Truffaut)
Onde Começa o Inferno (Howard Hawks)
Morangos Silvestres (Ingmar Bergman)
A Princesa Yang Kwei Fei (Kenji Mizoguchi)
O Tigre de Bengala (Fritz Lang)
Eu, um Negro (Jean Rouch)
Anatomia de um Crime (Otto Preminger)
De Crápula a Herói (Roberto Rossellini)
Os Eternos Desconhecidos (Mario Monicelli)
A Delícia de um Dilema (Leo McCarey)
O Homem Que Luta Só (Budd Boetticher)
Intriga Internacional (Hitchcock)
O Sol por Testemunha (Rene Clement)
Rio Bravo (Hawks)
O Tigre de Bengala e O Tumulo Indiano (Fritz Lang)
Imitação da vida (Douglas Sirk)
O Homem do Sputnik (Carlos Manga)

sábado, setembro 15, 2007

Plínio Marcos e Adam Sandler


Querô ***

Baseado no romance “Querô – Uma reportagem maldita”, escrito pelo dramaturgo Plínio Marcos na década de 70, o filme marca a estréia de Carlos Cortez na direção de longas-metragens ficcionais. Diretor e roteirista de trabalhos como “Seu Nenê da Vila Matilde” (2001) e “Geraldo Filme” (1998), Cortez construiu uma filmografia documental preocupada com personagens e curvas dramáticas, e estréia na ficção, como ele mesmo diz, “correndo atrás dos fatos”.

Em seu prólogo, “Querô” parece buscar sempre o close. É nessa proximidade que Cortez estabelece os códigos que regem a relação do filme com o seu protagonista. Filmado com duas câmeras 16mm sempre no mesmo eixo (uma mais ágil e próxima da cena em si, e a outra mais preocupada com a narração), a fotografia de Hélcio Alemão Nagamine e a montagem de Paulo Sacramento são feitas de planos-sequências e cortes que prezam pela agilidade e alternam narração e emoção (há também um belo jogo de telas pretas pontuando o filme). “Querô” está em plena sintonia com o cinema brasileiro recente. O filme tem aquela mesma movimentação de câmera, as variações de luz, a montagem ágil... e parece por vezes um tanto over em sua dramaticidade e estilo, como nos flashes de imagens mentais de seu protagonista que surgem como uma espécie de clipes alucinatórios.

“Querô” talvez se aproxime de Plínio Marcos pela sua capacidade de transitar do cru ao delicado com muita sensibilidade. Cortez reserva espaço para delicadezas na trajetória de Querô: ele se apaixona pela sobrinha do pastor (numa das melhores seqüências do longa) e alimenta uma relação fraternal com a dona da pensão em que vive. Essa dualidade que marcava o dramaturgo está ali no olhar ofendido e doce de Maxwell Nacimento – nesta que talvez seja a interpretação masculina mais marcante do cinema brasileiro desde o “Madame Satã” de Lázaro Ramos. E “Quero” ainda fecha sua história com um sorriso enigmático. Bonito mesmo.

Eu os declaro marido e... Larry ***


Oriundo da TV, quando ressuscitou o Saturday Night Live com um humor carinhosamente ofensivo em papeis como o Opera Man e o Canteen Boy, Adam Sandler é também grande sucesso no cinema. E foi Dennis Dugan, o cineasta por trás de “Um maluco no golfe” (1996) e “O paizão” (1999), que parece ter descoberto a fórmula do sucesso: Sandler é uma criança crescida, desrespeitoso em relação aos códigos de comportamento que regem a sociedade. A dupla está de volta e aprimorada em um novo sucesso, “Eu os declaro marido e... Larry”.


O roteiro nasceu de uma combinação curiosa entre Barry Fanaro, escritor e produtor da série “The Golden Girls”, e Alexander Payne e Jim Taylor (“Eleição”, “About Schmidt” e “Sideways. O filme cresce quando os personagens de Sandler e Kevin James (do seriado “King of Queens”) começam a ser investigados e têm de parecer gays. As pessoas têm de reconhecê-los como tal. Ao contrário de desserviços a humanidade como “O cruzeiro das loucas” (2003), “Eu os declaro marido e... Larry” parece reforçar clichês e estereótipos para fotogramas depois rir de quão ridículos e simplistas eles são. Questionado sobre sua homossexualidade, Chuck explica que adorava brincar de luta livre na escola, o cúmulo da homossexualidade para o personagem. E as pessoas que o cercam parecem aceitar isso como uma espécie de evidência.

É claro, “Eu os declaro marido e ... Larry” por vezes exagera, é vulgar e juvenil tanto quanto qualquer outro filme de Sandler, e parece um tanto perdido em seu último quarto. Mas definitivamente o filme não funcionaria sem os estereótipos. Para Sandler, que vem realmente aprimorando seu trabalho, o filme é mais uma chance para se reinventar na comédia e no drama - ele, assim como James, está ótimo no longa. E “Eu os declaro marido e... Larry” ainda conta com seqüências hilárias, além de um time impressionante de coadjuvantes (Dan Aykroyd, Ving Rhames, Steve Buscemi, Rachel Dratch, Nick Swardson, Rob Schneider, e David Spade). Como disse Nathan Lee no “Village Voice”, “Eu os declaro marido e... Larry” grosso e vulgar onde “Brokeback Mountain” é elegante e respeitoso.

sábado, setembro 08, 2007

Retrospectiva do Cachaça

Começou ontem e vai até o dia 12 (quarta) a retrospectiva em comemoração aos cinco anos do Cachaça Cinema Clube - no Odeon, sempre às 20h30. São ao todo seis sessões com alguns dos melhores curtas que passaram pelo Cachaça. Olhem aí a programação:

dia 08/09

Vinicius de Moraes, um Rapaz de Família, de Suzana de Moraes. 30 min. 1982.
Alma no Olho, de Zózimo Bulbul. 12 min. 1976.
Bethânia Bem de Perto, de Julio Bressane. 33 min. 1966.
Documentário, de Rogério Sganzerla. 11 min. 1966.
Tim Maia, de Flávio Tambellini. 15 min. 1987.

dia 09/09

Olho por Olho, de Andrea Tonacci. 20 min. 1966.
Nelson Cavaquinho, de Leon Hirszman. 14 min. 1969.
Mutantes, de Antonio Carlos Fontoura ou Ver Ouvir, de Antônio. 7 min. 1970
Um dia na cidade de São Paulo com Os Mutantes.
Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho. 13 min. 2004.
Senhor Pauer, de Ozualdo Candeias. 15 min. 1889.
Da Janela do Meu Quarto, de Cao Guimarães. 5 min. 2004.

dia 10/09

Filme Pornográfico, de autor desconhecido. 16 min. 1920.
Gostosa, de Alexandre Posk, Márcia Nascimento e Pablo Lacal. 7 min. 1991.
O Latido do Cachorro Altera o Percurso das Nuvens, de Raul Fernando, Camila Márquez, Rebeca Ramos, Estevão Garcia e Pedro Urano. 10 min. 2005.
O Papa do Pulp, de Carlos Adriano. 15 min. 2002.
Maluco e Mágico, de Willam Shoucair. 12 min. 1927.
Diversões solitárias, de Wilson Barros. 12 min. 1983.
Ressurreição, de Arthur Omar. 6 min. 1987.
Nossos Parabéns ao Freitas, de Felipe Marcondes Sant'Angelo. 11 min. 2003.

dia 11/09

Uma Folha que Cai, de Ivo Lopes Araújo. 16 min. 2003.
Por Dentro de uma Gota D'água, de Felipe Bragança e Marina Meliande. 10 min. 2003.
Imprescindíveis, de Carlo Magno. 5 min. 2003.
Felicidade, de Emerson Schmidlin. 7 min. 2004.
Luzia Passou por Aqui, de Letícia Paiva e Paulo Mendel. 13 min. 2005.
Nascente, de Helvécio Marins Jr. 17 min. 2005.
Eletrodoméstica, de Kleber Mendonça. 22 min. 2005.

dia 12/09

A Curva, de Salomão Santana. 5 min. 2007.
Como Enfrentar os Desafios da Vida Moderna, de Leonardo Maestrelli. 9 min. 2006.
Copan: Até Onde seus Olhos Alcançam, de Diogo Faggiano, Eduardo Chatagnier e Lia Kulakauskas. 13 min. 2006.

