terça-feira, janeiro 06, 2015
segunda-feira, dezembro 29, 2014
manakamana ****
Gostei bastante deste filme. Um documentário especulativo? Não sei se gosto muito desta expressão, mas ela me ajuda a descrever a sessão de ver este longa de Stephanie Spray e Pacho Velez. "Manakamana" é certamente uma espécie de documento: um paÌs distante, uma viajem de bonde por sobre a montanha, visitantes e um templo. E a palavra documento deve ser compreendida aqui em uma acepção física mesmo. Ao longo das filmagens, Spray e Velez descobriram algo curioso: um rolo completo de 16 mm correspondia ao tempo que levava um bonde para subir e descer da montanha. Quer dizer: sentimos a realidade física, integral deste documento, desta viajem, daquelas pessoas. Estas sabem que estão sendo filmadas. Parece que foram escolhidas a dedo. A câmera negocia o filme com elas. Isto também é algo palpável, da hesitação inicial ao paulatino desprendimento. A câmera, sempre muito presente, interroga, desafia, e os personagens reagem, reagem, reagem. Eles dizem sim. E dizer sim para uma câmera é dizer sim para a eternização de um momento. Ao olhar sob o prima da eternidade estes pequenos momentos, algo nos parece estar sendo revelado. Algo que se revela e se esconde. Daí o especulativo.
quinta-feira, dezembro 04, 2014
domingo, novembro 30, 2014
garota exemplar **
A violência que pontua "Garota exemplar" não diz respeito apenas aos personagens, mas está mais para um reflexo de um certo sadomasoquismo literal e espiritual inerente ao casamento. Grouxo Marx dizia: "o casamento é uma instituição maravilhosa, mas quem é que deseja morar em uma instituição?" A frase do mestre soa como uma espécie de resumo cômico do filme. Mas não estamos diante de uma comédia. Estamos? "Garota exemplar" é uma espécie de piada de mau gosto de aspirações ambiciosas. Não sei, contudo, se é sobre isso que quero realmente falar agora. Voltemos um pouco:Ao menos desde "Zodíaco" (2007), os filmes de David Fincher se esforçam para expressar como é estar vivo em um determinado espaço-tempo. Embora sempre tenham um protagonista, muitas pessoas vão e voltam na narrativa dos filmes. Elas trazem detalhes, motivações, pequenas histórias. Elas ajudam a compor um contexto. O requinte na utilização da luz e no esquadrinhamento do espaço, o nível de envolvimento emocional com os atores, a precisão narrativa e uma certa aura melancólica, todas características marcantes de Fincher, também passaram a operar segundo este objetivo. Quer dizer: não é apenas uma questão de direção de arte, de objetos de cena ou vestuário e música, mas os gestos, posturas, símbolos, valores e de como tudo isso é filtrado pela experiência individual de alguns personagens.
"Garota exemplar" é muito bem sucedido neste sentido. Vivemos em uma sociedade da informação, da imagem, do espetáculo. Vivemos em um capitalismo estético e biopolítico. E tudo isto está lá. "Garota exemplar" funciona como um exemplo extremo e grotesco das relações íntimas entre o cotidiano, a aparência, o artifício e a efemeridade que marcam nosso ambiente contemporâneo. O filme revela justamente o caráter promíscuo e quase pornográfico das encenações que fazemos de nós mesmos. Se antes o cotidiano se via circunscrito ao espaço privado e seus diversos níveis de vida interior, hoje voltamos nossas existências para o espaço aberto dos meios de comunicação e seus diversos níveis de vida exterior (tela, imagem, interfaces, etc.). Se a verdade do sujeito era de natureza recôndita, opaca, invisível, hoje, cada vez mais, a autenticidade de alguém encontra-se vinculada à dimensão visível e acessível ao olhar do outro. A lógica que associa a aparência e a superficialidade aos domínios do engodo, do falso, da mentira, da manipulação, faz cada vez menos sentido.
Esse primado da aparência, contudo, ficou comigo. Talvez ele não diga respeito somente a este filme. O que ele pode nos dizer sobre o cinema de David Fincher? Essa pergunta ainda me toma um certo tempo. Ainda não sei bem o que quero dizer com isso. Mas a minha impressão é a de que Fincher é uma espécie de colonizador de exploração (e não de povoamento, digamos). Ele explora (em um mau sentido, na base da violência) todos os elementos à sua disposição em nome de alguma coisa. E não há nada além desta exploração. Enfim...
quinta-feira, novembro 27, 2014
debi e lóide 2 ***
Era de se esperar. Mas não teve jeito. Fiquei um pouco chateado com a críticas que saíram a respeito do mais novo filme dos irmãos Farrelly. Vejam duas aí abaixo, uma escrita por Alexandre Agabiti Fernandez para a "Folha" e a outra assinada por Mario Abbade para "O Globo". O primeiro jamais gostaria do filme. O segunda em hipótese alguma deixaria de gostar dele. Nenhum deles faz jus ao que vi.
Alexandre diz que o que mais o incomoda é a fixação por matéria fecal e flatulência, que "as piadas envolvendo cocô e puns não aborrecem pelo mau gosto que, em si, podem resultar em graça, mas pela infantilidade: só divertem quem ainda não superou a fase anal, um dos estágios do desenvolvimento psicossexual da criança". Sério: isso aí é de uma ignorância... Que dizer então que quem ri de um pum... Mario, por sua vez, diz que "o humor pode ser irônico, refinado, inteligente, mas também anárquico e sem limites" e que os irmãos são um exemplo do último grupo. Em primeiro lugar, porque o "mas"? Em segundo, não seriam os Farrelly irônicos, refinados e inteligentes? Mario ainda arrisca uma afirmação que em hipótese alguma ele pode realmente comprovar: "Debi e Lóide 2" seria uma tentativa de repetir os sucessos de bilheteria do início da carreira. Tanto Alexandre quanto Mario dizem que a trama repete a receita do primeiro. Onde? Para Alexandre a trama ainda seria um mero pretexto? Como assim?
