sexta-feira, julho 13, 2007

Top 20 Brasil

Eu queria engrossar o coro de recomendações à atualização da Paisá. A revista realizou uma lista com os 20 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, segundo sua equipe de redatores. O texto de Cléber Eduardo que acompanha a lista é leitura obrigatória.

Aproveitando a ocasião, segue meu humilde Top 20 (na verdade, 21). Ah... os filmes não estão em ordem nenhuma.

– Limite, de Mário Peixoto (1931)
– Terra em Transe, de Glauber Rocha (1967)
– Bang Bang, de Andrea Tonacci (1970)
– Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (1964)
– São Paulo S.A., de Luis Sérgio Person (1965)
– O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla (1968)
– A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla (1969)
- Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho (1984)
– Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963)
- A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos (1965)
– A Margem, de Ozualdo Candeias (1967)
- O Anjo Nasceu, de Júlio Bressane (1969)
– O Despertar da Besta, de José Mojica Marins (1968)
- Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos (1977)
- Filme Demência, de Carlos Reichenbach (1986)
- Carnaval Atlântida, de José Carlos Burle (1952)
- O Invasor, de Beto Brant (2001)
- Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky (1974)
- Superoutro, de Edgard Navarro (1989)
- Madame Satã, de Karim Ainouz (2002)
- O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade (1965)

Outros quatro que ficaram de fora, mas poderiam estar dentro:
– A Idade da Terra, de Glauber Rocha (1980)
– Sem Essa Aranha, de Rogério Sganzerla (1970)
- O Império do Desejo, de Carlos Reichenbach (1981)
- Hitler Terceiro Mundo, de José Agrippino de Paula (1968)
E o inédito “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci (2006), correndo forte por fora.

domingo, julho 08, 2007

Irish tour 74 ****


Rory Gallagher é monstro, gênio. Aos 18, como líder da banda Taste, ele já demonstrava em seus solos uma fluência e um feeling bem acima da média, além de uma voz poderosa. Seja com sua famosa Stratocaster ou com uma guitarra acústica, Rory tocava à procura de uma linguagem própria, com melodias carregadas de dramaticidade e sentimento, e apresentações incendiárias. Lenda do blues, Rory colaborou com gente como Muddy Waters e Jerry Lee Lewis, e foi convidado para tocar com os Rolling Stones depois da saída de Mick Taylor. Na carreira solo, com uma formação clássica que contava ainda com o baixista Gerry McAvoy, o baterista Rod De'Ath' e o tecladista Lou Martin, Rory, assim como Eric Clapton, caminhava pelo blues elétrico e pelo rock, mas também fazia bonito no folk e em melodies mais jazzísticas, num som pesado, suave, viajante.

Trata-se de um dos melhores e mais (criminalmente) esquecidos guitarristas de todos os tempos. Para se ter uma idéia, há alguns anos, a revista “Rolling Stone” fez uma lista dos 100 melhores guitarristas da história. Rory não foi nem lembrado. Em parte, porque ele era irlandês (e isso, definitivamente, conta). Em parte, porque ele tinha medo de avião e pouco excursionou pelos EUA. Em parte, porque o habitat natural dele era o palco. Ao vivo, ele acontecia. E nestes sentidos, “Irish tour 74” de Tony Palmer é prova irrefutável e outro grande injustiçado em listas, dessa vez, de rockumentaries.

Rodado em Janeiro daquele ano, num momento em que projetos como este eram raridades, o filme acompanha Rory em turnê por sua terra natal, em Corky, Belfast e Dublin. Os três shows casam com uma pequena entrevista de Rory (em geral em off), e imagens dele percorrendo Corky, cidade em que morou grande parte de sua vida. Tímido e humilde, ele nunca se casou e não deixou herdeiros. Sua vida sempre foi devotada à música. Ele parece até meio encabulado com a fama em certos momentos. Como ele mesmo diz no filme, “o tipo de música que faço, não é uma coisa que começa e termina naquelas duas horas. É uma coisa que permanece comigo o tempo inteiro”.