+ premiados em SP
sessão clássica com degustação de cachaça e música

quinta-feira, setembro 06, 2007

dois brasileiros e um americano


O ultimato Bourne ****

Em “O ultimato Bourne”, terceiro capítulo da série sobre o angustiado ex-agente da CIA Jason Bourne (vivido magistralmente por Matt Damon), Paul Greengrass amplifica o estilo que o fez famoso: a câmera na mão, montagem rápida, e um tom falsamente documental. É como um 007 em cinema direto americano. Se bem que, Greengrass foge do heroísmo e parece unicamente interessado em filmar o movimento e o deslocamento de corpos, reforçando a cada fotograma a ilusão de que tudo está se passando neste exato momento.

Embora este talvez seja o mais político da série, “O ultimato” não parece ter as preocupações de denúncia política de filmes anteriores do cineasta inglês. Aparentemente livre de qualquer ideal de objetividade – o crítico Nathan Lee costuma dizer com uma certa razão que “Vôo 93” e “Paixão de Cristo” são o mesmo tipo de filme para platéias diferentes -, Greengrass fez de seu mais novo filme um exercício acachapante de ação.

O cineasta sabe como poucos agarrar o espectador. A seqüência da estação londrina de Waterloo é impressionante. Greengrass trabalha embalado por um fluxo interminável de imagens/informações, numa fotografia que parece dividir os quadros/espaços como se em cortes e movimentos bruscos e trepidantes. Por vezes, isso nos custa a visão da cena, mas Christopher Rouse redefine a idéia de "montagem rápida" em cinema de entretenimento, e garante que entendamos exatamente o que se passa.


Saneamento básico ***

Dos curtas a "Meu tio matou um cara" (2005), o cinema de Jorge Furtado dorme com a literatura e com o cinema clássico e se alimenta de uma enorme preocupação em relação ao contato com o público. Num universo regido por imprevistos, seus personagens mais parecem prisioneiros das circunstâncias, sempre à espera do grande acontecimento de suas vidas. Extremamente habilidoso na articulação entre forma e conteúdo, o cineasta vem de um leve escorregão, mas se levanta em “Saneamento básico”, seu quarto longa. Diferente de seus três longas anteriores, os personagens de “Saneamento” não se mexem por paixão. Cada um deles se move por um objetivo particular e tem por trás de si um arquétipo específico. Na verdade, dessa vez, pela primeira vez, a comédia não tem conotações românticas. “Saneamento” tampouco se ancora numa narração em off. E até aquela displicência no uso de câmera parece melhor diluída.

Em linhas diversas, o cineasta mais uma vez cria um conjunto com unidade multifacetada. Mais uma vez, a verdade dos fatos não está nos fatos, mas nos pontos de vistas de quem os enxerga. E a história é o que se vê acontecer na tela - de certa maneira, “Saneamento” talvez se aproxime de “Houve uma vez dois verões” (2002) em seu referencial no cinema clássico, trabalhando com um enorme frescor os personagens que cria. E é nesse jogo narrativo que Furtado está interessado. Para o filme, pouco importa que pareça estranho a personagem de Fernanda Torres não saber o que significa ficção. Aliás, neste sentido, talvez o que mais me incomode seja a versão distorcida que Furtado nos mostra da região gaúcha de colonização italiana – recomendo a leitura do texto de Fernando Mascarello na Cinequanon.

Em “Saneamento”, comédia rima com política. O dinheiro é mais uma vez um elemento preponderante. Os personagens discutem o preço das coisas a todo momento, traduzindo os custos para uma “moeda” mais próxima a eles. Assim, ficamos sabendo que a quantia gasta na montagem daria para comprar muitos, muitos tijolos. E assim, as contradições relativas à produção cinematográfica em um país como o Brasil tornam-se subtexto para lá de explícito. Na hora H, os personagem tem de decidir entre comprar os direitos de uma música de Billie Holiday ou manter a possibilidade da construção da fosse. Eles acabam optando pela música. E Furtado está claramente com eles.


Cidade dos homens **

“Cidade dos homens” começa com muitas promessas. A bela trilha de Antônio Pinto (“Cidade de Deus”) casa com pequenos flashes de antigas passagens da série. Num tom quase épico, Paulo Morelli tenta aqui uma ligação emocional com o espectador. Vemos Acerola/Douglas e Laranjinha/Darlan mais jovens, personagens e atores marcados pelo tempo do filme e pelo tempo real. Cria-se um bonito elo entre a “vida real” e a realidade dentro do cinema. Outro ponto positivo é o exercício de economia narrativa realizado no roteiro de Morelli e Elena Soarez. Acerola e Laranjinha estão cercados de muitos personagens, mas conseguimos chegar perto de cada um deles. A fotografia de Adriano Goldman (“O ano em que meus pais saíram de férias”) segue o padrão estético delimitado por César Charlone em “Cidade de Deus”, com uma câmera fortemente influenciada pela publicidade, indo sempre ao encontro dos corpos, banhados numa luz dourada.

No entanto, os flashes que tão bem abrem “Cidade dos homens, o filme” são usados à exaustão por toda a duração do longa e o efeito comovente conseguido inicialmente se perde por completo. O curioso é que o filme tem alguns dos problemas (de decupagem, de mise-en-scène) que marcaram as outras duas investidas de Morelli pelo longa-metragem, o filme de época "O preço da paz" (2003) e a comédia "Viva voz" (2003). Em seqüências como aquela em que Acerola e Laranjinha se separam pela primeira vez, cada um indo para um lado do quadro, a mise-en-scène de Morelli se mostra um tanto óbvia. O cineasta também peca vez por outra com uma linguagem cinematográfica que se pretende moderna e inteligente, escorregando na busca sem freios da emoção, em algumas gags bem rasteiras, e em alguns tiques hiper-explorados, como a câmera na mão, os focos e desfocos, e os arredores super-fotogênicos.

Talvez o que mais preocupe seja o fato de se assistir ao filme como um grande dejá-vu. Quatro anos separam a estréia de "Cidade dos homens" na TV do lançamento do filme nos cinemas. De lá para cá, pode-se notar que a presença da imagem popular na televisão brasileira ressurgiu como uma enorme novidade. Em outras palavras, a cultura da pobreza e das favelas no Brasil ganha hoje visibilidade como uma fonte de significado e identidade. A série “Cidade dos homens”, tanto em seu conteúdo quanto em sua forma, foi delicadamente deglutida: aquele apetite pelo real, os traços de jovialidade da dupla de protagonistas, a fricção entre elementos cômicos e dramáticos, e a estilização da imagem a partir das atuais convenções da câmera na mão, da instabilidade na captação, dos cortes abruptos...

terça-feira, agosto 28, 2007

Première Brasil

Notícia fresquinha:

Os organizadores do Festival do Rio acabaram de divulgar os selecionados para a Première Brasil deste ano. São ao todo 34 longas e 24 curtas. E a abertura do evento será dia 20 de setembro, com a exibição de “Tropa de Elite”, de José Padilha. O Festival do Rio vai do dia 20 de setembro a 4 de outubro

Mostra Competitiva de Longas de Ficção

A Casa de Alice, de Chico Teixeira
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Estômago, de Marcos Jorge
Maré, Nossa História de Amor, de Lucia Murat
Mutum, de Sandra Kogut
Onde Aandará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
Sem Controle, de Cris D'Amato
O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli
A Via Láctea, de Lina Chamie

Mostra Competitiva de Longas Documentários

Andarilho, de Cao Guimarães
Condor, de Roberto Mader
Diáriod e Sintra, de Paula Gaitán
Estratégia Xavante, de Belisario Franca
Memória para uso diário, de Beth Formaggini
O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho
Panair do Brasil, de Marco Altberg
Pindorama – A Verdadeira História dos 7 Anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare PQD, de Guilherme Coelho
Rita Cadillac, A Lady do Povo, de Toni Venturi

