segunda-feira, setembro 03, 2012

o ditador **


Dessa vez, Sacha Baron Cohen vive o General Almirante Aladeen, chefe supremo da nação norte-africana Wadiya. Ele é anti-semita, racista, machista... Aladeen é o ator e o atleta mais premiado da nação. Um de seus games preferidos se chama “Olimpíadas de Munich”. Ele mantém relações sexuais (pagas com muito dinheiro) não só com Megan Fox, mas também, a julgar pela sua parede de Polaroids pós-coito, Arnold Schwarzengger e Oprah. Por lei, seu sobrenome deve ser usado no lugar de palavras comuns, como "sim" e "não", o que contribui para uma considerável confusão na vida de seus súditos. Aladeen está ansioso para construir uma bomba e vem dando trabalho às inspeções da ONU.

“O ditador” é um filme um pouco desequilibrado em sua montagem. Os acontecimentos são ora apressados, ora alongados por vezes de maneira demasiada (se bem que, em alguns momentos, esse alongamento é justamente o que produz graça). Ainda assim, como “Borat” e mesmo “Bruno”, este novo filme também revela um trabalho eficiente de roteiro, de criação de personagens e encadeamento da trama, e o humor de Cohen parece ainda mais afiado.

“O ditador” está a todo o momento testando os limites da comédia, da tolerância do espectador. Cena a cena, somos confrontados e rimos das piadas mais agressivas e de mau-gosto possíveis. Para ficar em alguns exemplos, Aladeen faz graça de 11 de setembro, pede a um refugiado africano um exército de crianças para as doze horas do dia seguinte, e conta uma longa história envolvendo abusos sexuais a menores. Piadas sublinhadas como piadas, desferidas sempre em um tom de avacalhação geral, como forma de ridicularizar certos segmentos sociais e políticos – o discurso final de Aladeen sobre democracia na ONU é prova disto. Em mais uma atuação impecável, Cohen da cara à tapa e nos oferece uma representação caricatural de um ditador islâmico. Cohen e o diretor Larry Charles se fazem dessa imagem simplificadora do que vem a ser um ditador islâmico como uma espécie de estratégia, revelando a imbecilidade de certos códigos, comportamentos e crenças que pontuam o nosso dia-a-dia.

sexta-feira, agosto 31, 2012

the man from london ****



Os 12 primeiros minutos de “The man from London” (2007) compõem um dos planos sequências mais incríveis que eu já vi. O movimento começa nos revelando a proa de um grande navio, seguindo por belas e misteriosas imagens de um porto, subindo ao céu, confundindo nossa relação com os espaços e os espaços, abrindo espaço, criando espaço, até terminar no ponto de partida da trama deste filme: um estivador solitário testemunha um crime e acaba com uma maleta recheada de dinheiro. São famosos os movimentos de câmera de Bela Tarr. Nestes 12 mins, por exemplo, a câmera consegue estar dentro e fora ao mesmo tempo, ser simultaneamente uma coreografia complexa, um ponto de vista e um exercício do olhar. O filme é realmente sobre uma maneira de olhar as coisas, de explorar o espaço de maneiras inesperadas, meditando sobre as qualidades da luz e da superfície dos objetos. Eu me lembrei de um termo formidável inventado pelo Merleau-Ponty que me parece bem apropriado: voluminosidade! Bela Tarr faz pouco caso da tradicional divisão entre formalistas e realistas, entre os que acreditam na imagem e os que acreditam no real. Pra ele, é todo e uma única coisa. É um certo potencial do cinema que é a todo o momento reafirmado, a cada movimento. Eu entendo que alguns críticos tenham sublinhado um aspecto um tanto “sufocante” em algumas cenas. Bela Tarr estaria buscando um “filme Bela Tarr”. Pra mim, no entanto, que não conheço as obras pregressas do homem, o filme me parece sensacional.

Vejam o plano-sequência abaixo, dividido em dois:



sábado, agosto 25, 2012

pra frente brasil ***


Eu nunca tinha visto “Pra frente Brasil” (1982). Sequer sabia muito bem do que se tratava a história do filme.  E, durante a sessão, estava, confesso, meio atordoado com o que via: a música melosa onipresente, as viradas sempre muito marcadas, as atuações, os diálogos, os planos e contraplanos... A impressão era a de estar vendo uma novela. O que Roberto Farias planejava? Aos poucos, com o desenrolar da história, o gesto do cineasta me veio à cabeça: tornar o material o mais acessível possível! Dizem que algumas histórias precisam ser contadas. Esta era definitivamente uma delas.  “Pra frente Brasil”, contudo, não se afirma somente pelo que conta, mas também por este desejo de se fazer visto e ouvido pelo maior número de pessoas possível. E Roberto Farias vem surpreendendo a cada filme.

quarta-feira, agosto 22, 2012

meek's cutoff ***


Gostei deste filme.  Gosto também dos outros filmes que vi dirigidos pela americana Kelly Reichardt (“Old Joy” e “Wendy and Lucy”). Em todos eles, a experiência central pela qual seus personagens se veem enredados é a de “estar perdidos” (seja existencialmente e ou geograficamente). Reichardt se detém meticulosamente nos detalhes, em torno de temas e desenvolvimentos de difícil definição. Um cinema materialista, concreto, que muito vem sendo chamado de “minimalista”. “Meek’s Cutoff” se passa em 1845, no Oregon. Flagramos uma caravana de colonos atravessando o velho Oeste. O guia deles propõe um atalho. Eles acabam se perdendo e esbarram com um índio. Eu não me lembro de ter visto um índio tão “outro” em um filme americano. Os colonos serão obrigados a confiar nele para encontrar água. “Meek’s Cutoff” é na verdade a história de um crescente sentimento de incerteza. Os dias e as noites são claramente demarcados pela montagem. A passagem do tempo é algo que se vê e se sente, embora seja complicado saber quanto tempo se passou desde que se perderam.  A paisagem é ao mesmo tempo matéria bruta e indiferente, e emoção desesperada e promessa de algo a mais. Essa ambiguidade é muito bem explorada pelo filme, sempre entre os perigos visíveis e iminentes e a necessidade de confiar no desconhecido.  

