Foi bem divertido ver este filme de Hong Sang-Soo. Um
cinema que se assume como construção, embora exale um certo desprendimento, uma
aleatoriedade, um aqui e agora. Na verdade, a história da jovem que, por tédio
e em fuga, escreve três pequenos enredos envolvendo uma francesa em uma pacata
cidade do litoral coreano, explicita um pouco da natureza dos personagens deste
cinema. Eles existem como narrações de si mesmos. São seres incompletos, sempre
em construção, sem versões definitivas, enredados em rocamboles afetivos, em
encontros e desencontros de sentimentos e emoções imprecisos, sempre regados a
álcool. São o que dizem, embora o que fazem muitas vezes os contradigam. Uma
gente confusa, como a gente.
“A visitante francesa” põe em movimento o jogo
absolutamente desconcertante característico dos últimos filmes de Sang-Soo. Nele,
é tudo tão pensado, baseado em ensaios e roteiro... Os personagens, contudo, se
desprendem de tudo isso, em uma soma aparentemente aleatória de conversas,
alinhavadas sem uma relevância mais explícita, muito menos uma curva dramática
de amadurecimento. Os personagens são sempre um aqui e agora. Eis que, no
entanto, por vezes para sublinhar um diálogo, a reação de um personagem, ou
apenas para reenquadrar a ação ou, quem sabe, chamar nossa atenção, Sang-Soo
lança mão do zoom. E, de repente, uma enunciação de mão pesada e um estilo
aberto ao universo do encontro, vamos lá, como uma janela aberta sobre o mundo,
convivem, se alimentam, dependem um do outro. O cinema sempre à nossa frente.
Eu fui dar uma olhada no que havia saído a respeito
do filme aqui e, sobretudo, no estrangeiro, e, confesso, fiquei um pouco
decepcionado. A crítica é muitas vezes exercida como uma espécie de polícia, de
patrulha. Ora exigindo novidades. Ora movido por uma necessidade de encontrar
fragilidades, mesmo que pontuais. É, portanto, importante sublinhar que o
cinema de Sang-Soo, embora brote da exploração sistemática de um mesmo
universo, método de filmagem e estilo, instala sempre sutis variações a cada
filme; e que talvez seja mais interessante (dependendo, é claro do filme, do
olhar que ele nos demanda) pensar por meio de uma noção de integralidade.
Qualquer filme tem lá suas fragilidades. Alguns dependem delas, fazem delas
parte integrante de sua existência.
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