“Bróder” é um filme diferente. Estamos mais uma vez na periferia de São Paulo, acompanhando personagens às voltas em situações desfavoráveis. Mas o olhar de Jefferson De é inegavelmente mais próximo do mundo representado. Ele não é um observador distante, mas um olhar mais solidário com as experiências vividas. É um filme por vezes esquemático, mas bem sincero nesse esquematismo. A periferia é, por exemplo, sempre nervosa e explosiva, seja em uma briga entre amigos, seja em um passeio de carro. O que realmente me incomoda em “Bróder” é que essa solidariedade de Jefferson De se transforma muitas em militância por um certo tipo de olhar. Não sei se consigo explicar essa impressão. Vou tentar o filme novamente e depois retomo onde parei.
Duas mostras. A primeira começou, na verdade, na semana passada: "20 x Pornochanchada", na Caixa Cultural. Vejam a programação da segunda e última semana da mostra:
Terça feira 17/05 15h Embalos Alucinantes (José Miziara, 1979) 17h A Super Fêmea (Aníbal Massaini Neto, 1973) 19h Bate-papo com o ilustrador e cartazista Benício
Quarta feira 18/05 15h O Olho Mágico do Amor (José Antônio Garcia e Ícaro Martins, 1982) 17h Ainda Agarro Essa Vizinha (Pedro Carlos Rovai, 1974) 19h Giselle (Vitor di Mello, 1980)
Quinta feira 19/05 15h Escola Penal de Meninas Violentadas (Antonio Meliande, 1977) 17h Soninha Toda Pura (Aurélio Teixeira, 1971) 19h Damas do Prazer (Antonio Meliande, 1978)
Sábado 21/05 15h O Inseto do Amor (Fauzi Mansur, 1980) 17h Snuff – Vítimas do Prazer (Claudio Cunha, 1977) 19h Sábado Alucinante (Claudio Cunha, 1979)
Domingo 22/05 15h Possuídas pelo Pecado (Jean Garret, 1976) 17h Convite ao Prazer (Walter Hugo Khouri, 1980) 19h Sessão de Encerramento: A Ilha dos Prazeres Proibidos (Carlos Reichenbach, 1978)
E a retrospectiva completa da japonesa Naomi Kawase começa amanhã no CCBB. Vejam a programação aqui.
Começa amanhã no CCBB a mostra "Odete Lara: Atriz de Cinema". Vejam a programação abaixo:
Dia 10 de maio | terça-feira 14h00 | Absolutamente Certo (95 min) 16h00 | Moral em Concordata (95 min) 18h00 | Copacabana me Engana (93 min) 20h00 | A Estrela Sobe (105 min)
Dia 11 de maio | quarta-feira 14h00 | Bonitinha, mas Ordinária (101 min) 16h00 | O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (95 min) 18h00 | As Sete Faces de um Cafajeste (90 min) 20h00 | A Rainha Diaba (100 min)
Dia 12 de maio | quinta-feira 14h00 | Em Família (100 min) 16h00 | Câncer (86 min) 18h00 | O Princípio do Prazer (90 min) 20h00 | Retratos Brasileiros: Odete Lara (30 min), seguido de bate-papo com convidados
Dia 13 de maio | sexta-feira 15h00 | O Gato de Madame (90 min) 17h00 | Um Filme 100% Brazileiro (83 min) 19h00 | Boca de Ouro (103 min) 21h00 | Copacabana me Engana (93 min)
Dia 14 de maio | sábado 18h30 | Noite Vazia (93 min) 20h10 | Retratos Brasileiros: Odete Lara (30 min) + Câncer (86 min)
Dia 15 de maio | domingo 18h00 | A Estrela Sobe (105 min) 20h00 | Sábado a Noite, Cinema (103 min)
"Amor?” é um filme autodestrutivo. Atores famosos recontam depoimentos sobre histórias de amor que o filme insiste em nos dizer que são verdadeiros. A voz do diretor, suas perguntas, nem sempre são, no entanto, ouvidas, o que me parece já de saída meio estranho. Seguem-se angulações inusitadas de uma mesma entrevista, seqüências intermináveis em super 8, cenas abstratas de sexo e nudez, e “Carinhoso” em versão Sax. Em determinada história, duas atrizes se revezam nos mesmos papéis. Diante disso, faço minha a pergunta feita pelo Fábio de Andrade lá na “Cinética”: o que ganha o filme com a encenação? Nada. Muito pelo contrário: a encenação de João Jardim, muito pouco verdadeira, tende a me afastar das histórias.
Vez ou outra surgem legendas na tela para nos lembrar que determinado gesto ou acontecimento (um celular que toca) realmente aconteceu. Por que isso? Pra mim, essa legenda, muito pelo contrário, nos distancia de uma suposta veracidade daquilo que nos é mostrado. Eu fiquei pensando em Bazin. Pois foi ele quem disse que o realismo no cinema se baseava, não em um entendimento físico da realidade, mas em uma noção psicológica. Quer dizer: o realismo não tem a ver com a acuidade da reprodução, mas com a crença do espectador na origem da reprodução. Para Bazin, a matéria-prima do cinema não é a própria realidade e sim a impressão da realidade deixada na película. Qualquer filme cujo objetivo seja realista, no sentido de colocar a imagem em íntima relação com seu objeto, deve permitir ao evento dramatizado desvendar-se por sua própria conta e assim sinalizar-nos que a imagem que estamos vendo está geneticamente ligada ao evento filmado. “Amor?” nos interdita isto.
"Continuamos a opor termo por termo a encenação (ficção, reconstituição) ao direto (documentação feito ao vivo). Aos excessos de uma encenação fetiche, herdada da cinefilia dos gêneros hollywoodianos, continuamos a opor os méritos do direto, do espontâneo, do vivido, do natural – tudo o que se tornou possível pelo progresso da técnica e que culmina com o “cinema-verdade” dos anos 1960. Essa oposição é um truque. Falando em termos políticos, mesmo “politistas”, é preciso dizer que a burguesia não tem apenas o monopólio das imagens filmadas da realidade, ela tem – prioritariamente para qualquer filme – o monopólio da encenação dessa realidade. Uma cidade, uma sala de cinema, uma clínica são já encenação. Existe de antemão um modo de usar o tempo e o espaço que eles circunscrevem, percursos obrigatórios, os limites e as proibições. Em última análise, é esse modo de utilização que é político (no sentido em que reforça um poder). Quando um cineasta filma esse espaço “ ao vivo” ou o “naturaliza” em uma ficção, n”ao o deixa livre, no entanto, dessa primeira encenação, tanto mais forte porque permanece despercebida, porque existe antes da encenação e, muitas vezes a condiciona. O contrário de uma encenação, não é o direto selvagem, mas uma outra encenação. O contrário do direto não é uma encenação, mas um outro direto. Diverso porque implica uma nova percepção, uma nova posição (espacial, moral, política) do filmador diante daquilo que filma" ("A rampa", pág. 74).