Algumas das melhores cenas se passam no backstage, antes e depois dos shows. Aqui o filme esbanja a grande virtude dos melhores filmes do chamado cinema direto: a de nos dar a sensação de estarmos presentes no momento em que as coisas acontecem. E Tony Palmer se mostra atento aos detalhes. Rory está nervoso: ele ajeita o cabelo diversas vezes, e suas mãos, em close, tremem (como as mãos de Jackie Kennedy em “Primárias”). Rory já era uma das maiores estrelas do país, havia vendido milhões de álbuns no mundo inteiro, mas era ele mesmo que guardava seus equipamentos e roupa.

Mas “Irish tour” é bom mesmo por ser extremamente feliz na tradução de Rory Gallagher ao vivo para película. Palmer revela de maneira simples a relação de intimidade que o guitarrista alimentava com sua música - em algumas cenas, quando explica, a maneira de tocar em cada uma de suas guitarras, chega a ser comovente o carinho com o qual Rory as trata. E ele fala pouco, mas diz muito. Rory procura a simplicidade do bluesman, em cuja música “percebemos imediatamente de onde ele vem e pelo o que ele passou”. E tudo isso faz sentido quando ele sobe no palco. Rory toca sorrindo, numa simbiose emocional e emocionante com sua música, colegas de banda e fãs. Em apresentações memoráveis de algumas de suas mais famosas canções, ele improvisa e à medida que a música se desenrola, vai exigindo por si mesma modulações e transições que ele parece sentir no sangue. Rory diz viver contando com aquelas duas horas, as duas horas mais importantes do dia. “A música”, diz ele, “não deveria ser tão séria a ponto de você não poder se divertir”. E ainda: “às vezes é bom tocar aquelas duas horas e saber que você terá tempo mais tarde para fazer outras coisas. Mas às vezes isso não faz nenhum sentido”. E tudo impressionantemente bem editado (Stephan Saunders) e filmado (Les Young), com apenas uma câmera. Na montagem Palmer mescla os shows e as câmeras parecem se multiplicar, sem nenhuma perda gritante na continuidade.

* Rory Gallagher morreu em 1994, após passar por um transplante de fígado.

sábado, junho 23, 2007

Rorty e Terrra em transe

"Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmo sangrento e a alma pura
Gladiador defunto, mas intacto
Tanta violência, mas tanta ternura)"

Mário Faustino


Na semana passada, por uma dessas felizes coincidências, reli “Trotsky e as orquídeas selvagens”, texto de cunho autobiográfico do pragmatista americano Richard Rorty (falecido recentemente), e aluguei, mais uma vez, num impulso incontrolável, o DVD de “Terra em transe”. Curioso como as obras começaram a dialogar num ritmo meio alucinatório. Na obrigação de assumir o papel de regente dessa orquestra, aqui estou eu, tentando escrever sobre o assunto.

Glauber Rocha é um realizador sempre em transe, protagonista de uma busca desesperada de traduzir a realidade brasileira num discurso essencialmente cinematográfico. Dessa vez, percebi de fato a enorme influência do italiano Luchino Visconti, mestre na apropriação do melodrama, na sintetização de todo um espírito nacional em códigos da arte, e na incorporação do drama barroco à grandiosidade épica das óperas. “Terra em transe” é uma grandiosa ópera sobre o Brasil. Entre a repressão e o gesto isolado de resistência, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho), ferido de morte, revê sua trajetória política e a do país, mergulhando num grande flashback agonizante de explicações, imprecisões, e delírios.

Ao contrário da grande maioria de seus textos, em “Trotsky e as orquídeas selvagens”, Rorty não traz quaisquer notas bibliográficas ou explicativas. Neste que é um dos raríssimos textos pessoais do filósofo, ele descreve rapidamente sua trajetória intelectual, discutindo um dos elementos fundamentais que originalmente definiram seu interesse pela filosofia: como conciliar a responsabilidade em relação aos demais seres humanos e os sentimentos pessoais que nutrimos pelas pessoas ou coisas que amamos? E o que Rorty parece querer dizer é que a vida pública e a vida privada não precisam (talvez não devam) se fundir ou misturar. As exigências e as regras de uma não são iguais às da outra.