domingo, agosto 19, 2012

toda donzela tem um pai que é uma fera ***

Fazia um certo tempo que eu não me divertia tanto no cinema. "Toda donzela tem um pai que é uma fera" (1966) é um filme incrível, a começar pelo título. John Herbert como o libertino xiita Porfírio é algo do outro mundo. Não fazemos mais filmes como este. Por que será? Um trecho:

terça-feira, agosto 14, 2012

la morte rouge ****


Eu acabo de ver “La morte rouge”, o curta que Victor Erice fez para a instalação “Correspondências” (um diálogo entre ele e Abbas Kiarostami). O próprio Erice narra em off (na terceira pessoa) sua primeira experiência no cinema, em 1946. Sua irmã mais velha o levara para ver “The Scarlet Claw”, um filme B de detetive, que estava passando no Gran Kursaal, em San Sebastian, na Espanha. Uma experiência fundamental. Uma revelação e uma experiência de terror. La Morte Rouge é o nome da cidade canadense em que se passa a história filme. Erice descobriria anos depois que aquela era uma cidade fictícia. Uma cidade que só existia no cinema. Essa é a primeira linha desse filme, uma celebração do fascínio pelo universo cinematográfico que contamina, se espraia e perdura em nossa memória. A aventura de Erice ainda se transforma em um ensaio autobiográfico, uma exploração sobre os efeitos do fascismo e um devaneio metafísico sobre o que persiste em nossas memórias. Erice se lembra do filme de propaganda franquista que antecedia ao longa. Nele, um homem bem-vestido dava dinheiro para crianças e mulheres pobres.  Erice se pergunta como uma criança distingue quem é bom e quem é mau em um filme.  Em “The Scarlet Claw”, um personagem inócuo, o carteiro Potts, será desmascarado como o assassino da trama. A monstruosidade vem em muitas formas – uma ideia presente nos primeiros filmes do cineasta. Erice teria medo de carteiros por um bom tempo – e sua irmã sempre o provocava dizendo que o carteiro estava vindo. Um belíssimo filme. 

quinta-feira, agosto 09, 2012

roberto farias no ccbb

Começou esta semana uma mostra no CCBB com filmes de Roberto Farias, uma das figuras mais importantes da história do cinema brasileiro. Vejam a programação:


9 de agosto – quinta-feira

14h – Curso: aula 2: "Comédia e drama em equilíbrio: a busca por um cinema popular"

16h – Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1987)
Dir.: Roberto Farias 96 min, 35mm, Livre

18h – Cidade ameaçada (1960)
Dir.: Roberto Farias 105 min, 35mm, 12 anos

20h – DEBATE – "Roberto Farias: autoria e gênero". Mediação de João Luiz Vieira com a presença de Flávia Seligman e Rafael de Luna

10 de agosto – sexta-feira

14h – Curso: aula 3: "A crença na possibilidade de uma indústria cinematográfica
brasileira: estratégias, experiências, impasses e saídas".

16h – Os machões (1972)
Dir.: Reginaldo Faria 96 min, 35mm, 14 anos

18h – O assalto ao trem pagador (1962)
Dir.: Roberto Farias 103 min, 35mm, 12 anos

20h – Toda donzela tem um pai que é uma fera (1966)
Dir.: Roberto Farias 107 min, 35mm, Livre

11 de agosto – sábado

16h – Roberto Carlos a 300 km por hora (1971)
Dir.: Roberto Farias 99 min, 35mm, Livre

18h – Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968)
Dir.: Roberto Farias 97 min, 35mm, Livre

20h – Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa (1968)
Dir.: Roberto Farias 94 min, 35mm, Livre

12 de agosto – domingo
16h – Aviso aos navegantes (1950)
Dir.: Watson Macedo 113 min, 35mm, Livre

18h – Selva trágica (1964)
Dir.: Roberto Farias 101 min, Betacam, 14 anos

20h – Um candango na Belacap (1961)
Dir.: Roberto Farias 100 min, Betacam, Livre

14 de agosto – terça-feira


15h – Os paqueras (1969)
Dir.: Reginaldo Faria 102 min, Betacam, 16 anos

17h – É fogo na roupa (1952)
Dir.: Watson Macedo 88 min, 35mm, Livre

19h – Cidade ameaçada (1960)
Dir.: Roberto Farias 105 min, 35mm, 12 anos

15 de agosto – quarta-feira

15h – Aventuras com tio Maneco (1971)
Dir.: Flávio Migliaccio 90 min, Betacam, Livre

17h – Rico ri à toa (1957)
Dir.: Roberto Farias 110 min, 35mm, 14 anos

19h – Com licença eu vou à luta (1986)
Dir.: Lui Farias 84 min, 35mm, 14 anos

16 de agosto – quinta-feira

15h – Toda donzela tem um pai que é uma fera (1966)
Dir.: Roberto Farias 107 min, 35mm, Livre

17h – O assalto ao trem pagador (1962)
Dir.: Roberto Farias 103 min, 35mm, 12 anos

19h – DEBATE: "Roberto Farias: mercado e política". Mediação de Tunico Amancio com a presença de Luiz Gonzaga de Luca e Lia Bahia.

17 de agosto – sexta-feira

15h – Quem tem medo de lobisomem (1974)
Dir.: Reginaldo Faria 92 min, Betacam, 14 anos

17h – Aguenta coração (1982)
Dir.: Reginaldo Faria 99 min, 35mm, 14 anos

19h – Selva trágica (1964)
Dir.: Roberto Farias 101 min, Betacam, 14 anos

18 de agosto – sábado

16h – Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1987)
Dir.: Roberto Farias 96 min, 35mm, Livre

18h – Rio fantasia (1956)
Dir.: Watson Macedo 115 min, 35mm, Livre

20h – O fabuloso Fittipaldi (1974)
Dir.: Roberto Farias 98 min, 35mm, Livre

19 de agosto – domingo

16h - No mundo da Lua (1958)
Dir.: Roberto Farias 104 min, 35mm, Livre

18h – Toda nudez será castigada (1972)
Dir.: Arnaldo Jabor 103 min, 35mm, 16 anos

20h – O casamento de Romeu e Julieta (2004)
Dir.: Bruno Barreto 93 min, 35mm, 10 anos

21 de agosto – terça-feira

15h – Mar de rosas (1970)
Dir.: Ana Carolina 90 min, DVD, 16 anos

17h – Um candango na Belacap
Dir.: Roberto Farias 100 min, Betacam, Livre

19h – Os paqueras (1969)
Dir.: Reginaldo Faria 102 min, Betacam, 16 anos

22 de agosto – quarta-feira

17h – Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa (1968)
Dir.: Roberto Farias 94 min, 35mm, Livre

19h – Não quero falar sobre isso agora (1990)
Dir.: Mauro Farias 101 min, 35mm, 14 anos

23 de agosto – quinta-feira

15h – Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968)
Dir.: Roberto Farias 97 min, 35mm, Livre

17h – Pra frente Brasil (1982)
Dir.: Roberto Farias 105 min, 35mm, 16 anos

19h – Master class: "Roberto Farias" – mediação de João Luiz Vieira e Tunico Amancio