Hors-Concours Longa–Metragem

Brigada Pára-Quedista, de Evaldo Mocarzel
Grupo Corpo 30 Anos – Uma Família Brasileira, de Fabio Barreto e Marcelo Santiago
Iluminados, de Cristina Leal
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Juízo, de Maria Augusta Ramos
Mulheres Sexo Verdades Mentiras, de Euclydes Marinho
Nome Próprio, de Murilo Salles
Pequenas Histórias, de Helvécio Ratton

Mostra Retratos Longa–Metragem

Carlos Oswald - O Poeta da Luz, de Regis Faria
A Etnogradia da Amizade, de Ricardo Miranda
O Tablado e Maria Clara Machado, de Creuza Gravina

Mostra Novos Rumos
5 Frações de Quase História, Armando Mendz, Cris Azzi, Cristiano Abud, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
Corpo, de Rossana Foglia e Rubens Rewald
Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi

CURTAS

Mostra Competitiva de Curtas –Metragens

7 minutos, de Cavi Borges, Julio Pecly e Paulo Silva
A Maldita , de Tetê Mattos
Alphaville 2007 d.C. , de Paulinho Caruso
Cabaceiras , de Ana Barbara Ramos Ramos
Esconde-Esconde, de Alvaro Furlone
Icarus, de Victor-Hugo Borges
O crime da atriz, de Elza Cataldo
O Lobinho nunca mente, de Ian SBF
Outono , de Pablo Lobato
Pequenos Tormentos da Vida, Gustavo Spolidoro
Picolé, pintinho e pipa, de Gustavo Melo
Réquiem, de Felipe Duque
Saliva, de Esmir Filho
Satori Uso, de Rodrigo Grota
Sentinela, de Afonso Nunes
Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra
Vida de Maria - Márcio Ramos

Mostra Retratos Curta–Metragem

Elke, de Julia Rezende
Lêda de Arte Leda, de Daniela Gontijo
Maria Lenk, de Sonia Nercessian
O Homem-Livro, de Anna Azevedo
Quanto Mais Manga Melhor, de Michele Lavalle

Hors Concours Curta–Metragem

Noite de Sexta, Manhã de Sábado, de Kleber Mendonça Filho
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomaz Farkas e Ricardo Dias

Mostra de cinema Rock and Totem

A partir de amanhã, o Senac de Copacabana (Rua Pompeu Loureiro, 45) recebe a mostra "Rock and Totem". Vale a pena dar uma conferida:

29/08 ( Quarta )
19h - Festival
21h - Festival Express

30/08 ( Quinta )
19h - Tributo a Tim e Jeff Buckley
21h - The complete Monterey Festival

31/08 ( Sexta )
19h - Cat power, speaking for trees
21h - Dig

01/09 ( Sábado )
19h - The stones in the park
21h - Spinal tap

02/09 ( Domingo )
17h - Lemon jelly 64/95
18h - Genghis blues
20h - The holy mountain

Ah... a entrada é franca!

domingo, agosto 26, 2007

Grandes estréias

Há tempos que não se via um fim de semana com tantas boas estréias: “Santiago”, de João Moreira Salles, “O ultimato Bourne”, de Paul Greengrass, “O grande chefe”, de Lars von Trier (apenas em Sampa; no Rio no próximo fim de semana), e “Possuídos”, de William Friedkin. Isso sem contar com a exibição da série “A Pedra do Reino”, de Luiz Fernando Carvalho, nos cinemas, e da estréia de “Fora do jogo” no Rio – há ainda o lançamento do criminoso “A ponte”, sobre o qual escrevi durante o festival do Rio.

O MAM e o CCBB também aparecem com boas pedidas. A cinemateca exibe hoje às 18h um dos melhores filmes de Ruy Guerra, “Deuses e os mortos” (1970).

Aliás, esta semana segue com muitas opções para o cinéfilo. O Odeon recebe a quarta edição do evento “Cinema que pensa”. Dessa vez, o tema será “Os povos e corpos do cinema afro-luso-brasileiro” - inspirado no texto “Tri continental” de Glauber Rocha.

Nos três dias do encontro, além de alguns curtas, serão exibidos os seguintes longas:
dia 27/08, às 21h: “O Leão de Sete Cabeças”; filme africano de Glauber Rocha
dia 28/08, às 21h: “O Herói” do angolano Zezé Gamboa, filme que mostra, dialeticamente, as repercussões da guerra civil em Angola;
dia 29/08, às 21h: “A Margem”, de Ozualdo Candeias

E na quinta (30) o cineclube Tela Brasilis completa quatro anos com uma homenagem a Sergio Bernardes Filho e José Agrippino de Paula.

Às 18h30, na cinemateca do MAM, passam o curta “Passeios no recanto silvestre” (2006), de Miriam Chnaiderman”, e o longa “Desesperato” (1968), de Sérgio Bernardes Filho.


O grande chefe ****

Lars Von Trier muda para continuar o mesmo. Em “O grande chefe” o cineasta dinamarquês retorna num tom mais sutil e discreto, com uma comédia inspirada sobre política de escritório e como seus piores medos a respeito de seu chefe podem ser verdadeiros. O filme traz a história de Ravn (Peter Gantzler). Ele é dono de uma empresa de TI e pretende vendê-la. O problema é que, quando abriu a companhia, Ravn inventou um presidente inexistente para servir de fachada quando fosse preciso tomar medidas impopulares. O comprador potencial Finnur, um islandês mal encarado (Fridrick Thor Fridriksson), insiste em negociar diretamente com o "presidente", cara a cara. E então, Ravn decide contratar Kristoffer (Jens Albinus, o mesmo que viveu o agressivo e carismático líder de “Os idiotas”), um ator decadente, fã fervoroso de um dramaturgo italiano que só ele parece conhecer, para fazer seu papel. Seguem-se confusões e mal-entendidos diversos, em parte porque Ravn é econômico com as informações que fornece ao ator, que é obrigado a improvisar para escapar de algumas saias para lá de justas, e parece estar levando seu personagem a sério demais.
Para os que vinham sendo desafiados por Von Trier, este seu mais recente trabalho tem jeito de novidade. Logo nos frames inicias, o cineasta avisa em off que este é um longa “para qualquer pessoa”, sobre o qual “não vale a pena refletir. É comédia inofensiva, que não espera pregar nem alterar opiniões”. Em “O grande chefe”, Von Trier retorna a um modo, digamos, mais linear de narrativa, e ao terreno da comédia de humor negro. O filme tem realmente um pé inteiro na clássica comédia americana do gênero "screwball", amalucada, afiada, e fortemente baseada no texto – o realizador se diz fã do gênero, em especial dos longas “Levada da breca” (1938), “Um estranho casal” (1968), “Núpcias de escândalo” (1940), e “A loja da esquina” (1940). Por vezes, pode até parecer se tratar de uma comédia inofensiva, mas não é lá muito difícil perceber que existe alguém por trás de tudo isso, e que este alguém está se divertindo, faz questão de deixar claro quem está no comando, e guarda algumas surpresas na manga. Aos poucos temos o esboço de uma alegoria política despretensiosa sobre poder, com a voz de Von Trier pontuado os atos do filme. Ele brinca, inclusive, com seus filmes mais antigos, quando um dos personagens de “O Grande chefe” enche a boca para dizer: “A vida é como um filme do Dogma – é difícil ouvir o que está sendo dito”.

