sexta-feira, novembro 02, 2007

outra imperdível

Cinema húngaro no MAM. Se só poder ver um, veja "Os sem esperança". Obra-prima!
sab 03

16h A Testemunha (1969) de Péter Bacsó
18h As Queridas amigas Édes Emma, Drága Böbe (1991) de István Szabo.
dom 04
16h As aventuras de Mattie Ludas Matyi (1992) de Attila Dargay. 18h Hukkle (2002) de György Pálfi.
sab 10
16h O Carrossel da vida e do amor (1955) de Zoltán Fábri.
18h Erótica saudável (1985) de Péter Tímár.
dom 11
16h Os sem esperanças (1965) de Miklós Jancso.
18h Diário Íntimo (1982) de Márta Mészáros.
sab 17
16h O novo Gilgamesh (1963) de Mihaly Szemes.
dom 18

18h30 Rapsódia Húngara (1979) de Miklós Jancsó.

quarta-feira, outubro 31, 2007

imperdíveis

Amanhã, numa sessão conjunta entre sala escura e tela brasilis, o MAM exibe, às 18h30, "O vampiro da cinemateca" (1975-77), de Jairo Ferreira, e os curtas "Mocoso mal criado" (1993), de Pablo Trapero, e "Rey muerto" (1995), de Lucrecia Martel.

E no CCBB, a mostra completíssima do Jarmusch:

Dia 1/11 (quinta):

15h30 – Johnny Guitar, de Nicholas Ray
17h30 – Down by Law, de Jim Jarmusch
19h30 – Trem Mistério, de Jim Jarmusch

Dia 2/11 (sexta)

15h30 – Sem Fôlego, de Paul Auster e Wayne Wang
17h30 – Sobre café e cigarros (curta e longa), de Jim Jarmusch
19h30 – Pull my Daisy, de Alfred Leslie e Robert Frank
The Last Clean Shirt, de Alfred Leslie

Dia 3/11 (sábado):

19h – Sem Fôlego, de Paul Auster e Wayne Wang
20h30 – Sobre café e cigarros (curta e longa), de Jim Jarmusch

Dia 4/11 (domingo):

16h – Os Corruptos, de Fritz Lang
18h – Pull my Daisy, de Alfred Leslie e Robert Frank
The Last Clean Shirt, de Alfred Leslie
20h – Tigrero, de Mika Kaurismäki

Dia 6/11 (terça):

15h30 – A marca da maldade, de Orson Welles
17h30 – Uma Noite sobre a Terra, de Jim Jarmusch
19h50 – Ghost Dog, de Jim Jarmusch

Dia 7/11 (quarta):

15h30 – Faça a coisa certa, de Spike Lee
17h30 – Ghost Dog, de Jim Jarmusch
19h30 – Year of the Horse, de Jim Jarmusch

Dia 8/11 (quinta):

15h30 – Accatone – Desajuste Social, de Pier Paolo Pasolini
17h30 – O estado das coisas, de Wim Wenders
19h30 – Uma Noite sobre a Terra, de Jim Jarmusch

Dia 9/11 (sexta):

15h30 – Tigrero, de Mika Kaurismäki
17h30 – Dead Man, de Jim Jarmusch
19h40 – Permanent Vacation, de Jim Jarmusch
Ten Minutes Older, de Jim Jarmusch

Dia 10/11 (sábado):

19h – Flores Partidas, de Jim Jarmusch
20h30 - Dead Man, de Jim Jarmusch

Dia 11/11 (domingo):

16h – Acossado, de Jean-Luc Godard
18h – Permanent Vacation, de Jim Jarmusch
Ten Minutes Older, de Jim Jarmusch
20h - Flores Partidas, de Jim Jarmusch

terça-feira, outubro 16, 2007

mais dicas

O CinePuc, organizado pelos alunos do curso de cinema da faculdade, se supera a cada mês. Outubro é dedicado ao mestre português João César Monteiro:

09/10 às 19h - Veredas, João César Monteiro, 1978, 120 min.
16/10 às 19h - Recordações da Casa Amarela , João César Monteiro, 1989, 122 min. - convidado: Hernani Heffner
23/10 às 19h - O Último Mergulho, João César Monteiro, 1992, 88 min.
30/10 às 20h - Vai E Vem, João César Monteiro, 2003, 178 min.

E a partir desta quarta, a cinemateca do MAM abriga uma imperdível mostra sobre Alexander Kluge, um dos maiores (e menos conhecidos) expoentes do cinema novo alemão. A mostra traz a obra completa em longas-metragens (vários inéditos no Brasil), além de curtas e programas de televisão. Eu mesmo vi apenas dois filmes de Kluge: “Os artistas da cúpula do circo: Perplexos” (1968) e “O poder dos sentimentos” (1983). Obras-primas. A programação.

Para terminar, a tirinha do Laerte:




domingo, outubro 14, 2007

duas dicas

Mais um blog/diário de filmagem bem legal: Filmefobia. A página é de autoria do roteirista Hilton Lacerda ("Baixio das bestas", "Árido Movie") e relata as filmagens do novo filme de Kiko Goifman ("33").
A outra dica (esta roubada discaradamente do Anotações de um Cinéfilo), é a disponibilização na web do livro de Tag Gallagher sobre John Ford. É só clicar no link.

quarta-feira, outubro 10, 2007

outros cinco

O festival chegou ao fim. Ando meio completamente sem tempo, mas continuarei postando por aqui sobre os filmes que vi.

ps: queria recomendar a cobertura do festival feita pelo Cinecasulofilia.



I'm a Cyborg but that's ok *

“I'm a Cyborg but that's ok” me parece ser um filme com um desejo mais popular do que os anteriores de Park Chan-Wook (“Old boy”, “Lady vingança”). O coreano parece buscar um filme família, dando destaque para um cantor de música pop coreana chamado Rain (um dos protagonistas). Talvez o procedimento que mais gera interesse seja também aquele que torna o filme tão previsível. “Cyborg” transita muito bem da câmera subjetiva da protagonista para a terceira pessoa, conseguindo alguns momentos sedutores mesmo. Mas isso aos poucos vai quebrando o feitiço. Chan-Wook vai paulatinamente descortinando todas as nuances e ambigüidades que sua premissa absurda trazia consigo. No mais, o filme me parece um tanto fútil como retrato da loucura. Ou seja: não é um filme louco, sobre os loucos ou com os loucos.

Mundo livre *

Atualmente, vejo os filmes de Ken Loach com a única e exclusiva razão de implicar com o meu pai, fã do cinema do inglês. É engraçado: depois do filme, meu pai acaba sempre (ou quase) concordando comigo. Acho que o apreço dele pelo cinema de Loach passa certamente por uma questão geracional e pela simpatia que ele tem pela verve política do cineasta. Não é que Loach seja um péssimo realizador. Aliás, esta é uma idiossincrasia da crítica de Internet brasileira que simplesmente não gosta do cara (uma implicância em geral não confessada). É verdade que seus filmes chafurdam num esquematismo um tanto irritante, mas não são as bombas que muitos dizem por aí. Na verdade, as críticas parecem mais interessadas em combater os posicionamentos políticos do diretor, sua visão de mundo, do que pensar mais propriamente como essas premissas parecem por vezes prescindir ao filme, engessá-lo. O problema não é (do ponto de vista cinematográfico) as idéias (que, por sua vez, não são desinteressantes como dizem) de Loach, mas sua artesania. E neste sentido, ele é no máximo competente, com uma dramaturgia em geral frágil e extremamente convencional.

“Mundo livre” guarda algumas diferenças para com os filmes mais recentes de Loach. Dessa vez, a história não é vista pelos olhos dos explorados. A personagem principal, Angie (Kierston Wareing) dirige uma agência de empregos e o longa acompanha a sua trajetória de extrema e crescente promiscuidade com a ilegalidade. Apesar das viradas dramáticas deixarem no ar um tom um tanto melodramático, o desenvolvimento da personagem não me pareceu forçado ou arbitrário. Muito pelo contrário, o longa parece alimentar uma certa ambigüidade em relação a protagonista até o fim. O que seria um avanço se a interpretação de Wareing fosse um pouco melhor.

Sonhando acordado **

Não entendo a recepção tão negativa em relação a esse filme. É verdade que o roteirista Charlie Kaufman faz falta. No fim das contas, as construções de “Sonhando acordo” parecem meio aleatórias mesmo. O caos aqui parece por vezes completamente desordenado. Em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), Michel Gondry servia e potencializava um roteiro extremamente rigoroso em seus desenvolvimentos e propósitos. Já “Sonhando acordado” não diz exatamente ao que veio. Mas acho bem legal a recusa ao CGI e o uso de técnicas como o stop motion. Gondry e equipe conseguem uma textura onírica, e atmosfera visual de fantasia funciona com muita sedução. Ou seja: pra mim, o saldo é positivo.

Ah... outra coisa: Gael Garcia Bernal está bem, mas o personagem parece às vezes mais idiota do que sonhador (só não dá pra saber se isso vem do roteiro ou da própria atuação de Bernal).

Nascido e criado **

Gosto muito mesmo de Pablo Trapero (“El Bonaerense” “Família rodante”). O cineasta argentino se centra sempre em personagens deslocados, perdidos, agentes passivos mergulhados num contexto ao qual não pertencem. Em seus filmes há sempre uma viajem, veículos de expressão para seus personagens. Não é diferente em “Nascido em criado”. Embora mais discreto do que nos trabalhos anteriores, é ótimo o cinemascope de Guillermo Nieto, sublinhando os contornos um tanto opressivos da enormidade branca da paisagem. Trapero faz da Patagônia um reflexo do estado emocional de Santiago (Guillermo Pfening). Trapero impregna o filme com essa paisagem/atmosfera fria e inóspita, olhando com cuidado para os personagens esquecidos que por ali insistem em viver.

A história está lá, mas apenas como ponto de partida. E isso se percebe claramente para o bem e para o mal. Trapero é no máximo competente quando o filme demanda uma dimensão narrativa. No entanto, naquilo que realmente lhe interessa, essa espécie de comunhão e testemunha de um personagem e suas experiências, o realizador é mais uma vez brilhante. E o curioso é que em meio há tanto sofrimento, “Nascido e criado” é um longa à disposição da vida. Toda a seqüência da despedida de solteiro de Robert (Federico Esquerro) é impressionante. Apesar da construção dramática me parecer um tanto frágil, Trapero consegue fazer com que cada seqüência tenha seus respectivos elementos, conflitos, e detalhes por vezes fascinantes. Triste é o fato de “Nascido e criado” perder muito de sua força com um final conclusivo e muito pouco convincente. A admiração persiste, mas confesso uma ponta de decepção.