24 de agosto – sexta-feira

17h – Rio fantasia (1956) 
Dir.: Watson Macedo 115 min, 35mm, Livre

19h – Com licença eu vou à luta (1986)
Dir.: Lui Farias 84 min, 35mm, 14 anos

25 de agosto – sábado

17h – É fogo na roupa (1952)
Dir.: Watson Macedo 88 min, 35mm, Livre

19h – Toda nudez será castigada (1972)
Dir.: Arnaldo Jabor 103 min, 35mm, 16 anos

26 de agosto – domingo

16h – Aguenta coração (1982)
Dir.: Reginaldo Faria 99 min, 35mm, 14 anos

18h – Roberto Carlos a 300 km por hora (1971)
Dir.: Roberto Farias 99 min, 35mm, Livre

20h - Mar de rosas (1970)
Dir.: Ana Carolina 90 min, DVD, 16 anos

domingo, agosto 05, 2012

batman *

Achei este último "Batman" bem chato. E embora a atuação de Heath Ledger no segundo longa da série seja algo do outro mundo, ainda prefiro o primeiro. Este último me enche mesmo a paciência com uma necessidade inexplicável de imprimir profundidade à trama - ao longo da sessão, lembrei-me da objetividade, da frontalidade, da falta de rodeios de "Os mercenários". O segundo longa já sofria disto, sem falar no virtuosismo para impressionáveis do Christopher Nolan. O Batman é um justiceiro. É preciso ter cuidado ao representá-lo. Este terceiro filme leva isto ás últimas. Leiam este texto do Ricardo Calil, publicado na "Folha de São Paulo":

RICARDO CALIL
CRÍTICO DA FOLHA
É difícil imaginar algum fã do Batman criado por Christopher Nolan pedindo o dinheiro do ingresso de volta depois de ver o último episódio de sua trilogia.
"Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge" entrega tudo aquilo que o admirador da série se acostumou a esperar.
Trama complexa, metáforas sobre a condição humana, um protagonista sólido (Christian Bale), um vilão marcante (o Bane de Tom Hardy), duas belas presenças femininas (Anne Hathaway e Marion Cotillard).
Para os que não são fãs incondicionais da série, porém, é possível notar ausências. Aí vai uma pequena lista de coisas que faltam ao filme.
1) Um ponto de vista: O filme assume de vez que Gotham City é Nova York e traz referências explícitas aos atentados de 11 de Setembro e à crise financeira. Mas nunca é possível entender a visão de Nolan sobre essas questões: ele é contra a guerra ao terrorismo e os privilégios dos mais ricos ou é a favor?
A cada cena, o diretor parece querer dizer algo diferente. O que sugere que esses temas foram trazidos ao filme para lhe emprestar uma profundidade que ele não tem.
2) Senso de humor: OK, os quadrinhos demoraram muito tempo para serem reconhecidos como uma forma de arte para adultos. OK, trata de um órfão traumatizado.
Mas precisava ser tão solene e pomposo? São duas horas e 45 minutos com algumas tiradas espirituosas, mas sem brechas para risadas.
3) Fé no poder da imagem: Nolan cria tramas tão intrincadas que os personagens gastam metade de seu tempo em tela tentando explicá-las com diálogos expositivos.
4) Risco: O último episódio da trilogia de Nolan é de uma eficácia acachapante. Falta, porém, a beleza que nasce da imperfeição, como a interpretação desatinada de Heath Ledger como o Coringa no filme anterior.
Da trilogia de Nolan, a imagem que permanecerá é a de Ledger/Coringa perguntando ao Batman (mas sobretudo a seu diretor): "Why so serious?" (Por que tão sério?).

quarta-feira, agosto 01, 2012

everyone else ****


Gostei muito deste filme. “Everyone Else” (2009), segundo longa da alemã Maren Ade, acompanha um jovem casal de férias na Itália. É um filme diferente sobre uma relação amorosa, recheado de rituais estranhos, momentos imbecis e por vezes meio secretos, além de constantes jogos de poder, provas e mais provais, decepções e uma ou outra epifania. É muito curioso como Maren Ade consegue alternar os pontos de vista de Gitti e Chris de maneira tão sutil, quase imperceptível. Quando começamos a achar que entendemos o personagem, quando a identificação se vislumbra no horizonte, o filme nos derruba novamente. Isto é muito bom: somos jogados na intimidade deste casal, mas Gitti e Chris permanecem algo indecifráveis. Eu mesmo não sei o que pensar sobre eles, sobre o papel que cada um representa nessa relação. Embora eu reconheça nessa mistura de naturalismo, psicologia e teatralidade talvez a mola mestra de toda e qualquer relação amorosa. O final do filme é bem legal. Gitti e Chris chegam a um impasse. A impressão é a de que eles precisam se reinventar como casal. “Everyone Else” termina com esta promessa.  

sexta-feira, julho 27, 2012

martha marcy may marlene **


Não gostei muito deste “Martha Marcy May Marlene” (2011), longa de estreia de Sean Durkin muito bem recebido pela crítica internacional. Nele, uma jovem mulher sofre delírios e paranoias ao voltar para a casa da irmã depois de um período vivendo em um estranho culto. As primeiras sequencias já imprimem o tom entre o mistério e a ansiedade que perpassa o filme, além de estabelecer sua base formal: a alternância entre a desorientação silenciosa da vida em família e a loucura sedutora do culto.  O que me incomoda é como esta estrutura e tema (além do cenário) me parecem recorrentes no chamado cinema independente americano, mais um pré-requisito do que matéria-prima, menos uma realidade realmente vivida, do que um cenário e mise-scène já prontas.   Pra mim, “Martha” não diz ao que veio. Ainda assim, devo dizer que John Hawkes é um grande ator, e, por causa dele, na pele do loucamente esclarecido líder do culto, algumas imagens ainda permanecem rondando minhas memórias.

quarta-feira, julho 25, 2012

links

- Uma nova revista online: Laika!

- Texto de Nicole Brenez sobre Renoir.

- Mais um novo texto na Lola, uma conversa sobre os filmes presentes no último festival de Rotterdam.

E Bresson:

domingo, julho 22, 2012

fausto**


“Fausto” é mais uma elegia do cineasta russo Alexander Sokurov, um conto melancólico, uma composição poética e musical consagrada aos tropeços do homem como condutor da história. O filme começa e somos já introduzidos ao universo absolutamente inconfundível do realizador: a recusa ao naturalismo, a força da paisagem na caracterização dos personagens, o talento plástico e de composição do quadro, a dilatação do tempo, as anamorfoses, as lentes deformantes, os variados filtros, o trabalho refinado de uma imagem mais expressionista.