Há mais uma vez um diálogo livre com o melodrama, uma câmera sempre junto aos atores, emprestando uma urgência sufocante ao filme. Mas Trier se impôs novas regras. Dessa vez, há um computador acoplado a uma câmera e microfones. Aos poucos o espectador será capaz de perceber que há uma grande imprecisão nas tomadas, um certo caos formal. Por vezes, é preciso procurar pelos personagens no quadro após o corte. A descontinuidade reina também na iluminação e no som de um plano ao outro. Não são jump cuts. A impressão é a de que começamos do zero a cada corte. Batizado de “Automavision” (creditado como fotógrafo do filme), o mecanismo é descrito pelo cineasta como “um princípio de filmagem (e gravação de som) desenvolvido com a intenção de limitar a influência humana, convidando o telespectador a ver as coisas por outros ângulos” - na verdade, tudo indica que Trier não estava nem mesmo presente no set durante as filmagens, ele apenas selecionava uma locação e escondia algumas câmeras fixas. O Automovision determinava o enquadramento, a abertura do diafragma, e a gravação do som.

Como a grande maioria de seus filmes, “O grande chefe” não deposita muita fé na humanidade. As marionetes de Trier são sempre barulhentas e orgulhosas a ponto da histeria. Aqueles que como Finnur e Ravn estão no poder são mentirosos e manipuladores, enquanto aqueles que os cercam não passam de bajuladores e vaidosos. Interpretado por Albinus, Kristoffer é um ator pretensioso e sem graça. Ele parece estudar diferentes linhas de interpretação, propõe mudanças na caracterização do personagem e tenta sempre imprimir uma certa “profundidade” ao presidente. Dotado de uma sensibilidade ingênua, ele inicialmente não percebe estar sendo enganado por Ravn. Mas em seu segundo ato, o longa presenteia o personagem com uma série de dilemas éticos e artísticos. Será que ele revelará toda a verdade para os empregados de Ravn? Ou será que ele preservará a integridade de seu personagem até o fim?

Possuídos ****

“Possuídos” é definitivamente um dos melhores filmes de William Friedkin (“Operação França” (1972), “O exorcista” (1973), e “Viver e morrer em Los Angeles” (1985). Com praticamente apenas um set e cinco atores, o cineasta americano revisita alguns de seus temas favoritos, como a tênue linha entre o bem e o mal, a emergência da loucura, e as teorias de conspiração, e realiza um estudo perturbador sobre a paranóia.

Adaptado da homônima peça de teatro off-Broadway escrita por Trecy Letts, “Possuídos”, conta a história de uma garçonete chamada Agnes (Ashley Judd). Ela vive num quarto de um hotel à beira da estrada e recebe ligações anônimas que pensa ser de seu violento ex-marido Goss (Harry Connick Jr.), recém-libertado da prisão. Por meio de uma amiga homossexual, R.C (Lynn Collins), ela conhece Peter (Michael Shannon, que viveu o mesmo papel no teatro), veterano da Guerra do Golfo com quem tenta iniciar um romance. Em seu primeiro terço, o filme arma um conflito em torno de um triangulo amoroso. Mas Agnes dorme com Peter e, de repente, parecemos entrar no universo de Philip K. Dick. A situação se agrava paulatinamente e o quarto todo coberto de papel alumínio lembra "The twilight zone".

Friedkin não costuma dar muito espaço pra a construção de personagens, mas os de “Possuídos” são cuidadosamente delineados. Há ainda o interesse de explorá-los como tipos (como o papel de Connick Jr.), mas aos protagonistas é dado todo um background, e o filme, aos poucos, se revela bem claro no que diz respeito aos seus propósitos. Para isso é essencial o trabalho de construção de um clima, instável e claustrofóbico. De um lado o barulho de telefones antigos tocando, luzes fluorescentes, e um detector de fumaça avariado; do outro, o uso vagaroso do zoom, os close-ups, o quatro do motel. Além de apostar, como sempre, num realismo direto e violento (sem medo das situações mais cruas), Friedkin ainda consegue um jogo impressionante de contraposições entre as seqüências de paranóia filmadas dentro do quarto de Agnes e os poucos e assustadores planos aéreos.

Em “Possuídos” a paranóia é real. E o espectador sente isso na pele. É tensão por todos os fotogramas. Quando Peter ou Agnus não estão no quadro juntos, tememos pelo que se mostra sozinho. No fim, Friedkin esclarece que seus personagens caíram num caminho sem volta, mas afirma que a paranóia deles é justificável, mesmo que por razões que não os mosquitos. Os mistérios de Peter e Agnes (ora enfraquecidos, ora fortalecidos) não são tão importante quanto o que eles internalizaram. A loucura de Peter não é nada risível. Muito pelo contrário: seu discurso parece dotado de uma lógica para lá de plausível, e nós, espectadores, testemunhamos o que isso foi capaz de fazer com Agnes. Ele debate dobre a onipresença ameaçadora e silenciosa das máquinas. Ela diz ser loucura dele, que afirma ter sido mordido por um mosquito. Ela não consegue ver nada e, de repente… sim, talvez ela consiga. O cineasta quer discutir os problemas de uma sociedade que só sabe resolver seus conflitos, internos e externos, por meio da violência, expor como o Estado, que deveria garantir a segurança, hoje cerceia nossas liberdades.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Duas dicas para esta quarta

Hoje, no cineclube da FGV, Sandra Kogut estará presente na exibição de seu ótimo “Um passaporte Húngaro” (2002). O cineclube está no Prédio da FGV do centro, Rua da Candelária, 6. A sessão começa às 18h30, e após a projeção haverá uma debate com a realizadora.

Ainda nesta quarta, às 21h, no Odeon, o Cachaça Cinema Clube completa 5 anos com uma sessão especial em homenagem a Edgard Navarro. Serão exibidos “Alice no país das mil novilhas” (1976), “O Rei do cagaço” (1977), “Exposed” (1978), “Lin e Katazan” (1986), e o grande “Superoutro” (1989).

domingo, agosto 12, 2007

Chris Farley

A imagem não está boa, mas este era um dos melhores quadros de Chris Farley, o gordo mais ágil do planeta.

quinta-feira, agosto 09, 2007

De volta

Muito trabalho, uma viajem, problemas com meu computador... e lá se vão quase três semanas sem atualizar o Kinos. Mas agora estou de volta. Tenho alguns textos para postar por aqui, alguns sobre filmes que já até saíram de cartaz. Enfim... vamos lá.

Medos privados em lugares públicos *****

Alain Resnais talvez seja o maior cineasta francês vivo. Ele ainda é mais conhecido por suas três primeiras obras primas (“Hiroshima meu amor”, “O ano passado em Marienbad” e “Muriel”), mas nunca realizou obras indiferentes e seus trabalhos mais recentes permanecem desafiadores dentro de uma continuidade temática e estilística. De “Melo” (1986) a “Na boca não” (2003), Resnais segue mestre. “Medos privados em lugares públicos”, seu 48º filme, baseado numa peça homônima de Alan Ayckbourn (marcando uma nova parceria de Resnais com o dramaturgo inglês, de quem já tinha adaptado a comédia “Smoking/No Smoking”) é mais um belo acréscimo a sua filmografia.

“Medos privados” é mais uma comédia de tons irônicos a respeito das possibilidades e buscas por felicidade. A trama do filme lida com histórias que tratam do cotidiano, um tanto banais mesmo, mas cobrindo toda uma camada de fragilidades e solidões. Com muita ternura por seus personagens, o cineasta desenha de maneira deslumbrante um mundo de liberdades e pessoas que não sabem o que fazer delas. Assim como em “Amores parisienses”, Resnais desvela um desespero silencioso por de baixo da superfície colorida e de plástico do mundo contemporâneo. A própria Paris de “Medos privados” não é a cidade das luzes, mas uma gélida e moderna capital, feita de espaços elegantes e vazios, onde pessoas se encontram e desencontram. Aos poucos, percebe-se um jogo trivial de máscaras e uma estrutura rígida, matemática. E são pessoas como nós, com algumas arestas de fora, é verdade, mas vivas. Todas elas funcionam em papéis como o filho, a colega, a irmã, a noiva o desempregado. Papéis que os definem e os reprimem ao mesmo tempo.