"Debi e Lóide 2" é uma comédia radical. A estupidez dos personagens é levada a um patamar nunca antes alcançado. É uma coisa realmente virtuosa. E não uso o termo de maneira inocente. Ao contrário: a estupidez se transforma em uma virtude. Ela é a maior qualidade dos personagens. É o que os tornam imunes a arrependimentos, que os faz se surpreenderem continuadamente. É o que os levam a dizer sim para o chamado do mundo. Quer dizer: não se trata apenas de uma comédia distante do "politicamente correto", tampouco de baixo nível ou meramente escatológica. "Debi e Lóide 2" é um filme subversivo, desfila uma riqueza impressionante de detalhes, um cinema narrativamente muito bem construído, e uma visão de mundo mais crítica e aberta.
Crítica: Vinte anos depois, Debi & Lóide voltam mais ridículos e infantis
ALEXANDRE AGABITI FERNANDEZ
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Duas décadas depois do estrondoso sucesso de público de "Debi & Lóide - Dois Idiotas em Apuros", Jim Carrey e Jeff Daniels voltam como a dupla de palermas mais carismática dos últimos tempos.
Novamente sob a direção dos irmãos Bobby e Peter Farrelly, os dois enchem a tela com uma enxurrada de gags que certamente deliciará o espectador que se diverte com a estupidez.
O novo filme é uma farsa baseada na mesma receita do anterior —a humilhação de alguém feita com candura—, em que a trama é mero pretexto para os esquetes.
A diferença é que os protagonistas estão vinte anos mais velhos, o que os torna um pouco mais ridículos.
Debi (Daniels) e Lóide (Carrey) se reúnem com a missão de encontrar Penny (Rachel Melvin), a suposta filha de Debi cuja existência ele acaba de descobrir. A busca os leva a um longo périplo rodoviário, como no primeiro filme, palco de boa parte da baderna armada pela dupla.
O ponto culminante da viagem acontece durante um simpósio que reúne cientistas e inventores.
FASE ANAL
O humor físico da dupla tem seus altos e baixos —algumas gags, como a da moita, são repetidas além do razoável—, mas o que mais incomoda é a fixação por matéria fecal e flatulência, outra de suas marcas registradas.
As piadas envolvendo cocô e puns não aborrecem pelo mau gosto que, em si, podem resultar em graça, mas pela infantilidade: só divertem quem ainda não superou a fase anal, um dos estágios do desenvolvimento psicossexual da criança.
Moral da história: na categoria do humor ingênuo e histriônico, cheio de pancadaria e caretas, clássicos como "Os Três Patetas" e "O Gordo e o Magro" continuam insuperáveis.
Mario Abbade
o globo | 13:36h | 12.nov.2014
Para rir do início ao fim
Um dos gêneros mais complicados é a comédia — não à toa, cineastas e atores vivem apregoando que fazer rir é bem mais difícil que fazer chorar. E, nesse universo complexo, há enormes diferenças. O humor pode ser irônico, refinado, inteligente, mas também anárquico e sem limites. Os irmãos Bobby e Peter Farrelly são um exemplo do último grupo, com filmes que encarnam a antítese do hoje tão falado politicamente correto. Eles se firmaram como reis do estilo nos anos 90, com longas como “Kingpin — Estes loucos reis do boliche”, “Quem vai ficar com Mary” e “Eu, eu mesmo e Irene”. O começo veio justamente com “Debi & Lóide: dois idiotas em apuros” (1994), que virou cult com produtos que vão de action figures e smokings coloridos até uma capa para transformar o carro no “mutt cutts”, espécie de batmóvel da dupla, que lembra um cachorromóvel. Mas os irmãos Farrelly não vêm conseguindo o mesmo sucesso: suas produções se pagam, mas não chegam a campeãs de bilheteria. “Debi & Lóide 2” é uma tentativa de recuperar a coroa.
A trama acontece 20 anos após o fim do primeiro filme. E reúne novamente Jeff Daniels (hoje ligado a produções mais artísticas) e Jim Carrey (que não vem dando sorte no box-office), que embarcam em mais uma road trip. “Dumb and Dumber to” (no original) tem o que apreciador do estilo espera: nonsense e ingenuidade que beira a estupidez. Isso embalado em situações hilárias, que parecem agressivas em certos momentos, mas fazem parte da maneira inocente como os personagens veem o mundo. E conseguir manejar isso, extraindo humor sem ser ofensivo, requer a tal habilidade que muitos só enxergam nas comédias sofisticadas.
O filme só não é perfeito em sua proposta por ter optado por uma história muito parecida com a primeira. Mas, em time que está ganhando, não se mexe — com direito a cena pós-créditos que corrobora essa intenção.
Alexandre diz que o que mais o incomoda é a fixação por matéria fecal e flatulência, que "as piadas envolvendo cocô e puns não aborrecem pelo mau gosto que, em si, podem resultar em graça, mas pela infantilidade: só divertem quem ainda não superou a fase anal, um dos estágios do desenvolvimento psicossexual da criança". Sério: isso aí é de uma ignorância... Que dizer então que quem ri de um pum... Mario, por sua vez, diz que "o humor pode ser irônico, refinado, inteligente, mas também anárquico e sem limites" e que os irmãos são um exemplo do último grupo. Em primeiro lugar, porque o "mas"? Em segundo, não seriam os Farrelly irônicos, refinados e inteligentes? Mario ainda arrisca uma afirmação que em hipótese alguma ele pode realmente comprovar: "Debi e Lóide 2" seria uma tentativa de repetir os sucessos de bilheteria do início da carreira. Tanto Alexandre quanto Mario dizem que a trama repete a receita do primeiro. Onde? Para Alexandre a trama ainda seria um mero pretexto? Como assim?