A história do homem que vendeu a alma ao diabo é material farto para Sokurov. A princípio, “Fausto” é uma nova adaptação do celebrado poema de Goethe, sobre o ambicioso Dr. Fausto que, ávido por conhecimento, faz um pacto com o demônio para superar a técnica e o progresso de seu próprio tempo. Na interpretação de Sokurov, no entanto, Fausto (Johannes Zeiler) é absolutamente desprovido de qualquer característica romântica. Ele é cínico e utilitarista, disposto a passar por cima de qualquer um para alcançar seu objetivo. O tratamento dado ao personagem é cômico, beirando o pastelão, com toques escatológicos e diálogos intermináveis. Mefistófeles, conhecido no filme como o agiota (Anton Adasinskiy), diferentemente da maioria de suas incorporações literárias, não é um demônio encantador. Muito pelo contrário. É uma figura desajeitada e um tanto grotesca.

Com “Fausto”, Sokurov fecha sua tetralogia sobre o poder, formada ainda por “Moloch” (1999), sobre Hitler, “Taurus” (2001), sobre Lenin, e “O Sol” (2005), sobre o imperador japonês Hirohito. Dessa vez, estamos diante de um personagem ficcional que, diferente dos tiranos dos filmes anteriores, que se viam como representantes de Deus na Terra e são levados à desagradável constatação de que são apenas humanos, Fausto se transforma em algo “superior” já no fim do longa e sua jornada nos é apenas introduzida. Se os outros personagens eram confrontados com a morte, Fausto sai de quadro para enfim tornar-se o que sempre quis. Hitler, Lênin e Hiroito são enquadrados em um processo de desmistificação que, no caso dos dois primeiros, os retirava mais ou menos do contexto Histórico no qual estavam inseridos. Fausto, por sua vez, é como a história definitiva do Homem com H maiúsculo.

Isto porque os seres humanos no cinema de Sokurov jamais operam somente sob a dimensão do indivíduo. São sempre, sobretudo, reflexos da condição humana ou sintomas de um determinado fluxo histórico. Se para Goeth, Fausto seria a representação do humano em seu sentimento mais profundo de impotência diante da natureza e da inexorabilidade da morte, para o cineasta russo, o desejo insaciável do personagem por conhecimento e poder é como que a fonte de todo o mal do século XX, terreno comum sob qual surgiriam Hitler, Lênin e Hiroito. E se nos filmes anteriores havia uma certa piedade em relação ao humano, dessa vez a palavra mais adequada talvez seja mesmo cinismo. Resta então a Sokurov uma única salvação, uma busca também insaciável por transcendência através do cinema.  

quinta-feira, julho 19, 2012

links

- o MAM do Rio exibe em película alguns filmes do Carlão Reichenbach: “Audácia – a fúria dos desejos”  (dom 22, às 18h), “Bens confiscados” (qui 26, às 18h30), “As libertinas” (sex 27, às 18h30), “Amor, palavra prostituta” (sab 28, às 18h).


- dois textos bem legais na Cinética. Um do guru Hernani Heffner e outro de Andrea Ormond sobre Sérgio Mallandro e Mr. Catra.

- uma entrevista com Apichatpong Weerasethakul.

- nova edição da "La Furia Umana".

- textos novos na "Lola".

- dossiê Maurice Pialat na Interlúdio.

- Inácio Araújo sobre "Na estrada".

terça-feira, julho 17, 2012

bellamy ***


Eu me diverti muito vendo este filme, o último de Claude Chabrol. O cineasta é de uma elegância ímpar. O espaço é seu campo de trabalho. Jamais um personagem se encontra a direita do quadro de maneira indiferente. Muito pelo contrário. “Bellamy” (2009) é uma espécie de suspense psicológico, mais um capítulo da filmografia deste cineasta, um dos maiores caricaturistas da classe média francesa. Nele, Gerard Depardieu vive o Inspetor Paul Bellamy. Em plenas férias, ele é procurado por um homem que se diz responsável pela morte de outro homem. Enquanto isso, Bellamy recebe a vista de seu irmão. Françoise é como seu oposto: inseguro, mau caráter, mal sucedido...

Aos poucos, vemos uma sucessão de duplos não somente do protagonista (seu irmão), como também do homem que o procurou. E o duplo não é visto como um outro, mas como uma espécie de modalidade de sua própria existência. Compreende-se então que, mais importante do que a resolução do caso de assassinato, é reconhecer que Bellamy poderia estar do outro lado desta história, poderia ser ele o assassino. Jean Douchet disse certa vez que a grande questão do cinema de Chabrol é a do ser e ter. O que o personagem quer ter para poder ser? E o problema é que quanto mais ele quer ter, menos ele é. Ao fim, em geral, o personagem é como um monstro, completamente embriagado pelo ter. E consciente disto. Bellamy, contudo, talvez seja diferente. Não sabemos.

quarta-feira, julho 11, 2012

ricky gervais


"I’m not one of those people who think that comedy is your conscience taking a day off. My conscience never takes a day off and I can justify everything I do. There’s no line to be drawn in comedy in the sense that there are things you should never joke about. There’s nothing that you should never joke about, but it depends what that joke is. Comedy comes from a good or a bad place. The subject of a joke isn’t necessarily the target of the joke. You can make jokes about race without any race being the butt of the joke. Racism itself can be the butt, for example. When dealing with a so-called taboo subject, the angst and discomfort of the audience is what’s under the microscope. Our own preconceptions and prejudices are often what are being challenged. I don’t like racist jokes. Not because they are offensive. I don’t like them because they’re not funny. And they’re not funny because they’re not true. They are almost always based on a falsehood somewhere along the way, which ruins the gag for me. Comedy is an intellectual pursuit. Not a platform".

sexta-feira, julho 06, 2012

a febre do rato **


Ainda não me decidi a respeito deste filme. Na verdade, não sei bem se gosto ou não dos filmes de Cláudio Assis. É um cineasta dividido entre a necessidade de denunciar, diagnosticar, representar uma dada realidade, e o desejo de afirmar uma maneira de olhar para essa realidade. E este olhar nunca parece no mesmo nível dos personagens, não se liga aos seus corpos, ao contrário, afirma-se sempre como uma outra instância. Assume-se o aspecto formalista do cinema, e, consequentemente, produz-se distanciamentos. Distanciamentos que vão muitas vezes contra os próprios filmes. É bem verdade que essa busca por uma marca, visível em cada plano, é realizada com um tesão contagiante. E isto me faz ver seus filmes com certa simpatia.