O mestre francês é um cineasta essencialmente emocional. Mas para ele, é a forma o melhor caminho para a emoção. É impressionante o domínio de Resnais, que faz uso de todos os recursos a sua disposição. Em determinadas seqüências, numa aproximação, num único movimento de câmera ele rearranja as forças atuantes em cena. Neste sentido, é curioso observar os recentes e constantes diálogos de Resnais com o gênero musical, o teatro, e, agora, as séries de TV. Em entrevistas recentes, Resnais se diz muito interessado pela inventividade da câmera em séries de TV americanas. Para a revista “Positf”, por exemplo, o realizador se declarou fã de “Arquivo X” e da virtuosidade da técnica de campo-contracampo e da mise-en-scène de Kim Manners, um dos diretores mais constantes da série – para completar, Mark Snow, músico das séries “Arquivo X” e “Millenium”, faz a trilha do longa. E assim como em “Melo”, "Smoking/No-smoking” (1993) e “Na boca não”, “Medos privados” não esconde a raiz no teatro. A mise-en-scène de Resnais esbanja teatralidade, insistindo nas divisões do cenário e as posições dos personagens - aliás, a primeira seqüência de “Medos privados” trava uma discussão a respeito de nossa percepção do espaço. Resnais também experimentou convenções do musical em seus dois últimos trabalhos. Em “Medos privados” não parece ser diferente. O diretor mais uma vez tira proveito do gênero, construindo o tipo de encontros e desencontros que o musical convencionou.

E na verdade, é a neve que parece funcionar como um intermédio musical. Há neve por todos os lados, sempre - até mesmo dentro de um apartamento. A neve branca de fevereiro assegura a transição por entre as seqüências, que se dissolvem num balé que imprimi uma certa leveza ao filme. Num hoje famoso texto, André Bazin já se perguntava porque nevava tanto no cinema. Para o crítico francês, a neve, em sua brancura e monotonia, armazena abismos e metamorfoses. E a impressão que dá é a de que Resnais deve ter lido “Il neige sur le cinema”. Pois em “Medos privados” a neve não é apenas fotogênica. A neve é um poderoso símbolo. Ela contamina, submerge os personagens numa espécie de aquário de nostalgias. Mas ela também cura ou, ao mínimo, confidencia. Mas, no entanto, no fim das contas, resta um otimismo curioso, um apelo sutil a fraternidade. “Medos privados” parece recomendar que desliguemos a TV. Pois a vida segue. Sempre.

sexta-feira, julho 13, 2007

Top 20 Brasil

Eu queria engrossar o coro de recomendações à atualização da Paisá. A revista realizou uma lista com os 20 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, segundo sua equipe de redatores. O texto de Cléber Eduardo que acompanha a lista é leitura obrigatória.

Aproveitando a ocasião, segue meu humilde Top 20 (na verdade, 21). Ah... os filmes não estão em ordem nenhuma.

– Limite, de Mário Peixoto (1931)
– Terra em Transe, de Glauber Rocha (1967)
– Bang Bang, de Andrea Tonacci (1970)
– Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (1964)
– São Paulo S.A., de Luis Sérgio Person (1965)
– O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla (1968)
– A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla (1969)
- Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho (1984)
– Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963)
- A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos (1965)
– A Margem, de Ozualdo Candeias (1967)
- O Anjo Nasceu, de Júlio Bressane (1969)
– O Despertar da Besta, de José Mojica Marins (1968)
- Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos (1977)
- Filme Demência, de Carlos Reichenbach (1986)
- Carnaval Atlântida, de José Carlos Burle (1952)
- O Invasor, de Beto Brant (2001)
- Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky (1974)
- Superoutro, de Edgard Navarro (1989)
- Madame Satã, de Karim Ainouz (2002)
- O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade (1965)

Outros quatro que ficaram de fora, mas poderiam estar dentro:
– A Idade da Terra, de Glauber Rocha (1980)
– Sem Essa Aranha, de Rogério Sganzerla (1970)
- O Império do Desejo, de Carlos Reichenbach (1981)
- Hitler Terceiro Mundo, de José Agrippino de Paula (1968)
E o inédito “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci (2006), correndo forte por fora.

domingo, julho 08, 2007

Irish tour 74 ****


Rory Gallagher é monstro, gênio. Aos 18, como líder da banda Taste, ele já demonstrava em seus solos uma fluência e um feeling bem acima da média, além de uma voz poderosa. Seja com sua famosa Stratocaster ou com uma guitarra acústica, Rory tocava à procura de uma linguagem própria, com melodias carregadas de dramaticidade e sentimento, e apresentações incendiárias. Lenda do blues, Rory colaborou com gente como Muddy Waters e Jerry Lee Lewis, e foi convidado para tocar com os Rolling Stones depois da saída de Mick Taylor. Na carreira solo, com uma formação clássica que contava ainda com o baixista Gerry McAvoy, o baterista Rod De'Ath' e o tecladista Lou Martin, Rory, assim como Eric Clapton, caminhava pelo blues elétrico e pelo rock, mas também fazia bonito no folk e em melodies mais jazzísticas, num som pesado, suave, viajante.

Trata-se de um dos melhores e mais (criminalmente) esquecidos guitarristas de todos os tempos. Para se ter uma idéia, há alguns anos, a revista “Rolling Stone” fez uma lista dos 100 melhores guitarristas da história. Rory não foi nem lembrado. Em parte, porque ele era irlandês (e isso, definitivamente, conta). Em parte, porque ele tinha medo de avião e pouco excursionou pelos EUA. Em parte, porque o habitat natural dele era o palco. Ao vivo, ele acontecia. E nestes sentidos, “Irish tour 74” de Tony Palmer é prova irrefutável e outro grande injustiçado em listas, dessa vez, de rockumentaries.

Rodado em Janeiro daquele ano, num momento em que projetos como este eram raridades, o filme acompanha Rory em turnê por sua terra natal, em Corky, Belfast e Dublin. Os três shows casam com uma pequena entrevista de Rory (em geral em off), e imagens dele percorrendo Corky, cidade em que morou grande parte de sua vida. Tímido e humilde, ele nunca se casou e não deixou herdeiros. Sua vida sempre foi devotada à música. Ele parece até meio encabulado com a fama em certos momentos. Como ele mesmo diz no filme, “o tipo de música que faço, não é uma coisa que começa e termina naquelas duas horas. É uma coisa que permanece comigo o tempo inteiro”.

Algumas das melhores cenas se passam no backstage, antes e depois dos shows. Aqui o filme esbanja a grande virtude dos melhores filmes do chamado cinema direto: a de nos dar a sensação de estarmos presentes no momento em que as coisas acontecem. E Tony Palmer se mostra atento aos detalhes. Rory está nervoso: ele ajeita o cabelo diversas vezes, e suas mãos, em close, tremem (como as mãos de Jackie Kennedy em “Primárias”). Rory já era uma das maiores estrelas do país, havia vendido milhões de álbuns no mundo inteiro, mas era ele mesmo que guardava seus equipamentos e roupa.

Mas “Irish tour” é bom mesmo por ser extremamente feliz na tradução de Rory Gallagher ao vivo para película. Palmer revela de maneira simples a relação de intimidade que o guitarrista alimentava com sua música - em algumas cenas, quando explica, a maneira de tocar em cada uma de suas guitarras, chega a ser comovente o carinho com o qual Rory as trata. E ele fala pouco, mas diz muito. Rory procura a simplicidade do bluesman, em cuja música “percebemos imediatamente de onde ele vem e pelo o que ele passou”. E tudo isso faz sentido quando ele sobe no palco. Rory toca sorrindo, numa simbiose emocional e emocionante com sua música, colegas de banda e fãs. Em apresentações memoráveis de algumas de suas mais famosas canções, ele improvisa e à medida que a música se desenrola, vai exigindo por si mesma modulações e transições que ele parece sentir no sangue. Rory diz viver contando com aquelas duas horas, as duas horas mais importantes do dia. “A música”, diz ele, “não deveria ser tão séria a ponto de você não poder se divertir”. E ainda: “às vezes é bom tocar aquelas duas horas e saber que você terá tempo mais tarde para fazer outras coisas. Mas às vezes isso não faz nenhum sentido”. E tudo impressionantemente bem editado (Stephan Saunders) e filmado (Les Young), com apenas uma câmera. Na montagem Palmer mescla os shows e as câmeras parecem se multiplicar, sem nenhuma perda gritante na continuidade.