"Debi e Lóide 2" é uma comédia radical. A estupidez dos personagens é levada a um patamar nunca antes alcançado. É uma coisa realmente virtuosa. E não uso o termo de maneira inocente. Ao contrário: a estupidez se transforma em uma virtude. Ela é a maior qualidade dos personagens. É o que os tornam imunes a arrependimentos, que os faz se surpreenderem continuadamente. É o que os levam a dizer sim para o chamado do mundo. Quer dizer: não se trata apenas de uma comédia distante do "politicamente correto", tampouco de baixo nível ou meramente escatológica. "Debi e Lóide 2" é um filme subversivo, desfila uma riqueza impressionante de detalhes, um cinema narrativamente muito bem construído, e uma visão de mundo mais crítica e aberta.
Crítica: Vinte anos depois, Debi & Lóide voltam mais ridículos e infantis
ALEXANDRE AGABITI FERNANDEZ
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Duas décadas depois do estrondoso sucesso de público de "Debi & Lóide - Dois Idiotas em Apuros", Jim Carrey e Jeff Daniels voltam como a dupla de palermas mais carismática dos últimos tempos.
Novamente sob a direção dos irmãos Bobby e Peter Farrelly, os dois enchem a tela com uma enxurrada de gags que certamente deliciará o espectador que se diverte com a estupidez.
O novo filme é uma farsa baseada na mesma receita do anterior —a humilhação de alguém feita com candura—, em que a trama é mero pretexto para os esquetes.
A diferença é que os protagonistas estão vinte anos mais velhos, o que os torna um pouco mais ridículos.
Debi (Daniels) e Lóide (Carrey) se reúnem com a missão de encontrar Penny (Rachel Melvin), a suposta filha de Debi cuja existência ele acaba de descobrir. A busca os leva a um longo périplo rodoviário, como no primeiro filme, palco de boa parte da baderna armada pela dupla.
O ponto culminante da viagem acontece durante um simpósio que reúne cientistas e inventores.
FASE ANAL
O humor físico da dupla tem seus altos e baixos —algumas gags, como a da moita, são repetidas além do razoável—, mas o que mais incomoda é a fixação por matéria fecal e flatulência, outra de suas marcas registradas.
As piadas envolvendo cocô e puns não aborrecem pelo mau gosto que, em si, podem resultar em graça, mas pela infantilidade: só divertem quem ainda não superou a fase anal, um dos estágios do desenvolvimento psicossexual da criança.
Moral da história: na categoria do humor ingênuo e histriônico, cheio de pancadaria e caretas, clássicos como "Os Três Patetas" e "O Gordo e o Magro" continuam insuperáveis.
Mario Abbade
o globo | 13:36h | 12.nov.2014
Para rir do início ao fim
Um dos gêneros mais complicados é a comédia — não à toa, cineastas e atores vivem apregoando que fazer rir é bem mais difícil que fazer chorar. E, nesse universo complexo, há enormes diferenças. O humor pode ser irônico, refinado, inteligente, mas também anárquico e sem limites. Os irmãos Bobby e Peter Farrelly são um exemplo do último grupo, com filmes que encarnam a antítese do hoje tão falado politicamente correto. Eles se firmaram como reis do estilo nos anos 90, com longas como “Kingpin — Estes loucos reis do boliche”, “Quem vai ficar com Mary” e “Eu, eu mesmo e Irene”. O começo veio justamente com “Debi & Lóide: dois idiotas em apuros” (1994), que virou cult com produtos que vão de action figures e smokings coloridos até uma capa para transformar o carro no “mutt cutts”, espécie de batmóvel da dupla, que lembra um cachorromóvel. Mas os irmãos Farrelly não vêm conseguindo o mesmo sucesso: suas produções se pagam, mas não chegam a campeãs de bilheteria. “Debi & Lóide 2” é uma tentativa de recuperar a coroa.
A trama acontece 20 anos após o fim do primeiro filme. E reúne novamente Jeff Daniels (hoje ligado a produções mais artísticas) e Jim Carrey (que não vem dando sorte no box-office), que embarcam em mais uma road trip. “Dumb and Dumber to” (no original) tem o que apreciador do estilo espera: nonsense e ingenuidade que beira a estupidez. Isso embalado em situações hilárias, que parecem agressivas em certos momentos, mas fazem parte da maneira inocente como os personagens veem o mundo. E conseguir manejar isso, extraindo humor sem ser ofensivo, requer a tal habilidade que muitos só enxergam nas comédias sofisticadas.
O filme só não é perfeito em sua proposta por ter optado por uma história muito parecida com a primeira. Mas, em time que está ganhando, não se mexe — com direito a cena pós-créditos que corrobora essa intenção.
sábado, novembro 22, 2014
links
A nova edição da "Film Philosophy", focada na obra de Stanley Cavelle, está bem bacana
A nova edição da "photogénie"
Um David Bordwell inspirado
Um crítica que faz justiça ao filmado "Debi e Loide 2" - aliás, voltarei a este assunto em breve
A Film Comment lançou em seu site uma antologia crítica sobre Godard. Tudo o que saiu na revista sobre o cineasta! Dá uns 12 reais!
Dá pra fazer o mesmo com Fassbinder. Por 2,50! Porra!
Uma conversa entre Kent Jones e Jonathan Rosenbaum sobre Robert Bresson e Jean-Luc Godard
Jonathan Rosenbaum sobre a obra-prima de Jean Eustache
O blog de Christoph Huber
Um projeto de ensaios audiovisuais sobre "Out 1", de Jacques Rivette
Belo texto de James Quandt sobre o mestre Jacques Tati
E por fim:
A nova edição da "photogénie"
Um David Bordwell inspirado
Um crítica que faz justiça ao filmado "Debi e Loide 2" - aliás, voltarei a este assunto em breve
A Film Comment lançou em seu site uma antologia crítica sobre Godard. Tudo o que saiu na revista sobre o cineasta! Dá uns 12 reais!
Dá pra fazer o mesmo com Fassbinder. Por 2,50! Porra!