Este “A febre do rato”, contudo, me incomodou bastante. Talvez tenha mesmo a ver com a escolha pelo preto e branco estilizado. Não sei... Eu me senti distante daquele universo. Muito distante. E os personagens deste filme não parecem ter vida própria. Não são gente de carne, osso e desejos. Isto talvez já existisse lá em “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”. Talvez... Acho especialmente estranho não se falar em dinheiro em “A febre do rato”. De que sobrevive o poeta? Não me parece haver muito conflito neste filme. Até que, de repente, Zizo é preso e assassinado. Assis, no entanto, continua com o mesmo tesão, mas é como se o filme não fechasse.  

terça-feira, julho 03, 2012

top30


Como sabem, semana passada, pude ver dois dos meus filmes preferidos (“Imitação da vida” e “O medo devora a alma”). Isto acabou me levando a fazer uma lista com os filmes que mais gosto. Foi difícil chegar a 30, mas eles seguem aí abaixo. Não são necessariamente os que mais importantes ou mesmo melhores.... São, isto sim, os que mais me divertem, os que vi mais vezes... 

Aurora (1927) - F.W. Murnau
A cadela (1931) - Jean Renoir
O diabo a quatro (1933) - Leo McCarey
O Gato Preto (1934) - Edgar G. Ulmer
Stromboli (1950) - Roberto Rossellini
As Férias do Sr. Hulot (1953) - Jacques Tati
Rastros de ódio (1956) - John Ford
Delírio de loucura (1956) - Nicholas Ray
A Marca da Maldade (1958) - Orson Welles
A imitação da vida (1959) - Douglas Sirk
Crônica de um verão (1960) - Jean Renoir e Edgar Morin
Hatari (1962) - Howard Hawks
O leopardo (1963) - Luchino Visconti
O desprezo (1963) – Jean-Luc Godard
Mouchette (1967) / O dinheiro (1983) – Robert Bresson (1967)
Terra em Transe (1967) - Glauber Rocha
Husbands (1970) - John Cassavetes
Nathalie Grander (1972) - Marguerite Duras
O medo devora a alma (1974) - Rainer W. Fassbiner
Apocalypse Now (1979) - Francis Ford Coppola
Aos nossos amores (1982) - Maurice Pialat
Cão branco (1982) - Samuel Fuller
Vídeodrome (1983) - David Cronenberg
Bad lieutenant (1992) - Abel Ferrara
Jovens, loucos e rebeldes (1993) - Richard Linklater
Dead Man (1995) - Jim Jarmusch
Millennium Mambo (2001) - Hou Hsiao-hsien
O Intruso (2004) - Claire Denis
Síndromes e um século (2006) - Apichatpong Weerasethakul
Os donos da noite (2007) - James Gray

domingo, julho 01, 2012

relato sobre o último edital do minc


Pequeno relato de Dácia Ibiapina, em 19/06/2012.

Aceitei participar desta comissão atendendo a um convite da Secretária Ana Paula Santana. Estava fora de Brasília quando recebi o telefonema e aceitei, como dever de ofício, sem saber quem eram os outros integrantes. Posteriormente recebi as instruções: cada integrante deveria ler todos os projetos (253) e indicar apenas 03 para serem discutidos em uma reunião dos cinco membros da comissão.

Não foi solicitado parecer dos membros da comissão para cada um dos projetos. Foi solicitado que pontuássemos com notas de 0 a 10 quatro critérios de seleção conforme abaixo:

1) Excelência criativa

2) Coerência do roteiro ou argumento com a proposta de produção e de direção da obra

3) Originalidade na abordagem e/ou ações de pesquisa do tema

4) Exeqüibilidade orçamentária da obra nos termos do edital.

Com estas notas os técnicos do MinC fizeram a tabulaçã e daí saiu a lista de 12 filmes a serem debatidos na reunião da comissão de seleção. Dos quais 05 foram contemplados e outros 03 ficaram na suplência. O número de 12 filmes e não de 15 é porque algumas indicações coincidiram.

A comissão de seleção foi formada por:

1) Denise Correia da Fontoura – do Rio de Janeiro – trabalha com roteiro, consultoria de roteiro, produção. Foi casada com Antonio Carlos Fontoura.

2) Dácia Ibiapina – DF, documentarista

3) Elisa Tomelli – SP, produtora

4) Selma Cristina Nunes – SP, Diretora de Negócios e conteúdo audiovisual Teleimage/Casablanca

5) Wilson Feitosa – SP, Distribuidor, Diretor Geral da Unifilmes Distribuidora

A reunião estava prevista para acontecer aqui em Brasília, no MinC. Foi transferida de última hora para um hotel no Rio. Ao chegar lá, fiquei conhecendo pessoalmente os colegas de comissão.

Foi uma reunião difícil para mim. Estava duplamente em minoria: única de fora do eixo RJ/SP e única diretora de documentários. O tom do debate sobre os filmes foi pautado no chamado “negócio do cinema”. Quem vai querer ver um filme como esse? Quem vai querer exibir? Quem vai querer distribuir? Quem vai querer comprar? Sobre a questão de contemplar filmes de fora do eixo Rio/SP para descentralizar a produção, fui voto vencido com base em dois argumanetos: 1) o edital não prevê cotas regionais; 2) a maioria esmagadora dos projetos era do Rio ou de São Paulo. Os colegas também insistiram muito na questão dos nomes consagrados como garantia de que os filmes terão qualidade e espaço de exibição. O mesmo aconteceu na comissão do edital de roteiros, que se reuniu no dia anterior. A novidade neste sentido é que alguns projetos gaúchos foram contemplados nos dois editais. Principalmente o pessoal que foi ou é da Casa de Cinema, já consagrados.

Aproveito para lembrar aqui que alguns diretores de fora do eixo Rio/SP concorreram por produtoras do Rio ou de São Paulo. São profissionais que hoje residem e trabalham naquelas cidades; ou ainda diretores que não encontraram produtora em seus estados de origem dispostas a entrar com seu projeto.

Não quero entrar aqui na discussão sobre os filmes contemplados ou não. Não acho ético. Também não pretendo aqui me justificar. Cumpri o edital, li e analisei com atenção todos os 253 projetos, fiz anotações e, ao final, pude indicar apenas 03 projetos para debate. Uma decisão cruel. Passei o mês de maio inteiro fazendo este trabalho. O edital não previa qualquer tipo de cota, seja regional ou para estreante. E este é o motivo pelo qual faço aqui este relato. Acho que esta questão é de interesse coletivo. Não previa também cota regional para a comissão de seleção. Sinto-me desobrigada com relação a questões pessoais, afinal eu também já tive, por inúmeras vezes, projetos e filmes preteridos em editais, bem como em comissões de seleção e júris de festivais e mostras de cinema. Nem por isso fui pedir explicações aos colegas ou pressioná-los. Nestes casos, infelizmente, ser contemplado é a exceção. A regra é não ser contemplado. No caso do edital longa doc a concorrência era de 50 projetos para 01 contemplado.