* Rory Gallagher morreu em 1994, após passar por um transplante de fígado.

sábado, junho 23, 2007

Rorty e Terrra em transe

"Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmo sangrento e a alma pura
Gladiador defunto, mas intacto
Tanta violência, mas tanta ternura)"

Mário Faustino


Na semana passada, por uma dessas felizes coincidências, reli “Trotsky e as orquídeas selvagens”, texto de cunho autobiográfico do pragmatista americano Richard Rorty (falecido recentemente), e aluguei, mais uma vez, num impulso incontrolável, o DVD de “Terra em transe”. Curioso como as obras começaram a dialogar num ritmo meio alucinatório. Na obrigação de assumir o papel de regente dessa orquestra, aqui estou eu, tentando escrever sobre o assunto.

Glauber Rocha é um realizador sempre em transe, protagonista de uma busca desesperada de traduzir a realidade brasileira num discurso essencialmente cinematográfico. Dessa vez, percebi de fato a enorme influência do italiano Luchino Visconti, mestre na apropriação do melodrama, na sintetização de todo um espírito nacional em códigos da arte, e na incorporação do drama barroco à grandiosidade épica das óperas. “Terra em transe” é uma grandiosa ópera sobre o Brasil. Entre a repressão e o gesto isolado de resistência, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho), ferido de morte, revê sua trajetória política e a do país, mergulhando num grande flashback agonizante de explicações, imprecisões, e delírios.

Ao contrário da grande maioria de seus textos, em “Trotsky e as orquídeas selvagens”, Rorty não traz quaisquer notas bibliográficas ou explicativas. Neste que é um dos raríssimos textos pessoais do filósofo, ele descreve rapidamente sua trajetória intelectual, discutindo um dos elementos fundamentais que originalmente definiram seu interesse pela filosofia: como conciliar a responsabilidade em relação aos demais seres humanos e os sentimentos pessoais que nutrimos pelas pessoas ou coisas que amamos? E o que Rorty parece querer dizer é que a vida pública e a vida privada não precisam (talvez não devam) se fundir ou misturar. As exigências e as regras de uma não são iguais às da outra.

A aproximação que me pareceu rica interessante é essa relação entre as observações de Rorty e o dilaceramento de Paulo Martins. O poeta ama Sara, respeita Diaz, manipula Fuentes, constrói Vieira. Paulo Martins é a decadência do ocidente, é a revolta contra os preconceitos e preceitos da burguesia, contra as flores do estilo da poesia, é a necessidade de transformar todos os mundos. Ele é resultado de um coquetel explosivo de Rimbaud, Baudelaire, Lautréamont (grandiosíssimos poetas do moderno), e muitas pitadas de Brasil. O poeta tenta abraçar as contradições de Eldorado para forjar o instrumento de luta capaz de redimir o país. Ele quer a ética e estética, a poesia e a política. Numa fala que de certa maneira sintetiza a problemática do protagonista e do filme, Sara (Glauce Rocha) afirma: “Um homem não pode estar assim dividido. A política e a poesia são demais para um só homem".

Agora, vejo que o poeta de “Terra em transe” também procura por uma estreita conexão entre uma política e sua visão das grandes questões teóricas. Ele parece crer veementemente que conhecimento e virtude estão conectados. Paulo Martins prevê a reunião de seu sentido de responsabilidade moral e política a uma apreensão dos determinantes finais de nosso destino. “Eles querem ver o amor, o poder e a justiça reunindo-se na natureza profunda das coisas, ou na alma humana, ou na estrutura da linguagem, ou em algum lugar”, escreve Rorty a respeito dos pensadores por ele chamados de “ortodoxos e pós-modernos”. O filósofo lembra de sua juventude e a busca desesperada por uma maneira de, como numa famosa sentença de Yeats que ele havia então descoberto, “reunir realidade e justiça numa só visão”. Rorty recorda que seu desejo era se tornar um “intelectual, um esnobe espiritual, e um amigo da humanidade - um pensador recluso e um lutador pela causa da justiça”. No entanto, ele (assim como no caso de Paulo Martins) se descobriu incapaz de utilizar a filosofia para os objetivos que ele parecia inicialmente ter pensado.

No fim das contas, a trajetória de Paulo Martins não configura uma conquista de caráter épico ou o cumprimento de um destino trágico (“pois o sacrifício do herói não tem o significado cósmico desejado”, nos lembra Ismail Xavier em “Alegorias do subdesenvolvimento”). Neste sentido, o crítico paulista ressaltará que o que se abala em “Terra em transe” é “o traço de onipotência presente na idéia que o intelectual faz de sua intervenção na sociedade, seu papel de conselheiro-mor. Na recapitulação, o poeta está efetivamente no centro de tudo, mas o momento das desilusões em ‘Terra em transe’ põe a nu as contradições do intelectual engajado num momento em que este toma consciência de suas ilusões quanto aos caminhos da história e quanto ao seu próprio papel no círculo dos poderosos”. Idéias têm conseqüências, mas isso não confere aos intelectuais uma posição estratégica. “A filosofia é inútil socialmente”, diz Rorty, numa afirmação que poderia ser estendida às artes.

Talvez seja por isso que goste tanto de Sara. Ela abandona o poeta e sua trajetória pessoal, optando pela vida. Ela caminha decidida pela estrada, em direção à câmera. Sara é o personagem que se contrapõe ao poeta. Ela foi jogada nas questões de seu tempo, mas ao invés da tentativa de ver a si mesma como a encarnação de algo que lhe ultrapassa, a personagem afirma a possibilidade de se fazer no movimento de aceitação da própria finitude. Sara fala de uma política do cotidiano, uma política que se faz no do dia-a-dia. Ela também quer casar, ter filhos. Talvez esteja exagerando, mas vi na discussão final entre Sara e Paulo Martins um embate entre aquilo que quase todos nós poderíamos concordar contra as idiossincrasias pessoais que não demandam (nem precisam) de concordâncias. Quem tem privilégio neste debate?

Enfim, era isso o que eu tinha pra falar.

domingo, junho 10, 2007

Kevin Pollack e Christopher Walken

A partir deste domingo, um vídeo por semana. Neste, Kevin Pollack imita Alan Arkin e Christopher Walken.

sábado, junho 09, 2007

Obra-prima no MAM

Neste domingo, às 16, a Cinemateca do MAM exibe "A mulher de areia" (1964), obra-prima de Hiroshi Teshigahara. Não percam!

terça-feira, junho 05, 2007

O cheiro e Ferrara


Na segunda vez que assisti “O cheiro do ralo” lembrei muito de uma obra-prima do Abel Ferrara, “Vício frenético” (1992). Engraçado: os dois protagonistas possuem algumas semelhanças. O tenente vivido magistralmente por Harvey Keitel, assim como o Lourenço do ótimo Selton Mello, não têm ilusões a respeito de si mesmos. Ambos sabem que são detestáveis. E sem nenhuma razão aparente, abusam do poder que possuem de todas as maneiras possíveis, como se isso fosse mesmo parte de suas respectivas substâncias. De fato, “O cheiro do ralo” e “Vício frenético” se desenvolvem como uma espécie de conto moral sobre o processo de decomposição de seus personagens.

Eu até que gostei de “O cheiro do ralo” da primeira vez. Mas esta segunda investida não lhe fez bem, ainda mais com a lembrança do Ferrara na cachola. Heitor Dhalia tem talento e se mostra amadurecido em relação a “Nina” (2004). Ambos os longas fazem parte de um mesmo projeto estético, abordando personagens no limite de alguma coisa. “O cheiro do ralo”, entretanto, busca o cinema independente americano, constrói uma narrativa que flui bem, e chega num universo (de lugar nenhum, de nenhuma época) que beira a abstração. Dhalia nos convida inicialmente a compartilhar o estranho olhar do personagem. A ambivalência meio esquizofrênica dos sentimentos do protagonista em relação a seus clientes é uma das forças do filme - por vezes, Lourenço exercita sadicamente seu poder frente aos vendedores, noutras parece estranhamente ligado a eles.