Gosto muito de “O mundo”, de Jia Zhang-ke. “O mundo” é, na verdade, o nome do parque temático onde trabalham os personagens do filme. Nele, pode-se visitar imitações reduzidas de monumentos como a Torre Eiffel, as pirâmides do Egito, o Big Ben, a torre de Pisa, etc. É bem curioso como o parque trabalha seus slogans: “veja o mundo sem precisar sair de Pequim” ou “nos dê um dia e lhe mostraremos o mundo”. Os personagens (que trabalham neste lugar, jamais conheceram os monumentos originais, e parecem viajar apenas através das mensagens de celular) atravessam o parque em uma espécie de trem. Eles mesmos dizem estar indo para a França ou voltando do Japão. A viagem leva apenas 15 minutos. Zhang-ke faz uma releitura toda particular dos road-movies. Mas que mundo é esse? Denílson Lopes responde:
“O mundo no filme não é o alvo de uma crítica social simplista, simplesmente o lado não-mostrado pelo caráter ascético, monumental e pasteurizado dos monumentos transformado em cenário e imagem. Sem ser a apoteose festiva do mundo do simulacro encenada numa Las Vegas repleta de neon em plena comemoração de 4 de julho por Coppola em “O Fundo do Coração” (1982); o parque é também uma possibilidade de uma vida melhor para os seus empregados, é espaço de encontro e de sociabilidade, uma paisagem transcultural bem particular, em que as imagens midiáticas do mundo ganham três dimensões e viram lugares por onde se caminha, trabalha e habita. A ênfase longe do tom aventuresco de Wim Wenders muda para o dia a dia, o dinheiro contado, economizado, os pequenos problemas amorosos e familiares, nada de muito épico ou grandioso, nem nos fatos nem nos personagens. O tom é melancólico, em modo menor, mas ainda há uma aposta, no fim do filme, quando supostamente o casal protagonista, formado pela dançarina Tao (Tao Zhao) e pelo vigia Taisheng (Taisheng Chen),_morre devido a um vazamento de gás enquanto estava dormindo”.
E, na Caixa Cultural, começa amanhã uma mostra com filmes de Rogério Sganzerla. Mas, cuidado: alguns filmes serão exibidos em DVD. Abaixo, segue a programação:
26 de abril, terça-feira, às 18h30, salas 1 e 2
O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm - 92 min – PB, Classificação 16 anos) Após a exibição do filme, haverá coquetel de abertura
27 de abril, quarta-feira
Sala 1, 17h30
ABISMU (1977). (de Rogério Sganzerla, Ficção e documentário – 80 min – COR . 35mm, Classificação 14 anos)
Sala 1, 19h
TUDO É BRASIL (1998). (de Rogério Sganzerla, Documentário – 35mm – 82 min – COR/ PB, Classificação Livre)
28 de abril, quinta-feira
Sala 1, 17h30
NEM TUDO É VERDADE (1985). (De Rogério Sganzerla, Ficção – 35 mm – 95 min – COR/ PB, Classificação 12 anos)
Sala 2, 19h
SEM ESSA, ARANHA (1970). (de Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16mm) - 96 min – COR. Classificação 16 anos)
29 de abril, sexta-feira
Sala 2, 17h30
HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (COMICS) (1969). (de Rogério Sganzerla & Álvaro de Moya – em DVD (versão original em 35mm) - 7 min- COR/PB, Classificação Livre)
HORROR PALACE HOTEL (1978). (de Jairo Ferreira - Codireção e montagem: Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD(versão original em Super 8) – 50 min – COR, Classificação Livre)
Sala 1, 19h
BELAIR. (de Noa Bressane e Bruno Safadi, Documentário – 35mm – 80min – COR, Classificação Livre)
30 de abril, sábado
Sala 2, 17h30
DOCUMENTÁRIO (1966). (de Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16 mm) – 11 min – PB, Classificação Livre)
ELOGIO DA LUZ (de Joel Pizzini e Paloma Rocha, Vídeo COR/PB 54 min. 2003, Classificação Livre)
Sala 1, 19h
PERIGO NEGRO (1992). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm – 27 min – COR, Classificação Livre)
ISTO É NOEL ROSA (1990). (Documentário – 35mm – 43 min – COR. Classificação Livre).
1 de maio, domingo
Sala 1, 17h30
A MULHER DE TODOS (1969). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm - 87 min – PB, Classificação 12 anos)
Sala 1, 19h - Debate
3 de maio, terça-feira
Sala 2, 17h30
A MISS E O DINOSSAURO - Bastidores da Belair 2005. (de Helena Ignez, Documentário – em DVD (versão original em Super 8) – 17 minutos – cor, Classificação 16 anos)
A REINVENÇÃO DA RUA (de Helena Ignez, Documentário, digital, 27 minutos, Montagem Rogério Sganzerla. Classificação Livre)
B2 (de Rogério Sganzerla e Sylvio Renoldi, Ficção – em DVD (versão original em 35 mm) – 11 minutos – PB, Classificação Livre)
BRASIL (1981). (De Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 35mm) – 12 min – COR, Classificação Livre)
Sala 1, 19h
ABISMU (1977). (De Rogério Sganzerla, Ficção e documentário – 80 min – COR, 35mm, Classificação 14 anos)
4 de maio, quarta-feira
Sala 1, 17:30
O SIGNO DO CAOS (2003). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm – 80 min – PB/COR, Classificação 12 anos)
Sala 1, 19h00
O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (1968). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm - 92 min – PB, Classificação 16 anos)
5 de maio, quinta-feira
Sala 1, 17h30
COPACABANA MON AMOUR (1970). (De Rogério Sganzerla, Ficção – Exibição em 35mm – 85 min – COR, Classificação 16 anos)
Sala 1, 19h00
NEM TUDO É VERDADE (1985). (De Rogério Sganzerla, Ficção – 35 mm – 95 min – COR/ PB, Classificação Livre)
6 de maio, sexta-feira
Sala 1, 17h30
ABISMU (1977). (de Rogério Sganzerla, Ficção e documentário – 80 min – COR, 35mm, Classificação 14 anos)
Sala 2, 19h00
HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (COMICS) (1969). (de Rogério Sganzerla & Álvaro de Moya – em DVD (versão original em 35mm) – 7 min- COR/PB, Classificação Livre)
HORROR PALACE HOTEL (1978). (De Jairo Ferreira. Codireção e montagem: Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em Super 8) – 50 min – COR, Classificação Livre)
DOCUMENTÁRIO (1966). (De Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16 mm) – 11 min – PB, Classificação Livre)
7 de maio, sábado
Sala 2, 17h30
LINGUAGEM DE ORSON WELLES (1990). (de Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 35mm) – 22 min – COR/PB, Classificação Livre)
O PETRÓLEO NASCEU NA BAHIA (1981). (de Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 16mm) – 9min - PB, Classificação Livre)
VIAGEM E DESCRIÇÃO DO RIO GUANABARA POR OCASIÃO DA FRANÇA ANTÁRTICA (VILLEGAIGNON) (1976). (de Rogério Sganzerla, Documentário – em DVD (versão original em 16mm) – 17 min – COR, Classificação Livre)
ANÔNIMO E INCOMUM – (Vídeo, 1990, Ficção – 13 min – COR – vídeo, Classificação Livre)
INFORMAÇÃO: H. J. KOELLREUTER (2003, Documentário – 18 min – COR, Classificação Livre)
Sala 2, 19h
SEM ESSA, ARANHA (1970). (de Rogério Sganzerla, Ficção – em DVD (versão original em 16mm) – 96 min – COR, Classificação 16 anos)
8 de maio, domingo
Sala 1, 17h30
TUDO É BRASIL (1998). (de Rogério Sganzerla, Documentário – 35mm – 82 min – COR/ PB, Classificação Livre)
Sala 1, 19h
O SIGNO DO CAOS (2003). (de Rogério Sganzerla, Ficção – 35mm – 80 min – PB/COR, Classificação 12 anos)
- Um texto bem legal lá no blog do Cezar Migliorin, para se pensar o capitalismo contemporâneo.