Porque participar e o que aprendi

Pude ler os projetos e me informar sobre quem está querendo fazer documentários, que tipo de documentários, sobre quais temas, de que forma e com quais objetivos. Para mim que faço documentários e estudo o tema, é importante ter este panorama.
Pude constatar que hoje é difícil pensar sobre o que é e o que não é documentário. A esmagadora maioria dos projetos caberia perfeitamente na categoria documentário para televisão. Dos 253 projetos, 60 eram filmes sobre personalidades. O que me remeteu ao projeto DocTV, que poderia perfeitamente acolher parte dos projetos e estes poderiam ser feitos com até 200 mil reais, em vez de pleitearem neste edital 625 mil reais, sendo 125 mil de contrapartida e 500 mil do edital. A idéia de exigir contrapartida não funcionou a contento. A maioria colocou como contrapartida cachês de pesquisa, roteiro, direção; além de uso sem custo dos equipamentos da produtora. Coloquei esta questão do DocTV para Ana Paula Santana, que passou rapidamente na reunião. Estava a caminho da Rio+20. Ela disse que o DocTV não acabou. Está sendo reformulado porque o “modelo de negócios” se revelou falho. Revelou, para minha surpresa, que nem a TV Brasil, nem a TV Cultura, estão interessadas no DocTV. Disse que ainda este ano o MinC pretende lançar ainda editais de telefilmes e teledocumentários. Que também não sei bem se é o que a gente gostaria. Contra o doctv, alguém argumentou: o pessoal pegava a grana do doctv já pensando em fazer um doc pra cinema e não um doctv, tanto é que muitos doctvs tiveram também versão pra cinema. Depois fiquei pensando: se a Globo pode pegar seus programas e transformar em filme pra cinema, porque os documentaristas não podem fazer o mesmo? São as famosas multiplataformas. Por que não?

Ainda sobre os 253 projetos, observei que tinha vários que foram claramente formatados para outros editais e reformulados para este. Editais como EtnoDoc, Histórias que ficam e, pasmem, para editais de filmes de ficção, que foram transformados em projetos de documentário. Nada contra: apenas um dado que chamou minha atenção. Observei também que tinham muitos “ficcionistas” concorrendo neste edital. Observei também que tinha muitos filmes que permitem à equipe técnica viajar pelo Brasil e por outros países, tipo doc “on the Road”. Havia também muitos projetos de produtores e diretores de televisão. Havia também projetos que já estão em produção.

Dever de casa para nós, em minha modesta opinião

1) Nós, de fora do eixo RJ/SP, precisamos apresentar mais e melhores projetos. Assim, talvez, fique mais fácil fazer frente à quantidade avassaladora de projetos do Rio e de São Paulo. Por outro lado: que estímulo temos se quase nunca somos contemplados?

2) Se acreditamos em descentralização da produção audiovisual, especialmente de cinema para exibição em salas, precisamos voltar a pressionar o MinC por cotas regionais, não só nos editais, mas também nas comissões de seleção.

3) Se acreditamos que uma parte dos recursos públicos deva ser investida em formar mão de obra fora do eixo Rio/SP e em diretores estreantes; temos que voltar a pressionar o MinC para estabelecer cotas para estreantes também. Tudo que conquistamos nesse sentido em gestões anteriores, foi por água abaixo nesta gestão. Observei que o discurso dos colegas do Rio e de São Paulo é: não podemos tirar oportunidade de realização de diretores consagrados para dar para diretores estreantes. Não podemos tirar o emprego de profissionais experientes para dar para gente que está aprendendo a ser profissional. À pergunta: e então, como vamos renovar e democratizar o cinema e o audiovisual brasileiro? Eles respondem: isso é problema do MinC. Ele que vá ensinar esse pessoal a trabalhar. Ensinar a fazer orçamento. Que vá fazer editais com pouca grana para estreantes e que deixe os editais maiores para quem sabe fazer filme. É o mesmo discurso que foi feito pela Associação Nacional de Roteiristas tempos atrás. Com este discurso eles conseguiram retirar a cota de estreante deste último edital de roteiros. O MinC aproveitou para acabar com a política de cotas para estreantes e de cotas regionais em todos os editais. Qual é nossa posição em relação a este tema?

Conclusão pessoal: fiquei desanimada para concorrer nos próximos editais do MinC. Após analisar 253 projetos, só pude indicar para debate 03; em um debate onde 03 colegas eram de SP, uma do Rio e eu de Brasília. Onde 04 eram do chamado “negócio do cinema” e apenas eu diretora de documentários. É uma escolha cruel. As chances de ser contemplado em um edital desses é pequena. É tipo: muita burocracia por nada. Entretanto, a política de editais ainda é, em minha opinião, a mais democrática que temos. Só nos resta seguir tentando.

quinta-feira, junho 28, 2012

e aí, comeu? °


Uma cena de “E aí, comeu?” consegue sintetizar o que me incomoda neste filme. Um personagem leva um manuscrito para o tio, para ser publicado. O tio alerta que a obra tem defeitos. Ele pergunta ao sobrinho se já amou alguém, pois falta vida à relação amorosa dos protagonistas de seu livro. Este me parece ser o mesmo problema de “E aí, comeu?”: um filme um tanto mentiroso. Não era pra ser uma espécie de conversa de bar? Pois fica parecendo que estes caras nunca saíram para beber e falar de mulheres entre amigos. Tudo aquilo ali parece ter saído de outro lugar, do roteiro, muito provavelmente. Não é nem que as piadas sejam ruins. Algumas são até engraçadas. Mas falta algo a elas. Falta verdade. 

terça-feira, junho 26, 2012

links


- uma nova revista de cinema: “Aurora

- nova edição da "Lola" está no ar

- entrevista com o Abel Ferrara na "Contracampo"

quinta-feira, junho 21, 2012

o medo devora a alma *****

Domingo, às 16h, o CCBB exibe outro filme preferido: “O medo devora a alma” (1974), de Rainer W. Fassbiner. O filme conta a história de Emmi, uma viúva de 60 anos que se apaixona por Ali, um imigrante mulçumano muito mais jovem do que ela. Como um filme consegue ser tão simples, tão direto no uso da linguagem cinematográfica? Como consegue tornar crível um encontro tão improvável? Como um filme consegue fazer com que nós nos identifiquemos com os personagens justamente por suas fragilidades, por um sentimento de clausura frente às diversas determinações da vida em sociedade? Como consegue fazer com que a câmera seja sempre um olhar de alguém para um outro, como que enquadrando-o? Como se produz um distanciamento que nos aproxima? Como consegue ser ao mesmo tempo tão denso emocionalmente e tão claro nas idéias? Vejam esta cena:



Alguns dizem que se trata de um cinema um tanto pessimista. Eu tendo a discordar, fervorosamente. O que está em jogo ali é uma espécie de revelação dos mecanismos que ordenam o nosso convívio social. Para o cineasta alemão, essa revelação seria uma maneira de alertar a nós, espectadores, sobre a necessidade de mudarmos nossas vidas. O cinema de Fassbinder é um chamado para a ação. E isto sim é que é ser otimista. Eu lembro de um texto do alemão falando sobre o impacto causado pelos filmes de Douglas Sirk. Fassbinder diz que jamais havia visto personagens femininas pensando no cinema. E isso, vejam só, lhe dava força e esperança.

terça-feira, junho 19, 2012

imitação da vida *****

Este sábado, às 20h, o CCBB exibe um dos meus filmes prediletos: “A imitação da vida” (1959), de Douglas Sirk. Leiam aí abaixo um texto escrito por outro grande, Rainer W. Fassbinder:

“Imitação da Vida” (1959) é o último filme de Douglas Sirk. Um grande, incrível filme sobre a vida e a morte. E urn filme sobre a América. O primeiro plano geral: Annie diz à Lana Turner que Sirah Jane é sua filha. Annie é negra e Sarah Jane é quase branca. Lana Turner, primeiro, hesita, mas logo compreende e age como se fosse a coisa mais natural do mundo uma negra ter uma filha branca. Mas isto não é nada natural. Nem passa a sê-lo ao longo do filme. Sarah Jane não quer ser tida como branca porque é bonito. Mas porque, como branca, pode viver melhor. Lana Turner não faz teatro porque acha belo, mas porque gente de sucesso consegue uma posição melhor nesse mundo. E Annie não deseja ter um enterro pomposo porque teria alguma vantagem nisto, mas apenas porque assim, mesmo morta, teria um significado para a sociedade que não teve em vida. Nenhum desses protagonistas parece compreender que tudo isto — pensamentos, desejos, sonhos — são provocados e manipulados pela sociedade. Eu não conheço nenhum filme que exponha esta circunstância de uma forma tão clara e desesperada. Quase no final do filme, Annie conta a Lana Turner que possui muitos amigos. Lana fica perplexa. Annie tem amigos? As duas mulheres vivem juntas há dez anos, já, e Lana não sabe nada sobre Annie. Lana Turner se surpreende. E quando a filha de Annie reclama de ela a ter deixado sempre só, Lana também se surpreende, da mesma forma que ao ver Sarah Jane rebelar-se contando seus problemas e exigindo ser levada a sério. E quando Annie morre, Lana Turner só pode espantar-se. Ninguém pode morrer assim, tão simplesmente.

Por todo o resto do filme Lana permanece assim, perplexa. O resultado disto é que ela, no futuro, quer desempenhar apenas papéis dramáticos. Paixão, morte, lágrimas devem servir para alguma coisa. A problemática de Lana Turner passa então a ser a problemática do diretor do filme. Lana é atriz, provavelmente uma boa atriz. Mas isso não chegamos a saber. No começo, ela precisa ganhar dinheiro para ela e sua filha. Ou será que ela quer fazer carreira? A morte de seu marido parece não ter importado muito. Ela sabe que ele foi um bom diretor. Eu creio que Lana gostaria de fazer carreira. O dinheiro, para ela, é secundário, o sucesso vem em primeiro lugar. Em terceiro, John Gavin. John ama Lana, e para aproximar-se dela abandona ambições artísticas e arranja emprego como fotógrafo de publicidade. Lana não consegue entender que alguém renuncie a suas ambições por amor. Sim, tenho certeza de que Lana não quer ganhar dinheiro, mas sim fazer carreira. John, tolamente, força Lana a escolher entre o casamento e a carreira. Lana acha isto interessante e dramático e escolhe a carreira.

Assim transcorre o filme todo. Eles fazem planos românticos, de felicidade, aí toca o telefone, um novo convite, e Lana se entusiasma. Ela não tem salvação, nem ele. Na realidade, ele deveria perceber que não tem chances, mas, pelo contrário, vive em função dessa mulher. Mas é sempre assim: as pessoas insistem no que não devem insistir. A filha de Lana, então, se apaixona por John. Ela é exatamente como John queria que Lana fosse, mas ela não é Lana. Nós podemos compreender bem isto, mas Sandra Dee não. Provavelmente, quem ama compreende menos. Annie também ama sua filha, mas não a compreende. Uma vez, quando Sarah Jane ainda era pequena, choveu, e Annie foi levar um guarda-chuva para ela na escola. Sarah Jane dizia para os colegas que ela era branca. Quando a mãe apareceu, a mentira se revelou. Sarah Jane jamais esqueceu isto. E quando Annie, pouco antes de morrer, deseja ver Jane pela última vez e vai visitá-la num bar de Las Vegas, ela continua incapaz de compreender esta. O fato de Sarah Jane querer passar por branca é para ela um pecado. É uma cena terrível. Vulgar é a filha, a mãe é a pobre ofendida. No fundo, porém, dá-se o contrário. A mãe, que quer a filha para si, porque a ama, é brutal. E Sarah Jane se defende do terror da mãe, do terror do mundo. É cruel. A gente pode bem entender as duas, ambas têm razão, mas ninguém pode ajudá-las. Só se nós mudássemos o mundo. E todo mundo chora dentro do cinema. Porque é tão difícil mudar o mundo. Então, no enterro de Annie estão todos juntos de novo, e, por um momento, tudo parece estar bem. E esta "pausa" permite que eles estraguem tudo de novo, pois cada um, mesmo sabendo o que procura, esquece outra vez.

“Imitação da Vida” começa como se fosse um filme sobre o personagem de Lana Turner, e, sem que a gente note, torna-se um filme sobre a negra Annie. No fim, o diretor deixa de lado a sua problemática, a única coisa do tema com que ele se identifica, e procura a problemática existencial no personagem de Annie, encontrando algo muito mais doloroso do que teria achado em Lana Turner ou em si mesmo. Ainda menos esperança. Ainda mais desespero.