For your consideration ***

Christopher Guest é mestre num certo tipo de humor, capaz de trazer todos os elementos de um filme para uma órbita cômica bem particular. Guest é extremamente cuidadoso na construção de seus personagens, figuras quase sempre atormentadas por decepções. E, na verdade, o tom humorístico de seus filmes vem destes seus personagens e suas desilusões demasiado humanas. Por sua vez, “For your consideration” é um longa de insiders da industria hollywoodiana, mas com uma perspectiva outsider. E este é um movimento curioso. Ao mesmo tempo em que ironiza a indústria, “For your consideration” faz dela a sua própria imagem. Trabalhando com a mesma trupe de atores, o cineasta consegue ótimas atuações e talvez peque apenas por uma certa previsibilidade e pela falta de ritmo aqui e ali. Mas, definitivamente, Guest é um realizador subestimado.

sexta-feira, outubro 05, 2007

três documentários


Juízo

Tive sérios problemas com “Juízo”. Não consegui “ler” o filme de Maria Augusta Ramos (“Justiça”). A diretora acompanhou, do tribunal às unidades correcionais de menores infratores, casos que vão do roubo de uma bicicleta ao assassinato de um pai, esfaqueado pelo próprio filho. Impossibilitada pela lei de mostrar os rostos dos meninos e meninas em seu filme, Maria Augusta decidiu substituí-los por atores que conhecessem essa realidade. Não sei se as seqüências que vemos foram encenadas ou apenas os planos dos acusados é que foram trocados. Maria Augusta assume a presença dos atores nos letreiros iniciais, mas depois esconde todos os traços de encenação. A montagem cria uma perfeita ilusão de continuidade e a câmera busca transparência. Talvez o problema seja maior pelo fato do filme ter um aspecto de serviço de utilidade pública. Neste sentido, a confusão que “Juízo” intencionalmente provoca não me parece saudável.

Talvez o meu problema tenha sido com a sessão em que vi o filme. A juíza e os promotores estavam por lá e a presença deles me incomodou bastante. “Juízo” pode até não ser explícito em seus julgamentos, mas o retrato crítico está ali para quem quiser vê-lo. A juíza, por exemplo, é autoritária, dona da verdade, armada de diversas “lições de moral”, completamente distante dos acusados – que precisam provar que são inocentes e não o contrário. Além do mais, ria muito a platéia na sessão deste filme, marcado pela desesperança, pela expressão de vidas potencialmente perdidas. O próprio ato de olhar do espectador está repleto de ética e é, ele próprio, o objeto de julgamento ético quando observado. O espectador deve ser considerado como eticamente responsável por suas respostas. Nota zero para o público presente. Para o filme... não sei. Terei de vê-lo novamente.

Diário de Sintra **

Gostei de “Diário de Sintra”. Um filme de uma mulher apaixonada em busca daquilo que perdeu, à procura daquela Sintra onde Glauber se retirou com a família pouco antes de sua morte. Viúva de Glauber, Paula Gaitán mistura filmes caseiros, depoimentos, entrevistas, fotos... Mas a sensação é de estarmos vendo uma espécie de travelogue, entre passado e presente, sonho e realidade, nostalgia e rememoração - “Caminhos que levam a Sintra ou talvez a lugar nenhum”, diz a cineasta em off. Gaitán está atrás dos vestígios, dos traços deixados pelo marido em sua passagem pela cidade portuguesa. Algumas soluções visuais dão muito certo (as mãos tentando se tocar), outras nem tanto (as fotos na árvore). Me incomoda um pouco uma verta necessidade de ser “artístico” a todo custo, além de algum, digamos, tiques da videoarte espalho aqui e ali. Há uma certa impostação na voz off que narra poemas dos mais variados autores em diversas línguas. Também fica a impressão de que Glauber talvez demore um pouco demais para aparecer, e não vemos quase nada de Gaitán, o que talvez enfraqueça o tom confessional que o filme busca.

O andarilho ****

Cao Guimarães é certamente um de nossos melhores cineastas. É um cinema de intensidades. Um cinema em transe com o mundo histórico. Um cinema que não narra, mas indica a presença real das coisas. “Andarilho” é um furacão delicado a capturar toda a vida que lhe cerca. O filme preserva o fluir do tempo com muita paciência e geometrias nos enquadramentos. O tempo através do qual esses andarilhos negociam suas presenças com o mundo. Radicalmente separado da informação, “Andarilho” nunca é exótico. Se aproxima se distanciando.

Ficamos então totalmente seduzidos pela loucura cheia de ordem desses andarilhos que o filme encontra. Pouco sabemos exatamente sobre eles. Na verdade, nos interessa apenas o personagem em sua constituição, seus gestos e fala, e a maneira pela qual eles dão uma integridade formal e estética a fragmentos do mundo histórico. Há ainda uma incrível pré-disposição ao acaso, que, por sua vez, premia o longa em alguns momentos. O encantamento do espectador com esse filme passa certamente pelo prazer de estar compartilhando a experiência do cineasta. E Guimarães desafia nosso olhar e audição. Vínculos sonoros, visuais e narrativos atam uma dimensão à outra, expandindo para o imaginário tudo o que é mostrado. Por todo o longa espalham-se tons evocativos e nuanças expressivas que nos lembram que o mundo é mais do que a soma das evidencias visíveis que nos são mostradas.

quarta-feira, outubro 03, 2007

segunda chance no Odeon

A programação da repescagem do festival:
Sexta 5-outubro
13:45 Opera Jawa, de Garin Nugroho
16:00 Eu e você, de Ma Liwen
17:45 Na estrada com o amante da minha mulher, de Kim Tai-sik
19:45 Fraulein, de Andrea Staka
21:30 Floresta dos lamentos, de Naomi Kawase

MARATONA: a partir das 23h
23h20: Go Go Tales, de Abel Ferrara
2h: Like a Virgin, de Lee Hae-Young Lee Hae-Jun
4h40: Mundo imundo de John Waters, de Jeff Garkin
Sábado 6-outubro
13:15 Hana, de Hirokazu Kore-Eda
15:45 Antiga alegria, de Kelly Reichardt
17:30 Uma velha amante, de Catherine Breillat
19:45 O outro, de Ariel Rotter
21:30 Lust, Caution, de Ang Lee
Domingo 7-outubro
13:45 As rosas do deserto, de Mario Monicelli
15:45 O bom de chorar, de Matias Bize
17:30 Antes que o Diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet
19:45 Entrevista, de Steve Buscemi
21:30 Não toque no machado, de Jacques Rivette
Segunda 8-outubro
13:00 O Antigo Jardim, de Im Sang-soo
15:15 A vida pós-moderna da minha tia, de Ann Hui
17:30 O casamento de Tuya, de Wang Quan’an
19:30 Morrer em hebreu, de Alejandro Springall
21:30 Caixas Boxes, de Jane Birkin

Terça 9-outubro
13:30 Ezra, o menino soldado Ezra, de Newton I. Aduaka
15:30 A felicidade de Sakai, de Mipa
17:45 Sonhos de deserto Hyazgar, de Zhang Lu
19:45 Um táxi para a escuridão, de Alex Gibney
21:30 O caminho de San Diego, de Carlos Sorin
Quarta 10-outubro
13:15 Os encantos de Paloma Délice Paloma, de Nadir Moknèche
15:30 Argentina latente, de Fernando Solanas
17:30 Cristóvão Colombo – O enigma, de Manoel de Oliveira
19:00 Feche... apenas seus olhos, de Ali Reza Amini
Quinta 11-outubro
13:45 Adeus, cidade do sul Goodbye, de Oleg Safaraliyev
15:45 Eichmann Eichmann, de Robert Young
17:45 Elvis Pelvis, de Kevin Aduaka
19:45 Papel não embrulha brasas, de Rithy Panh
21:30 A cada um seu cinema

terça-feira, outubro 02, 2007

quatro franceses


As testemunhas **

Não conheço muito do cinema do francês André Techiné. Mas gosto do pouco que vi, em especial o “Encontro” (1985) e “Os ladrões” (1996). Me impressiona como ele consegue fazer de cada um de seus personagens um universo particular, além de conseguir um enorme equilíbrio entre as histórias que narra. Neste sentido, o próprio titulo deste seu novo filme diz muito de seu cinema. Um cinema contemplador de vidas. “As testemunhas” começa muito bem, apresentando os dramas de seus personagens, suas bagagens, suas razões e causas e os efeitos que elas geram. Trata-se de um filme genuinamente de roteiro, embalado num formato claramente literário, e um tanto ágil em sua montagem. O problema é que Techiné também quer um testemunho do surgimento devastador da AIDS na França. E aí “As testemunhas” parece assumir um tom mais informativo ou didático. Apesar de alguns momentos de grande interesse, aos poucos, o longa se perde um pouco.

De volta à Normandia ***

“De volta a Normadia” é um filme de muita ambição. Difícil dizer sobre o que ele realmente trata. Este novo documentário de Nicolas Philibert (“Ser e ter”) só se pode descrever por fragmentos. Ainda que o cineasta tente definir seu objeto de maneira clara - como a volta as locações do “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão” (1975), onde trabalhou como assistente de direção de René Allio -, “De volta a Normadia” parece seduzido pelos personagens que encontra. E Philibert nutre um olhar encantado e extremamente paciente para com os camponeses que atuaram no filme de Allio, acompanhando o presente deles com muitos detalhes. As múltiplas camadas que caracterizam o filme, os contornos incertos de seu “sujeito”, sua volta às origens do próprio cinema de seu diretor... “De volta a Normandia” é também um longa sobre o trabalho do documentarista e sobre a vocação de Philibert. Para completar, há uma seqüência lindíssima fechando o filme: o cineasta resgata imagem do próprio pai, Michel Philibert, que havia interpretado um pequeno papel na produção de Allio, eliminada no corte final. A imagem nos é mostrada sem som, em todo a sua pequena duração. Uma linda homenagem.

Em Paris ***

Uma das melhores idéias da Nouvelle Vague era a de que o cinema poderia ou deveria exprimir o prazer não só de fazer filmes, como também de assisti-los e de pensar sobre eles. Me parece ser essa a premissa de “Em Paris”, de Christophe Honoré. Trata-se um longa sobre amores. Paul acaba de encerrar um relacionamento - os flashbacks nos dão um pouco do conflituoso romance entre ele e Anna, uma (seremos apresentados a outras) das causas da depressão dele – e se refugia na casa do pai e do irmão mais novo. É curiosa a química entre Romais Duris (um ator quase símbolo do cinema francês mais contemporâneo) e Louis Garrel (uma reencarnação do herói de Truffaut, Antoine Doinel). Honoré busca inspiração em Godard e Truffaut e, numa das mais belas cenas do filme, ainda nos lembra de "Os Guarda-Chuvas do Amor", do grande Jacques Demy. Mas estas referências não transformam o longa apenas em um divertido jogo para iniciados. As citações jamais parecem muletas; as homenagens e as referencias nunca são pedantes. Muito pelo contrário: elas apimentam a trama e sublinham o próprio amor pelo cinema. “Em Paris” é uma prazerosa homenagem a Nouvelle Vague, através da qual Honoré estabelece um acordo entre o passado e o presente.