- Uma entrevista bem bacana com o Inácio Araújo publicada no "O povo" e no blog de Camila Vieira.
- Esta terça começa no CCBB a mostra "Cinema brasileiro, anos 2000, 10 questões", com a curadoria do Eduardo Valente, Cléber Eduardo e João Luiz Vieira. Neste link, dá pra ver a programação e os textos do catálogo.
Estou cursando uma disciplina na UFF ministrada pela Mariana Baltar. Lemos por lá os dois primeiros capítulos deste livro, “Cultura excitada”, de Christoph Turcke. Eu não o conhecia e confesso não ter gostado muito. Fiquei bastante incomodado com algumas passagens. O Turcke, ao contrário, por exemplo, de Adorno, admite que a indústria cultural é simplesmente inevitável. Mas ele admite isso não sem algum ressentimento. Ele vem de uma herança teórica que costuma atribuir à industria cultural e aos mídia o poder de auto-reificação do homem, tornando-o um simples objeto a serviço da máquina capitalista.
Acho complicado discordar que vivemos em uma sociedade excitada, mergulhada num excitamento contínuo – embora eu não saiba se o efeito desse excitamento possa ser realmente comparado ao das drogas, como parece fazer o Turck. Agora, me incomoda a maneira como ele chega a esse diagnóstico. Porque tantas citações e analogias bíblicas?! Ele estaria comparando esse apego ao excitamento ao fervor religioso? Ou seria uma maneira de dar mais peso ao que ele diz? Para Mariana, esse diálogo teológico diz respeito à própria formação do autor e à tentativa de “atualizar - frente a mudança de paradigma da sensação diagnosticada por ele (essa parte que me interessa mais) - a linha de reflexão de Berkeley (lembre-se, ele um bispo anglicano)”.
O primeiro capítulo traça um panorama de determinados fenômenos de sensação, identificando suas raízes, sua extensão, sua influência. Acho a parte sobre o jornalismo um tanto infeliz. Imprensa quer dizer muitas coisas, comporta uma variedade enorme de discursos e modelos. Não dá para colocar no mesmo saco as coberturas da Segunda Grande Guerra, da Guerra do Vietnam, e das Guerras do Golfo. Por mais que Turck tenha coisas pertinentes a dizer (“Não é mais suficiente que os acontecimentos sejam por si só explosivos, confeccionados de forma chamativa, ou que tenham as manchetes gritadas como nas edições extras de outrora; o meio audiovisual necessita mobilizar todas as forças específicas de sue gênero e ministrar a notícia com toa a violência de uma injeção multissensorial”), ele o faz não sem algumas simplificações.
O segundo capítulo faz uma espécie de histórico dos significados do conceito de sensação da Renascença até a Revolução Francesa. Esse histórico, para o Turck, seria uma maneira de constatar a gradativa constituição de uma sociedade da excitação. O que é estranho é que Turck começa em Aristóteles, passa por Locke e termina em Berkeley. É como se não tivéssemos nenhuma alternativa não dualista, que não hierarquizasse em níveis de importância o intelecto e os sentidos. Turcke pergunta algo que, segundo ele, “ainda não foi respondido a contento: o que ocorreria se os homens fossem tão essencialmente seres sentitivos, de maneira que todas as suas idéias e conceitos a respeito do verdadeiro, do bem, do belo e do divino não fossem senão sensações, ou seja, correspondessem a meras excitações nervosas?” Eu acho que essa pergunta não faz nenhum sentido.
Nas entrelinhas, Turck parece insistir na necessidade de se confrontar essa “cultura excitada”. Eu não entendo bem porque. O cinema contemporâneo (Claire Denis, Pedro Costa, Apichatpong, Abel Ferarra entre outros) que mais gosto, por exemplo, abdica das narrativas totalizantes e aposta no menor. Mas não se trata de fazer oposição a um estado de coisas midiático. O desejo não é pelo contraplano, pelo antagonismo. È um cinema que assumem sua marginalidade, aceita o exílio no interior das práticas cinematográficas majoritárias. Um cinema menor diria Deleuze.
Vi “Caché” diversas vezes. Não sei se gosto do filme. Alguns filmes me deixam assim, como se essa não fosse uma questão. O cinema de Michael Haneke pode ser visto como um discurso sobre uma classe-média à beira da dissolução, como um diagnóstico das feridas a arranharem uma idéia humanista de Europa. Sempre disposto a caminhar entre uma premissa um tanto moralizante e uma prática cinematográfica marcada por um certo sadismo para com seus personagens e espectadores, Haneke, como bem disse Cléber Eduardo, é uma espécie de “Dr. Mabuse do cinema contemporâneo”. E, em “Caché”, o seu projeto cinematográfico atinge o ápice de manipulação. Acho, inclusive, que a origem dos vídeos anônimos – que aparentemente funcionam como o gancho narrativo da trama do longa e se misturam sem nenhuma diferença de textura em relação aos outros tipos de imagem que compõem a história – deve ser levada a sério. De qualquer maneira, o que me chamou atenção dessa vez foi a convivência de europeus e argelinos em “Caché”.
É curioso: mesmo nos sendo apresentado como um sujeito dissimulado, mesmo sendo suspeito de ser o autor das fitas anônimas, há todo um processo de vitimização do personagem argelino, enquanto Georges, o francês, o protagonista, é acusado de todos os males do filme. Neste sentido, parece curiosamente haver uma certa nostalgia pelo retorno a uma política bem definida de oposições, em que, teoricamente, se podia distinguir com maior clareza os “mocinhos” dos “bandidos”. E por fim, fica curiosamente a suspeita de um narcisismo europeu às avessas - “Caché”, então, se aproximaria estranhamente de uma cada vez mais vasta produção hollywoodiana empenhada em “compreender” o problema da África (“Diamante de sangue”, “O senhor das armas”, “Jardineiro fiel”, entre outros). Haneke parece situar a Europa como fonte de todos os males sociais do mundo. Uma perspectiva que não deixa de ser eurocêntrica.