A aproximação que me pareceu rica interessante é essa relação entre as observações de Rorty e o dilaceramento de Paulo Martins. O poeta ama Sara, respeita Diaz, manipula Fuentes, constrói Vieira. Paulo Martins é a decadência do ocidente, é a revolta contra os preconceitos e preceitos da burguesia, contra as flores do estilo da poesia, é a necessidade de transformar todos os mundos. Ele é resultado de um coquetel explosivo de Rimbaud, Baudelaire, Lautréamont (grandiosíssimos poetas do moderno), e muitas pitadas de Brasil. O poeta tenta abraçar as contradições de Eldorado para forjar o instrumento de luta capaz de redimir o país. Ele quer a ética e estética, a poesia e a política. Numa fala que de certa maneira sintetiza a problemática do protagonista e do filme, Sara (Glauce Rocha) afirma: “Um homem não pode estar assim dividido. A política e a poesia são demais para um só homem".

Agora, vejo que o poeta de “Terra em transe” também procura por uma estreita conexão entre uma política e sua visão das grandes questões teóricas. Ele parece crer veementemente que conhecimento e virtude estão conectados. Paulo Martins prevê a reunião de seu sentido de responsabilidade moral e política a uma apreensão dos determinantes finais de nosso destino. “Eles querem ver o amor, o poder e a justiça reunindo-se na natureza profunda das coisas, ou na alma humana, ou na estrutura da linguagem, ou em algum lugar”, escreve Rorty a respeito dos pensadores por ele chamados de “ortodoxos e pós-modernos”. O filósofo lembra de sua juventude e a busca desesperada por uma maneira de, como numa famosa sentença de Yeats que ele havia então descoberto, “reunir realidade e justiça numa só visão”. Rorty recorda que seu desejo era se tornar um “intelectual, um esnobe espiritual, e um amigo da humanidade - um pensador recluso e um lutador pela causa da justiça”. No entanto, ele (assim como no caso de Paulo Martins) se descobriu incapaz de utilizar a filosofia para os objetivos que ele parecia inicialmente ter pensado.

No fim das contas, a trajetória de Paulo Martins não configura uma conquista de caráter épico ou o cumprimento de um destino trágico (“pois o sacrifício do herói não tem o significado cósmico desejado”, nos lembra Ismail Xavier em “Alegorias do subdesenvolvimento”). Neste sentido, o crítico paulista ressaltará que o que se abala em “Terra em transe” é “o traço de onipotência presente na idéia que o intelectual faz de sua intervenção na sociedade, seu papel de conselheiro-mor. Na recapitulação, o poeta está efetivamente no centro de tudo, mas o momento das desilusões em ‘Terra em transe’ põe a nu as contradições do intelectual engajado num momento em que este toma consciência de suas ilusões quanto aos caminhos da história e quanto ao seu próprio papel no círculo dos poderosos”. Idéias têm conseqüências, mas isso não confere aos intelectuais uma posição estratégica. “A filosofia é inútil socialmente”, diz Rorty, numa afirmação que poderia ser estendida às artes.

Talvez seja por isso que goste tanto de Sara. Ela abandona o poeta e sua trajetória pessoal, optando pela vida. Ela caminha decidida pela estrada, em direção à câmera. Sara é o personagem que se contrapõe ao poeta. Ela foi jogada nas questões de seu tempo, mas ao invés da tentativa de ver a si mesma como a encarnação de algo que lhe ultrapassa, a personagem afirma a possibilidade de se fazer no movimento de aceitação da própria finitude. Sara fala de uma política do cotidiano, uma política que se faz no do dia-a-dia. Ela também quer casar, ter filhos. Talvez esteja exagerando, mas vi na discussão final entre Sara e Paulo Martins um embate entre aquilo que quase todos nós poderíamos concordar contra as idiossincrasias pessoais que não demandam (nem precisam) de concordâncias. Quem tem privilégio neste debate?