Uma conversa entre Kent Jones e Jonathan Rosenbaum sobre Robert Bresson e Jean-Luc Godard
Jonathan Rosenbaum sobre a obra-prima de Jean Eustache
O blog de Christoph Huber
Um projeto de ensaios audiovisuais sobre "Out 1", de Jacques Rivette
Belo texto de James Quandt sobre o mestre Jacques Tati
E por fim:
quarta-feira, novembro 19, 2014
segunda-feira, novembro 17, 2014
interstellar *
Estava aqui pensando na geração incrível de pensadores franceses que varreu o mundo em meados dos anos 60. Eles esboçariam interpretações sobre os acontecimentos de maio de 68. Sugeriam que maio de 68 tinha um alcance filosófico ligado àquilo que eles mesmos tinham como objeto principal de seus respectivos pensamentos. Eu me refiro a gente como Michel Foucault, Louis Althusser, Jacques Derrida, François Lyotard, Pierre Bourdieu e Gilles Deleuze. São autores absolutamente diferentes entre si, claro. Eles, contudo, alimentavam algumas afinidades: um certo culto pelo paradoxo, uma reivindicação insistente da complexidade. A exigência de um discurso regido pela exigência da nãocontradição é nada mais do que uma enorme ingenuidade. Nós, os leitores, compreendemos que estes autores queriam dizer coisas novas e que coisas novas precisavam de novas maneiras para dizê-las.
Estava pensando nisso tudo porque vi "Interstellar". Porque o tempo passa e complexidade virou signo de grandeza e inteligência. Vamos lá: um clichê. Christopher Nolan faz filmes inflados, que falam pelos cotovelos, vomitando termos técnicos pra cá e pra lá, fragmentos e mais fragmentos de supostas e complicadas teorias. Gravidade. Relatividade. Tempo. Somos mesmo muito estúpidos, né não? Vez ou outra, uma imagem de síntese: um quadro abarrotado de equações! Claro! E, no fim, vejam como na verdade é tudo muito simples, era o amor, sempre o amor. Ah, vá pra puta que pariu! É uma coisa absolutamente vazia. Nolan não quer confundir ninguém. Sua "complexidade" é uma imagem, uma marca. Nada mais.
O meu incômodo só aumenta quando vejo o cineasta falando mal dos filmes da Marvel. Não que eu adore os filmes da Marvel, mas eles são ao menos mais francos e honestos. Não se vedem como algo acima do cinemão. E Nolan acha que faz o que?
sábado, novembro 15, 2014
terça-feira, novembro 11, 2014
godard arquiteto
O mestre John Ford disse certa vez que um cineasta não era um autor, que estaria mais para um arquiteto. Eu, contudo, confesso, nunca havia pensado muito sobre o assunto. Quer dizer, achava esse comentário algo curioso, mas essa curiosidade não me levava a nenhum lugar. Pois bem. Outro dia estava revendo algumas cenas de "Filme Socialismo" (2010), de Jean-Luc Godard, e, de repente, peguei-me pensando em ruínas. Devo dizer: esta é uma associação (Godard e suas ruínas) já levantada em diversos momentos. Afinal, Godard é o cineasta da construção-descontrução-explosão. Ok. Eu, no entanto, ainda não tinha pensando em "Filme Socialismo" como uma estrutura, digamos, fantasma. Talvez fantasma não seja o termo mais apropriado. Godard arquiteta uma planta em que diversas portas são deliberadamente apagadas. Algumas sequer existiram. Estas ausências têm vida. Elas crescem, crescem, crescem. É interessante: as pessoas em geral não tentam descrever os filmes mais novos de Godard - isso, claro, quando não os rechaçam veementemente. Costumam explicá-los, interpretá-los, decodificá-los. Descrevê-los talvez seja mais proveitoso. Porque não? E aí, embora este post esteja longe de cumprir este desafio, arquitetura e ruínas serão noções em tanto.
sábado, novembro 08, 2014
non ou a vã glória de mandar *****
Ainda não tinha visto este filme. Sem dúvida: é um dos melhores do Manoel de Oliveira. A primeira longa sequencia é uma coisa antológica. Uma árvore em contra-plongée balança ao som de uma música sincopada e melancólica. A câmera a circunda e pouco depois se instala em um veículo em movimento. Um grupo de soldados portugueses viajam em direção a alguma ex-colônia africana em guerra. A câmera encara alguns deles, entretidos em devaneios e na atenção ao que passa ao redor. Um certo desfile de fisionomias se descortina aos nossos olhos. O contracampo não dá às caras. Talvez seja mesmo absolutamente desnecessário. Talvez sejamos nós o contracampo. Os soldados conversam sobre Portugal. O Alferes (interpretado por Luis Miguel Cintra), líder do grupo e professor, descreve episódios marcantes da história do país. Portugal revela-se como uma espécie de promessa jamais cumprida. Diversos momentos históricos são encenados, desde o momento da formação nacional até o limiar da Revolução dos Cravos, bem como alguns mitos. É bem curioso: o caminhão em movimento, os relatos de Alferes e a imaginação dos soldados conjugam-se e avançam por uma história feita de fatos, memórias e fábulas. Portugal é como um sonho. Um sonho frustrado. Um sonho ainda sonhado. E uma frustração para sempre incontornável.
Vi o filme a noite, depois que minha filha se deixou levar pelo sono. Ao final, "Non ou a vã glória de mandar" me levou às ruas, a caminhar pelas ruas, sem nenhum objetivo específico, apenas o impulso incontrolável de atender ao convite do mundo lá fora. Era umas 2h da manhã. Um novo dia se já se fazia sentir no horizonte.
Vi o filme a noite, depois que minha filha se deixou levar pelo sono. Ao final, "Non ou a vã glória de mandar" me levou às ruas, a caminhar pelas ruas, sem nenhum objetivo específico, apenas o impulso incontrolável de atender ao convite do mundo lá fora. Era umas 2h da manhã. Um novo dia se já se fazia sentir no horizonte.
quarta-feira, novembro 05, 2014
sábado, novembro 01, 2014
retrospectiva globo repórter no canal brasil!