Uma moça divida em dois ****

Claude Chabrol é um amante incorrigível das caricaturas. Em “Uma moça dividida em dois”, a trama mais uma vez é apenas o ponto de partida para um inventário com generosas doses de humor sobre três personagens (interpretados por François Berléand, Ludivine Sagnier, e o ótimo Benoît Magimel). Chabrol exagera nas caracterizações e põe suas criaturas em situações limites, sublinhando seus sentimentos mais mesquinhos e inocentes. O cineasta não revela as motivações dos personagens – talvez, elas nem existam mesmo. Na verdade, não existem segredos. Mas há um registro curioso aqui. Chabrol conta sua história frontalmente, cada cena diz e mostra tudo aquilo que ela quer dizer e mostrar. No entanto, nessa maneira aparentemente simples de narrar, temos toda a evocação do “mistério”. E Chabrol é mestre em (re)introduzir mistério naquilo que parecia simples. Além do mais, é empolgante tentar desnudar as construções do cineasta. Em “Uma moça dividida em dois”, a imagem é construída com o máximo de cuidado e precisão. Tudo, dos enquadramentos e movimentos aos olhares, está ali por algum motivo. Chabrol é claro e profundo. Cerebral.

segunda-feira, outubro 01, 2007

três brasileiros


Ainda orangotangos **

É bonito ver a entrega radical de Gustavo Spolidoro e sua equipe à “Ainda orangotangos”. Rodado num único plano-sequência, o filme transborda em frescor, com uma impecável dinâmica de produção, ótimas atuações e a proposta bem sucedida de filiação a Porto Alegre. O trabalho da câmera é um tanto irregular, mas consegue cambiar de ângulos e escalas com muita fluidez, além manter nossa curiosidade em relação ao seu próximo passo. Baseado no livro homônimo de Paulo Scott, o longa é uma espécie de mosaico de bizarrices. Há uma certa irregularidade nos episódios e alguns deles talvez estejam mesmo totalmente fora de sintonia com o restante do longa (a cena do pesadelo, por exemplo). E por vezes o conceito do plano-seqüência vem antes de tudo, como regra primeira de um jogo que em algumas seqüências (como a da bebedeira de perfume no apartamento) parece pedir o corte.

Estômago ***

“Estômago” é cinema popular. O primeiro filme de Marcos Jorge funciona muito bem nesta chave, com o trabalho da música (com alguns exageros, é verdade), os ótimos João Miguel e Babu Santana, um impressionante timing nos diálogos e algumas gags visuais, e muitas referências a Fellini. O longa gira em torno da trajetória anedótica do protagonista/narrador Raimundo Nonato. Marcos Jorge vai empurrando os diálogos até o limite do ridículo; às vezes, escorrega nele, noutras se sai ileso e com muitas gargalhadas. O cineasta e o fotógrafo Toca Seabra não escondem a dimensão de representação do filme, apesar de chamarem pouca atenção para suas construções dramáticas. A sedução de “Estômago” se esvai um pouco pela confusão estrutural do longa, que se desdobra em dois segmentos temporais. Mas trata-se de uma boa estréia. Uma pena o circuito brasileiro não estar pronto para um filme como esse.

A cada de Alice ***

“A casa de Alice” começa muito bem. Somos apresentados um a um a todos os personagens. Há um certo exagero em suas descrições, mas o estreante em ficções, Chico Teixeira conduz tudo com considerável segurança, acompanhando Alice e sua família desestruturada, caminhando pela sexualidade à flor da pele de seus integrantes e uma certa imoralidade nos relacionamentos – apenas a figura do pai me parece um pouco negligenciada. A fotografia de Mauro Pinheiro (que no início parece sempre atrasada ou adiantada em relação a ação) e a arte de Marcos Pedrosa constroem um universo cinzento, na direção das operações, digamos, naturalistas do filme. Teixeira se aproxima espacialmente e afetivamente de seus personagens, comprometido com suas verdades pra lá de ambíguas. E Alice (Carla Ribas) é uma personagem encantadora. O longa parece narrar essas impossibilidades que delineiam nossas frágeis vidas. Um belo dia Alice despertou num quarto estranho, junto de estranhos com os quais não consegue mais se reencontrar. O acaso, o desejo sexual e o capricho das circunstâncias vão marcar os desdobramentos de sua história.

Os problemas surgem aqui e ali e vão se acumulando na medida que a narrativa avança. Não vejo o cinismo e muito menos o negativismo programático que algumas críticas apontaram. No entanto, talvez o problema maior do filme seja o fato da solidariedade inicial para com os personagens se transformar um pouco em maldade. E na verdade, aquele “over” na caracterização dos personagens também pontua outras opções de “A Casa de Alice”, que insiste, por exemplo, em alguns psicologismos complicados. Aos poucos, os personagens parecem simples instrumentos de manipulação a serviço da narrativa, que, por sua vez, se desenvolve a passos por demais funcionalizados.

domingo, setembro 30, 2007

quatro americanos


Fay Grim °

“Fay Grim” é uma espécie de continuação de “As Confissões de Henry Fool” (1997) – talvez o último projeto de boa recepção de Hal Hartley e pelo qual recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes. Dessa vez, Fay, a ex de Henry Fool, se vê envolvida numa trama totalmente nonsense de espionagem global. E mais uma vez: Hartley parece interessado única e exclusivamente em copiar Godard. Não dá para entender a onipresença do enquadramento entortado (algo que um Terry Gillian, por exemplo, faz tão bem, mudando de gênero a cada ângulo torto), nem todas aqueles procedimentos de distanciamento (das interpretações a utilização da faixa sonora). O grande problema é que as decisões do cineasta americano parecem todas marcadas por um certo cinismo, pela “pose” modernosa e supostamente inteligente. E Hartley é ainda mais infantil quando o filme parece assumir uma postura denuncista. Neste sentido (diante, por exemplo, da abertura dos arquivos confidenciais da CIA), “Fay Grim” é extremamente redundante e um tanto bobo em todo que diz.

A entrevista **

Impressiona o quão previsível é este filme de Steve Buscemi. Apesar de serem aparamente opostos (ele é um jornalista sério, correspondente de guerra; ela, uma atriz de filmes B de segundo escalão que alcançou a fama pela beleza), sabemos desde o início que “A entrevista” durará até concluir que, na verdade, eles são igualzinhos: para eles a vida é pura e simplesmente um exercício de atuação. Buscemi (para variar, soberbo como protagonista) ainda consegue gerar alguns momentos de interesse e afasta qualquer aproximação mais simplista entre eles (tipo pai e filha, amantes...), mas exagera na caracterização dos personagens e parece por demais consciente do “naturalismo” buscado, e dos caminhos e desfecho de seu longa.

Antiga alegria ***

Muito legal este filme de Kelly Richardt. A cineasta americana trabalha no acúmulo de detalhes e sutilezas. “Antiga alegria” é pura nuance. Separados por tempo indeterminado, e levando vidas completamente diferentes, dois amigos de infância tentam reviver as raízes de sua relação numa viagem às montanhas. Durante a viagem, todo tipo de frivolidades marcam as conversas entre eles. Mas à noite, depois de algumas cervejas e baseados, Kurt diz o que realmente tem em mente: “Sinto sua falta Mark. Quero que sejamos amigos, mas parece que há uma barreira entre nós”. Na verdade, essa viagem é uma busca pelo que Mark e Kurt foram um dia, um retorno a uma certa inocência.

Mas não foi apenas a amizade deles que mudou. A cidade mudou, os tempos mudaram. E eles parecem sofrer pela primeira vez o impacto dessa realidade. É este o verdadeiro interesse de Richardt: traçar a amizade entre dois homens e registrar o momento exato em que ela termina. Kurt e Mark parecem carregar um certo senso de alienação e arrependimento. Mas a culpa não é deles, nem de ninguém. É o tempo. Invencível.

Planeta terror ****

Há uma frase em “Planeta terror” que parece sintetizar o ótimo filme de Robert Rodriguez: "Em algum momento na vida, você encontra utilidade para todos os talentos inúteis que você tem". Na verdade, o cinema de Rodriguez sempre se deu no âmbito do gênero. Seus filmes são propositalmente “vagabundos”, passam ao largo do que nós temos como cinema de bom gosto, e jogam “psicoticamente” com diversos significantes de cinema comercial que o realizador adorava como espectador. Mas o fato é que a relação com o grindhouse lhe fez bem, muito bem. Pois neste gênero tudo é permitido (aos atores, à história, à mise-en-scene...), sem pudor algum. Rodriguez parece livre de compromissos narrativos e fez de “Planeta terror” um vigoroso exercício de vitalidade cinematográfica. Ao espectador, só nos resta entrar no clima. Diversão garantida.

quarta-feira, setembro 26, 2007

três orientais


A maldição da flor dourada °

Ao contrário de muitos por aí, gosto bastante de “Herói”. Neste caso, a “americanização” (não sei se essa é a expressão mais correta) apontou/realçou o talento de Zhang Yimou para outros caminhos. As lutas coreografadas à perfeição, a obsessão pelo trabalho das cores e a idéias de heroísmo estavam aqui a serviço, sublinhadas por míticas histórias de amor. O cineasta chinês nunca havia atingido um grau tão sofisticado. “Heróis” é um espetáculo visual!

Desde então, Yimou parece deslumbrado com tudo isso. Seus filmes seguintes parecem interessados em bater a todo custo a sofisticação deste filme. O "Clã das Adagas Voadoras" ainda guardava algumas qualidades por debaixo daquela insanidade cromática e motora. Mas “A Maldição da Flor Dourada” não. Aqui há overdose e muita preguiça. Yimou inverteu as prioridades: mais vale a retumbância visual (que, convenhamos, já é lá evidente) do que a construção dramática e dos planos. O cineasta filma de maneira irritantemente burocrática, sem atmosferas e ritmo, sem se relacionar com nada. E mesmo nas seqüências de luta (impressionantemente “fakes”), Yimou parece mesmo engolido por um “complexo” de grandeza. “A Maldição da Flor Dourada” é apenas um novelão mexicano com pitadas shakespearianas (com direito a caso entre a Imperatriz e seu enteado e filhos disputando o trono), muito dinheiro e efeitos.