Enfim, era isso o que eu tinha pra falar.

domingo, junho 10, 2007

Kevin Pollack e Christopher Walken

A partir deste domingo, um vídeo por semana. Neste, Kevin Pollack imita Alan Arkin e Christopher Walken.

sábado, junho 09, 2007

Obra-prima no MAM

Neste domingo, às 16, a Cinemateca do MAM exibe "A mulher de areia" (1964), obra-prima de Hiroshi Teshigahara. Não percam!

terça-feira, junho 05, 2007

O cheiro e Ferrara


Na segunda vez que assisti “O cheiro do ralo” lembrei muito de uma obra-prima do Abel Ferrara, “Vício frenético” (1992). Engraçado: os dois protagonistas possuem algumas semelhanças. O tenente vivido magistralmente por Harvey Keitel, assim como o Lourenço do ótimo Selton Mello, não têm ilusões a respeito de si mesmos. Ambos sabem que são detestáveis. E sem nenhuma razão aparente, abusam do poder que possuem de todas as maneiras possíveis, como se isso fosse mesmo parte de suas respectivas substâncias. De fato, “O cheiro do ralo” e “Vício frenético” se desenvolvem como uma espécie de conto moral sobre o processo de decomposição de seus personagens.

Eu até que gostei de “O cheiro do ralo” da primeira vez. Mas esta segunda investida não lhe fez bem, ainda mais com a lembrança do Ferrara na cachola. Heitor Dhalia tem talento e se mostra amadurecido em relação a “Nina” (2004). Ambos os longas fazem parte de um mesmo projeto estético, abordando personagens no limite de alguma coisa. “O cheiro do ralo”, entretanto, busca o cinema independente americano, constrói uma narrativa que flui bem, e chega num universo (de lugar nenhum, de nenhuma época) que beira a abstração. Dhalia nos convida inicialmente a compartilhar o estranho olhar do personagem. A ambivalência meio esquizofrênica dos sentimentos do protagonista em relação a seus clientes é uma das forças do filme - por vezes, Lourenço exercita sadicamente seu poder frente aos vendedores, noutras parece estranhamente ligado a eles.

Mas a adesão ao personagem não vai muito além disso. “O cheiro do ralo” cheira bem, muito bem. E o curioso é que um dos trunfos de Dhalia desata uma de suas “fragilidades”. Selton Mellho empresta seu carisma ao personagem, numa atitude consciente do cineasta para tornar Lourenço menos odioso. E eles conseguem. Diferente do livro homônimo que lhe deu origem, “O cheiro do ralo” é mais solar. Por vezes, o filme parece mais interessado na crueldade esperta de seu protagonista do que em sua humanidade. “O cheiro do ralo” não mergulha nas contradições de seu personagem. Na verdade, sabemos muito pouco delas. O interesse de Dhalia parece se dar na direção do impacto. Então, por trás de todo aquele cinismo, não se desvenda nenhuma camada. E o que é pior, constrói-se glamour em torno de um personagem que nada tem a ver com glamour. Sabe como é: parece que ser cruel é legal!

Nada que se compare à obsessão de Ferrara por seus personagens. O cinema já nos deu muitos personagens que encarnam o mal, mas Ferrara talvez seja um capítulo à parte. Ele abre os braços, abraçando a escrotidão, abraçando o que a escrotidão trouxer. Ferrara não se limita a acompanhar fascinado os passos de seus anti-heróis. O caos é o DNA de seus filmes, a própria narrativa é tão insegura e errática quanto os seus protagonistas. O policial de “Vício” é um sujeito escroto consumido pelo crime, pelo sexo, pelas drogas, pelo jogo... Numa das seqüências mais bonitas de Ferrara, o policial tem uma visão de Jesus dentro de uma igreja. O personagem questiona a crueldade e a inércia de Jesus vomitando xingamentos incompreensíveis até se retorcer no chão da igreja num choro agudo e convulsivo. Ao mesmo tempo em que procura por vingança, o protagonista também busca redenção. E o que impressiona é o fato destas duas dimensões se fundirem numa só. Aliás, em Ferrara, somente um tenente viciado e corrupto poderia nos convencer sobre a possibilidade da redenção. Em “O cheiro” não se fala em redenção, mas em salvação. E entre os dois termos, segue um abismo.