- Hoje tem cineclube da Cinética lá no IMS: Ás 18h, Diabo a Quatro (1933), de Leo McCarey, e, às 19h30, "Um Convidado bem Trapalhão" (1968), de Blake Edwards.
- Começou na Caixa Cultural uma retrospectiva com os filmes do cubano Tomás Gutiérrez Alea. Abaixo, segue a programação:
Um texto meu publicado na E-Compos. Basta clicar aqui. Abaixo o resumo:
Este ensaio nasce de uma constatação: o cinema contemporâneo está marcado por uma espécie de nova transnacional. Um cinema que se acha intimamente ligado a uma mudança de olhar lançado ao corpo. O corpo como reflexo, como metáfora, como lugar experimental de representação. A nossa hipótese é a de que a fenomenologia de Merleau-Ponty nos fornece valiosos instrumentos para ampliarmos a reflexão sobre um cinema que explora uma relação corporal com o mundo. O nosso objetivo é discutir essas questões em breves análises de três cineastas contemporâneos: Tsai Ming-Liang, A. Weerasethakul e Karim Ainouz.
Esta dupla amplia a questão levantada no post abaixo. Duchamp e Pollock partem de princípios e caminhos diferentes para chegarem ao mesmo lugar. Vejam as imagens abaixo. A primeira é um urinol masculino. A segunda mais parece o desenho despretensioso de uma criança. São obras que escapam ao “saber fazer”. A partir de “A Fonte”, não faz mais sentido pensar “o que é a arte?” ou “como fazer arte?”. Ao afirmar aquilo como arte, Duchamp implodiu esses dilemas por dentro. Pollock segue nesse legado de superação da arte, tentando escapar do controle, sem cair no total descontrole, e alcançando um paroxismo no domínio da técnica pouquíssimas vezes igualado.
Eu tenho ouvido bastante Arvo Part e Ramones. Estranha combinação, não é? Pois estive pensado sobre o compositor estoniano e a banda americana e cheguei a curiosa conclusão de que ambos tem efeitos semelhantes sobre mim, embora por caminhos completamente diferentes. Ouçam as duas músicas abaixo. Ambas me contaminam com uma sensação de liberdade... São tão aparentemente simples...“Fur Alina” é piano e silêncios. “Blitzkrieg Bop” é punk de cartilha, fácil, rápido e contagiante. Qualquer um poderia fazer essas músicas. Qualquer um. E isso é tão bonito, ou, pelo menos, carrega consigo tantas inauditas possibilidades. O curioso é que esse efeito do “qualquer um” é alcançado por Ramones e Part através de caminhos opostos. O primeiro se afirma numa suposta precariedade de seus recursos, na simplicidade crua de sua melodia. O segundo chega àquele “minimalismo” por meio de um domínio obsessivo da técnica; cada silêncio, o tom das notas, tudo foi milimétricamente calculado.
A Cinemateca do MAM abriga a mostra "Amor à francesa", com filmes de Rohmer, Godard, Truffaut, Bresson, Renoir, Chabrol, Jacques Demy, Max Ophuls, Olivier Assayas... Eu não perderia estes três em especial: "Minha noite com ela" (1969), de Eric Rohmer, "Lola Montès" (1955), de Max Ophuls, e "Um dia no campo" (1936), de Jean Renoir. Vejam a programação aqui.
Eu gostei de “Passe livre”. Há tempos não ria tanto no cinema. O filme segue os passos de “Antes Só do que Mal Casado”, que já apontava uma espécie de retorno, das comédias agridoces mais recentes (como “Amor em jogo”) para uma comédia mais chula e grosseira (porém carinhosa) como a de “Quem Vai Ficar com Mary?”. “Passe livre” é claro, direto e agressivo. É bobo? Claro que é bobo. E qual é o problema? Não entendo as críticas (a do “Globo”, por exemplo) que usam esta “baboseira” como critério de análise. Um filme não pode ser ruim por ser bobo. Esta “baboseira” diz respeito ao que os personagens falam e às situações narradas, e isso é apenas uma informação, um dado, um ponto de partida para alguma coisa, uma análise, uma interpretação, etc. Escrever que um filme é bobo e ridículo não basta, não diz muito. E os Farrelly não filmam com um distanciamento cínico. Se seus personagens são infantis e bobos, para pô-los em movimento na telona, é preciso mergulhar nesse universo da baboseira.
O que eu acho ainda mais estranho são as acusações de moralismo (como faz a crítica da “Folha de São Paulo”). Ricky fica com a esposa por livre, genuína e espontânea vontade (e ainda revela para ela que nunca transou com outra mulher) – fiquei pensado que existe hoje não só uma patrulha do “politicamente correto”, como também uma galera que não consegue aceitar um casamento duradouro e feliz ou a crença inabalável em Deus... Logo depois, Fred revela tudo o que fez enquanto esteve livre para não ter que ir a um show com a esposa. E como se não bastasse, para deixar bem claro que o filme não defende ou ataca a monogamia, não possui mensagem e tampouco uma espécie de aprendizado para a classe masculina, ao ver a felicidade dos casais protagonistas, a esposa do personagem de Stephen Merchan pergunta ao marido se ela deveria dar a ele um passe livre. Ele então se imagina transando com uma mulher oriental. O marido dela chega. Ele mata o marido e a mulher. Mata também o vizinho que o viu enterrando os corpos. A polícia chega. Ele é preso e acaba sendo estuprado na prisão. Stephen Merchan se dá então por si e diz: “Sim. Podemos tentar”. Na mente doentia do personagem, os assassinatos e o estupro na prisão valiam a pena. Ele não aprendeu nada com a história dos amigos. E os Farrelly continuam profundamente conscientes de seus objetivos.
- Lumen, uma nova revista online sobre cinema. Bem legal.
- Jacques Rancière e Pedro Costa estiveram juntos em uma mesa redonda sobre arte. Jacob Wren estava presente, fez anotações e as postou em seu blog, "A radical cut in the texture of reality".
- Nesta sexta, às 10h, no auditório do PPGCOM da UFF, Marion Schmid dará uma palestra sobre Chantal Akerman. O sugestivo título da apresentação é: “The Archaeology of Suffering: Chantal Akerman's Documentary Trilogy”.
“Cópia fiel” nos conta a história do encontro entre um homem e uma mulher numa pequena aldeia no Sul da Itália. O inglês James (William Shimell) é um conhecido filósofo da arte que vai até Lucignano, na Toscana, para apresentar o seu mais recente livro sobre o valor artístico da cópia/réplica. A francesa Elle (Juliette Binoche) é uma simpática galerista que vive na Itália com o seu filho pré-adolescente. O filme começa com uma longa palestra de James. Em resumo, o que ele defende em seu livro é o seguinte: há verdade na relação que se estabelece entre o espectador e a cópia – algo como um lema para o próprio filme, embora Kiarostami recheie a cena com outras pequenas ações para nos roubar a atenção (o filho dela que entra e sai, o celular, etc.). Pouco depois, os personagens resolvem passear pela pequena vila da Toscana. Eles falam sobre arte, filhos, vida, trabalho. Os diálogos, no entanto, vêem aparentemente cheios de segundas intenções, como se James e Elle estivessem em uma estranha espécie de jogo.