Luxury Car *

Na dá para conceber “Luxury car” como vencedor do Un Certain Regard 2006. É péssimo este filme de Wang Chao – assistente de direção de Chen Kaige por muitos anos. O longa começa como uma viagem de busca ao seio familiar, regada de conflitos geracionais, e termina como um melodrama raso com pitadas de policial urbano. A idéia era falar dessas duas Chinas (a rural e a urbana) convivendo num mesmo tempo, mas o filme se desenvolve por meio de viradas mirabolantes a ponto do ridículo. O cineasta é extremamente didático em termos narrativos, precário nas interpretações e até mesmo primário tecnicamente - com uma fotografia um tanto artificial trabalhando contra o longa (vide a foto aí ao lado). Em algumas seqüências, me senti mesmo bem constrangido.

Humilhação *

Assistir “Humilhação” do japonês Masahiro Kobayashi foi para mim uma experiência antropológica impressionante. É difícil compreender o que se passa com a jovem Yuko (Fusako Urabe), personagem central do filme. Após ser seqüestrada e fazer o governo negociar seu resgate, ela retorna ao Japão e passa a ser humilhada por estranhos e conhecidos – e olha que Kobayashi se baseou em fatos reais. De bom, há a imagem/barulho do mar quase sempre na (extra)tela e a maneira como o Iraque se faz presente como uma evocação de todo um leque bem específico de sentimentos. Fora isso, “Humilhação” é um filme bruto (num mal sentido mesmo) em seus enquadramentos (que parecem completamente desconectados da narrativa), nas interpretações dos atores, em sua faixa sonora. Às vezes parece preguiça; noutras dá a entender uma busca por um “não estilo”. A câmera parece se esforçar na trepidação, investindo em movimentos estranhíssimos. E em nenhum momento (excetuando, talvez, as cenas em que a protagonista engole sua comida) o sofrimento daqueles personagens é exatamente palpável ou por nós compartilhado... E aí, como se já não bastasse a distância cultura entre eu e o filme, “Humilhação” vai aos poucos esvaziando sua dramaticidade.

quinta-feira, setembro 20, 2007

festival do rio

Mais um Festival do Rio! O segundo do Kinos!

A seleção até que está boa, melhor do que a do ano passado, pelo menos. Com sempre, muitos ficaram de fora (Hou Hsiao-hsien, Wong Kar-wai, Brian De Palma, Cronenberg, o trio Tsui Hark, Ringo Lam & Johnnie To, os irmãos Coen, Bela Tarr, o novo Sokurov...) e impressiona a quantidade de filmes de 2005. A Première Brasil também continua num bom nível, em especial (mais uma vez) os documentários. As mostras paralelas é que continuam caindo em qualidade – e os filmes de John Wayne serão exibidos em DVD.

Mas Festival é Festival. Abaixo, algumas indicações. Os que já vi seguem com uma cotação – o que não quer dizer que não vá escrever sobre eles. Muitos já foram comprados para exibição no Brasil. Mas nunca se sabe, eles podem levar dois anos e no fim saírem apenas em DVD – vide “Last days”, do Gus Van Sant.

Os que não posso deixar de ver:

Síndromes e um Século, de Apichatpong Weerasethakul *****
O Estado do Mundo, de Wang Bing, Pedro Costa, Apichatpong Weerasethakul, Chantal Akerman, Vicente Ferraz e Ayisha Abraham
Cristóvão Colombo - O Enigma, de Manoel de Oliveira
Sempre Bela, de Manoel de Oliveira *****
Floresta dos Lamentos, de Naomi Kawase
Império dos Sonhos, de David Lynch
Paranoid Park, de Gus Van Sant
A Prova de Morte, de Quentin Tarantino
Não Toque no Machado, de Jacques Rivette
Go Go Tales, de Abel Ferrara
I'm Not There, de Todd Haynes
Mulher na Praia, de Hong Sang-Soo
O Sol, de Aleksandr Sokurov ***
Armênia, de Robert Guédiguian
O Expresso Darjeering, de Wes Anderson
Eu Não Quero Dormir Sozinho, de Tsai Ming-liang **
Shortbus, de John Cameron Mitchell ***
Hana, de Hirokazu Kore-Eda
Lust, Caution, de Ang Lee
Silenciosa Luz, de Carlos Reygadas

Os que tenho curiosidade de ver:

Nascido e Criado, de Pablo Trapero
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu
Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto, de Sidney Lumet
Uma Moça Dividida em Dois, de Claude Chabrol
Une vieille maîtresse, de Catherine Breillat
As Testemunhas, de André Techiné
Papel Não Embrulha Brasas, de Rithy Panh **
Jia Zhang vai para casa, de Damien Ounouri
Mister Lonely, de Harmony Korine
For your consideration, de Christopher Guest ***
Luxury car, de Wang Chao
A maldição da flor dourada, de Zhang Yimou
Controle, de Anton Corbjin
Zoofilia, de Robinson Devor
Desejo e reparação, de Joe Wright
Entrevista, de Steve Buscemi
Em Paris, de Chritophe Honoré
Fados, de Carlos Saura
Planeta Terror, de Robert Rodriguez
Sombras de Goya, de Milos Forman
A Cada um seu Cinema, de Theo Angelopoulos, Olivier Assayas, Billie August, Jane Campion, Youssef Chahine, Chen Kaige, Michael Cimino, Joel e Ethan Coen, David Cronenber, Luc e Jean-Pierre Dardenne, Manoel de Oliveira, Raymond Depardon, Atom Egoyan, Amos Gitai, Alejandro González Iñarrítu, Hou Hsiao-hsien, Aki Kaurismaki, Abbas Kiarostami, Takeshi Kitano, Andrei Konchalovski, Claude Lelouch, Ken Loach, Nanni Moretti, Roman Polanski, Raul Ruiz, Elia Suleiman, Walter Salles, Tsai Ming-liang, Gus Van Sant, Lars von Trier, Wim Wenders, Wong Kar-wai e Zhang Yimou
Smiley Face, de Gregg Araki
Antiga Alegria, de Kelly Reichard
De Volta à Normandia, de Nicolas Philibert

documentários

“Person” e “Santiago” são documentários em primeira pessoa, seguem a auto-representação como um caminho para o reconhecimento e fortalecimento individual. Ambos dão ainda mais ênfase às características subjetivas da experiência e da memória, e se afastam do relato objetivo. E aí, a própria característica referenciais do documentário, que atesta sua função de janela aberta para o mundo, dá lugar a uma característica expressiva que afirma “a perspectiva extremamente situada, concreta e nitidamente pessoal de sujeitos específicos, incluindo o cineasta”, como diria Bill Nichols. Tanto “Person quanto “Santiago” parecem exigir nosso engajamento afetivo, nossa cumplicidade para com a visão de mundo apresentada. O documentário em primeira pessoa torna o espectador seu primeiro referente.

Person ***

“Person” é mesmo uma espécie de acerto de contas em família (o próprio nome do filme engloba tanto o objeto do documentário quanto a diretora, sua irmão e sua mãe), não simplesmente homenagem ao pai, mas uma rememoração, uma busca por ele. E assim, Marina Person tenta equilibrar um registro afetivo e histórico. De Luiz Sérgio Person vemos um misto de memória, fotos e filmes em super-8, aparições na TV, relatos de amigos e familiares e, sobretudo, seus filmes. E neste mosaico, é curioso como nos aproximamos do cineasta tanto quanto a ele nos distanciamos.

Person foi diretor de poucos filmes. Todos eles estão presentes no documentário, em especial “São Paulo S/A” e “O Caso dos Irmãos Naves”, seus dois trabalhos mais celebrados. E Marina parece aqui nos convidar para um passeio por algumas cenas destas obras-primas, tentando compartilhar conosco essa procura pelo porquê de tanta admiração. Talvez haja um formalismo um tanto excessivo nas entrevistas, além de algumas redundâncias e um “cuidado” com as conversas familiares e as palavras utilizadas que pode parecer “pose”.

Mas “Person” é extremamente sensorial. Marina não camufla seus sentimentos, é onipresente e corajosa - admite não lembrar da mãe enquanto o pai estava vivo, homenageia a irmã Domingas... O documentário é quase como que sobre um encontro. Um filme aberto, cauteloso no que diz respeito a conclusões. Não abrem mão de conhecer, mas não tem ambições de conhecer tudo. E o longa ainda termina com um belíssimo plano, com as irmãs (Marina e Domingas) saindo de um túnel, caminhando de costas para a câmera, em cima dos trilhos de um trem, indo ao encontro da luz.

Santiago *****

“Santiago” é um marco na história do documentário brasileiro. Antes de tudo, o filme não é uma coisa só, mas muitas. O documentário não é apenas uma conseqüência do tema, mas uma forma de se relacionar com o tema. João Moreira Salles busca uma maneira de narrar que revele a natureza dessa relação entre ele e seu “objeto”, deixa a fórmula “eu falo sobre ele para nós” de lado e investe na “eu e ele falamos de nós para vocês”. E daqui se estabelece uma relação virtuosa entre episteme e ética.

“Santiago” é um filme sobre o argentino Santiago Badariotti Merlo e as associações que essa figura do mordomo é capaz de articular nas memórias de JMS. Li por aí que Santiago seria um personagem quase fictício. Mas muito pelo contrário, ele é humano, demasiado humano. A verdade da experiência humana para o cineasta é infinitamente aberta. Santiago apenas adotou possibilidades talvez incomuns de se significar o mundo, adornando sua vida com um sentido transcendente. E assim, a “casa da Gávea” vira o Palazzo Pitti de Florença e todas as dinastias do mundo lhe são contemporâneas. JMS se mostra fascinado pelas recriações de Santiago e generoso em sua receptividade às recriações do mordomo e em seu respeito pelo mistério que a figura dele traz em si.

“Santiago” também fala de um filme que não deu certo. O documentário se transforma numa espécie de mea-culpa. No retorno às velhas cenas, JMS é impiedoso consigo mesmo, explicita suas interferências arrogantes, as repetições, a brutalidade das claquetes, as encenações constrangedoras. Ele nota, por exemplo, que não havia feito nenhum close de Santiago. Alguns partem para uma leitura de classes (que, aliás, certamente existe), mas, na verdade, trata-se de uma situação em que diretor e patrão se confundem irremediavelmente.
Essas “descobertas” acabam também por esclarecer as transformações pelas quais seu olhar de cineasta passou desde 1992. JMS não acredita mais nas imagens estetizantes, nas manipulações, no processo de aproximação com o entrevistado. Alguns argumentam que há vaidade na constatação do documentarista sobre sua evolução como cineasta, mas, se existir, ela é plenamente justificada pelo próprio filme.