Mas a adesão ao personagem não vai muito além disso. “O cheiro do ralo” cheira bem, muito bem. E o curioso é que um dos trunfos de Dhalia desata uma de suas “fragilidades”. Selton Mellho empresta seu carisma ao personagem, numa atitude consciente do cineasta para tornar Lourenço menos odioso. E eles conseguem. Diferente do livro homônimo que lhe deu origem, “O cheiro do ralo” é mais solar. Por vezes, o filme parece mais interessado na crueldade esperta de seu protagonista do que em sua humanidade. “O cheiro do ralo” não mergulha nas contradições de seu personagem. Na verdade, sabemos muito pouco delas. O interesse de Dhalia parece se dar na direção do impacto. Então, por trás de todo aquele cinismo, não se desvenda nenhuma camada. E o que é pior, constrói-se glamour em torno de um personagem que nada tem a ver com glamour. Sabe como é: parece que ser cruel é legal!

Nada que se compare à obsessão de Ferrara por seus personagens. O cinema já nos deu muitos personagens que encarnam o mal, mas Ferrara talvez seja um capítulo à parte. Ele abre os braços, abraçando a escrotidão, abraçando o que a escrotidão trouxer. Ferrara não se limita a acompanhar fascinado os passos de seus anti-heróis. O caos é o DNA de seus filmes, a própria narrativa é tão insegura e errática quanto os seus protagonistas. O policial de “Vício” é um sujeito escroto consumido pelo crime, pelo sexo, pelas drogas, pelo jogo... Numa das seqüências mais bonitas de Ferrara, o policial tem uma visão de Jesus dentro de uma igreja. O personagem questiona a crueldade e a inércia de Jesus vomitando xingamentos incompreensíveis até se retorcer no chão da igreja num choro agudo e convulsivo. Ao mesmo tempo em que procura por vingança, o protagonista também busca redenção. E o que impressiona é o fato destas duas dimensões se fundirem numa só. Aliás, em Ferrara, somente um tenente viciado e corrupto poderia nos convencer sobre a possibilidade da redenção. Em “O cheiro” não se fala em redenção, mas em salvação. E entre os dois termos, segue um abismo.

Em suas entrevistas, Dhalia fala sobre como o longa poderia cair no mau gosto; afirma seu desejo por um filme que dialogasse com o público e não o afastasse; e diz ter arremedado tudo com “elegância”, privilegiando a comunicação com as pessoas. Esses argumentos não têm me convencido. Quer dizer, na verdade, o que Dhalia chama de comunicação com as pessoas? Comunicação com as pessoas é quantidade ou qualidade? Ferrara, por exemplo, é uma verdadeira “catequese” cinematográfica. É definitivamente para poucos. Mas quem viu “Vício frenético” o leva para a vida.

quinta-feira, maio 31, 2007

Maratona, mostras e cineclube

Uma semana para cinéfilos:

Em homenagem aos 90 anos de nascimento do grande Jean Rouch, a Maison de France programou uma maratona obrigatória de 12 horas com filmes do cineasta e etnólogo francês, dia 4 de junho, das 10 da manhã às 10 da noite.

10h - Os mestres loucos (1955)
10h30 - Eu, um negro (1959)
12h - Crônica de um verão (1960)
13h30 - A pirâmide humana. (1960)
15h - A caça ao leão com arco (1965)
16h30 - Pouco a pouco (1972)
18h00 - Mosso Mosso, (1998), de Jean-André Fieshi e Jean Rouch
20h30 - Tourou e Bitti (1971)
20h45 - Jaguar (1967)

No CCBB, até o dia 10 de junho, uma ótima mostra com filmes para a TV realizados por grandes diretores. São muitos os destaques: Spike Lee, Tsai Ming Liang, Jean-Luc Godard, Claire Dennis, Robert Altman, Peter Watkins, Ingmar Bergman, Peter Greenaway, Lars Von Trier, e Krzystof Kieslowski.

No Estação Laura Alvim, de sexta a sexta, uma mostra bem bacana do francês Eric Rohmer.

Tem também um novo cineclube, na FGV do Centro (Rua da Candelária, 6). As sessões são de 15 em 15 dias, sempre seguidas de debate com o diretor ou alguém interessante. Nesta sexta, dia 1 de junho, será exibido às 18h30 o filme “Elevado 3.5”. Dirigido por João Sodré, Maíra Bühler e Paulo Pastorelo, o documentário foi o grande vencedor da categoria longa metragem nacional do último É tudo Verdade. Após a sessão haverá debate com a Maíra Bühler e o crítico Carlos Alberto Mattos.

quarta-feira, maio 30, 2007

Baixio das bestas ****


Vi “Baixio das bestas” duas vezes. E gostei em ambas. Parece mesmo consenso: Cláudio Assis radicaliza caminhos percorridos em “Amarelo manga” (2003), colhendo, inclusive, alguns avanços notórios em termos de linguagem. Despejando alto teor de brutalidade visual e narrativa, Assis recheia este “Baixio das bestas” com soluções cênicas originais e um rigoroso senso de espaço e cultura. “Baixio” é uma espécie de radiografia de um nordeste em decomposição. Toda a ambiência da locação nos remete à ruína, à desestruturação. E o filme, em seus mais diversos componentes (a fotografia, a direção de arte...), está sempre no encalço do conflito.

Em relação a “Amarelo manga” (2003), o cineasta opta em “Baixio” por uma mise-en-scène de tempos mais alongados, planos fixos, focos e desfocos numa mesma cena, experimentações no que diz respeito às entradas e saídas de quadro... Na verdade, o longa parece por vezes alimentar um tom mais contemplador. A impressão é a de que Assis acrescentou o tempo à famosa equação de “Amarelo”. Agora, o ser humano é estômago, sexo e tempo. Neste sentido, me chamou atenção o fato do cineasta procurar uma estrutura circular. O filme é todo marcado pelo ciclo da cana de açúcar e a rotina dos canavieiros, seus trajetos, a colheita e a queima da cana... Assis fala de um tipo particular de decadência muito brasileira. “Amarelo” mapeava os efeitos de um determinado contexto histórico, identificando um a um os males naturalizados naquele espaço urbano. “Baixio” não. Aqui há a intenção de apontar causas. E todos os personagens de “Baixio” são representações, “conseqüências” da mono-cultura da cana, de um ciclo exploratório dos tempos do Brasil colonial.

Mais uma vez: Assis situa muito bem os personagens em seus universos sociais. Através de uma descrição documental, afirma-se a ficção e um ambiente que mais parece ter vida própria. E esse é um movimento curioso. O realismo dormindo com seu oposto. Pois apesar do “registro realista”, “Baixio” abraça a ficção e por vezes quebra os manuais de comportamento cinematográfico (como no plano em que Matheus Nachtergaele dirige-se a câmera, afirmando o cinema como o lugar onde se pode tudo). Isso também é evidente nas interpretações dos atores de “Baixio”. Assis consegue tirar deles uma atuação num misto de cinema naturalista, teatro e performance de choque.

Talvez o que tenha mais me incomodado seja mesmo a participação do próprio Assis e do diretor de fotografia Walter Carvalho numa cena no final do longa. Nessa mesma linha, também acabei não gostando muito quando o personagem Everardo fala pelo filme. Aqui sim, “Baixio” ganha em perversidade e cinismo. Um pouco neste sentido, algumas críticas se perguntaram sobre o verdadeiro compromisso de Assis. Seria ele com as experiências mostradas ou a maneira de olhar para elas? Me parece que essa é uma falsa questão, ou talvez ela esteja mal colocada. Não vejo em “Baixio” um esforço exibicionista. Tampouco enxergo um olhar superior. Ele é definitivamente “de fora” (o que não é um problema, muito pelo contrário), mas encara de frente a sordidez do universo mostrado. Trata-se mesmo de universo em decomposição, mas que não deixa de ter uma beleza imanente E aliás, como bem detectou o Marcelo Ikeda, há em Assis, por mais que ele talvez não concorde, uma idéia de espetáculo.

sábado, maio 19, 2007

Dicas

Desculpe-me: o post vem em cima da hora. Hoje, às 16h, a Cinemateca do MAM exibe uma das obras-primas do húngaro Miklos Jancso. “Os sem esperança” (1965), em legendas em espanhol, é programa imperdível.