O Canal Brasil exibe a partir do dia 5 de novembro sete ótimos documentários produzidos para os anos seminais do Globo Repórter:
GLOBO REPÓRTER: “SEMANA DE ARTE MODERNA” (1971) (51’)
Horário: quarta-feira, 5/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 8/11, às 9h30
Sinopse: O diretor Geraldo Sarno faz um paralelo entre o Movimento de 1922 e a vanguarda artística do fim dos anos 1960 e início dos 1970. A antropofagia modernista é trazida à tona neste filme através da figura do tropicalismo e da produção cultural daquela geração. O documentário analisa a famosa Semana de Arte Moderna por meio de entrevistas com remanescentes da exposição, entre eles Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Menotti del Picchia, além de artistas de vanguarda da década de 70, como José Celso Martinez, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Wally Salomão. Zuenir Ventura assina o argumento e é o autor dos textos narrados por Cid Moreira no registro.
GLOBO REPÓRTER: “ARQUITETURA, A TRANSFORMAÇÃO DO ESPAÇO” (1972) (56’)
Horário: quarta-feira, 12/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 15/11, às 9h30
Sinopse: Primeiro documentário de Walter Lima Jr. e seu primeiro trabalho para a televisão. Rodado em 16mm, o filme tem fotografia de José Ventura. Destaque para as imagens de Brasília que, montadas com uma trilha sonora de suspense e caos, criam uma atmosfera sombria e crítica sobre aquele espaço, em um clima de mistério e dúvida em torno dos palácios, da catedral e dos eixos sobre os quais foi construída a cidade. "Desenvolvimento", "progresso" e "transformação", nas mãos do diretor, fogem ao tom das reportagens institucionais da época.
GLOBO REPÓRTER: “SEIS DIAS DE OURICURI” (1976) (41’)
Horário: quarta, 19/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 22/11, às 9h30
Sinopse: Dirigido por Eduardo Coutinho, o documentário mostra a situação de seca e miséria na qual viviam os moradores de Ouricuri, localizada no sertão do Araripe, em Pernambuco. O diretor ouviu os flagelados que esperavam os mantimentos atrasados. As imagens de Coutinho provam que não importa o nome dado ao fenômeno quando famílias inteiras passam fome e perdem seus empregos. Diante da câmera, o povo mostra-se cada vez mais revoltado com o Governo Federal. O longa-metragem capta imagens e depoimentos reveladores de um Brasil não tão “grande” quanto o propagandeado pelo regime militar, ainda vigente à época da produção.
GLOBO REPÓRTER: “RETRATO DE CLASSE” (1977) (38’)
Horário: quarta-feira, 26/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 29/11, às 9h30
Sinopse: O filme dirigido por Gregório Bacic constrói uma divertida crônica da classe média paulistana nos anos 1970, a partir de uma reunião de turma do primário, 20 anos depois. O documentário apresenta uma clássica foto numa escola primária: a mestra, ao centro, cercada de alunos. Em off, a voz da professora relembra os estudantes e projeta suas expectativas sobre o futuro de cada um. Todos falam de sua visão de mundo e do cotidiano, muito distantes dos projetos imaginados pela professora.
GLOBO REPÓRTER: “TEODORICO, O IMPERADOR DO SERTÃO” (1978) (49’)
Horário: quarta-feira, dia 3/12, às 19h
Horário alternativo: sábado, dia 6/12, às 9h30
Sinopse: Considerado o primeiro clássico da filmografia de Eduardo Coutinho, o documentário constrói o real através da fala do coronel Teodorico Bezerra. O diretor expõe, sem maniqueísmo, a visão do representante da aristocracia rural do Nordeste. As próprias palavras de Teodorico o definem como “autoritário e dono de almas, dominador da política local, manipulador de verbas públicas em causa própria, metódico e centrado”. Acompanhando o percurso do coronel, a câmera de Dib Lutfi registra suas conversas com trabalhadores da fazenda no sertão nordestino, onde ficam evidentes as relações de poder.
GLOBO REPÓRTER: “WILSINHO GALILÉIA” (1978) (63’)
Horário: quarta-feira, dia 10/12, às 19h
Horário alternativo: sábado, dia 13/12, às 9h30
Sinopse: Dirigido pelo cineasta João Batista de Andrade, o filme foi vetado pela censura em vigor na época, já que a tragédia do garoto marginal serviu para revelar as estruturas de exclusão da sociedade brasileira. O registro reconstitui a trajetória de Wilson Paulino da Silva – o Wilsinho Galiléia, criado na favela de mesmo nome, uma das maiores de São Paulo. Wilsinho tinha 15 anos quando entrou para o crime. Em apenas três anos (o jovem morreu aos 18), tinha 20 assassinatos e quase 500 assaltos na ficha criminal.
GLOBO REPÓRTER: “EXU, UMA TRAGÉDIA SERTANEJA” (1979) (39’)
Horário: quarta-feira, dia 17/12, 19h
Horário alternativo: sábado, dia 20/12, às 9h30
Sinopse: Eduardo Coutinho optou pelo Nordeste para falar dos problemas do país, bastante esquecido pela modernização conservadora dos militares. O diretor enriquece seu método de documentar, deixando os entrevistados contarem suas histórias e diminuindo cada vez mais a distância entre realizador e os “personagens da vida real”. O filme trata da rivalidade entre as famílias Alencar e Sampaio em Exu, cidade do interior de Pernambuco, e dos inúmeros assassinatos dessa divergência. Outra característica do cineasta também é aqui firmada: a voz do entrevistador sempre aparece, evidenciando a existência de uma equipe intermediando a realidade.