“Santiago” é ainda um filme sobre seu próprio processo de criação, um filme sobre si mesmo. JMS assume os próprios erros e insiste que num documentário existe tanto de mentira quanto de verdade, desconstruindo o tempo todo a validade de sua narrativa. O subtítulo de “Santiago” chama-se “uma reflexão sobre o material bruto”. E neste sentido, o cineasta nos sugere que é preciso desconfiar da autenticidade das imagens. Ele reexamina o conteúdo de certos planos realizados em 1992 e enxerga no material bruto (reduto de objetividade para alguns documentaristas) os rastros de uma vontade sem limites de enquadrar a “realidade” na imagem que ele então queria para o filme.

terça-feira, setembro 18, 2007

Os melhores dos anos 50 (segundo o Kinos)

A Liga dos Blogues Cinematográficos postou hoje um ranking dos 20 melhores filmes da década de 50 segundo seus integrantes. Abaixo, segue a lista que enviei à liga (os filmes não estão em ordem de preferência). Devo dizer que não sei bem se ainda concordo com ela... Mas enfim... Para fazer a seleção, acabei montando uma lista enorme de possíveis filmes... Filmes fundamentais.

Viagem à Itália - Roberto Rossellini (1955)
A Marca da Maldade - Orson Welles (1958)
Rastros do ódio - John Ford (1956)
A Palavra - Carl Dreyer (1955)
Lola Montès - Max Ophüls (1955)
Delírio de Loucura - Nicholas Ray (1956)
Um Corpo Que Cai - Alfred Hitchcock (1958)
Era uma vez em Tóquio - Yasujiro Ozu (1953)
As Ferias do Sr. Hulot - Jacques Tati (1954)
Umberto D - De Sica (1952)
A Morte num Beijo - Robert Aldrich (1955)
Eu, um Negro - Jean Rouch (1959)
Imitação da vida - Douglas Sirk (1959)
Pickpocket - Robert Bresson (1959)
Onde Começa o Inferno - Howard Hawks (1959)
Rashomon - Akira Kurosawa (1951)
Contos da Lua Vaga - Kenji Mizoguchi (1953)
Crepúsculo dos Deuses - Billy Wilder (1950)
Noite e Névoa - Alain Resnais (1955)
O sétimo selo – Ingmar Bergman (1958)

1950
O Rio Sagrado (Jean Renoir)
Diário de um Pároco de Aldeia (Robert Bresson)
Milagre em Milão (Vittorio De Sica)
Os Esquecidos (Luis Buñuel)
A Malvada (Joseph L. Mankiewicz)
Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
Vivamos Hoje (Jacques Becker)
Les Miracles n'ont lieu qu'une fois (Yves Allégret)
O Preço de uma Vida (Edward Dmytryk)
O Pai da Noiva (Vincent Minnelli)
O Matador (Henry King)
No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
Orfeu (Jean Cocteau)
A Caravana Perdida (John Ford)
Aviso aos Navegantes (Watson Macedo)

1951
A Montanha dos Sete Abutres (Billy Wilder)
Bellissima (Luchino Visconti)
O Dia em que a Terra Parou (Robert Wise)
Hotel des Invalides (Franju)
Cantando na Chuva (Stanley Donen / Gene Kelly)
The Steel Helmet (Samuel Fuller)
Uma Rua Chamada Pecado (Kazan)
Rashomon (Akira Kurosawa)
1952
Assim Estava Escrito (Vincent Minnelli)
O rio da Aventura (Howard Hawks)
Desengano (Lang)
Europa 51 (Rossellini)
Viver (Akira Kurosawa)
Oharu (Kenji Mizoguchi)
Luzes da Ribalta (Chaplin)
Madame de... (Max Ophuls)
Umberto D (De Sica)
Carnaval Atlântida (José Carlos Burle)
Simão, o Caolho (Alberto Cavalcanti)

1953
A Roda da Fortuna (Vincent Minnelli)
Os Homens Preferem as Loiras (Howard Hawks)
A Carruagem de Ouro (Jean Renoir)
O preço de um homem (Anthony Mann)
O Anjo do Mal (Samuel Fuller)
Era uma vez em Tóquio(Yasujiro Ozu)
Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi)

1954
Os sete samurais (Akira Kurosawa)
A Condessa Descalça (Joseph L. Mankiewicz)
Johnny Guitar (Nicholas Ray)
As Ferias do Sr. Hulot (Tati)
Janela Indiscreta (Hitchcock)
O Rio das Almas Perdidas (Preminger)
O Intendente Sansho (Kenji Mizoguchi)
Sedução da Carne (Visconti)
Homens indomáveis (Alan Dwan)
Nasce uma Estrela (Cukor)
O Salario do Medo (Clouzot)
1955
Viagem à Itália (Roberto Rossellini)
A Palavra (Carl Dreyer)
A Grande Chantagem (Robert Aldrich)
Lola Montès (Max Ophüls)
Les Mauvaises rencontres (Alexandre Astruc)
A Estrada da Vida (Federico Fellini)
A Condessa Descalça (Joseph L. Mankiewicz)
A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
Rififi (Jules Dassin)
Abismo de um Sonho (Federico Fellini)
Artistas e Modelos (Frank Tashlin)
Noite e Névoa (Alain Resnais)
Vidas Amargas (Elia Kazan)
O Homem do Braço de Ouro (Preminger)
Mr. Arkadin (Welles)
O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton)
Juventude Transviada (Nicholas Ray)
Rio, 40 Graus (Nelson Pereira dos Santos)

1956
Um Condenado à Morte Escapou (Robert Bresson)
Grilhões do Passado (Orson Welles)
Sedução da Carne (Luchino Visconti)
Sorrisos de uma Noite de Amor (Ingmar Bergman)
No Silêncio de uma Cidade (Fritz Lang)
Dançando nas Nuvens (Stanley Donen & Gene Kelly)
Nunca Fui Santa (Joshua Logan)
O Homem Que Sabia Demais (Alfred Hitchcock)
A Travessia de Paris (Claude Autant-Lara)
Sete homens sem destino (Budd Boetticher)
Aparajito (Satyajit Ray)
Delírio de loucura (Nicholas Ray)
Vampiro de Almas (Don Siegel)
O Grande Golpe (Stanley Kubrick)
Um Condenado a Morte Escapou (Bresson)
Rastros do ódio (John Ford)
No Silêncio da Cidade (Fritz Lang)

1957
Um Rei em Nova York (Charles Chaplin)
Em Busca de um Homem (Frank Tashlin)
Noites de Cabíria (Federico Fellini)
O Homem Errado (Alfred Hitchcock)
Ensaio de um Crime (Luis Buñuel)
Noites de Circo (Ingmar Bergman)
Suplício de uma Alma (Fritz Lang)
Doze Homens e uma Sentença (Sidney Lumet)
Amargo Triunfo (Nicholas Ray)
La Casa del ángel (Leopoldo Torre Nilsson)
A Ponte do Rio Kwai (David Lean)
Aconteceu em Veneza (Roger Vadim)
Palavras ao Vento (Douglas Sirk)
Ou Vai ou Racha (Frank Tashlin)
Rio, Zona Norte (Nelson Pereira dos Santos)
Trono manchado de sangue (Akira Kurosawa)
Tarde Demais para Esquecer (McCarey)
Forty Guns (Samuel Fuller)
Um Rei em Nova York (Chaplin)
Kiss (Yasuzo Masumura)
Gloria Feita de Sangue (Kubrick)
A Embriaguez do Sucesso (Alexander Mackendrick)
1958
A Marca da Maldade (Orson Welles)
O Sétimo Selo (Ingmar Bergman)
Um Rosto na Noite (Luchino Visconti)
O Grito (Michelangelo Antonioni)
Bom Dia, Tristeza (Otto Preminger)
Une vie (Alexandre Astruc)
Meu Tio (Jacques Tati)
Um Americano Tranqüilo (Joseph L. Mankiewicz)
Os Amantes (Louis Malle)
Kanal (Andrzej Wajda)
Os Amantes de Montparnasse (Jacques Becker)
Cinzas e Diamantes (Andrej Wajda)
Gigi (Vincent Minnelli)
O Homem do Oeste (Anthony Mann)
Almas Maculadas (Sirk)
Tempo para Amar, Tempo para Morrer (Sirk)
Um Corpo que Cai (Hitchcock)

1959
Hiroshima mon amour (Alain Resnais)
Ivan, o Terrível - Parte II (Sergei Eisenstein)
Pickpocket (Robert Bresson)
Os Incompreendidos (François Truffaut)
Onde Começa o Inferno (Howard Hawks)
Morangos Silvestres (Ingmar Bergman)
A Princesa Yang Kwei Fei (Kenji Mizoguchi)
O Tigre de Bengala (Fritz Lang)
Eu, um Negro (Jean Rouch)
Anatomia de um Crime (Otto Preminger)
De Crápula a Herói (Roberto Rossellini)
Os Eternos Desconhecidos (Mario Monicelli)
A Delícia de um Dilema (Leo McCarey)
O Homem Que Luta Só (Budd Boetticher)
Intriga Internacional (Hitchcock)
O Sol por Testemunha (Rene Clement)
Rio Bravo (Hawks)
O Tigre de Bengala e O Tumulo Indiano (Fritz Lang)
Imitação da vida (Douglas Sirk)
O Homem do Sputnik (Carlos Manga)

sábado, setembro 15, 2007

Plínio Marcos e Adam Sandler


Querô ***

Baseado no romance “Querô – Uma reportagem maldita”, escrito pelo dramaturgo Plínio Marcos na década de 70, o filme marca a estréia de Carlos Cortez na direção de longas-metragens ficcionais. Diretor e roteirista de trabalhos como “Seu Nenê da Vila Matilde” (2001) e “Geraldo Filme” (1998), Cortez construiu uma filmografia documental preocupada com personagens e curvas dramáticas, e estréia na ficção, como ele mesmo diz, “correndo atrás dos fatos”.

Em seu prólogo, “Querô” parece buscar sempre o close. É nessa proximidade que Cortez estabelece os códigos que regem a relação do filme com o seu protagonista. Filmado com duas câmeras 16mm sempre no mesmo eixo (uma mais ágil e próxima da cena em si, e a outra mais preocupada com a narração), a fotografia de Hélcio Alemão Nagamine e a montagem de Paulo Sacramento são feitas de planos-sequências e cortes que prezam pela agilidade e alternam narração e emoção (há também um belo jogo de telas pretas pontuando o filme). “Querô” está em plena sintonia com o cinema brasileiro recente. O filme tem aquela mesma movimentação de câmera, as variações de luz, a montagem ágil... e parece por vezes um tanto over em sua dramaticidade e estilo, como nos flashes de imagens mentais de seu protagonista que surgem como uma espécie de clipes alucinatórios.