A encenação, as cores, os atores, a narrativa, tudo soa diferente em relação ao que Kiarostami vinha fazendo. Será mesmo? Logo de cara, é possível identificar algumas de suas preferências, como as conversas dentro do carro, a paisagem de pequenas estradas, a maneira como elementos ou objetos à margem dos protagonistas são capazes de alterar a cena. E eis que, em determinado momento, James e Elle se sentam em um pequeno café. Algo se passa ali. Kiarostami muda as regras do jogo. Os personagens não são mais tão claros. A encenação muda de tom. Kiarostami procurava a autenticidade da cena, frontalmente, na aparência. Era já palpável um certo espírito de encenação, a auto-consciência dos personagens/atores e o rigor do cineasta. As cenas eram transparentes como cenas. Agora, no entanto, Kiarostami acrescenta mais uma camada e vem nos dizer que, embora tenhamos apenas as aparências, elas enganam. James e Elle são casados? Talvez o filme comece como um flashback – sem recorrer às mudanças de roupas e espaços. Talvez sejam mesmo histórias sobre casais que se assemelham bastante. “Cópia fiel” é a história de dois casais em um. A história de múltiplos casais.
O que impressiona é como essa torção narrativa se mostra plausível, como uma evolução natural do homem e da mulher que vimos no início do filme. Isso se deve em grande parte ao fato de que, para Kiarostami, a realidade não é unicamente aquilo que se passa diante de nossos olhos, mas o que poderia se passar. Dessa maneira, a partir do momento em que alguém vê os dois personagens como um casal, assim que essa realidade se torna possível, James e Elle podem muito bem ser um casal. Pois é. Kiarostami é Kiarostami. Um cineasta empenhado em bagunçar a maneira que nós vemos o mundo. Um cineasta do artifício sem perder a ternura. Para ele, a imagem não visa o engano, não se trata de uma farsa do real, apenas algo recheado de opacidade.
Hoje tem Cineclube da Cinética lá no IMS. Às 17h será exibido "Um Assunto de Mulheres" (1988), de Claude Chabrol, e às 19h é a vez de "Desejo Humano" (1954), de Fritz Lang.
“Bruna Surfistinha” quer agradar todo mundo. Este talvez seja o seu maior problema. É um filme cheio de receios, com uma cega disposição para o consenso. Ora, estamos falando de um longa sobre uma menina tímida de classe média que sai da casa dos pais, vira garota de programa, alcança uma certa fama, chega à overdose com cocaína, para, pouco depois, largar o mundo da prostituição. Uma sinopse recheada de temas polêmicos, controversos, etc. Anos atrás seria complicado fazer um blockbuster como este. Não é a toa que a maioria das pessoas que conheço parece surpresa com a nudez de Débora Secco. Esperava-se um filme, digamos, mais tímido, comedido, careta, conservador. Mas “Bruna Surfistinha” é tudo isso aí, atualizado para os nossos tempos. É um filme que não quer colocar o dedo na ferida, não deseja criar conflito ou abrir-se a discordâncias. Os elementos supostamente mais “corajosos”, como, por exemplo, a nudez da protagonista, são tão sublinhados como tais que passam a não sê-lo. A nudez da protagonista é tão funcional, tão maquiavélicamente marquetada... E não é nenhum pouco sexy.
“Vengeance” (2009) é um filme incrível. Johnny To é quase arrogante de tão bom. O cara prepara aos poucos a seqüência, nos alerta que algo grandioso se aproxima, sempre em altíssimos tons. Em alguns momentos, eu confesso que quase desdenhei da inabalável auto-confiança deste filme. Mas Johnny To sempre cumpre suas promessas. E hoje ninguém filma tiroteios como ele. Ninguém. Vejam aí o trailer abaixo.
Este filme de 68, estréia de Maurice Pialat, é incrível. Acho-o tão bom quanto “Aos nossos amores” (1983) e “Van Gogh” (1991). Eu jamais passo incólume por um filme de Pialat, sempre tão apaixonado e corajoso, sempre tão violento em sua opacidade. Não conheço nenhum outro longa sobre a infância como este, nada de psicologismos, estudos sociológicos ou sonhos nostálgicos de uma liberdade perdida. A infância de François, como nos alerta o título do filme, nos chega nua, sem nenhuma idéia mestra que a direcione a cada movimento para um determinado adjetivo, julgamento ou moral da história. Pialat é um cineasta da ação, única e exclusivamente. “L’enfance nue” é um filme substantivo.
O que constitui uma cena? Onde ela começa? Onde ela termina? De que maneira ela se conjuga com o que passou e com o que está por vir? “L’enfance nue” é ficção e é documentário. É cenário e é paisagem. É personagem e é ator. E tudo isso é de uma absoluta clareza, o que me traga para dentro do filme como uma longa seqüência de momentos preciosos. Pialat possui um enorme respeito, esbanja uma enorme solidariedade por aquilo que ele filma. E assim, um barman vendendo um pacote de cigarros se transforma em um espetáculo. A impressão é a de que Piatat pedia aos atores/personagens que repetissem o que normalmente fazem e inseria elementos ficcionais (os cantos no casamento, o simpático casal de velinhos contando sua história para os meninos, etc), mas com os olhos sempre abertos para as faíscas que essa comunhão pudesse gerar (como a inesperada troca de beijos entre François e Pépère). Seria, no entanto, perda de tempo apontar estratégias, identificar procedimentos. Por isso o cinema de Pialat é tão contemporâneo. É inútil procurar ali uma maneira de se fazer cinema, uma receita, um modelo. Não é como fazer, mas como ser cinema.
Leiam esta resposta de Pialat:
Quanto de seus filmes é planejado antes da filmagem? Quanto é improviso?
Este é um tema delicado. Veja o exemplo de Godard: seus filmes parecem todos milimetricamente pensados e calculados. O que estou querendo dizer é (e isto acontece comigo também), ele filma enquanto diz: “Ok... muito bem, a esquina, isso, muito bom. Não há porque ir além disso...” – é real, mas ainda assim se trata de uma escolha. Eu estou falando de direção, mas é mesma coisa quando escrevemos. “Improvisação” – isso não significa nada pra mim. O que você tem na sua cabeça, ainda não formulado, é muito mais preciso do que você pode imaginar.
- começou sexta uma mostra bem bacana com os diários de David Perlov lá no IMS. É muito bom. Vejam aqui.
- descobri este jogo, Objetos Famosos de Filmes Clássicos, no blog do Calil. A coisa é realmente viciante. O jogo te mostra a silhueta de um objeto e você tem que adivinhar em que filme ele aparece.