Ainda no MAM, dentro da mostra “Nouvelle Vague e outras ondas”, serão exibidos outros grandes filmes como “Duas inglesas e o amor” (1971), de François Truffaut, “Amor livre” (1959), de Jacques Doniol-Valcroze, e “E Deus criou a mulher” (1956), de Roger Vadim. O de Truffaut passa hoje às 18. Os outros dois passam no domingo às 16 e às 18, respectivamente.

A mostra em homenagem ao diretor de fotografia, gravurista, diretor e roteirista bissexto, Mário Carneiro, também esquenta neste fim de semana no CCBB. Domingo, por exemplo, serão exibidos em série três filmes de Paulo César Saraceni fotografados por Mário Carneiro: “Porto das caixas” (às 16h), “A casa assassinada” (às 18h) e “O viajante” (às 20h). Veja a programação completa aqui.

E segunda o Cinemaison exibe um clássico de Jean Renoir. “Boudu salvo das águas” (1932) passa às 18h.

Ah... também dei uma reciclada nos blogs linkados. Tem muita coisa nova. Recomendo um blog criado pelo Sergio L. Andrade (Kino crazy) com textos do crítico paulista Rubem Biáfora.

quarta-feira, maio 09, 2007

Flashbacks

À primeira vista, gostei bastante de “Antônia”. É um filme bonito mesmo. Gosto do feeling feminino e intimista dele. Apesar de alguns maneirismos, Tata Amaral consegue fugir de um retrato de vitimização das cantoras. “Antônia” tampouco se resume a uma história de sucesso. E Tata mais uma vez absorve muito bem o espaço (Brazilândia) para dentro da narrativa, além de se aproximar em termos de enquadramento de “Um céu de estrelas”. Dava pra sentir uma certa fragilidade dramática. “Antônia” parece por vezes uma exposição de diferentes universos. Mas talvez também estivesse aí um diferencial curioso do filme.

No entanto, os problemas ficaram mais evidentes numa segunda investida. Dessa vez, me incomodou um pouco esta certa falta de objetividade narrativa. Na verdade, o roteiro me pareceu bem frágil e, apesar de (bem) aberto, um tanto esquemático e previsível. O inicio do filme em especial é desalentador. Mas o que mais me incomodou mesmo foram os flashbacks “explicativos”. Quando eles entram jogo, não há sutilezas. De fato, não gosto de flashbacks. Às vezes eles até podem ser necessários. Mas este não é definitivamente o caso de “Antônia”. Quando uma das meninas relata a briga que teve com o namorado a respeito de sua gravidez, o filme corta para um flashback. Por que recorrer ao passado? Por que essa lembrança não pode se dar no presente? Por que a menina simplesmente não dá seu depoimento do que foi a briga e pronto?

É curioso como nesta seqüência Tata Amaral se distancia de alguns dos cineastas brasileiros recentes que mais gosto. Me refiro mais especificamente a Karim Ainouz e Marcelo Gomes. Fiquei pensando numa influência de Eduardo Coutinho nos filmes da dupla e em como isso talvez pudesse me ajudar a explicar a diferença entre, por exemplo, “Cinema, aspirinas e urubus” (2005) e “Antônia”. Tudo bem: o interesse tanto em Tata quanto em Coutinho, Karim e Marcelo, é o cotidiano, as dificuldades, as pequenas alegrias, os encontros, os amigos... O universo que seus respectivos filmes pretendem nos revelar se desvendam em depoimentos ou situações que traçam uma rede de pequenas histórias.

Mas no cinema de Coutinho essas questões se resolvem no presente. Estamos falando de um cinema do presente, de um presente contaminado pela memória, de um presente em que coexistem diferentes fluxos. Com Karim e Marcelo a coisa parece se dar de maneira parecida. Eles evitam flashbacks, narrações em off... Eles se preocupam com “a palavra em ato” – como diz Consuelo Lins em relação ao cinema de Coutinho. Karim e Marcelo se atêm ao momento da filmagem - é interessante como no fim da sessão de “Madame Satã” (2002) e “Cinema, aspirinas e urubus”, algumas pessoas têm de ser lembradas de que se tratam de filmes de época. Em seus trabalhos há a escolha de personagens que são narradores de si mesmos. Para eles, assim como para Coutinho, a palavra é um elemento cinematográfico fundamental, tem um valor de criação dentro da estrutura narrativa.

Ouvir “Madame Satã”, por exemplo, é fundamental. Ouvir porque a simples pronunciação do personagem tem um papel orgânico no filme, uma função no conteúdo do drama. Lembro-me também de uma cena do “Cinema, aspirina e urubus” em que Ranulpho narra uma viagem ao Rio de Janeiro. Percebe-se ali o desejo de filmar “a palavra em ato”. A força ou a veracidade do que Ranulpho diz não se encontra necessariamente no que está sendo contado, mas no próprio ato de contar, na forma como ele se expressa, no olhar, nos silêncios, na construção das frases.

terça-feira, maio 08, 2007

49 Up na HBO


Hoje tem programa imperdível na HBO, às 22h15. O canal exibe o genial "49 Up". O filme é o seguinte: desde 1964, e a cada sete anos, o diretor Michael Apted acompanha a vida de catorze ingleses de diferentes segmentos sociais. Em entrevistas, estes personagens contam suas experiências e a evolução de suas vidas da infância à maturidade.

terça-feira, abril 24, 2007

EXTRA!

O cineclube Tela Brasilis exibe nesta quinta (26), às 18h30, um dos melhores filmes de Ozualdo Candeias: "A herança" (1970). O longa é uma adaptação livre de "Hamlet", com David Cardoso no papel título. Não percam!

quinta-feira, abril 05, 2007

Candeias no MIS


Desde ontem, o Museu da Imagem e do Som (MIS) vem exibindo alguns filmes do mestre Ozualdo Candeias, falecido em fevereiro. Entre os títulos estão os fundamentais “A margem” (1967) e “A herança” (1971). Para ver a programação, clique aqui.


Engraçado: ontem mesmo, revirando minhas gavetas, encontrei uma carta que recebi do Candeias. Pois é... uns três ou quatro anos atrás, escrevi pra ele pedindo seus filmes. E ele me respondeu com uma pequena carta (que, aliás, demorei algum tempo para entender por causa da letra garranchuda do Candeias), "O vigilante" e "A opção ou as rosas". Ele me disse que eram as únicas fitas que tinha no momento e ainda se desculpou pela qualidade das imagens. Enfim... ficou pra minha história.

terça-feira, abril 03, 2007

Spike Lee na HBO

Nesta terça a HBO exibe a primeira parte do documentário de Spike Lee sobre New Orleans pós-Katrina. Para muitos, “When the levees broke: A requiem in four acts” é o melhor filme de Lee. O longa tem pouco mais de quatro horas e será exibido em quatro partes, em todas as terças de abril.
Abaixo, os horários em que “When the levees broke: A requiem in four acts: #1/4” será exibido e reprisado.

HBO 22:15 Ter 3/4/2007 HBO 2 01:15 Qua 4/4/2007
HBO 09:15 Sex 6/4/2007 HBO 2 12:15 Sex 6/4/2007
HBO 04:00 Ter 10/4/2007 HBO 2 07:00 Ter 10/4/2007
HBO 16:00 Seg 7/5/2007 HBO 2 19:00 Seg 7/5/2007
HBO 01:30 Qua 23/5/2007 HBO 2 04:30 Qua 23/5/2007
HBO 09:45 Qua 30/5/2007 HBO 2 12:45 Qua 30/5/2007