“Querô” talvez se aproxime de Plínio Marcos pela sua capacidade de transitar do cru ao delicado com muita sensibilidade. Cortez reserva espaço para delicadezas na trajetória de Querô: ele se apaixona pela sobrinha do pastor (numa das melhores seqüências do longa) e alimenta uma relação fraternal com a dona da pensão em que vive. Essa dualidade que marcava o dramaturgo está ali no olhar ofendido e doce de Maxwell Nacimento – nesta que talvez seja a interpretação masculina mais marcante do cinema brasileiro desde o “Madame Satã” de Lázaro Ramos. E “Quero” ainda fecha sua história com um sorriso enigmático. Bonito mesmo.

Eu os declaro marido e... Larry ***


Oriundo da TV, quando ressuscitou o Saturday Night Live com um humor carinhosamente ofensivo em papeis como o Opera Man e o Canteen Boy, Adam Sandler é também grande sucesso no cinema. E foi Dennis Dugan, o cineasta por trás de “Um maluco no golfe” (1996) e “O paizão” (1999), que parece ter descoberto a fórmula do sucesso: Sandler é uma criança crescida, desrespeitoso em relação aos códigos de comportamento que regem a sociedade. A dupla está de volta e aprimorada em um novo sucesso, “Eu os declaro marido e... Larry”.


O roteiro nasceu de uma combinação curiosa entre Barry Fanaro, escritor e produtor da série “The Golden Girls”, e Alexander Payne e Jim Taylor (“Eleição”, “About Schmidt” e “Sideways. O filme cresce quando os personagens de Sandler e Kevin James (do seriado “King of Queens”) começam a ser investigados e têm de parecer gays. As pessoas têm de reconhecê-los como tal. Ao contrário de desserviços a humanidade como “O cruzeiro das loucas” (2003), “Eu os declaro marido e... Larry” parece reforçar clichês e estereótipos para fotogramas depois rir de quão ridículos e simplistas eles são. Questionado sobre sua homossexualidade, Chuck explica que adorava brincar de luta livre na escola, o cúmulo da homossexualidade para o personagem. E as pessoas que o cercam parecem aceitar isso como uma espécie de evidência.

É claro, “Eu os declaro marido e ... Larry” por vezes exagera, é vulgar e juvenil tanto quanto qualquer outro filme de Sandler, e parece um tanto perdido em seu último quarto. Mas definitivamente o filme não funcionaria sem os estereótipos. Para Sandler, que vem realmente aprimorando seu trabalho, o filme é mais uma chance para se reinventar na comédia e no drama - ele, assim como James, está ótimo no longa. E “Eu os declaro marido e... Larry” ainda conta com seqüências hilárias, além de um time impressionante de coadjuvantes (Dan Aykroyd, Ving Rhames, Steve Buscemi, Rachel Dratch, Nick Swardson, Rob Schneider, e David Spade). Como disse Nathan Lee no “Village Voice”, “Eu os declaro marido e... Larry” grosso e vulgar onde “Brokeback Mountain” é elegante e respeitoso.

sábado, setembro 08, 2007

Retrospectiva do Cachaça

Começou ontem e vai até o dia 12 (quarta) a retrospectiva em comemoração aos cinco anos do Cachaça Cinema Clube - no Odeon, sempre às 20h30. São ao todo seis sessões com alguns dos melhores curtas que passaram pelo Cachaça. Olhem aí a programação:

dia 08/09

Vinicius de Moraes, um Rapaz de Família, de Suzana de Moraes. 30 min. 1982.
Alma no Olho, de Zózimo Bulbul. 12 min. 1976.
Bethânia Bem de Perto, de Julio Bressane. 33 min. 1966.
Documentário, de Rogério Sganzerla. 11 min. 1966.
Tim Maia, de Flávio Tambellini. 15 min. 1987.

dia 09/09

Olho por Olho, de Andrea Tonacci. 20 min. 1966.
Nelson Cavaquinho, de Leon Hirszman. 14 min. 1969.
Mutantes, de Antonio Carlos Fontoura ou Ver Ouvir, de Antônio. 7 min. 1970
Um dia na cidade de São Paulo com Os Mutantes.
Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho. 13 min. 2004.
Senhor Pauer, de Ozualdo Candeias. 15 min. 1889.
Da Janela do Meu Quarto, de Cao Guimarães. 5 min. 2004.

dia 10/09

Filme Pornográfico, de autor desconhecido. 16 min. 1920.
Gostosa, de Alexandre Posk, Márcia Nascimento e Pablo Lacal. 7 min. 1991.
O Latido do Cachorro Altera o Percurso das Nuvens, de Raul Fernando, Camila Márquez, Rebeca Ramos, Estevão Garcia e Pedro Urano. 10 min. 2005.
O Papa do Pulp, de Carlos Adriano. 15 min. 2002.
Maluco e Mágico, de Willam Shoucair. 12 min. 1927.
Diversões solitárias, de Wilson Barros. 12 min. 1983.
Ressurreição, de Arthur Omar. 6 min. 1987.
Nossos Parabéns ao Freitas, de Felipe Marcondes Sant'Angelo. 11 min. 2003.

dia 11/09

Uma Folha que Cai, de Ivo Lopes Araújo. 16 min. 2003.
Por Dentro de uma Gota D'água, de Felipe Bragança e Marina Meliande. 10 min. 2003.
Imprescindíveis, de Carlo Magno. 5 min. 2003.
Felicidade, de Emerson Schmidlin. 7 min. 2004.
Luzia Passou por Aqui, de Letícia Paiva e Paulo Mendel. 13 min. 2005.
Nascente, de Helvécio Marins Jr. 17 min. 2005.
Eletrodoméstica, de Kleber Mendonça. 22 min. 2005.

dia 12/09

A Curva, de Salomão Santana. 5 min. 2007.
Como Enfrentar os Desafios da Vida Moderna, de Leonardo Maestrelli. 9 min. 2006.
Copan: Até Onde seus Olhos Alcançam, de Diogo Faggiano, Eduardo Chatagnier e Lia Kulakauskas. 13 min. 2006.

+ premiados em SP
sessão clássica com degustação de cachaça e música

quinta-feira, setembro 06, 2007

dois brasileiros e um americano


O ultimato Bourne ****

Em “O ultimato Bourne”, terceiro capítulo da série sobre o angustiado ex-agente da CIA Jason Bourne (vivido magistralmente por Matt Damon), Paul Greengrass amplifica o estilo que o fez famoso: a câmera na mão, montagem rápida, e um tom falsamente documental. É como um 007 em cinema direto americano. Se bem que, Greengrass foge do heroísmo e parece unicamente interessado em filmar o movimento e o deslocamento de corpos, reforçando a cada fotograma a ilusão de que tudo está se passando neste exato momento.

Embora este talvez seja o mais político da série, “O ultimato” não parece ter as preocupações de denúncia política de filmes anteriores do cineasta inglês. Aparentemente livre de qualquer ideal de objetividade – o crítico Nathan Lee costuma dizer com uma certa razão que “Vôo 93” e “Paixão de Cristo” são o mesmo tipo de filme para platéias diferentes -, Greengrass fez de seu mais novo filme um exercício acachapante de ação.

O cineasta sabe como poucos agarrar o espectador. A seqüência da estação londrina de Waterloo é impressionante. Greengrass trabalha embalado por um fluxo interminável de imagens/informações, numa fotografia que parece dividir os quadros/espaços como se em cortes e movimentos bruscos e trepidantes. Por vezes, isso nos custa a visão da cena, mas Christopher Rouse redefine a idéia de "montagem rápida" em cinema de entretenimento, e garante que entendamos exatamente o que se passa.


Saneamento básico ***

Dos curtas a "Meu tio matou um cara" (2005), o cinema de Jorge Furtado dorme com a literatura e com o cinema clássico e se alimenta de uma enorme preocupação em relação ao contato com o público. Num universo regido por imprevistos, seus personagens mais parecem prisioneiros das circunstâncias, sempre à espera do grande acontecimento de suas vidas. Extremamente habilidoso na articulação entre forma e conteúdo, o cineasta vem de um leve escorregão, mas se levanta em “Saneamento básico”, seu quarto longa. Diferente de seus três longas anteriores, os personagens de “Saneamento” não se mexem por paixão. Cada um deles se move por um objetivo particular e tem por trás de si um arquétipo específico. Na verdade, dessa vez, pela primeira vez, a comédia não tem conotações românticas. “Saneamento” tampouco se ancora numa narração em off. E até aquela displicência no uso de câmera parece melhor diluída.

Em linhas diversas, o cineasta mais uma vez cria um conjunto com unidade multifacetada. Mais uma vez, a verdade dos fatos não está nos fatos, mas nos pontos de vistas de quem os enxerga. E a história é o que se vê acontecer na tela - de certa maneira, “Saneamento” talvez se aproxime de “Houve uma vez dois verões” (2002) em seu referencial no cinema clássico, trabalhando com um enorme frescor os personagens que cria. E é nesse jogo narrativo que Furtado está interessado. Para o filme, pouco importa que pareça estranho a personagem de Fernanda Torres não saber o que significa ficção. Aliás, neste sentido, talvez o que mais me incomode seja a versão distorcida que Furtado nos mostra da região gaúcha de colonização italiana – recomendo a leitura do texto de Fernando Mascarello na Cinequanon.

Em “Saneamento”, comédia rima com política. O dinheiro é mais uma vez um elemento preponderante. Os personagens discutem o preço das coisas a todo momento, traduzindo os custos para uma “moeda” mais próxima a eles. Assim, ficamos sabendo que a quantia gasta na montagem daria para comprar muitos, muitos tijolos. E assim, as contradições relativas à produção cinematográfica em um país como o Brasil tornam-se subtexto para lá de explícito. Na hora H, os personagem tem de decidir entre comprar os direitos de uma música de Billie Holiday ou manter a possibilidade da construção da fosse. Eles acabam optando pela música. E Furtado está claramente com eles.


Cidade dos homens **

“Cidade dos homens” começa com muitas promessas. A bela trilha de Antônio Pinto (“Cidade de Deus”) casa com pequenos flashes de antigas passagens da série. Num tom quase épico, Paulo Morelli tenta aqui uma ligação emocional com o espectador. Vemos Acerola/Douglas e Laranjinha/Darlan mais jovens, personagens e atores marcados pelo tempo do filme e pelo tempo real. Cria-se um bonito elo entre a “vida real” e a realidade dentro do cinema. Outro ponto positivo é o exercício de economia narrativa realizado no roteiro de Morelli e Elena Soarez. Acerola e Laranjinha estão cercados de muitos personagens, mas conseguimos chegar perto de cada um deles. A fotografia de Adriano Goldman (“O ano em que meus pais saíram de férias”) segue o padrão estético delimitado por César Charlone em “Cidade de Deus”, com uma câmera fortemente influenciada pela publicidade, indo sempre ao encontro dos corpos, banhados numa luz dourada.