- revi dias atrás "Crônica de Anna Magdalena Bach" (1968), de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Uma obra-prima, definitivamente, destas que, de maneira apaixonada, acreditam no cinema como algo ainda a ser construído, abarrotado de infindáveis possibilidades. Vejam o filme e leiam este belíssimo texto de Tag Gallagher. Leiam este parágrafo:
"Even in Europe, many (but not all!) of the Straubs’ champions talk about isms in their movies more than individuals, non-figurative design more than portraiture, theory more than storybook lyricism, “Bresson-like” impersonableness more than commedia dell’arte, anti-conventionality more than renewed roots in Western tradition, radical posturing more than troubled existentialism, Marxism more than Jesuit sensibility of each moment as sacramental, minimalism romanticism, calculation more than volcanic emotion".
“O quimono escarlarte” (1959) é um filme surpreendente, do tamanho do mundo. Como pode um filme nos dar tanto? Um filme policial. Um filme de amor. Um filme sobre aparências, sobre máscaras. Um filme sobre preconceito. Um filme sobre o vazio de certos códigos. Um filme movido por paixões, as mais variadas paixões. É Samuel Fuller!
"Quando chegar o momento de escolher o elenco, eu ficaria muito grato se pudesse conversar com você. Eu melhorei bastante em todos os sentidos desde quando fiz aquele teste. E acho que as qualidades que você procura serão mais facilmente encontradas em uma entrevista pessoal".
Detalhe: CLint não ficou com o papel. Quem estrelou "The Spirit of St. Louis" (1957) foi James Stewart.
Dá pra encontrar outras cartas sensacionais com esta neste site.
Revi “Yi Yi” (2000) pela segunda vez ontem. E não tenho receios em dizer que se trata de uma obra-prima. É um belo filme. Edward Yang é um cineasta enorme, ainda desconhecido. Desta vez, o que me deixou mais impressionado é a estratégia de sobreposições (uma característica marcante do cinema de Yang) que costura o filme. O choro da mãe vem colado a imagens noturnas de Taipei. O pai relembra o passado amoroso enquanto sua filha explora o abismo do primeiro amor. A primeira vez em que o menino se sente atraído sexualmente por uma menina vem entrecortada por imagens de um documentário sobre a origem da vida. A sobreposição se dá por vezes num mesmo plano. Yang é um cineasta do plano, da mise-en-scène. É tudo de uma precisão impressionante. O primeiro plano e o fundo, as ações, primárias e secundárias, a iluminação, os raros movimentos de câmera. A precisão de Yang é talvez acima de tudo narrativa.
No mais, lembro sempre de uma observação feita por Kent Jones: “‘Yi Yi’ é como aquelas tomadas vazias de Ozu, mas com pessoas”. Os conflitos emocionais são raramente discutidos ao longo do filme. Os personagens estão muito confusos, cansados ou irritados para arriscarem um diálogo. Eles estão todos aparentemente confinados aos seus planos, aos tempos e espaços, a Taipei. Mas acredito que seria uma preguiça danada voltar à questão da incomunicabilidade. Não se trata disto. A família de “Yi Yi” é uma família unida, apesar dos pesares. É possível identificar certas características desta família perpassando todos os seus integrantes. Os tão debatidos “problemas” da pós-modernidade estão todos por lá: a impessoalidade dos espaços, a fragmentação do tempo, a carência de laços sociais mais bem delimitados, e a incomunicabilidade. Mas o que Yang nos oferece é um retrato sem diagnósticos, mais pragmático, de como os personagens respondem a esta nova realidade.
Amanhã tem Cineclube Cinética lá no IMS com uma dupla da pesada. Às 17h15 passa "O dinheiro" (1983), de Robert Bresson; e às 19h é a vez de "Gente da Sicília" (1999), de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. É só clicar nos títulos para ler mais sobre os filmes.
"Cisne negro" é hiperativo. "Cisne negro" é obsessivo. "Cisne negro" é desesperado. "Cisne negro" é uma receita. "Cisne negro" é apelativo. "Cisne negro" é uma chantagem. "Cisne negro" é kitsch. "Cisne negro" é petulante. "Cisne negro" é o óbvio ululante. "Cisne negro" é cego. "Cisne negro" é um tubo de ensaio. "Cisne negro" é uma mentira. "Cisne negro" não termina. "Cisne negro" é chato pra caralho! Porra!
Apichatpong Weerasethakul me agrada bastante. Ver um filme dele é tornar-se parte de um mundo movediço. É fazer parte de um movimento de recuperação de uma dimensão pré-lógica ou pré-predicativa da experiência e de sua ambigüidade e indeterminação (embora isso jamais se torne propriamente uma questão para os filmes). O mundo descrito em "Tio Boomee", como em todos os longas de Weerasethakul (com a estranha exceção de "The adventures of Iron Pussy"), é, antes de mais nada, um mundo físico, em seus interstícios, em seu movimento microscópico e permanente, que se confunde, se identifica com o aspecto sensorial dos personagens, corpos que interagem com a paisagem, com os corpos da natureza, animados ou inanimados. É um cinema de abstrações, sem perder a emoção. O cineasta joga os corpos para dentro da natureza, empreende um movimento centrípeto e puxa tudo para dentro da paisagem e da geografia movediça. O sensorial acaba transformando a narrativa e a natureza numa coisa só.
Embora essa seja uma marca de seu cinema, o desenho de som jamais foi tão importante, carregado de vida e sentidos quanto em "Tio Boomee". Esta é uma história sobre reencarnações e transmigrações. E é o som que nos torna conscientes das vidas que cercam os personagens, o farfalhar das folhas, os mosquitos, os pássaros, etc. Weerasethakul vem nos dizer mais uma vez que o problema ontológico é aquele ao qual se subordinam todos os outros e por isso mesmo a ontologia não pode ser um teísmo, um naturalismo ou um humanismo.
Ainda assim, "Tio Boomee" talvez seja mesmo o filme de Weerasethakul que eu gosto menos. A beleza de seu cinema é tão particular que, para aqueles que já o conhecem, a primeira longa seqüência de "Tio Boomee" não será exatamente uma revelação, mas talvez um movimento de assinatura. O exotismo é logo ali, é verdade, mas não é o que vejo no filme. Gosto muito também da seqüência da caverna. Por várias razões. É como se os personagens estivessem voltando no tempo sem sair do presente. Os desenhos rupestres são como assinaturas (reconhecidas em cartório) de um mundo no tempo. Pouco depois, a pequena "piscina" onde vivem peixinhos na escuridão completa nos abre os olhos para espaços em que jamais imaginávamos ter vida. E em meio a tudo isso, Boomee está morrendo.
Esta cena aí é incrível! Claire Denis é incrível! “US GO home” é incrível! Gregoire Colin é incrível! O Kinks é incrível! É uma seqüência tão absurdamente simples, porém algo tão alienígena. Penso bastante na questão do plano seqüência. Porque essa opção pelo plano longo se faz em termos diferentes daqueles usados no cinema moderno. Embora passe por isso, a idéia não é exatamente a de que a duração do plano deva coincidir com a duração do evento. Não se trata somente de respeitar a “ambigüidade ontológica da realidade”, como dizia Bazin. Há algo diferente aqui.