GLOBO REPÓRTER: “SEMANA DE ARTE MODERNA” (1971) (51’)
Horário: quarta-feira, 5/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 8/11, às 9h30
Sinopse: O diretor Geraldo Sarno faz um paralelo entre o Movimento de 1922 e a vanguarda artística do fim dos anos 1960 e início dos 1970. A antropofagia modernista é trazida à tona neste filme através da figura do tropicalismo e da produção cultural daquela geração. O documentário analisa a famosa Semana de Arte Moderna por meio de entrevistas com remanescentes da exposição, entre eles Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Menotti del Picchia, além de artistas de vanguarda da década de 70, como José Celso Martinez, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Wally Salomão. Zuenir Ventura assina o argumento e é o autor dos textos narrados por Cid Moreira no registro.
GLOBO REPÓRTER: “ARQUITETURA, A TRANSFORMAÇÃO DO ESPAÇO” (1972) (56’)
Horário: quarta-feira, 12/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 15/11, às 9h30
Sinopse: Primeiro documentário de Walter Lima Jr. e seu primeiro trabalho para a televisão. Rodado em 16mm, o filme tem fotografia de José Ventura. Destaque para as imagens de Brasília que, montadas com uma trilha sonora de suspense e caos, criam uma atmosfera sombria e crítica sobre aquele espaço, em um clima de mistério e dúvida em torno dos palácios, da catedral e dos eixos sobre os quais foi construída a cidade. "Desenvolvimento", "progresso" e "transformação", nas mãos do diretor, fogem ao tom das reportagens institucionais da época.
GLOBO REPÓRTER: “SEIS DIAS DE OURICURI” (1976) (41’)
Horário: quarta, 19/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 22/11, às 9h30
Sinopse: Dirigido por Eduardo Coutinho, o documentário mostra a situação de seca e miséria na qual viviam os moradores de Ouricuri, localizada no sertão do Araripe, em Pernambuco. O diretor ouviu os flagelados que esperavam os mantimentos atrasados. As imagens de Coutinho provam que não importa o nome dado ao fenômeno quando famílias inteiras passam fome e perdem seus empregos. Diante da câmera, o povo mostra-se cada vez mais revoltado com o Governo Federal. O longa-metragem capta imagens e depoimentos reveladores de um Brasil não tão “grande” quanto o propagandeado pelo regime militar, ainda vigente à época da produção.
GLOBO REPÓRTER: “RETRATO DE CLASSE” (1977) (38’)
Horário: quarta-feira, 26/11, às 19h
Horário alternativo: sábado, 29/11, às 9h30
Sinopse: O filme dirigido por Gregório Bacic constrói uma divertida crônica da classe média paulistana nos anos 1970, a partir de uma reunião de turma do primário, 20 anos depois. O documentário apresenta uma clássica foto numa escola primária: a mestra, ao centro, cercada de alunos. Em off, a voz da professora relembra os estudantes e projeta suas expectativas sobre o futuro de cada um. Todos falam de sua visão de mundo e do cotidiano, muito distantes dos projetos imaginados pela professora.
GLOBO REPÓRTER: “TEODORICO, O IMPERADOR DO SERTÃO” (1978) (49’)
Horário: quarta-feira, dia 3/12, às 19h
Horário alternativo: sábado, dia 6/12, às 9h30
Sinopse: Considerado o primeiro clássico da filmografia de Eduardo Coutinho, o documentário constrói o real através da fala do coronel Teodorico Bezerra. O diretor expõe, sem maniqueísmo, a visão do representante da aristocracia rural do Nordeste. As próprias palavras de Teodorico o definem como “autoritário e dono de almas, dominador da política local, manipulador de verbas públicas em causa própria, metódico e centrado”. Acompanhando o percurso do coronel, a câmera de Dib Lutfi registra suas conversas com trabalhadores da fazenda no sertão nordestino, onde ficam evidentes as relações de poder.
GLOBO REPÓRTER: “WILSINHO GALILÉIA” (1978) (63’)
Horário: quarta-feira, dia 10/12, às 19h
Horário alternativo: sábado, dia 13/12, às 9h30
Sinopse: Dirigido pelo cineasta João Batista de Andrade, o filme foi vetado pela censura em vigor na época, já que a tragédia do garoto marginal serviu para revelar as estruturas de exclusão da sociedade brasileira. O registro reconstitui a trajetória de Wilson Paulino da Silva – o Wilsinho Galiléia, criado na favela de mesmo nome, uma das maiores de São Paulo. Wilsinho tinha 15 anos quando entrou para o crime. Em apenas três anos (o jovem morreu aos 18), tinha 20 assassinatos e quase 500 assaltos na ficha criminal.
GLOBO REPÓRTER: “EXU, UMA TRAGÉDIA SERTANEJA” (1979) (39’)
Horário: quarta-feira, dia 17/12, 19h
Horário alternativo: sábado, dia 20/12, às 9h30
Sinopse: Eduardo Coutinho optou pelo Nordeste para falar dos problemas do país, bastante esquecido pela modernização conservadora dos militares. O diretor enriquece seu método de documentar, deixando os entrevistados contarem suas histórias e diminuindo cada vez mais a distância entre realizador e os “personagens da vida real”. O filme trata da rivalidade entre as famílias Alencar e Sampaio em Exu, cidade do interior de Pernambuco, e dos inúmeros assassinatos dessa divergência. Outra característica do cineasta também é aqui firmada: a voz do entrevistador sempre aparece, evidenciando a existência de uma equipe intermediando a realidade.
quinta-feira, outubro 30, 2014
era uma vez em nova york ****
James Gray é um cineasta que valoriza a cena, que acredita na necessidade do drama. Isto, contudo, não diz respeito exatamente à possibilidade de se contar histórias as mais variadas, mas à oportunidade de se gerar uma experiência mais passional. "Era uma vez em Nova York", como seus antecessores, nos demanda um tipo diverso de adesão. Uma adesão irrestrita e atenta. Gray é de uma objetividade, digamos, generosa. Quer dizer: ele está sempre muito perto, porém sempre reservando uma certa distância. Os sentimentos são grandiloquentes, do tamanho do mundo, embora tão absolutamente concretos e por isso incertos e difusos, incapazes de serem contidos em um verbete de dicionário, em um nome frio, sem vida, impessoal.