No entanto, os flashes que tão bem abrem “Cidade dos homens, o filme” são usados à exaustão por toda a duração do longa e o efeito comovente conseguido inicialmente se perde por completo. O curioso é que o filme tem alguns dos problemas (de decupagem, de mise-en-scène) que marcaram as outras duas investidas de Morelli pelo longa-metragem, o filme de época "O preço da paz" (2003) e a comédia "Viva voz" (2003). Em seqüências como aquela em que Acerola e Laranjinha se separam pela primeira vez, cada um indo para um lado do quadro, a mise-en-scène de Morelli se mostra um tanto óbvia. O cineasta também peca vez por outra com uma linguagem cinematográfica que se pretende moderna e inteligente, escorregando na busca sem freios da emoção, em algumas gags bem rasteiras, e em alguns tiques hiper-explorados, como a câmera na mão, os focos e desfocos, e os arredores super-fotogênicos.

Talvez o que mais preocupe seja o fato de se assistir ao filme como um grande dejá-vu. Quatro anos separam a estréia de "Cidade dos homens" na TV do lançamento do filme nos cinemas. De lá para cá, pode-se notar que a presença da imagem popular na televisão brasileira ressurgiu como uma enorme novidade. Em outras palavras, a cultura da pobreza e das favelas no Brasil ganha hoje visibilidade como uma fonte de significado e identidade. A série “Cidade dos homens”, tanto em seu conteúdo quanto em sua forma, foi delicadamente deglutida: aquele apetite pelo real, os traços de jovialidade da dupla de protagonistas, a fricção entre elementos cômicos e dramáticos, e a estilização da imagem a partir das atuais convenções da câmera na mão, da instabilidade na captação, dos cortes abruptos...

terça-feira, agosto 28, 2007

Première Brasil

Notícia fresquinha:

Os organizadores do Festival do Rio acabaram de divulgar os selecionados para a Première Brasil deste ano. São ao todo 34 longas e 24 curtas. E a abertura do evento será dia 20 de setembro, com a exibição de “Tropa de Elite”, de José Padilha. O Festival do Rio vai do dia 20 de setembro a 4 de outubro

Mostra Competitiva de Longas de Ficção

A Casa de Alice, de Chico Teixeira
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Estômago, de Marcos Jorge
Maré, Nossa História de Amor, de Lucia Murat
Mutum, de Sandra Kogut
Onde Aandará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
Sem Controle, de Cris D'Amato
O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli
A Via Láctea, de Lina Chamie

Mostra Competitiva de Longas Documentários

Andarilho, de Cao Guimarães
Condor, de Roberto Mader
Diáriod e Sintra, de Paula Gaitán
Estratégia Xavante, de Belisario Franca
Memória para uso diário, de Beth Formaggini
O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho
Panair do Brasil, de Marco Altberg
Pindorama – A Verdadeira História dos 7 Anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare PQD, de Guilherme Coelho
Rita Cadillac, A Lady do Povo, de Toni Venturi

Hors-Concours Longa–Metragem

Brigada Pára-Quedista, de Evaldo Mocarzel
Grupo Corpo 30 Anos – Uma Família Brasileira, de Fabio Barreto e Marcelo Santiago
Iluminados, de Cristina Leal
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Juízo, de Maria Augusta Ramos
Mulheres Sexo Verdades Mentiras, de Euclydes Marinho
Nome Próprio, de Murilo Salles
Pequenas Histórias, de Helvécio Ratton

Mostra Retratos Longa–Metragem

Carlos Oswald - O Poeta da Luz, de Regis Faria
A Etnogradia da Amizade, de Ricardo Miranda
O Tablado e Maria Clara Machado, de Creuza Gravina

Mostra Novos Rumos
5 Frações de Quase História, Armando Mendz, Cris Azzi, Cristiano Abud, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
Corpo, de Rossana Foglia e Rubens Rewald
Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi

CURTAS

Mostra Competitiva de Curtas –Metragens

7 minutos, de Cavi Borges, Julio Pecly e Paulo Silva
A Maldita , de Tetê Mattos
Alphaville 2007 d.C. , de Paulinho Caruso
Cabaceiras , de Ana Barbara Ramos Ramos
Esconde-Esconde, de Alvaro Furlone
Icarus, de Victor-Hugo Borges
O crime da atriz, de Elza Cataldo
O Lobinho nunca mente, de Ian SBF
Outono , de Pablo Lobato
Pequenos Tormentos da Vida, Gustavo Spolidoro
Picolé, pintinho e pipa, de Gustavo Melo
Réquiem, de Felipe Duque
Saliva, de Esmir Filho
Satori Uso, de Rodrigo Grota
Sentinela, de Afonso Nunes
Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra
Vida de Maria - Márcio Ramos

Mostra Retratos Curta–Metragem

Elke, de Julia Rezende
Lêda de Arte Leda, de Daniela Gontijo
Maria Lenk, de Sonia Nercessian
O Homem-Livro, de Anna Azevedo
Quanto Mais Manga Melhor, de Michele Lavalle

Hors Concours Curta–Metragem

Noite de Sexta, Manhã de Sábado, de Kleber Mendonça Filho
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomaz Farkas e Ricardo Dias

Mostra de cinema Rock and Totem

A partir de amanhã, o Senac de Copacabana (Rua Pompeu Loureiro, 45) recebe a mostra "Rock and Totem". Vale a pena dar uma conferida:

29/08 ( Quarta )
19h - Festival
21h - Festival Express

30/08 ( Quinta )
19h - Tributo a Tim e Jeff Buckley
21h - The complete Monterey Festival

31/08 ( Sexta )
19h - Cat power, speaking for trees
21h - Dig

01/09 ( Sábado )
19h - The stones in the park
21h - Spinal tap

02/09 ( Domingo )
17h - Lemon jelly 64/95
18h - Genghis blues
20h - The holy mountain

Ah... a entrada é franca!

domingo, agosto 26, 2007

Grandes estréias

Há tempos que não se via um fim de semana com tantas boas estréias: “Santiago”, de João Moreira Salles, “O ultimato Bourne”, de Paul Greengrass, “O grande chefe”, de Lars von Trier (apenas em Sampa; no Rio no próximo fim de semana), e “Possuídos”, de William Friedkin. Isso sem contar com a exibição da série “A Pedra do Reino”, de Luiz Fernando Carvalho, nos cinemas, e da estréia de “Fora do jogo” no Rio – há ainda o lançamento do criminoso “A ponte”, sobre o qual escrevi durante o festival do Rio.

O MAM e o CCBB também aparecem com boas pedidas. A cinemateca exibe hoje às 18h um dos melhores filmes de Ruy Guerra, “Deuses e os mortos” (1970).

Aliás, esta semana segue com muitas opções para o cinéfilo. O Odeon recebe a quarta edição do evento “Cinema que pensa”. Dessa vez, o tema será “Os povos e corpos do cinema afro-luso-brasileiro” - inspirado no texto “Tri continental” de Glauber Rocha.

Nos três dias do encontro, além de alguns curtas, serão exibidos os seguintes longas:
dia 27/08, às 21h: “O Leão de Sete Cabeças”; filme africano de Glauber Rocha
dia 28/08, às 21h: “O Herói” do angolano Zezé Gamboa, filme que mostra, dialeticamente, as repercussões da guerra civil em Angola;
dia 29/08, às 21h: “A Margem”, de Ozualdo Candeias

E na quinta (30) o cineclube Tela Brasilis completa quatro anos com uma homenagem a Sergio Bernardes Filho e José Agrippino de Paula.

Às 18h30, na cinemateca do MAM, passam o curta “Passeios no recanto silvestre” (2006), de Miriam Chnaiderman”, e o longa “Desesperato” (1968), de Sérgio Bernardes Filho.


O grande chefe ****

Lars Von Trier muda para continuar o mesmo. Em “O grande chefe” o cineasta dinamarquês retorna num tom mais sutil e discreto, com uma comédia inspirada sobre política de escritório e como seus piores medos a respeito de seu chefe podem ser verdadeiros. O filme traz a história de Ravn (Peter Gantzler). Ele é dono de uma empresa de TI e pretende vendê-la. O problema é que, quando abriu a companhia, Ravn inventou um presidente inexistente para servir de fachada quando fosse preciso tomar medidas impopulares. O comprador potencial Finnur, um islandês mal encarado (Fridrick Thor Fridriksson), insiste em negociar diretamente com o "presidente", cara a cara. E então, Ravn decide contratar Kristoffer (Jens Albinus, o mesmo que viveu o agressivo e carismático líder de “Os idiotas”), um ator decadente, fã fervoroso de um dramaturgo italiano que só ele parece conhecer, para fazer seu papel. Seguem-se confusões e mal-entendidos diversos, em parte porque Ravn é econômico com as informações que fornece ao ator, que é obrigado a improvisar para escapar de algumas saias para lá de justas, e parece estar levando seu personagem a sério demais.
Para os que vinham sendo desafiados por Von Trier, este seu mais recente trabalho tem jeito de novidade. Logo nos frames inicias, o cineasta avisa em off que este é um longa “para qualquer pessoa”, sobre o qual “não vale a pena refletir. É comédia inofensiva, que não espera pregar nem alterar opiniões”. Em “O grande chefe”, Von Trier retorna a um modo, digamos, mais linear de narrativa, e ao terreno da comédia de humor negro. O filme tem realmente um pé inteiro na clássica comédia americana do gênero "screwball", amalucada, afiada, e fortemente baseada no texto – o realizador se diz fã do gênero, em especial dos longas “Levada da breca” (1938), “Um estranho casal” (1968), “Núpcias de escândalo” (1940), e “A loja da esquina” (1940). Por vezes, pode até parecer se tratar de uma comédia inofensiva, mas não é lá muito difícil perceber que existe alguém por trás de tudo isso, e que este alguém está se divertindo, faz questão de deixar claro quem está no comando, e guarda algumas surpresas na manga. Aos poucos temos o esboço de uma alegoria política despretensiosa sobre poder, com a voz de Von Trier pontuado os atos do filme. Ele brinca, inclusive, com seus filmes mais antigos, quando um dos personagens de “O Grande chefe” enche a boca para dizer: “A vida é como um filme do Dogma – é difícil ouvir o que está sendo dito”.