Um texto meu publicado na Revista Fronteiras. Basta clicar aqui. Abaixo o resumo:
O objetivo deste artigo é observar como o cinema enquadra o Holocausto, problematizando uma discussão cada vez mais freqüente da banalização do Holocausto no cinema: a banalidade do mal multiplicada pelo mal da banalidade. Analisamos três filmes recentes (O Leitor, Operação Valquíria, e A queda!) e a obra Shoah (1985), para pensar sobre a memória e a responsabilidade que ela encerra: lembrar para que não se repita, sem permitir que essa lembrança se torne um produto. Nesse sentido, nos aproximamos de Walter Benjamin e de seus conceitos de rememoração e história. Por fim, tratamos do longa A questão humana, um filme diferente sobre o nazismo.
A sinopse de “Malu de Bicicleta” nos passa a idéia de uma comédia romântica como muitas, é verdade. Mas Tambellini é um realizador diferente. Não há aqui aquele desejo desesperado por uma certa originalidade. Tambellini não quer o grande filme. Muito pelo contrário. Seu cinema segue com uma atenção incomum às locações. Tambellini é um cronista urbano atento. Em “Malu”, ele passeia por São Paulo e pelo Rio, e as cidades definem de certa maneira os personagens (a despojada e solar Malu e o moderno e algo soturno Luiz).
“Malu” não tem um compromisso com a unidade narrativa. É um filme aberto, que se faz na soma, na sucessão de seqüências. Tambellini faz um cinema um tanto alheio às convenções narrativas rigorosas. Assim como em “O passageiro”, há um desejo explícito de falar com uma geração mais nova, algo curiosamente demarcado pela presença de Tambellini em ambos os filmes (numa como o pai de uma das meninas e agora como um advogado que já morreu). Trata-se mesmo de um cineasta bem particular e corajoso, sem receio de buscar angulações inusitadas, durações estranhas, uma trilha diferente (mais uma vez assinado por Dado Villa-Lobos, o mesmo de “O passageiro”). Suas (muitas) imperfeições são suas e de mais ninguém. Em seus melhores momentos, “Malu” nos seduz com uma atenção mais detida nos detalhes, nos olhares, que fazem a história seguir adiante com um sabor diferente do usual. Tambellini dirige um retrato de dentro, mantendo distância dos julgamentos sobre os personagens, mas sem inocentá-los pelos erros que cometem.
Sem dúvida nenhuma, “Malu” é um filme sobre neurose, mas sempre mantém uma pegada suave. Talvez seja essa a crítica mais pertinente a ser feita a respeito deste longa. Tambellini conduz uma trama de ciúmes à lá “Capitu” (Machado de Assis), porém de maneira limpa e aparentemente imutável. O cineasta possui talvez um comedimento, um receio em usar cores mais fortes. “Malu” fica entre a comédia, o romance e o drama. Quando Luiz começa a desconfiar de Malu, o filme não parece acompanhá-lo e assume então um tom mais, digamos, “frio”. Em seus piores momentos “Malu” parece não acreditar nos problemas vividos por seus personagens.
O CCBB abriga a partir de hoje uma mostra com filmes de Louc Moullet, um cineasta bem particular, ainda na ativa, e um dos maiores críticos que passaram pela "Cahiers du Cinéma". Vejam a programação abaixo:
1/02 terça-feira
18H30 OBRA-PRIMA? (13´) – Luc Moullet / JEAN-LUC SEGUNDO LUC (7´) – Luc Moullet O HOMEM DA RAVINA (55´) – Gerard Courant Classificação indicativa: 14 anos
20H BRIGITTE E BRIGITTE (75´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
2/02 quarta-feira
16H30 FOIX (13´) – Luc Moullet AS POLTRONAS DO CINE ALCAZAR (52´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
18H30 SEM TÍTULO (4´) – Luc Moullet OS MINUTOS DE UM FAZEDOR DE FILMES (13´) – Luc Moullet MINHA PRIMEIRA BRAÇADA (43´) – Luc Moullet TENTATIVA DE ABERTURA (15´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H UMA AVENTURA DE BILLY THE KID (77´) – Luc Moullet Classificação indicativa:14 anos
3/02 quinta-feira
18H30 OS NÁUFRAGOS DA D17 (81´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
4/02 sexta-feira
16H30 OS NÁUFRAGOS DA D17 (81´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
18H30 UMA AVENTURA DE BILLY THE KID (77´) – Luc Moullet Classificação indicativa:14 anos
20H SEM TÍTULO (4´) – Luc Moullet OS MINUTOS DE UM FAZEDOR DE FILMES (13´) – Luc Moullet MINHA PRIMEIRA BRAÇADA (43´) – Luc Moullet TENTATIVA DE ABERTURA (15´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
5/02 sábado
17H A ODISSÉIA DO 16/9 (11´) – Luc Moullet LA SEPT SEGUNDO JEAN E LUC (13´) – Luc Moullet O FANTASMA DE LONGSTAFF (20´) – Luc Moullet A VALSA DA MÍDIA (27´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H GÊNESE DE UM REFEIÇÃO (117´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
6/02 domingo
17H UMA AVENTURA DE BILLY THE KID (77´) – Luc Moullet Classificação indicativa:14 anos
20H BRIGITTE E BRIGITTE (75´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
8/02 terça-feira
18H30 TERRAS NEGRAS (19´) – Luc Moullet O LITRO DE LEITE (13´) – Luc Moullet ALGUMAS GOTAS A MAIS (6´) – Luc Moullet UM BIFE PASSADO DO PONTO (19´) – Luc Moullet CAPITO? (8´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H GÊNESE DE UM REFEIÇÃO (117´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
9/02 quarta-feira
18H30 BRIGITTE E BRIGITTE (75´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H OBRA-PRIMA? (13´) – Luc Moullet JEAN-LUC SEGUNDO LUC (7´) – Luc Moullet O HOMEM DA RAVINA (55´) – Gerard Courant Classificação indicativa: 14 anos
10/02 quinta-feira
18H30 A TERRA DA LOUCURA (85´) –Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H00 TERRAS NEGRAS (19´) – Luc Moullet O LITRO DE LEITE (13´) – Luc Moullet ALGUMAS GOTAS A MAIS (6´) – Luc Moullet UM BIFE PASSADO DO PONTO (19´) – Luc Moullet CAPITO? (8´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
11/02 sexta-feira
16H30 AERROPORRRTO DE ORRRRLY (6´) – Luc Moullet EQUILÍBRIO E CEGUEIRA (5´) – Luc Moullet TODOS NÓS SOMOS BARATAS (10´) – Luc Moullet CADA VEZ MENOS (13´) – Luc Moullet CADA VEZ MAIS (24´) – Luc Moullet O IMPÉRIO DO TOTÓ (13´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
18H30 OBRA-PRIMA? (13´) – Luc Moullet JEAN-LUC SEGUNDO LUC (7´) – Luc Moullet O HOMEM DA RAVINA (55´) – Gerard Courant Classificação indicativa: 14 anos
20H A ODISSÉIA DO 16/9 (11´) – Luc Moullet LA SEPT SEGUNDO JEAN E LUC (13´) – Luc Moullet O FANTASMA DE LONGSTAFF (20´) – Luc Moullet A VALSA DA MÍDIA (27´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
12/02 sábado
20H ENCONTRO DE LUC MOULLET COM O PÚBLICO, seguido de exibição de: VONTADE INDÔMITA (114´) – King Vidor Classificação indicativa: 14 anos
13/02 domingo