Ewa, Bruno e Orlando são maneiras de olhar, de se mover, de sentar, de se vestir, de falar. Eles são um combinado de comportamento, ritmo e atmosfera. São universos. Universos que se chocam, inevitavelmente. Ewa e Bruno dependem um do outro. Uma dependência que destruirá ambos. É como se necessitassem um do outro pelas razões erradas.
Orlando também cairá. Vemos eles caindo. O filme abraça essa dor sem justificá-la ou julgá-la, sem tampouco eximir seus personagens de culpa. O que espanta, vejam só, é afirmação ao fim de que ninguém é melhor do que ninguém, que todos nós merecemos ser amados e respeitados. Todos nós temos direito a uma segunda chance, ao perdão e à redenção. Em uma frase: Ewa, Bruno e Orlando são humanos. Isso é bonito. Isso é trágico. É, sobretudo, um fenômeno solitário.
Há uma pedagogia nesse cinema. O filme se oferece não como apreciação ou contemplação, tampouco como um julgamento do mundo, mas como um processo dinâmico de experimentação de um mundo. Uma experiência irredutível à generalização. Uma experiência que, justamente por situar-se além de nossas possibilidades, nos força a pensar, a alargar nossas faculdades sensíveis, a nos tornarmos mais tolerantes.
Ewa, Bruno e Orlando são maneiras de olhar, de se mover, de sentar, de se vestir, de falar. Eles são um combinado de comportamento, ritmo e atmosfera. São universos. Universos que se chocam, inevitavelmente. Ewa e Bruno dependem um do outro. Uma dependência que destruirá ambos. É como se necessitassem um do outro pelas razões erradas.
Orlando também cairá. Vemos eles caindo. O filme abraça essa dor sem justificá-la ou julgá-la, sem tampouco eximir seus personagens de culpa. O que espanta, vejam só, é afirmação ao fim de que ninguém é melhor do que ninguém, que todos nós merecemos ser amados e respeitados. Todos nós temos direito a uma segunda chance, ao perdão e à redenção. Em uma frase: Ewa, Bruno e Orlando são humanos. Isso é bonito. Isso é trágico. É, sobretudo, um fenômeno solitário.
Há uma pedagogia nesse cinema. O filme se oferece não como apreciação ou contemplação, tampouco como um julgamento do mundo, mas como um processo dinâmico de experimentação de um mundo. Uma experiência irredutível à generalização. Uma experiência que, justamente por situar-se além de nossas possibilidades, nos força a pensar, a alargar nossas faculdades sensíveis, a nos tornarmos mais tolerantes.
domingo, outubro 26, 2014
cavalo dinheiro ****
Fontainhas está no chão. Foi demolida. Ela, contudo, persiste, insiste. Fontainhas habita o imaginário de Ventura. Ela o constitui. Ela o põe em movimento. Não existe mais como bairro ou paisagem. Mas é como uma espécie de mito fundador daquela realidade constituída em filme - aliás, como bem reforçou o Filipe Furtado lá na "Cinética", jamais a herança de John Ford esteve tão presente em Pedro Costa.
"Cavalo Dinheiro" é filme sincopado, musical mesmo, talvez mais rápido e físico e menos refinado do que seu monumental antecessor, "Juventude em Marcha". São ritmos diferentes, maneiras diversas de se olhar para Ventura. É também um filme ainda mais misterioso. Ventura, hospitalizado, à beira da morte, revisita sua vida em uma espécie de delírio, e fantasmagoria elíptica e fugidia. Vemos hospitais, corredores, espaços, espaços, espaços. Eles são diferentes, embora se pareçam, tenham a mesma força opressora. As cenas escapam tanto ao “presente” quanto ao “passado”, e nos convidam a pensar de outra forma a temporalidade do filme e a natureza de Ventura. Seu corpo é um condutor de hipóteses narrativas, condensações provisórias e cambiantes de múltiplos possíveis. É também um filme mais angustiante. Uma angústia permeia tudo, cada plano, os enquadramentos, o jogo de luz e sombra, o corpo de Ventura. A noite reina soberana. A sombra apropriou-se da luz. Talvez seja pior que isso: a luz absorveu a sombra. o que vemos é um brilho enganoso, difuso, enevoado, que recobre a paisagem e os personagem e os força a viver sob ameaça, em um universo claustrofóbico. Uma certa impossibilidade governa este filme.
"Cavalo Dinheiro" é certamente uma espécie de exorcismo. Ventura, o assombrado, externaliza seus demônios. Externaliza? Talvez não seja o termo mais apropriado. Esse assombro não é localizável, seja no interior ou no exterior. Uma analogia com a energia atômica talvez seja mais proveitosa. Quer dizer: o filme libera uma certa energia e esta liberação, mais do que um possível exorcismo, nos ameaça a todos.
"Cavalo Dinheiro" é filme sincopado, musical mesmo, talvez mais rápido e físico e menos refinado do que seu monumental antecessor, "Juventude em Marcha". São ritmos diferentes, maneiras diversas de se olhar para Ventura. É também um filme ainda mais misterioso. Ventura, hospitalizado, à beira da morte, revisita sua vida em uma espécie de delírio, e fantasmagoria elíptica e fugidia. Vemos hospitais, corredores, espaços, espaços, espaços. Eles são diferentes, embora se pareçam, tenham a mesma força opressora. As cenas escapam tanto ao “presente” quanto ao “passado”, e nos convidam a pensar de outra forma a temporalidade do filme e a natureza de Ventura. Seu corpo é um condutor de hipóteses narrativas, condensações provisórias e cambiantes de múltiplos possíveis. É também um filme mais angustiante. Uma angústia permeia tudo, cada plano, os enquadramentos, o jogo de luz e sombra, o corpo de Ventura. A noite reina soberana. A sombra apropriou-se da luz. Talvez seja pior que isso: a luz absorveu a sombra. o que vemos é um brilho enganoso, difuso, enevoado, que recobre a paisagem e os personagem e os força a viver sob ameaça, em um universo claustrofóbico. Uma certa impossibilidade governa este filme.