Em suas entrevistas, Dhalia fala sobre como o longa poderia cair no mau gosto; afirma seu desejo por um filme que dialogasse com o público e não o afastasse; e diz ter arremedado tudo com “elegância”, privilegiando a comunicação com as pessoas. Esses argumentos não têm me convencido. Quer dizer, na verdade, o que Dhalia chama de comunicação com as pessoas? Comunicação com as pessoas é quantidade ou qualidade? Ferrara, por exemplo, é uma verdadeira “catequese” cinematográfica. É definitivamente para poucos. Mas quem viu “Vício frenético” o leva para a vida.

quinta-feira, maio 31, 2007

Maratona, mostras e cineclube

Uma semana para cinéfilos:

Em homenagem aos 90 anos de nascimento do grande Jean Rouch, a Maison de France programou uma maratona obrigatória de 12 horas com filmes do cineasta e etnólogo francês, dia 4 de junho, das 10 da manhã às 10 da noite.

10h - Os mestres loucos (1955)
10h30 - Eu, um negro (1959)
12h - Crônica de um verão (1960)
13h30 - A pirâmide humana. (1960)
15h - A caça ao leão com arco (1965)
16h30 - Pouco a pouco (1972)
18h00 - Mosso Mosso, (1998), de Jean-André Fieshi e Jean Rouch
20h30 - Tourou e Bitti (1971)
20h45 - Jaguar (1967)

No CCBB, até o dia 10 de junho, uma ótima mostra com filmes para a TV realizados por grandes diretores. São muitos os destaques: Spike Lee, Tsai Ming Liang, Jean-Luc Godard, Claire Dennis, Robert Altman, Peter Watkins, Ingmar Bergman, Peter Greenaway, Lars Von Trier, e Krzystof Kieslowski.

No Estação Laura Alvim, de sexta a sexta, uma mostra bem bacana do francês Eric Rohmer.

Tem também um novo cineclube, na FGV do Centro (Rua da Candelária, 6). As sessões são de 15 em 15 dias, sempre seguidas de debate com o diretor ou alguém interessante. Nesta sexta, dia 1 de junho, será exibido às 18h30 o filme “Elevado 3.5”. Dirigido por João Sodré, Maíra Bühler e Paulo Pastorelo, o documentário foi o grande vencedor da categoria longa metragem nacional do último É tudo Verdade. Após a sessão haverá debate com a Maíra Bühler e o crítico Carlos Alberto Mattos.

quarta-feira, maio 30, 2007

Baixio das bestas ****


Vi “Baixio das bestas” duas vezes. E gostei em ambas. Parece mesmo consenso: Cláudio Assis radicaliza caminhos percorridos em “Amarelo manga” (2003), colhendo, inclusive, alguns avanços notórios em termos de linguagem. Despejando alto teor de brutalidade visual e narrativa, Assis recheia este “Baixio das bestas” com soluções cênicas originais e um rigoroso senso de espaço e cultura. “Baixio” é uma espécie de radiografia de um nordeste em decomposição. Toda a ambiência da locação nos remete à ruína, à desestruturação. E o filme, em seus mais diversos componentes (a fotografia, a direção de arte...), está sempre no encalço do conflito.

Em relação a “Amarelo manga” (2003), o cineasta opta em “Baixio” por uma mise-en-scène de tempos mais alongados, planos fixos, focos e desfocos numa mesma cena, experimentações no que diz respeito às entradas e saídas de quadro... Na verdade, o longa parece por vezes alimentar um tom mais contemplador. A impressão é a de que Assis acrescentou o tempo à famosa equação de “Amarelo”. Agora, o ser humano é estômago, sexo e tempo. Neste sentido, me chamou atenção o fato do cineasta procurar uma estrutura circular. O filme é todo marcado pelo ciclo da cana de açúcar e a rotina dos canavieiros, seus trajetos, a colheita e a queima da cana... Assis fala de um tipo particular de decadência muito brasileira. “Amarelo” mapeava os efeitos de um determinado contexto histórico, identificando um a um os males naturalizados naquele espaço urbano. “Baixio” não. Aqui há a intenção de apontar causas. E todos os personagens de “Baixio” são representações, “conseqüências” da mono-cultura da cana, de um ciclo exploratório dos tempos do Brasil colonial.