Procurei escrever sobre seis filmes de Douglas Sirk, e a partir daí eu descobri como é difícil escrever sobre filmes que têm alguma coisa a ver com a vida real, que não são apenas literatura. Eu precisei deixar muita coisa de lado, talvez aquelas que fossem mais importantes. Falei pouco sobre a luz, como é bem cuidada, como ela o ajuda a mudar a estória. Além de Sirk, só mesmo Joseph von Steinberg sabe usar tão bem a luz. Também falei pouco do espaço que Douglas Sirk constrói. Como tudo é perfeito! Também explorei muito pouco a importância das flores e dos espelhos, e o seu significado dentro da trama. Eu não acentuei devidamente que Sirk é um diretor que extrai o máximo dos atores. Que transforma personagens como Marianne Koch ou Lisellote Pulver em gente em quem a gente quer e pode acreditar. Também vi poucos filmes seus. Eu quero ver tudo, todos os 39 que ele fez. E talvez eu possa desenvolver mais a minha pessoa, a minha vida, o relacionamento com os meus amigos. Eu vi seis filmes de Douglas Sirk. Dentre eles, estão alguns dos melhores filmes do mundo.



sexta-feira, junho 15, 2012

carlão!

Carlão Reichenbach! Um dos caras mais sensacionais que tive a honra de conhecer.

Domingo, o IMS exibe uma de suas obras-primas, "Filme Demência" (1986), às 18h15.

segunda-feira, junho 11, 2012

douglas sirk no ccbb!

Programação:

12/06 (terça-feira)
18h Herança sagrada, 79min, DVD
20h Sinfonia interrompida, 90min, DVD

13/06 (quarta-feira)
18h Apaixonados, 79min, 16mm
20h La Habanera, 98min, 35mm

14/06 (quinta-feira)
18h Tudo o que o céu permite, 89min, 35mm
20h Almas maculadas, 91min, 35mm

15/06 (sexta-feira)
16h Os pilares da sociedade, 84min, 35mm
18h Sinfonia prateada, 88min, 16mm
20h Recomeçar a vida, 106min, 35mm

16/06 (sábado)
16h Sublime obsessão (John M.Stahl), 112min, DVD
18h Sublime obsessão, 108min, 35mm
20h Palavras ao vento, 99min, 35mm

17/06 (domingo)
15h30 April! April!, 82min, 35mm
17h30 Amar e morrer, 132min, 35mm
20h A garota do pântano, 82min, 35mm

19/06 (terça-feira)
14h Aula – “A encenação pelo excesso e o sistema sirkiano” com Mariana Baltar professora de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF)
16h Hino de uma consciência, 108min, DVD
18h Vidocq, 102min, DVD
20h Onde canta o rouxinol, 85min, 35mm

20/06 (quarta-feira)
18h O que matou por amor, 106min, 16mm
20h Sublime obsessão, 108min, 35mm

21/06 (quinta-feira)
17h30 Palavras ao vento, 99min, 35mm
19h30 Amar e morrer, 132min, 35mm

22/06 (sexta-feira)
16h Sangue rebelde, 91min, DVD
18h Chamas que não se apagam, 84min, 35mm
20h La Habanera, 98min, 35mm

23/06 (sábado)
16h Sinfonia prateada, 88min, 16mm
18h Almas maculadas, 91min, 35mm
20h Imitação da vida, 125min, 35mm

24/06 (domingo)
16h O medo devora a alma, 93min, 35mm
18h Tudo o que o céu permite, 89min, 35mm
20h O que matou por amor, 106min, 16mm

26/06 (terça-feira)
18h Emboscada, 102min, DVD
20h Agonia de uma vida, 84min, 16mm

27/06 (quarta-feira)
18h Longe do Paraíso, 107min, 35mm
20h Mulher de fogo, 81min, 16mm

28/06 (quinta-feira)
15h Imitação da vida (John M.Stahl), 111min, DVD
17h30 Imitação da vida, 125min, 35mm
20h O poder da fé, 86min, 35mm

29/06 (sexta-feira)
14h Aula – “A permanência de Douglas Sirk” com João Luiz Vieira, professor de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF)
16h Herança sagrada, 77min, DVD
18h Sonha, meu amor, 97min, 16mm
20h Onde canta o rouxinol, 85min, 35mm

30/06 (sábado)
16h Os pilares da sociedade, 84min, 35mm
18h Música e romance, 87min, 16mm
20h Chamas que não se apagam, 84min, 35mm

01/07 (domingo)
16h E o noivo voltou, 82min, DVD
18h Desejo atroz, 79min, 16mm
20h April! April!, 82min, 35mm

03/07 (terça-feira)
18h Emboscada, 102min, DVD
20h A garota do pântano, 82min, 35mm

04/07 (quarta-feira)
18h Vidocq, 102min, DVD
20h Apaixonados, 79min, 16mm

05/07 (quinta-feira)
15h Segredos e mentiras, 142min, DVD
18h Sinfonia interrompida, 88min, DVD
20h O poder da fé, 86min, 35mm

06/07 (sexta-feira)
16h Hino de uma consciência, 108min, DVD
18h E o noivo voltou, 82min, DVD
20h Música e romance, 87min, 16mm

07/07 (sábado)
16h Sonha, meu amor, 97min, 16mm
18h Mulher de fogo, 81min, 16mm
20h Recomeçar a vida, 106min, 35mm

08/07 (domingo)
16h Desejo atroz, 79min, 16mm
18h Agonia de uma vida, 84min, 16mm
20h Sangue rebelde, 91min, DVD

quinta-feira, junho 07, 2012

plano de fuga °

Este filme me deixou meio perturbado. Por um bom tempo, pensei em sair do cinema. Aliás, costumo fazer isso de vez em quando. Nunca é fácil fazê-lo, devo dizer. Fico com vergonha e me um acho um cara meio sem escrúpulos quando abando um filme pelo meio; mas, ao mesmo tempo, sinto-me desrespeitado, sinto o cinema sendo desrespeitado, quando vejo um filme ruim, preguiçoso, medíocre. É uma coisa bem conflituosa pra mim. Mas, enfim, voltando ao assunto: “Plano de fuga”. Vi o filme até o fim, completamente espantado - é dirigido por um estreante, Adrian Grunberg, e traz Mel Gibson no papel do protagonista. Fiquei pensando em Serge Daney e o que ele descrevia como sendo “o terceiro estado da imagem”, condicionado pela técnica, de modo a encaminhar a transformação do mundo no sentido de um vasto estúdio cinematográfico. Uma imagem marcada não apenas pela ruptura cada vez maior nas relações do homem com o mundo, mas pela perda do próprio mundo. “Plano fuga” é um filme absurdamente impossível. Não sei se estaria correto afirmar que a imagem perde completamente neste filme a sua dimensão de testemunho do mundo. Isto porque o mundo que vivemos me parece como que contaminado por este “absurdamente impossível”. Mas o que me chama atenção é um certo cinismo... “Plano de fuga”, como seu personagem principal, é cínico. O filme acabou e, andando pra casa, me veio à mente uma outra expressão: niilista. O termo indica uma concepção em que tudo o que é (as coisas, o mundo, os valores, o ser) é negado e ou reduzido a nada. Eu preciso voltar a “Plano de fuga”....