"Cavalo Dinheiro" é certamente uma espécie de exorcismo. Ventura, o assombrado, externaliza seus demônios. Externaliza? Talvez não seja o termo mais apropriado. Esse assombro não é localizável, seja no interior ou no exterior. Uma analogia com a energia atômica talvez seja mais proveitosa. Quer dizer: o filme libera uma certa energia e esta liberação, mais do que um possível exorcismo, nos ameaça a todos.
sexta-feira, outubro 24, 2014
bem vindo a nova york ****
Vi o filme duas vezes. Queria mais. "Bem vindo a Nova York" é um filme imenso. Escrever sobre ele, sobre minha relação com ele, não é algo fácil. É, porém, necessário. Não tem jeito. Eu adio e a necessidade me persegue. Enfim, vamos a alguns breves comentários:
Gerard Depardieu. Um monstro sedutor. Um corpo pesado, atado ao mundo, ou melhor, ao mundano. Uma força da natureza, incontrolável, injustificável, sem origem, destino ou função. Depardieu não nos entregava uma atuação tão acachapante desde os filmes de Maurice Pialat.
Um desconforto moral, característico dos melhores filmes do cineasta americano, se estabelece desde cedo. Devereaux é o que queríamos ser. Ou não? Rico. Bem-sucedido. Um hotel estrelado. Poder. Belas mulheres. Aventuras sexuais. Sabemos o que ele fez. Veremos o que ele fez - e Ferrara encena a sequencia do abuso à distância, sem conduzir o nosso olhar, sem recorrer à trilha ou à decupagem. Ferrara nos diz: trata-se de um ato sem maiores justificativas ou explicações e absolutamente interligado ao que vimos antes e julgá-lo é julgar a nós mesmos. Não é toa que seremos interpelados diversas vezes ao longo do filme. Somos o contracampo. Somos cínicos. Hipócritas. Somos culpados.
Gosto muitos das discussões entre Devereaux e Simone. O excesso dos personagens transborda, invade a narrativa, contamina o filme (sempre mais interessado em blocos de ação do que em um certo equilíbrio ou elegância formal) com uma fisicalidade inultrapassável, e alcança o espectador em cheio.
É incrível como vez ou outras alguns breves enxertos (em geral no fim de uma sequência) realçam as cenas anteriores. É o caso do close do rapaz negro no tribunal que será julgado logo após Devereaux. O enxerto se liga diretamente ao que vemos e ouvimos nos planos anteriores, ao teatro do advogados, promotores e juiz, à indiferença do protagonista. Algo contudo escapa a esta associação, nos faz pensar, nos leva a lugares desconhecidos. A imagem como uma abertura.
Gerard Depardieu. Um monstro sedutor. Um corpo pesado, atado ao mundo, ou melhor, ao mundano. Uma força da natureza, incontrolável, injustificável, sem origem, destino ou função. Depardieu não nos entregava uma atuação tão acachapante desde os filmes de Maurice Pialat.
Um desconforto moral, característico dos melhores filmes do cineasta americano, se estabelece desde cedo. Devereaux é o que queríamos ser. Ou não? Rico. Bem-sucedido. Um hotel estrelado. Poder. Belas mulheres. Aventuras sexuais. Sabemos o que ele fez. Veremos o que ele fez - e Ferrara encena a sequencia do abuso à distância, sem conduzir o nosso olhar, sem recorrer à trilha ou à decupagem. Ferrara nos diz: trata-se de um ato sem maiores justificativas ou explicações e absolutamente interligado ao que vimos antes e julgá-lo é julgar a nós mesmos. Não é toa que seremos interpelados diversas vezes ao longo do filme. Somos o contracampo. Somos cínicos. Hipócritas. Somos culpados.
Gosto muitos das discussões entre Devereaux e Simone. O excesso dos personagens transborda, invade a narrativa, contamina o filme (sempre mais interessado em blocos de ação do que em um certo equilíbrio ou elegância formal) com uma fisicalidade inultrapassável, e alcança o espectador em cheio.
É incrível como vez ou outras alguns breves enxertos (em geral no fim de uma sequência) realçam as cenas anteriores. É o caso do close do rapaz negro no tribunal que será julgado logo após Devereaux. O enxerto se liga diretamente ao que vemos e ouvimos nos planos anteriores, ao teatro do advogados, promotores e juiz, à indiferença do protagonista. Algo contudo escapa a esta associação, nos faz pensar, nos leva a lugares desconhecidos. A imagem como uma abertura.
terça-feira, outubro 21, 2014
terça-feira, outubro 14, 2014
sábado, outubro 11, 2014
links
Alguns Links:
Atualização no (In) Transition
Uma relação bacana com vários ensaios audiovisuais
Ótima atualização da Senses of Cinema!
Kent Jones sobre Hou Hsaio-Hsien
Peter Labuza sobre "Ninfomaníaca"
Nicole Benez entrevista Eric e Marc Hurtado
Francis Vogner dos Reis sobre "Bem Vindo a Nova York"
Filipe Furtado sobre "Cavalo Dinheiro"
E, abaixo, trailer do novo Michael Man!
E do Paul Thomas Anderson!
Atualização no (In) Transition
Uma relação bacana com vários ensaios audiovisuais
Ótima atualização da Senses of Cinema!
Kent Jones sobre Hou Hsaio-Hsien
Peter Labuza sobre "Ninfomaníaca"
Nicole Benez entrevista Eric e Marc Hurtado
Francis Vogner dos Reis sobre "Bem Vindo a Nova York"
Filipe Furtado sobre "Cavalo Dinheiro"
E, abaixo, trailer do novo Michael Man!
E do Paul Thomas Anderson!
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