Mais uma vez: Assis situa muito bem os personagens em seus universos sociais. Através de uma descrição documental, afirma-se a ficção e um ambiente que mais parece ter vida própria. E esse é um movimento curioso. O realismo dormindo com seu oposto. Pois apesar do “registro realista”, “Baixio” abraça a ficção e por vezes quebra os manuais de comportamento cinematográfico (como no plano em que Matheus Nachtergaele dirige-se a câmera, afirmando o cinema como o lugar onde se pode tudo). Isso também é evidente nas interpretações dos atores de “Baixio”. Assis consegue tirar deles uma atuação num misto de cinema naturalista, teatro e performance de choque.

Talvez o que tenha mais me incomodado seja mesmo a participação do próprio Assis e do diretor de fotografia Walter Carvalho numa cena no final do longa. Nessa mesma linha, também acabei não gostando muito quando o personagem Everardo fala pelo filme. Aqui sim, “Baixio” ganha em perversidade e cinismo. Um pouco neste sentido, algumas críticas se perguntaram sobre o verdadeiro compromisso de Assis. Seria ele com as experiências mostradas ou a maneira de olhar para elas? Me parece que essa é uma falsa questão, ou talvez ela esteja mal colocada. Não vejo em “Baixio” um esforço exibicionista. Tampouco enxergo um olhar superior. Ele é definitivamente “de fora” (o que não é um problema, muito pelo contrário), mas encara de frente a sordidez do universo mostrado. Trata-se mesmo de universo em decomposição, mas que não deixa de ter uma beleza imanente E aliás, como bem detectou o Marcelo Ikeda, há em Assis, por mais que ele talvez não concorde, uma idéia de espetáculo.

sábado, maio 19, 2007

Dicas

Desculpe-me: o post vem em cima da hora. Hoje, às 16h, a Cinemateca do MAM exibe uma das obras-primas do húngaro Miklos Jancso. “Os sem esperança” (1965), em legendas em espanhol, é programa imperdível.

Ainda no MAM, dentro da mostra “Nouvelle Vague e outras ondas”, serão exibidos outros grandes filmes como “Duas inglesas e o amor” (1971), de François Truffaut, “Amor livre” (1959), de Jacques Doniol-Valcroze, e “E Deus criou a mulher” (1956), de Roger Vadim. O de Truffaut passa hoje às 18. Os outros dois passam no domingo às 16 e às 18, respectivamente.

A mostra em homenagem ao diretor de fotografia, gravurista, diretor e roteirista bissexto, Mário Carneiro, também esquenta neste fim de semana no CCBB. Domingo, por exemplo, serão exibidos em série três filmes de Paulo César Saraceni fotografados por Mário Carneiro: “Porto das caixas” (às 16h), “A casa assassinada” (às 18h) e “O viajante” (às 20h). Veja a programação completa aqui.

E segunda o Cinemaison exibe um clássico de Jean Renoir. “Boudu salvo das águas” (1932) passa às 18h.

Ah... também dei uma reciclada nos blogs linkados. Tem muita coisa nova. Recomendo um blog criado pelo Sergio L. Andrade (Kino crazy) com textos do crítico paulista Rubem Biáfora.

quarta-feira, maio 09, 2007

Flashbacks

À primeira vista, gostei bastante de “Antônia”. É um filme bonito mesmo. Gosto do feeling feminino e intimista dele. Apesar de alguns maneirismos, Tata Amaral consegue fugir de um retrato de vitimização das cantoras. “Antônia” tampouco se resume a uma história de sucesso. E Tata mais uma vez absorve muito bem o espaço (Brazilândia) para dentro da narrativa, além de se aproximar em termos de enquadramento de “Um céu de estrelas”. Dava pra sentir uma certa fragilidade dramática. “Antônia” parece por vezes uma exposição de diferentes universos. Mas talvez também estivesse aí um diferencial curioso do filme.

No entanto, os problemas ficaram mais evidentes numa segunda investida. Dessa vez, me incomodou um pouco esta certa falta de objetividade narrativa. Na verdade, o roteiro me pareceu bem frágil e, apesar de (bem) aberto, um tanto esquemático e previsível. O inicio do filme em especial é desalentador. Mas o que mais me incomodou mesmo foram os flashbacks “explicativos”. Quando eles entram jogo, não há sutilezas. De fato, não gosto de flashbacks. Às vezes eles até podem ser necessários. Mas este não é definitivamente o caso de “Antônia”. Quando uma das meninas relata a briga que teve com o namorado a respeito de sua gravidez, o filme corta para um flashback. Por que recorrer ao passado? Por que essa lembrança não pode se dar no presente? Por que a menina simplesmente não dá seu depoimento do que foi a briga e pronto?