Há mais uma vez um diálogo livre com o melodrama, uma câmera sempre junto aos atores, emprestando uma urgência sufocante ao filme. Mas Trier se impôs novas regras. Dessa vez, há um computador acoplado a uma câmera e microfones. Aos poucos o espectador será capaz de perceber que há uma grande imprecisão nas tomadas, um certo caos formal. Por vezes, é preciso procurar pelos personagens no quadro após o corte. A descontinuidade reina também na iluminação e no som de um plano ao outro. Não são jump cuts. A impressão é a de que começamos do zero a cada corte. Batizado de “Automavision” (creditado como fotógrafo do filme), o mecanismo é descrito pelo cineasta como “um princípio de filmagem (e gravação de som) desenvolvido com a intenção de limitar a influência humana, convidando o telespectador a ver as coisas por outros ângulos” - na verdade, tudo indica que Trier não estava nem mesmo presente no set durante as filmagens, ele apenas selecionava uma locação e escondia algumas câmeras fixas. O Automovision determinava o enquadramento, a abertura do diafragma, e a gravação do som.

Como a grande maioria de seus filmes, “O grande chefe” não deposita muita fé na humanidade. As marionetes de Trier são sempre barulhentas e orgulhosas a ponto da histeria. Aqueles que como Finnur e Ravn estão no poder são mentirosos e manipuladores, enquanto aqueles que os cercam não passam de bajuladores e vaidosos. Interpretado por Albinus, Kristoffer é um ator pretensioso e sem graça. Ele parece estudar diferentes linhas de interpretação, propõe mudanças na caracterização do personagem e tenta sempre imprimir uma certa “profundidade” ao presidente. Dotado de uma sensibilidade ingênua, ele inicialmente não percebe estar sendo enganado por Ravn. Mas em seu segundo ato, o longa presenteia o personagem com uma série de dilemas éticos e artísticos. Será que ele revelará toda a verdade para os empregados de Ravn? Ou será que ele preservará a integridade de seu personagem até o fim?

Possuídos ****

“Possuídos” é definitivamente um dos melhores filmes de William Friedkin (“Operação França” (1972), “O exorcista” (1973), e “Viver e morrer em Los Angeles” (1985). Com praticamente apenas um set e cinco atores, o cineasta americano revisita alguns de seus temas favoritos, como a tênue linha entre o bem e o mal, a emergência da loucura, e as teorias de conspiração, e realiza um estudo perturbador sobre a paranóia.

Adaptado da homônima peça de teatro off-Broadway escrita por Trecy Letts, “Possuídos”, conta a história de uma garçonete chamada Agnes (Ashley Judd). Ela vive num quarto de um hotel à beira da estrada e recebe ligações anônimas que pensa ser de seu violento ex-marido Goss (Harry Connick Jr.), recém-libertado da prisão. Por meio de uma amiga homossexual, R.C (Lynn Collins), ela conhece Peter (Michael Shannon, que viveu o mesmo papel no teatro), veterano da Guerra do Golfo com quem tenta iniciar um romance. Em seu primeiro terço, o filme arma um conflito em torno de um triangulo amoroso. Mas Agnes dorme com Peter e, de repente, parecemos entrar no universo de Philip K. Dick. A situação se agrava paulatinamente e o quarto todo coberto de papel alumínio lembra "The twilight zone".

Friedkin não costuma dar muito espaço pra a construção de personagens, mas os de “Possuídos” são cuidadosamente delineados. Há ainda o interesse de explorá-los como tipos (como o papel de Connick Jr.), mas aos protagonistas é dado todo um background, e o filme, aos poucos, se revela bem claro no que diz respeito aos seus propósitos. Para isso é essencial o trabalho de construção de um clima, instável e claustrofóbico. De um lado o barulho de telefones antigos tocando, luzes fluorescentes, e um detector de fumaça avariado; do outro, o uso vagaroso do zoom, os close-ups, o quatro do motel. Além de apostar, como sempre, num realismo direto e violento (sem medo das situações mais cruas), Friedkin ainda consegue um jogo impressionante de contraposições entre as seqüências de paranóia filmadas dentro do quarto de Agnes e os poucos e assustadores planos aéreos.

Em “Possuídos” a paranóia é real. E o espectador sente isso na pele. É tensão por todos os fotogramas. Quando Peter ou Agnus não estão no quadro juntos, tememos pelo que se mostra sozinho. No fim, Friedkin esclarece que seus personagens caíram num caminho sem volta, mas afirma que a paranóia deles é justificável, mesmo que por razões que não os mosquitos. Os mistérios de Peter e Agnes (ora enfraquecidos, ora fortalecidos) não são tão importante quanto o que eles internalizaram. A loucura de Peter não é nada risível. Muito pelo contrário: seu discurso parece dotado de uma lógica para lá de plausível, e nós, espectadores, testemunhamos o que isso foi capaz de fazer com Agnes. Ele debate dobre a onipresença ameaçadora e silenciosa das máquinas. Ela diz ser loucura dele, que afirma ter sido mordido por um mosquito. Ela não consegue ver nada e, de repente… sim, talvez ela consiga. O cineasta quer discutir os problemas de uma sociedade que só sabe resolver seus conflitos, internos e externos, por meio da violência, expor como o Estado, que deveria garantir a segurança, hoje cerceia nossas liberdades.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Duas dicas para esta quarta

Hoje, no cineclube da FGV, Sandra Kogut estará presente na exibição de seu ótimo “Um passaporte Húngaro” (2002). O cineclube está no Prédio da FGV do centro, Rua da Candelária, 6. A sessão começa às 18h30, e após a projeção haverá uma debate com a realizadora.

Ainda nesta quarta, às 21h, no Odeon, o Cachaça Cinema Clube completa 5 anos com uma sessão especial em homenagem a Edgard Navarro. Serão exibidos “Alice no país das mil novilhas” (1976), “O Rei do cagaço” (1977), “Exposed” (1978), “Lin e Katazan” (1986), e o grande “Superoutro” (1989).

domingo, agosto 12, 2007

Chris Farley

A imagem não está boa, mas este era um dos melhores quadros de Chris Farley, o gordo mais ágil do planeta.

quinta-feira, agosto 09, 2007

De volta

Muito trabalho, uma viajem, problemas com meu computador... e lá se vão quase três semanas sem atualizar o Kinos. Mas agora estou de volta. Tenho alguns textos para postar por aqui, alguns sobre filmes que já até saíram de cartaz. Enfim... vamos lá.

Medos privados em lugares públicos *****

Alain Resnais talvez seja o maior cineasta francês vivo. Ele ainda é mais conhecido por suas três primeiras obras primas (“Hiroshima meu amor”, “O ano passado em Marienbad” e “Muriel”), mas nunca realizou obras indiferentes e seus trabalhos mais recentes permanecem desafiadores dentro de uma continuidade temática e estilística. De “Melo” (1986) a “Na boca não” (2003), Resnais segue mestre. “Medos privados em lugares públicos”, seu 48º filme, baseado numa peça homônima de Alan Ayckbourn (marcando uma nova parceria de Resnais com o dramaturgo inglês, de quem já tinha adaptado a comédia “Smoking/No Smoking”) é mais um belo acréscimo a sua filmografia.

“Medos privados” é mais uma comédia de tons irônicos a respeito das possibilidades e buscas por felicidade. A trama do filme lida com histórias que tratam do cotidiano, um tanto banais mesmo, mas cobrindo toda uma camada de fragilidades e solidões. Com muita ternura por seus personagens, o cineasta desenha de maneira deslumbrante um mundo de liberdades e pessoas que não sabem o que fazer delas. Assim como em “Amores parisienses”, Resnais desvela um desespero silencioso por de baixo da superfície colorida e de plástico do mundo contemporâneo. A própria Paris de “Medos privados” não é a cidade das luzes, mas uma gélida e moderna capital, feita de espaços elegantes e vazios, onde pessoas se encontram e desencontram. Aos poucos, percebe-se um jogo trivial de máscaras e uma estrutura rígida, matemática. E são pessoas como nós, com algumas arestas de fora, é verdade, mas vivas. Todas elas funcionam em papéis como o filho, a colega, a irmã, a noiva o desempregado. Papéis que os definem e os reprimem ao mesmo tempo.

O mestre francês é um cineasta essencialmente emocional. Mas para ele, é a forma o melhor caminho para a emoção. É impressionante o domínio de Resnais, que faz uso de todos os recursos a sua disposição. Em determinadas seqüências, numa aproximação, num único movimento de câmera ele rearranja as forças atuantes em cena. Neste sentido, é curioso observar os recentes e constantes diálogos de Resnais com o gênero musical, o teatro, e, agora, as séries de TV. Em entrevistas recentes, Resnais se diz muito interessado pela inventividade da câmera em séries de TV americanas. Para a revista “Positf”, por exemplo, o realizador se declarou fã de “Arquivo X” e da virtuosidade da técnica de campo-contracampo e da mise-en-scène de Kim Manners, um dos diretores mais constantes da série – para completar, Mark Snow, músico das séries “Arquivo X” e “Millenium”, faz a trilha do longa. E assim como em “Melo”, "Smoking/No-smoking” (1993) e “Na boca não”, “Medos privados” não esconde a raiz no teatro. A mise-en-scène de Resnais esbanja teatralidade, insistindo nas divisões do cenário e as posições dos personagens - aliás, a primeira seqüência de “Medos privados” trava uma discussão a respeito de nossa percepção do espaço. Resnais também experimentou convenções do musical em seus dois últimos trabalhos. Em “Medos privados” não parece ser diferente. O diretor mais uma vez tira proveito do gênero, construindo o tipo de encontros e desencontros que o musical convencionou.

E na verdade, é a neve que parece funcionar como um intermédio musical. Há neve por todos os lados, sempre - até mesmo dentro de um apartamento. A neve branca de fevereiro assegura a transição por entre as seqüências, que se dissolvem num balé que imprimi uma certa leveza ao filme. Num hoje famoso texto, André Bazin já se perguntava porque nevava tanto no cinema. Para o crítico francês, a neve, em sua brancura e monotonia, armazena abismos e metamorfoses. E a impressão que dá é a de que Resnais deve ter lido “Il neige sur le cinema”. Pois em “Medos privados” a neve não é apenas fotogênica. A neve é um poderoso símbolo. Ela contamina, submerge os personagens numa espécie de aquário de nostalgias. Mas ela também cura ou, ao mínimo, confidencia. Mas, no entanto, no fim das contas, resta um otimismo curioso, um apelo sutil a fraternidade. “Medos privados” parece recomendar que desliguemos a TV. Pois a vida segue. Sempre.