19H30 A TERRA DA LOUCURA (85´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
15/02 terça-feira
18H30 ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H INTRODUÇÃO (8´) – Luc Moullet O COMPLÔ DOS OURIÇOS (17´) – Luc Moullet CATRACAS (14´) – Luc Moullet IMPHY, CAPITAL DA FRANÇA (24´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
16/02 quarta-feira
18H30 INTRODUÇÃO (8´) – Luc Moullet O COMPLÔ DOS OURIÇOS (17´) – Luc Moullet CATRACAS (14´) – Luc Moullet IMPHY, CAPITAL DA FRANÇA (24´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H AERROPORRRTO DE ORRRRLY (6´) – Luc Moullet EQUILÍBRIO E CEGUEIRA (5´) – Luc Moullet TODOS NÓS SOMOS BARATAS (10´) – Luc Moullet CADA VEZ MENOS (13´) – Luc Moullet CADA VEZ MAIS (24´) – Luc Moullet O IMPÉRIO DO TOTÓ (13´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
17/02 quinta-feira
16H30 ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
18H30 AS CONTRABANDISTAS (80´) – Luc Moullet Classificação indicative: 14 anos
20H PRESTÍGIO DA MORTE (75´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
18/02 sexta-feira
16h30 PRESTÍGIO DA MORTE (75´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
18H30 A COMÉDIA DO TRABALHO (88´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H PARPAILLON (84´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
19/02 sábado
16h30 PARPAILLON (84´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
18H30 ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (82´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H OS HAVRES (12´) – Luc Moullet O VENTRE DA AMÉRICA (25´) – Luc Moullet O SISTEMA ZSYGMONDY (18´) – Luc Moullet NO CAMPO DA HONRA (15´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20/02 domingo
16H30 A COMÉDIA DO TRABALHO (88´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
20H AS CONTRABANDISTAS (80´) – Luc Moullet Classificação indicativa: 14 anos
Estava indo e voltando pelos canais da Net e deparei-me uma vez mais com “Letra e música” (2007), de Marc Lawrence. O filme é fraco, rasteiro, previsível, mas é difícil não ser por ele seduzido. É Hugh Grant, sempre ele. É irresistível vê-lo na pele de um ex-astro dos anos 80: o carisma, o timing, os gestos corporais, os olhares. Grant atingiu a maestria, vivendo sempre o mesmo papel. A impressão é a de que todo este talento precisava ser “adotado” por um cineasta, algo que quase todos os grandes comediantes tiveram. Vejam vocês, abaixo.
Vi alguns dos filmes de Kiyoshi Kurosawa no CCBB e andei revendo um ou outro aqui em casa. Kurosawa é um baita cineasta. Um cineasta do espaço, do cálculo, de composições milimétricas, de quebras de eixo. Seus longos planos (estáticos ou então com elegantes movimentos laterais) parecem na maioria das vezes entrecortados por planos menores, mais curtos, porém aparentemente funcionais, com informações importantes para a trama seguir adiante. E o emprego do plano longo não significa uma entrega ao acaso, mas, ao contrário, uma aposta na mise-en-scène. Uma mise-en-scène que respira o rigor geométrico dos espaços. Isso tudo é muito curioso. O olhar de Kurosawa é intermitente. O que se produz é uma certa distância, uma idéia de intervalo, um olhar sempre na incerteza, uma percepção fragmentada. Os filmes de Kurosawa se fazem numa espécie de batimento, numa sucessão irregular de planos, de ausências e fixações, de criação de ambientes e desorientação espacial. É um cinema da opacidade, que, oferecido como um mistério ao espectador, nos deixa por vezes com a sensação fugidia de um brilho do real.
Kurosawa é sempre associado ao gênero do terror, o que não deixa de ser correto, embora todos os seus filmes tenham uma vibração, digamos, mais realista e estejam mais para reflexões sobre os anseios e as náuseas do Japão contemporâneo. Os protagonistas de Kurosawa são gente como a gente. Algo, no entanto, acontece, seja por acaso ou por razões não identificadas. Os personagens são paulatinamente mergulhados num universo asfixiante e estranho, porém realista. Em “Cure” (1997), personagens comuns matam sem causa. Em “Doppelganger” (2003), o protagonista esbarra com o seu duplo. Em “Pulse” (2001), as pessoas começam a desaparecer. Tudo filmado com uma enorme sobriedade. E o que é mais interessante é fato dessas estranhezas, do terror, do inusitado, dos fantasmas, serem, na verdade, uma forma de se atribuir responsabilidade aos personagens. É, por exemplo, o que se passa em “Vítimas de uma alucinação” (2006), em que os protagonistas são cobrados pelo modo como reagem ao que vêem.
No mais, a água viva, nome de um dos melhores filmes de Kurosawa, serve como uma espécie de símbolo deste cinema, fascinante, porém mortal, como um canto de sereia que nos leva encantados para o fundo do mar.
Gostei muito de “Além da vida”. Como é bom sair do cinema depois de um filme como este. Clint Eastwood. Dá pra contar com o cara. Sempre. É tudo de uma simplicidade, de uma objetividade... Eastwood vai sempre direto ao ponto. A aparência de “Além da vida” é tão unificada e limpa, seu impulso e discurso são tão certeiros, que o filme é exatamente o que ele é. Entendem? Não há espaço para segundas intenções, interpretações estapafúrdias. Não há mensagem ou um projeto.
Em seus filmes mais recentes, a trama sempre vem de um trauma específico (ao contrário dos longas dos anos 90, quando os protagonistas vinham direto das trevas para colocar os pingos nos is). Em “Além da vida”, no entanto, é até um pouco escorregadio falar em trama. Qual é a trama deste filme? Eastwood a reduziu a um jogo entre uma certa idéia de destino (trágico, para os personagem em questão)e uma variedade incontável de sentimentos inomináveis e possibilidades de ação. É esse jogo que move o filme, que o leva adiante. Uma trama feita de barreiras emocionais e personagens (sob muita responsabilidade por suas vidas) relutantes em enfrentá-las.
Tudo isso é devidamente materializado. Tudo isso é para Eastwood uma questão de cinema. Os planos são então vazios, contaminados sempre por uma sensação desoladora. O que vemos do “outro mundo” o qual o personagem de Matt Damon tem acesso são apenas vultos. O que dá sentido a eles é somente aquilo que o personagem diz, numa espécie estranha de terceira pessoa indireta. E mesmo para ele, tudo é muito nebuloso. Eastwood é claro sem ser clarividente. As perguntas permanecem sem respostas. O que muda, talvez, seja a opção que os três protagonistas assumem para si mesmos: tomar as rédeas de suas vidas, amadurecer e seguir em frente. “Além da vida” é um filme sobre os vivos.