É curioso como nesta seqüência Tata Amaral se distancia de alguns dos cineastas brasileiros recentes que mais gosto. Me refiro mais especificamente a Karim Ainouz e Marcelo Gomes. Fiquei pensando numa influência de Eduardo Coutinho nos filmes da dupla e em como isso talvez pudesse me ajudar a explicar a diferença entre, por exemplo, “Cinema, aspirinas e urubus” (2005) e “Antônia”. Tudo bem: o interesse tanto em Tata quanto em Coutinho, Karim e Marcelo, é o cotidiano, as dificuldades, as pequenas alegrias, os encontros, os amigos... O universo que seus respectivos filmes pretendem nos revelar se desvendam em depoimentos ou situações que traçam uma rede de pequenas histórias.

Mas no cinema de Coutinho essas questões se resolvem no presente. Estamos falando de um cinema do presente, de um presente contaminado pela memória, de um presente em que coexistem diferentes fluxos. Com Karim e Marcelo a coisa parece se dar de maneira parecida. Eles evitam flashbacks, narrações em off... Eles se preocupam com “a palavra em ato” – como diz Consuelo Lins em relação ao cinema de Coutinho. Karim e Marcelo se atêm ao momento da filmagem - é interessante como no fim da sessão de “Madame Satã” (2002) e “Cinema, aspirinas e urubus”, algumas pessoas têm de ser lembradas de que se tratam de filmes de época. Em seus trabalhos há a escolha de personagens que são narradores de si mesmos. Para eles, assim como para Coutinho, a palavra é um elemento cinematográfico fundamental, tem um valor de criação dentro da estrutura narrativa.

Ouvir “Madame Satã”, por exemplo, é fundamental. Ouvir porque a simples pronunciação do personagem tem um papel orgânico no filme, uma função no conteúdo do drama. Lembro-me também de uma cena do “Cinema, aspirina e urubus” em que Ranulpho narra uma viagem ao Rio de Janeiro. Percebe-se ali o desejo de filmar “a palavra em ato”. A força ou a veracidade do que Ranulpho diz não se encontra necessariamente no que está sendo contado, mas no próprio ato de contar, na forma como ele se expressa, no olhar, nos silêncios, na construção das frases.

terça-feira, maio 08, 2007

49 Up na HBO


Hoje tem programa imperdível na HBO, às 22h15. O canal exibe o genial "49 Up". O filme é o seguinte: desde 1964, e a cada sete anos, o diretor Michael Apted acompanha a vida de catorze ingleses de diferentes segmentos sociais. Em entrevistas, estes personagens contam suas experiências e a evolução de suas vidas da infância à maturidade.

terça-feira, abril 24, 2007

EXTRA!

O cineclube Tela Brasilis exibe nesta quinta (26), às 18h30, um dos melhores filmes de Ozualdo Candeias: "A herança" (1970). O longa é uma adaptação livre de "Hamlet", com David Cardoso no papel título. Não percam!

quinta-feira, abril 05, 2007

Candeias no MIS


Desde ontem, o Museu da Imagem e do Som (MIS) vem exibindo alguns filmes do mestre Ozualdo Candeias, falecido em fevereiro. Entre os títulos estão os fundamentais “A margem” (1967) e “A herança” (1971). Para ver a programação, clique aqui.


Engraçado: ontem mesmo, revirando minhas gavetas, encontrei uma carta que recebi do Candeias. Pois é... uns três ou quatro anos atrás, escrevi pra ele pedindo seus filmes. E ele me respondeu com uma pequena carta (que, aliás, demorei algum tempo para entender por causa da letra garranchuda do Candeias), "O vigilante" e "A opção ou as rosas". Ele me disse que eram as únicas fitas que tinha no momento e ainda se desculpou pela qualidade das imagens. Enfim... ficou pra minha história.